Primeiros erros
3 A primeira vez que cozinhamos juntos
Notas iniciais
Katsuya nem conseguia acreditar que estava tendo aquele tipo de conversa com o namorado, mantendo o tom leve da brincadeira, vendo-o sorrir e participar sem receios. Comparando com o início da relação, eles haviam melhorado muito, não só Mikaru, mas ele também.
— E então, qual sua pergunta? – Mikaru questionou novamente, brincando com seu cabelo, enrolando uma mecha no dedo.
Katsuya gostava daquele tipo de carinho entre eles. Mikaru costumava ser mais contido quando em público, às vezes falando pouco e quase nunca o tocando, mas quando ficavam a sós, ele era outra pessoa, não por vergonha de assumir a relação ou demonstrar. Claro que uma parte dele tomava cuidado, afinal nem toda exposição era benéfica, contudo, os dois estavam cientes daquilo e gostavam de como o relacionamento era levado.
— Estou pensando ainda. Tentando lembrar algo que perguntaram mais cedo e eu queria ver como seria com a gente.
— Hm… ok, enquanto você pensa eu vou pedir alguma coisa pra comer. Quer também?
— Fazem entrega esse horário? – Katsuya se levantou da cama, seguindo o namorado até a sala, que procurava o número do telefone para fazer o pedido.
— Sim… até às duas, se não me engano…
— Ah… não tem nada pronto na geladeira ou que a gente possa preparar?
Mikaru parou o celular a meio caminho do ouvido, encarando Katsuya com curiosidade. Ele esqueceu que nenhum dos dois cozinhava ou estava com intenção de causar um incêndio?
— Você aprendeu a cozinhar?
— Ah… bom, eu fiz panquecas aquela vez. Não que tenham ficado ótimas, mas… ok, melhor pedir.
— Tudo bem, vamos ver o que tem na geladeira.
Katsuya pareceu se animar com a ideia, não notando o sorriso suspeito que partiu de Mikaru. O empresário notou as intenções de Katsuya, mesmo que fossem inconscientes. Eles nunca cozinharam juntos e, se fizessem, aquela seria a primeira vez.
Pediu para o rapaz conferir o armário enquanto olhava a geladeira, dispondo na mesa tudo que achou que poderiam usar; ingredientes que se resumiam a queijo e ovos. Alguma coisa podia sair dali. Se seria comestível era outra história.
— Tem bolacha, pão… não tem farinha, não posso testar as panquecas de novo…
— Eu não costumo comprar. Como não sei preparar nada, ia perder.
— Você sabe administrar uma empresa, usa programas complexos pra fazer as plantas das casas, mas não consegue seguir uma receita, com todas as quantidades e modo de fazer. Qual a lógica?
— Eu não podia ser perfeito. – Mikaru deu de ombros, recebendo um olhar incrédulo e uma risada de volta. Ambos tinham noção que os defeitos de Mikaru não se resumiam aos seus dotes culinários – Podemos fazer sanduíches, o que acha? É só pegar o pão e rechear, acho que nós conseguimos sem grandes estragos.
Katsuya concordou com a decisão, satisfeito por ter conseguido fazer o namorado mudar de ideia quanto a pedir em um restaurante. Eles podiam fazer aquilo! Não era tão difícil e ainda podiam passar mais tempo juntos, além de ter mais uma primeira vez pra sua lista. Pegou os ovos para fazer omelete, observando Mikaru revirar o armário novamente, pegando um pote que havia ignorado e passando o conteúdo em um dos pães, a seguir sentando no balcão para comer.
— Ahm… o que é isso?
— Creme de amendoim.
— Pensei que fôssemos fazer algo juntos. – não estava chateado pelo namorado não querer preparar algo mais complexo, mas achava aquela combinação de lanche era bem estranha.
— Não posso ajudar no apoio moral?
— Você tem medo de tentar ou algo assim?
— Algo assim… – deu de ombros, estendendo o pão em sua direção – Quer provar?
— Não, obrigado… acho que prefiro recheio salgado. Vou fazer omelete, vai querer também? – recebeu um resmungo como resposta, visto que o namorado havia enchido a boca novamente – Consegue picar o queijo?
— Eu pareço tão inútil assim? – mas Mikaru moveu-se para ajudar, tomando cuidado de não comprovar a resposta de sua própria pergunta. No quesito cozinha sim, ele era um zero à esquerda e sair com os dedos ilesos já seria um grande avanço.
Conseguiram terminar o preparo sem grandes surpresas, Katsuya se acomodando à mesa para comer enquanto Mikaru voltou para o balcão, atraindo um olhar curioso. Katsuya não queria se intrometer, mas a mesa tinha seis lugares, então por que ali?
— Mikaru… você tem algum problema com sentar em cadeiras para comer ou aí é alguma espécie de lugar favorito?
— Não… sei lá, sentar à mesa é algo meio família e como eu costumo ficar sozinho, parece estranho. Você sempre vê uma se reunindo pra comer e conversar.
— E por sermos só nós dois, não somos uma família?
Mikaru encarou-o fixamente, sentindo o rosto esquentar, não só por vergonha, mas por todo o significado por trás daquela afirmação. Desceu do balcão sem nenhuma palavra, puxando a cadeira próxima ao namorado e sentando ao seu lado, terminando de comer em silêncio.
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