Primordiais
6 Convocação
Elôrem se pegou pensando a noite toda em Julius, até esquecera sua mágoa de ter sido expulso do treinamento. Pensar nele, fazia seu coração palpitar, um frio estranho se apoderara de seu estômago e um arrepio era sentido em sua nuca. O que era tudo isso? Porque essas sensações tão distintas em seu corpo? Ele sabia que casais se entrelaçavam com o objetivo de gerar vida, mas e ele? Embora seu corpo possuísse os dois gêneros; era uma quimera, e era diferente de todos ali. Será que Julius o aceitaria mesmo assim? Ele baixara as mãos, tocando suas partes íntimas ligeiramente por cima da roupa fina e clara que costumava usar para dormir. Sim, ele era completamente diferente, concluíra, sentindo uma pontada estranha em seu peito.
**
- Elôrem! Acorde! – Elôrem abrira os olhos, mirando os grandes e brilhantes olhos azuis de seu pai. – Julius está aqui, quer falar com você. – Elôrem levantara-se rapidamente.
- O que ele faz aqui tão cedo?
- Vim te levar pra uma missão. – Elôrem o vira adentrar seu quarto. Usava seu uniforme azul habitual, algumas insígnias denunciavam sua posição mais elevada.
- Missão? – Shayen indagara.
- Sim, é um treinamento. – Ele respondera, pousando uma das mãos ao ombro do mais velho. – Não se preocupe, ele estará comigo. – Julius o tranquilizara ao mirar os olhos preocupados de Shayen.
- Mas eu ainda não estou pronto. – Elôrem dissera. Julius se aproximara, sentando-se ao seu lado na cama.
- Sim, você está.
Elôrem jamais havia estado na base oficial antes. Haviam muitas naves num grande galpão prateado, era tudo grande, claro e nitidamente avançado em termos de tecnologia.
- Olá, general! – Muitos o cumprimentavam, até que um deles parou para lhe falar.
- Estamos precisando de suporte no A43. – Um homem de cabelos curtos e claros como a maioria, lhe dissera.
- Nós iremos. Holp, este é Elôrem. Meu complemento. – Holp olhara Elôrem com surpresa.
- Ora, vejam só! Até que um dia você apareceu! – Ele dissera, lhe cumprimentando. – Você é realmente diferente e magnífico!
- Obrigado! – Elôrem sorrira como ninguém. Julius o apresentara para vários colegas, a maioria de patentes mais baixas, porém todos ali o elogiavam e o tratavam muito bem. Ele podia notar no olhar de Julius, um orgulho que ele não fazia questão de esconder, o apresentando com empolgação genuína.
- Nós vamos ao planeta A43. Está a poucos anos luz daqui. Aparentemente o planeta sofreu um colapso e ainda há vida por lá. Vamos resgatá-los. – Julius notara o olhar do rapaz brilhar.
- Está falando sério? Uma missão real de resgate?! – Julius sorrira, bagunçando os cabelos brancos do rapaz.
- Isso mesmo. Acha que consegue me ajudar?
- Vou dar o meu melhor! – Respondera sorrindo.
Eles adentraram uma das naves, junto com uma equipe de mais quinze membros, totalizando dezessete com Julius e Elôrem. Havia bancos que flutuavam por magnetismo ali dentro. Todos sentaram-se e logo a nave partira, sem haver ruído algum e alcançando uma velocidade inimaginável.
- Espero que você goste do trabalho. – Julius lhe dissera.
- Eu vou gostar. Eu sei disso. – Confirmara a ele.
- Aqui, vai precisar disso. – Julius acoplara em seu rosto um pequeno dispositivo que o ligava até suas narinas, com o objetivo de filtrar o ar. – O ar de lá é rarefeito, pode fazer mal. – Explicara, acoplando um em si mesmo também.
Toda a equipe desembarcara. Para Elôrem a visão fora de afundar o coração. Havia muitos pedregulhos espalhados, o céu possuía um tom escuro e avermelhado. Como se o planeta tivesse sido vítima de uma guerra. A imagem da devastação era desoladora.
- Foi realmente uma guerra. Houve um colapso do sistema. Fomos chamados para rastrear e encontrar sobreviventes. – Julius explicara, após ouvir os pensamentos de Elôrem. A equipe olhara tudo com o mesmo olhar de tristeza. Até que Elôrem sentira um arrepio anormal em sua nuca, algo que gelara sua espinha, e em um ímpeto e sem pensar muito, ele puxara a flecha. Todos olharam para ele, a tempo de ver o grande arco de luz se formar e em segundos ele mirara para cima, soltando a longa flecha que se transformara em um gigantesco escudo de luz branca que envolvera toda a equipe. Em seguida milhares de pontos de luzes laranja salpicaram o grande escudo explodindo em sua superfície, que aguentara firmemente o ataque externo direcionado.
- Em formação, equipe! – Julius dera a ordem rapidamente, e todos deram as costas um para o outro, deixando Elôrem em seu centro. Em seguida, seres metálicos invadiram o espaço em que estavam. Atirando sem pena lasers azulados em direção a todos. Elôrem por instinto, puxara três flechas de uma só vez, e um escudo triplo protegera a equipe novamente. Todos ficaram surpresos com a agilidade e sensibilidade em notar o ataque antes de qualquer um por ali. A equipe em formação produzia esferas de energias para deter a espécie bélica que travava uma verdadeira guerra contra eles.
- Elôrem! – Julius o mirara, o olhar de súplica que Elôrem entendera de imediato. Ninguém ali previra que ainda havia inimigos no planeta e Julius não queria tê-lo envolvido em uma missão perigosa. Fora a primeira do qual Elôrem havia sido convocado. Era para ser um treino sem riscos, que se provou ser o oposto. Elôrem pensara, ainda mirando-o, “não se preocupe, eu estou bem e protegerei vocês no que puder.” Julius o “ouvira” e com um aceno de cabeça em concordância, continuara atacando os seres que se lançavam contra eles. Elôrem ao notar novos ataques, lançava suas flechas escudo, do qual por longos minutos os protegera firmemente.
Boa parte dos seres haviam sido destruídos, foi quando Julius viera até ele.
- Vamos. Precisamos encontrar sobreviventes. – Dissera, o puxando consigo enquanto a equipe ainda lutava com os seres que restavam.
Elôrem e Julius correram por longos minutos em meio às pedras e rochas que se estendiam ao longo do caminho. O céu escuro avermelhado, dava uma péssima sensação a eles. Mas infelizmente nenhum sinal de vida era visto.
- Espere. – Julius parara, respirara fundo de olhos fechados, até dar um forte solavanco ao chão com um dos pés, produzindo uma enorme onda de energia dourada, que varrera todo o ambiente ao redor deles. Ele parou por um segundo e mirou seu companheiro. O silêncio era gritante, a poeira, a sensação de vazio se estendera. – Chegamos tarde... – Dissera, baixando a face em pesar.
- Como sabe?
- Essa técnica consiste em mapear o campo. Se houvesse vida, a onda que lancei reverberaria de volta a mim. – Elôrem sentara-se ao chão, exausto.
- Então não há mais nada a se fazer aqui. – Julius meneara em positivo.
- Está muito cansado? – Indagara, notando no olhar que recebera de volta, a confirmação da exaustão do rapaz. As flechas eram a extensão da própria energia de Elôrem, obviamente que produzi-las reduziria sua energia vital no momento. Julius se sentara ao seu lado, juntara as mãos, e uma bela esfera de luz dourada fora produzida. Em seguida, ele as aproximara até o peito de Elôrem, e em segundos a energia fora absorvida por seu corpo. Elôrem o olhara surpreso.
- O que você fez? – Julius sorrira, bagunçando os cabelos do outro.
- Restaurei sua energia, doando um pouco da minha. Você foi brilhante hoje. Se não fosse por sua proteção mais cedo, teríamos sido emboscados e feridos. – Elôrem sorriu timidamente, baixando os olhos.
- Não foi nada...
- Como previu o ataque?
- Polaridade feminina, meu amigo. – Uma terceira pessoa respondera a pergunta. Era Holp. Elôrem e Julius o miraram. – A sensibilidade é muito maior, a percepção, a visibilidade além da matéria. Sabemos que você tem polaridade masculina. Logo seu complemento é o oposto. – Holp se sentara ao lado de Elôrem. Seu nariz era fino e os olhos azuis brilhantes. – Você foi muito esperto encarnando em um corpo masculino para ter o melhor dos dois, maior agilidade e força, e a sensibilidade e intuição que já são natas da sua polaridade. Uniu duas qualidades em um só corpo. Perfeito para quem deseja atuar na nossa área. – Elôrem sorrira.
- Obrigado, senhor. – Respondera em gratidão. A verdade era que ele não se lembrava de escolher um corpo, só se lembrava de sentir dor.
A dupla e a equipe logo embarcaram de volta para seu planeta original. Elôrem sentira-se satisfeito com a viagem. Embora não tivessem de fato cumprido o que vieram fazer ali, ao menos ele aprendera mais sobre si mesmo e suas habilidades. Porém em algum momento, ele sentira suas forças se esvaírem, e tudo à sua volta escurecera rapidamente.
***
Julius admirava seu rosto, os detalhes de suas feições. Elôrem tinha uma beleza que ele nunca vira. Talvez porque o amasse? Não sabia responder. Mas somente admirar os traços delicados e suaves de sua face, já fazia suas pernas tremerem. Sentia a imensa necessidade de protegê-lo, de estar ao seu lado. Tentava não transparecer tanta dependência, até porque isso não era bom, mas sentia orgulho dele. Mesmo tão jovem, era talentoso, gentil, espontâneo e inocente, e ele sabia, Elôrem despertava inveja em quem não possuía a evolução necessária. Mas Julius amava cada lado seu, cada característica.
- Ele dormiu? – Holp se aproximara, enquanto a equipe desembarcava um a um na plataforma. Julius permanecera ali, sentado com a parte do dorso de Elôrem em seu colo, enquanto acariciava os cabelos brancos do rapaz.
- Sim. Ele gastou muita energia, embora eu tenha doado um pouco da minha. – Holp admirava os dois, e sentia seu coração aquecer.
- Você tem um parceiro e tanto! Tem muita sorte! – Julius lhe sorrira.
- Tenho mesmo. Obrigado! – Respondera com um sorriso bobo em seu rosto. – Eu não via a hora de encontrá-lo. Sentia saudades... Agora quero estar sempre por perto. – Holp rira. – Ei, dorminhoco. Vamos acordar? – Julius dissera a Elôrem, enquanto apertava de leve suas bochechas. Elôrem o olhara, lentamente tentando focá-lo em seu campo de visão.
- Onde eu estou? – Indagara com a voz cansada.
- Na base. Vamos pra casa?
Elôrem havia retornado em casa, e contava ao seu pai tudo que acontecera e o quão útil havia sido. Shayen o observava narrar tudo com empolgação genuína e sentira-se orgulhoso de seu menino.
- Elôrem, sobre Julius... – O rapaz o olhara com atenção. – Vocês já tiveram algum... contato mais íntimo? – Elôrem enrubescera instantaneamente e Shayen tivera quase certeza que sim.
- Eu... bom, nós nos... beijamos? – Shayen sorrira. Esse era o contato mais íntimo que tiveram?
- Só isso?
- Sim... Nós não tivemos a fusão física, se é o quer saber.
- Entendi. Você sabe que seu corpo pode gerar vida, não sabe?
- Sim, senhor. Mas de uma forma energética, certo? – Shayen não sabia como responder.
- Você possui órgãos masculinos externos, e feminos externos e internos. Talvez não seja só energético. Mas não temos como saber. Quando sua alma acoplou neste corpo, inicialmente era um corpo masculino, mas ao receber seu espírito ele se modificou ligeiramente, acrescentando características femininas também. Por isso o chamamos de quimera. É a primeira vez que vemos isso acontecer. Trabalho com engenharia genética há anos, mas nunca vimos um caso como o seu. Você possui uma perfeita harmonia entre as duas polaridades, talvez por isso seu corpo tente acompanhar.
- Por que Julius é normal? Ele é meu gêmeo, não é?
- Julius ao chegar aqui, foi bem tranquilo. Ao acoplar no corpo nada se modificou a não ser o acréscimo de órgãos sexuais. Como sabe, já não produzimos corpos assim em Phision, sexualidade se tornou obsoleto para esta raça. Com você foi bem diferente. Mas não sei te responder o porquê. Por mais gêmeos que sejam, talvez sua parte feminina seja mais desperta que a dele, mais experiente. Sabemos pouco sobre almas primordiais. Vocês são almas que ajudaram e muito na construção do universo como o conhecemos hoje, e na criação da vida tanto física quanto energética, mas a decisão de vivenciar a própria criação, geralmente é tardia, no que resulta poucos como vocês para vermos no que vai dar. – Elôrem pareceu pensativo. Ele não entendia tampouco. Quem estava ali naquele momento não era exatamente a alma primordial e sim o garoto Elôrem; que possuía medos, anseios e tudo que alguém da faixa dos vinte anos sentiria.
- Entendo e não entendo ao mesmo tempo. – Shayen lhe sorrira, apertando seus ombros com gentileza.
- Só viva... isso já basta.
- Mas o senhor quis me alertar de algo. Sei que esta espécie não copula e não tem seus descendentes de maneira natural há alguns séculos. Vocês tem corpos prontos para acoplagem de um espírito. Mas não se reproduzem de forma sexuada. O senhor quis me alertar sobre isso? Que posso engravidar caso copule com Julius? – Shayen se impressionara com a forma técnica e sucinta com que Elôrem tratara do assunto.
- Eu não sei, esta é a verdade. Nós realmente deixamos de copular fisicamente. Nós não nos reproduzimos mais. Só aceitamos espíritos que acoplam em corpos prontos. Nossa fusão hoje é energética. Mas veja, não quero que limite suas experiências. É a primeira vida de vocês dois em um corpo físico. Façam o que acharem que deve ser feito. Experimentem o que este lugar e esta vida tem a lhes oferecer. Não sabemos o que irá acontecer, vocês dois são preciosos para nós, só queremos observar e entender. São livres para vivenciar o que seus espíritos necessitarem. – Elôrem o olhara de volta com atenção, mas não sabia bem o que responder.
- Obrigado, pai. Vou fazer o que achar melhor sim. – Ele puxara Shayen pra um abraço forte. Shayen sentia profunda paz ao fazê-lo. Elôrem era especial, diferente. Sentia-se privilegiado em ser seu guardião.
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