Princesa Emily
2 E a tortura recomeça...
Notas iniciais
Os dedos delicados de Emily deslizavam pelas teclas do piano com agilidade e rapidez, fazia aula há cinco anos e podemos dizer que ela tocava muito bem o instrumento. O nome da música? Bem, ela não sabia pronunciar, mas sabia tocar, e isso era o que realmente importava.
— Um pouco mais suave, Princesa – disse Sylvia, sua professora.
— Me desculpe.
Sylvia analisou a garota enquanto a mesma continuava a tocar a música lindamente. Suspirou mordendo o lábio inferior de leve, a sua postura não estava mais tão delicada, parecia meio dura, como se estivesse com medo, ou incomodada com algo.
— Acho que está bom por hoje – ela disse.
Emily a olhou por um breve segundo depois fechou seu piano com cuidado aliviada pelo fim da aula. Não estava com cabeça nem para o piano no momento.
— Está assim pelo baile? – perguntou Sylvia se sentando na poltrona vermelha ao lado do piano olhando para Emily que se acomodava melhor no banquinho branco com o estofado preto, bem confortável por sinal.
Emily olhou para baixo e passou uma mecha do cabelo para trás da orelha.
— Bom seria se meu problema fosse o baile – a garota olhou para além da janela vendo o grande jardim verdinho com várias árvores com flores coloridas bonitas.
— E então qual seria?
— Eu sei que você já sabe, Sylvia – Emily olhou para ela.
— É, eu sei mesmo – ela disse – mas me diga, o que exatamente lhe preocupa?
Emily olhou pra ela com o cenho franzido. "Como assim o que exatamente me preocupa? Eu vou ter que casar com alguém que não conheço!" ela quis gritar, mas ao invés disso, só disse no tom mais calmo que pôde. Afinal, ainda era a princesa e de certo modo, não podia perder o controle.
— Eu terei que me casar, só isso – ela disse dando de ombros e Sylvia sorriu.
— E qual é o problema em se casar?
— Eu tenho um prazo muito pequeno para escolher alguém... e ainda por cima só poderei escolher entre 30 rapazes... eu não queria que fosse assim – ela disse negando com a cabeça – nem desse modo e muito menos agora.
— Mas veja pelo lado bom... serão 30 homens lindos aos seus pés.
Emily a olhou e suspirou, ela não entendia mesmo o que era aquilo, o que era passar por aquilo.
— Não, eles também serão "obrigados" a fazer isso, e eu não vou amar nenhum deles e nenhum deles vai me amar... isso parece bom pra você? – perguntou a menina olhando novamente para o piano branco lustroso praticamente vendo seu reflexo ali.
— Não seja tão negativa, com certeza algum deles chamará sua atenção – Sylvia fez um gesto de desdém com a mão.
— Eu duvido, são todos sangues azul. Sabe o que isso significa? – era uma pergunta retórica.
— Que são da realeza?
— Que são metidos, esnobes, mesquinhas e só se importam com o próprio nariz.
Ela apoiou a cabeça na mão com o cotovelo no piano.
— Nem todos são assim.
— Raros os casos quando isso não acontece – ela disse.
— Mas veja, você não é assim.
Emily sorriu.
— Obrigada.
Sylvia a abraçou.
— Um deles vai roubar seu coração, você vai ver.
Infelizmente, Emily não era uma garota que mudava de opinião com tanta facilidade.
. . .
Sua última aula do dia, história. Emily estava quase batendo com a cabeça na mesa, não aguentava mais ter aulas hoje, estava sentada naquela cadeira desde as 10h00min da manhã, e agora era 02h55min da tarde. Suas costas doíam mesmo a cadeira sendo bem confortável, e a voz de sua professora de TODAS as matéria lhe dava nos nervos, na verdade, ela inteira lhe dava nos nervos.
As 3h000min finalmente chegaram e ela saiu quase correndo indo até seu quarto, a aula de Hipismo era sua preferida sem dúvida, e não é porque fazia com seu irmão, era porque gostava de montar cavalos mesmo.
Carla logo chegou para ajudá-la com as roupas, calça branca, botas pretas e uma camisa Polo preta.
As joias foram retiradas e seu cabelo preso em um rabo de cavalo perfeito com a franja caída que tampou metade do olho direito da menina, mas de uma forma charmosa e meiga.
— Emy, vai rápido – ouviu a voz de seu irmão mais novo atrás da porta enquanto ele batia insistentemente na porta.
— Espera, Carter – Emily suspirou revirando os olhos.
O garotinho bufou cruzando os braços, igual ao Rei. As luvas pretas foram postas nas mãos delicadas de Emily e ela saiu vendo Carter com uma cara emburrada apoiado na parede ao lado da porta do quarto de Emily. Estava com a roupa idêntica a da irmã, o que Emily achava uma bobeira, mas, parece que tudo que um fazia o outro tinha que fazer também, e achavam que roupas iguais era "fofo".
— Atrasada, como de costume – ele disse olhando o relógio preto em seu pulso.
— Fica quieto, baixinho – ela bagunçou o cabelo aparadinho e dourado de seu irmão que deu um pulo puxando seu rabo de cavalo e saiu correndo.
— Ai! Carter volta aqui!
Os dois corriam pela escada como dois loucos. Carter deu de cara com um guarda e caiu no chão sentado olhando pra cima vendo o rosto másculo do guarda. Ele se levantou arrumando sua roupa elegantemente, como lhe foi ensinado por sua mãe "você pode cair, mas levante com estilo". Tudo bem que não era no sentido figurado da frase, mas ele não levou aquilo como uma metáfora, achou que simplesmente se caísse no chão, era para se levantar com estilo.
— Me desculpe senhor... – ele olhou o crachá em seu peito – Mackenzie – o menininho endireitou a postura ficando retinho com as mãos na perna em baixo da cintura.
— Eu que peço perdão, Príncipe Carter – o guarda fez uma reverência respeitosa ao garoto.
Emily ao ver a cena começou a descer as escadas lentamente como uma digna princesa delicada como costumava ser.
Parou ao lado de Carter e olhou para o guarda com seu sorriso simpático e radiante de sempre.
— Desculpe pelo meu irmão, ele é ainda uma criança e bem... você sabe como crianças são – ela sorriu amigável para o guarda.
Carter olhou indignada para Emily que sorriu de volta lançando uma piscadinha para o irmão e indo até a porta da frente. O guarda que estava em frente a ela abriu a porta fazendo uma reverência a Emily que agradeceu saindo pelo jardim do castelo. Respirou fundo aquele doce cheiro da natureza e viu Carter sair arrumando a gola de sua camisa.
— Você não é uma irmã nada legal – ele disse sério e Emily sorriu negando com a cabeça.
— Também te amo, seu pirralho. Agora vamos.
Não demorou muito para os irmãos se dispersarem da aula e começaram apenas a cavalgar, apostando corrida pelo jardim florido.
— Vamos Russel – ela disse segurando forte com a mão direita as rédeas do cavalo branco e acariciando seu pescoço para que fosse mais rápido.
Emily gargalhou quando Carter quase bateu em uma árvore, mas freou antes da pancada.
Emily voltou com seu cavalo um pouco para conferir se seu irmãozinho estava bem.
— Machucou? – ela perguntou.
— Não, estou bem – ele disse emburrado, não gostava de ter uma irmã muito mais velha, porque querendo ou não, ela cuidava dele como uma mãe.
— Sendo assim... seria uma bela de uma pancada – ela riu e ele fez uma cara de risinho forçado.
— Hahaha, não foi culpa minha, foi o Magnus – ele olhou para o cavalo de um modo acusador.
— Claro, do Magnus – ela disse voltando a cavalgar devagar até Carter chegar ao seu lado.
— Que tal uma corrida, chata? – ele perguntou olhando para a irmã que nem se importou pelo "chata", já estava acostumada.
— Você tem certeza que consegue sem bater em uma árvore?
— Sim!
Emily sorriu.
— Tudo bem, até aonde? – ela perguntou olhando para além do lindo jardim.
— Quem chegar primeiro na fonte ganha! – gritou Carter.
A pesar de cavalgar muito bem, Carter ainda conseguia ser melhor que ela... e isso a irritava um pouco, mas ele tinha que ser bom em algo, né. E por isso, ele chegou primeiro, Emily suspirou, mas sorriu.
— Bom trabalho, nanico – ela disse.
— Eu sei.
Voltaram lentamente até o estábulo onde o professor os esperava calmamente.
— Já era hora – ele sorriu enquanto os dois desciam dos cavalos.
— Eu ganhei dela, de novo – disse Carter olhando para Andrew com um sorriso contente no rosto.
— Isso ai garotão – ele bagunçou os cabelos do menino – e com você Emily, tudo certo?
— Sim, sim, só acho que Russel está um pouco cansado... e com fome – ela tirou a cela de seu cavalo.
Andrew, o professor pegou uma cesta com cenouras e maçãs e a deu para Emily que agradeceu com um olhar e deu uma cenoura a Russel que relinchou em resposta, acariciou a bochecha do cavalo enquanto dava uma maçã a ele. Carter pegou duas cenouras e uma maçã para dar para seu cavalo.
O cavalo de Emily era um de seus amores, era um animal tão dócil e calmo, e estava com ela desde seu aniversário de dez anos. Às vezes ela ia ao estábulo só para conversar com ele, Russel era o único que a ouvia sem argumentar, opinar e muito menor criticar... e às vezes era só isso que ela precisava, alguém que a escutasse, nada mais.
Às cinco horas estava novamente no palácio, agora usava um vestido branco muito bonito que ia até os joelhos, suas pernas estavam cruzadas sentada no confortável sofá vermelho sangue. Estava sozinha no solão lendo um romance que a fazia sorrir sozinha, era aquela historia que ela queria viver. O livro de capa dura estava apoiado no joelho e sua fronte estava levemente curvada para conseguir ler melhor.
— Filha, enfim te achei – a Rainha Anne entrou no salão com sua coroa na cabeça e o impecável vestido verde escuro. Seus cabelos loiros levemente ondulados (iguais os da filha) estavam presos em uma trança bonita.
— E estava me procurando? – Emily franziu o cenho fechando o livro, marcando a página em que havia parado para continuar a ler depois.
— Estava – Anne delicadamente se sentou no sofá vermelho ao lado da filha – como está se sentindo quanto a... bem, você sabe do que estou falando.
— Nada bem, mãe – ela disse olhando para os olhos azuis elétricos da mãe – eu não me sinto pronta psicologicamente para me casar, eu só tenho 17 – ela olhou para a mãe suplicante.
— Eu também achei que não estava até conhecer seu pai – ela sorriu para a filha – mas a diferença é que estamos te dando o direito de escolha, direito que eu e seu pai não tivemos, simplesmente nos jogaram um em cima do outro... bem, no fim nos apaixonamos e acabou dando mais certo do que todos achavam que daria... mas o que estou querendo dizer é que entre os trinta selecionados você vai achar alguém que mexa com você de uma forma bem especial – ela segurou as mãos da filha as acariciando de leve – acredite em mim que só escolherei garotos bonitos pra você.
Emily sorriu, o jeito descontraído de sua mãe lidar com as situações era muito bom, já que seu pai sempre foi muito duro e rígido, ainda mais com ela por ser mais velha.
— Mas e se eu não gostar de nenhum? – ela perguntou.
Anne a olhou por alguns segundos pensando em uma resposta.
— Você vai gostar, pensamento positivo – ela disse acariciando agora a bochecha da filha – não se preocupe muito com isso agora, deixe para se preocupar na hora, tudo bem? – ela disse e Emily assentiu.
— Tudo bem. E porque estava me procurando afinal?
— Ah sim! Isso! Já havia me esquecido o motivo que me trouxe aqui – ela sorriu e Emily sorriu de volta, o sorriso de Anne era tão contagiante que não tinha como não sorrir – então querida, como sabe seu aniversario é em duas semanas e com isso temos a sua festa, o baile, melhor dizendo.
— Sim – Emily disse.
— Temos que começar a planejar sua festa!
Emily forçou um sorriso nos lábios. Nunca quis tanto não envelhecer.
— Quero saber que tipo de música você quer, decoração...
E a tortura para seu aniversário recomeçava...
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