Prince of Nothing I
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Notas iniciais
O último combate mortífero em que a Caçada Selvagem esteve tivera sido tão violento que Kieran acabou com a armadura ensopada de sangue e ícor; vermelho e verde musgo escuro pigando e formando uma trilha por onde ele passava. A Cavalgada daquela vez tinha visitado o campo de batalha de licantropes e demônios, que se enfrentavam por um motivo que pouco interessava às fadas, que estavam ali pelo espetáculo e pelas almas dos mortos.
Como era nojento o líquido purulento do ícor e a carne podre dos mundanos infectados por doenças demoníacas, julgava com arrogância Kieran a cada vez que sua lâmina de aço nobre ceifava alguma daquelas criaturas. Ele tentava não pensar demais enquanto estava atacando com a Caçada, mas quando o cheiro acre de morte empestinava tudo ao redor, era difícil evitar o nojo e o desprezo.
A batalha não foi difícil, mas foi longa, e durou o bastante para cansar. Ele se lembrava de ter que dar conta de pelo menos quarenta corpos, que não cediam tão cedo ao fim da vida.
No fim da noite, tudo que restou foi um campo em ruínas, repleto de cadáveres. Os gritos e os sons afiados dos golpes já haviam partido, mas a Caçada Selvagem ainda não. Como falcões assassinos, era tradição eles permanecerem por um tempo, para terminarem de se alimentar de medo e morte, antes de ganharem o céu mais uma vez.
Enquanto grande parte da Caçada se reunia ao redor da grande fogueira onde Gwyn, o Caçador se reabastecia, Kieran seguiu a direção oposta, mesmo que os instintos quisessem o contrário, porque era mais confortável ficar perto da única fonte de calor naquela noite tão fria. Ele procurava por Mark, que tinha sumido de sua vista em algum ponto da batalha. A experiência que tinha com o Blackthorn dizia no fundo de sua mente que ele o encontraria na parte mais isolada daquele campo.
Kieran parou um instante para limpar o sangue da espada nos ramos de um arbusto, antes de seguir para onde havia menos luz, caminhando à beira de uma floresta de ébanos, onde o frio úmido pinicava a pele como pequenas agulhas invisíveis. Ali, o pouco som que ecoava era o de suas botas pisando a grama seca coberta de geada. Os ouvidos treinados de Kieran já eram bons em notar os mais fracos ruídos, e a quietude do lugar amplificava qualquer mínimo barulho. Assim não foi difícil identificar as inspirações irregulares de Mark Blackthorn a alguns pés de altura, na parte alta de uma das árvores.
— O que você está fazendo aí, se escondendo sem mim? – Kieran sorriu um sorriso mínimo, que dificilmente alguém notaria sob aquela pouca luz, mas que Mark com certeza ouviria em sua voz.
Ele olhou para cima, e seus olhos bicolores procuraram seu amado por entre a folhagem da copa de um ébano. Mark estava sentado ali em cima, ele sabia, ele sentia, por mais que fosse difícil enxergar através dos ramos verde-escuros e densos da árvore.
O vento gelado soprou, mas com ele não veio nenhuma resposta.
— Você está bem? – O príncipe desceu uma cadência de sua voz, em preocupação, e o tom divertido de antes já não dava mais sinais.
De novo, nenhuma resposta. Isso era pior que um “não”. Viver entre as fadas era viver onde todos dizem a verdade, por pior que ela seja. Mas quando a verdade era tão ruim a ponto de ser difícil expressá-la em palavras, o melhor meio de fuga era o silêncio. Inquieto com isso, Kieran olhou de relance para o céu e encontrou uma infinidade de escuridão sem estrelas. Mark sempre esperava por elas aparecerem, para batizá-las a cada nova noite com o nome de sua antiga família, o príncipe sabia disso. E também sabia o quão emotivo ele podia ficar se os astros não apareciam.
— Você quer que eu vá embora? – Insistiu Kieran, perguntando para o nada e encarando agora as pontas de suas botas gastas marcadas de sangue.
Ele pensou que definitivamente não teria uma resposta, até que Mark rebateu alguns segundos depois:
— Suba. – Sua voz foi baixa e breve.
Kieran não esperou que fosse pedido uma segunda vez. Ele largou a espada na grama congelada e desfez-se de sua armadura, que nem ao menos brilhou quando foi deixada no chão, pois não havia luz para refleti-la. As mãos hábeis do príncipe foram bem sucedidas em agarrarem-se ao tronco liso do ébano, e com a ajuda dos pés ágeis ele escalou a árvore. A madeira era fria e úmida debaixo de seu toque quente, mas mesmo quando escorregou um pouco, Kieran o fez com elegância, e conseguiu se segurar com graça.
No primeiro galho acima da copa ele encontrou Mark, seu corpo magro e pequeno encolhido sobre si mesmo. Ele era ponto branco e prata mal camuflado nas sombras. Assim que Kieran se sentou ao seu lado, ele conseguiu reparar nos detalhes: seu rosto anguloso, sujo de poeira da batalha, tinha mais sangue do que o esperado; seus braços estavam riscados com cortes que pareciam calculados, não de garras de licantropes ou de demônios, mas de lâminas de espadas; a roupa que deveria revestir suas costas estava rasgada, mostrando as terríveis cicatrizes, que apesar de antigas, ainda causavam impacto. O pior de tudo foi o olhar ferido que Mark lancou para Kieran, seus olhos verde e dourado mais em vergonha do que em dor.
— Mark! – Kieran soprou perturbado em um apelo aflito.
Ele tomou os braços machucados de Mark em suas mãos e logo se pôs a tentar trata-las com os remédios a base de plantas que carregava no cinto de armas. O sangue vermelho e marrom escuro, que Kieran temia que fosse do próprio Blackthorn, já estava seco, e o príncipe usou a água de seu cantil para molhar os ferimentos e limpá-los. Mark soltou um assobio de dor, mas não se permitiu a ir muito além disso. Kieran teve que exigir por uma explicação para que ele dissesse alguma coisa.
— As fadas... – A voz de Mark veio baixa e breve de novo, e só então Kieran percebeu que não era porque ele estava bravo ou triste pela falta das estrelas, e sim com dor por ter sido agredido. – Elas disseram que eu lutava como um filho do Anjo e que queriam me ensinar uma lição. – Ele ainda estava apavorado, era de se perceber.
As poucas palavras foram o bastante para Kieran entender. A Caçada nunca aceitou a parte de Mark que não fosse fada, mas mesmo que o príncipe o alertasse, Mark insistia em manter alguns costumes de sua vida como caçador de sombras, inclusive o modo de luta. Ele sabia que mais cedo ou mais tarde isso iria acontecer, mas mal podia imaginar as atrocidades que as fadas deviam ter feito para tentar corrigir Mark.
— Eu já te disse antes. Você precisa parar de batalhar como se ainda fosse um deles. – Ele terminou de limpar Mark e o encarou nos olhos. Sua sensatez foi quase cruel quando continuou. – Você não é mais nephilim. Você é um Caçador da Caçada Selvagem. Uma fada.
O menino louro encolheu os ombros, atingido pelo frio das palavras, denunciando que não era esse o consolo que ele esperava do príncipe.
— Mas eu sou um deles. Você sabe. – Mark respondeu, e Kieran pensou que nunca pudesse ter escutado tanta esperança e confiança numa sentença. Mas ele sabia que a esperança era o pior dos venenos no mundo das fadas.
— Você não pode. – Ele sussurrou entre o pequeno espaço privado entre eles. – Só vai te machucar mais, e eu não quero isso.
— E o que eu quero? Não importa? – Exigiu Mark, embora tão autoritárias palavras tenham saído inseguras e vacilantes.
O cabelo azul de Kieran escureceu ainda mais, perdendo-se nas sombras das folhas da árvore. Ele cerrou os lábios em uma linha rígida e limitou-se a medicar as feridas do corpo de Mark, sem dizer nada. O Blackthorn continuou encarando, mas não insistiu na pergunta. Muito provável ele já tinha sua resposta.
Depois que usou as folhas do próprio ébano como curativo, Kieran beijou a bochecha cortada de Mark, sobre um osso proeminente em seu rosto magro. O Blackthorn sentiu seu coração saltar uma batida, enquanto os dedos finos do príncipe deslizavam ao longo de sua mandíbula, um toque leve como as asas de borboleta contra sua pele, em um carinho triste.
— A quanto tempo você não dorme? – A voz de Kieran era para Mark confortável como água morna, e uma onda de afeto encheu o vazio em seu peito.
— Há muito... – Mark respondeu fraco, com um cansaço que não era físico.
A mão quente em sua bochecha afagou mais uma vez, com o polegar, e ele viu Kieran lhe enviar um olhar suave. Mark gostava do fato de que ele o olhava diferente; mesmo que Kieran tivesse espinhos na língua e frio nos olhos para todo o mundo, para ele o príncipe sempre reservava o seu melhor, a sua versão macia e delicada.
— Pode dormir agora se quiser. – Kieran sussurrou.
Se mexendo como podiam em cima do galho, Mark se aninhou mais perto de seu amado e repousou a cabeça em seu ombro. Kieran segurou uma de suas mãos cobertas de folhas para mantê-los ali, unidos.
— Me conte um dos versos de fada. – Murmurou Mark.
Em suas noites juntos, Mark sempre pedia para que Kieran falasse sobre a Corte Unseelie, e o príncipe contava os versos milenários de sua raça – cantigas, feitiços, e poemas – sobre a Corte Escura e o Rei Claro, seu pai, que governava tudo.
Olhando perdido para a folhagem quase negra do ébano, Kieran começou:
— "Primeiro, a chama, depois, a tempestade; no fim..."
— Não esse. Um novo, que você nunca tenha contado. – Mark interrompeu.
Kieran deu uma risada curta. Um som tão raro, mas tão bonito. Mark pensava que devia ouvi-lo mais.
— Isso é quase impossível. Já contei todos os que posso me lembrar de cor.
Um segundo de consideração depois, Mark pediu uma ideia nova.
— Você poderia criar um verso novo? – Seus olhos se fecharam, um ato doloroso para suas pálpebras fatigadas depois de tantos dias sem poder de fato fazê-lo, e ele se concentrou na voz de Kieran.
— Eu poderia fazer um sobre nós. – A voz de Kieran tinha satisfação ao falar. – E então o gravaria nas folhas das árvores ao redor do mundo, para que as fadas que viessem as guardassem, e nossa memória viveria para sempre, e seria contada para o vento carregar por todos os reinos.
Contra a pele de seu ombro, ele sentiu Mark sorrir, seus lábios frios se esticando e parecendo tentar imprimir aquele gesto lá, um lembrete que o que eles tinham era o suficiente para exprimir um sorriso, mesmo no meio de toda aquela tragédia que viviam.
— E como seria? – Mark perguntou suave.
— Uma vez... – Kieran começou, e sua voz era quase musical quanto ondas do mar batendo na costa. – Havia um príncipe escondido de seu próprio reino.
“Ele era prisioneiro de um castelo que não era seu e governado por um rei tão corrompido
que feria seu próprio herdeiro.
Mas o príncipe não queria aquela herança.
Ele construiria um reino para ele e queimaria esse abaixo.
Mas o que acontece quando um príncipe se apaixona por outro?
Uma vez, havia um príncipe arrancado de seu próprio reino.
Ele tinha tudo até ele não ter nada.
Ele foi chutado e seu trono foi roubado.
Suas marcas de ouro eram inúteis, agora isso era sua destruição.
Quando você vê seu rei assassinado, como pode seu reino não se arruinar?
Ele construiria um reino próprio e queimaria esse abaixo.
Mas o que acontece quando um príncipe se apaixona por outro?
Quando um príncipe se apaixona por outro, mágica é criada.
Eles constroem e criam e sonham.
Eles queimam aqueles que os machucaram
e os destroem.
Eles constroem um reino com o sangue de seus inimigos
e se amam tão feroz como quanto governam suas terras.
Quando seu reino tiver os tornado crueis,
eles encontrarão paz.
Quando dois príncipes se apaixonam, não há nada mais bonito.
Eles viverão felizes para sempre, governando um reino inspirado por ódio e feito no amor.”
O silêncio rastejou entre eles depois disso. A respiração calma de Mark fazia cócegas na curva do ombro de Kieran, que não se mexia para não acordá-lo. Mas o sossego durou pouco. Menos de alguns minuto depois, o som agudo e severo do chifre de Gwyn ecoou vindo de longe, mas parecendo tão perto. As folhas do ébano se agitaram e vibraram mesmo sem nenhum vento, farfalhando ruídos arranhados, como um criatura viva sibilando uma língua esquecida. Era o chamado para a Caçada; eles deveriam partir em breve.
Mark se ajeitou para levantar, mas Kieran o deteve, segurando-o no mesmo lugar.
— Não... – Mark protestestou grogue de sono. Seu corpo suplicava por uma pausa, mas ele sabia que ignorar o chamado de Gwyn traria graves consequências.
— Shhh. – Sibilou Kieran, em um assobio destemido que se harmonizava com o farfalhar da árvore. – Descanse mais um pouco, meu príncipe. – Ele disse contra os cabelos claros e sujos do Blackthorn.
A estranheza daquela palavra dirigida a ele distraiu Mark de tentar insistir. Mal notou quando Kieran soprou uma ocarina de pedra cinza, o instrumento que usava para chamar seu cavalo selvagem. Tudo que ele podia pensar era: “eu não sou um príncipe”. Bastava olhar para ele para saber disso. Pés descalços, pretos de sujeira, roupas rasgadas e maltrapilhas, repleto de feridas que quase não tinham tempo de se cicatrizarem antes de se abrirem outras chagas. Não havia a beleza, nem o poder, nem a glória da nobreza. Kieran sim era um príncipe, era de se deduzir sem que ele precisasse dizer, pela elegância, graciosidade e confiança. Todos sabiam disso, por isso o respeitavam. Mas a Mark, eles não tinham motivo nenhum para não rebaixá-lo e atacá-lo. Talvez o que ele foi um dia em sua outra vida pudesse ter sido algo digno de respeito, mas aquele outro Mark estava tão distante, que ele muitas vezes pensava se não tinha imaginado e criado dentro de sua cabeça aquela vida onde tinha uma família.
Se Mark era um príncipe, então ele era um dos horríveis. O pensamento machucava, mas a ideia parou de incomodá-lo por um instante quando Kieran o tomou nos braços e o carregou como um filhote para baixo da árvore, até o seu bravo cavalo negro que esperava na beira da floresta.
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