Primeiros beijos
1 Alguns desafios são mais complicados que outros
Notas iniciais
A noite chegara, e estava mais escura que o normal. O habitual amontoado de estrelas ofuscantemente brilhantes que espalhavam-se desordenadamente pelo céu de Long Island não haviam marcado presença, deixando apenas o manto negro do céu.
Jason quase que preferia assim. Era mais organisado, planificado — não confundia os olhos ou dava dor de cabeça como as noites estreladas faziam. E mais, a fogueira ficava imensuravelmente mais bela quando entrando em contraste com a monstruosa escuridão de noites como aquela, parecendo de alguma forma mais quente e reconfortante, dando a Jason um ímpeto quase irresistível de aproximar-se de seu calor. Ou talvez isso fosse só o fruto da gelada ventania que resolvera dar as caras no Acampamento Meio-Sangue.
— Ei, gente! — A voz empolgada de Percy tirou Jason de seus devaneios. — Que tal um jogo?
Seus olhos passearam pela pequena quantidade de semideuses restantes ao redor da fogueira. Apenas uns dez garotos e garotas mais velhos haviam permanecido naquela pequena e disforme roda de conversas que havia começado algumas horas antes quando o frio não era tão cortante e nem a noite, tão escura. O resto dos campistas havia sabiamente retirado-se para suas cabines, uma vez que a meia-noite estava a meros minutos de distância.
Houve uma enxurrada de murmúrios concordantes a sugestão de Percy, e Jason ouviu Leo rumorejar um "Ah, isso vai ser bom" em sua direita, fazendo o loiro esboçar um sorriso esguelhado para ele.
— Que tal Eu Nunca? — sugeriu alguémque Jason não conseguiu identificar.
— Em que ano estamos, segundo? — retrucou Leo, revirando os olhos. — Não, tem que ser alguma coisa mais emocionante. Tipo Verdade ou Desafio.
Anabeth riu com escárnio antes de dizer, com sarcasmo colorindo sua voz:
— Ah, e isso é bem melhor que Eu Nunca.
Leo deu de ombros, um sorriso brincando em seus lábios.
— Nós poderíamos esquentar as coisas — sugeriu ele. — Tipo, colocar consequências para quem não cumprir os desafios ou algo assim.
Do outro lado de Jason, Piper arfou com animação.
— Ou poderia ser somente desafios!
A partir daí, as pessoas começaram a se interessar, e em menos de dez minutos, Jason viu-se preso em um jogo que não prometia nada de bom como resultado. Uma das crianças de Hermes arranjara uma lata destroçada de refrigerante, que eles estariam usando como roleta.
— Tudo bem — pronunciou-se Percy. — Como fui eu que sugeri o jogo, acho que eu começo.
Ninguém contestou, então o filho de Poseidon pôs-se a girar a roleta improvisada, que caiu em alguém cujo o rosto era ocultado pela fogueira, que ainda crepitava vividamente no meio da roda.
— Só desafios, não é? — disse Percy, sorrindo presunçosa e quase ferozmente na direção da pessoa escolhida. Jason só podia imaginar que eles se conheciam, e sua relação não era das melhores.
— Cuidado com o que escolhe, Jackson — rosnou uma voz feminina que Jason associou com uma das garotas de Ares. Clarisse, se ele não se enganava.
Percy riu, e Jason temia o resultado daquela partida. Grunhiu internamente. O jogo mal havia começado e já rolava ladeira a baixo.
No fim, Percy desafiou Clarisse a jogar o resto do jogo sem uma peça de roupa, o que não foi muito bem calculado, pois, ao invés de retirar a calça ou a blusa como Percy provavelmente previra, Clarisse tirou as meias velhas e fez questão de arremessa-las na direção do garoto, que encontrava-se bastante contrariado.
A partir daí, os desafios não ficaram mais amigáveis. Uma garota de Hermes desafiara uma outra de Afrodite a enfiar sua mão em um formigueiro. Um dos irmãos de Anabeth havia desafiado a garota a pular no lago em roupas íntimas (Jason sentiu uma onda de simpatia pela menina, considerando o frio em que se encontravam). Percy havia proposto o desafio de flertar com uma dríade particularmente horrenda e raivosa para Leo, que retornara com mais de alguns arranhões.
Mas, conforme a noite se desenrolava, Jason começava a sentir-se nervoso, uma vez que sua vez parecia não chegar. Seus olhos comichavam de cansaço, e um bocejo estava preso em sua garganta, e tudo o que Jason mais queria era terminar aquele jogo para que pudesse arrastar-se até sua cama no Chalé 1, escapando daquele frio doloroso, e dormir até a manhã tardia. Então, quando sua vez finalmente chegou, Jason não pôde deixar de sentir-se aliviado.
— Um — divagou seu desafiador, cujo rosto estava oculto pelas ainda chamuscantes flamas da lareira. — Meu desafio vai ser... Beije de língua a pessoa a sua direita por dois, não, três minutos!
De repente, todos os músculos de Jason pareceram enrijecer, e ele sentiu quando o ar frio ressecou seus lábios, que haviam escancarado-se devido ao choque. Ele não precisava olhar para a direita para saber que quem ocupava esse lugar não era sua namorada, mas ele o fez mesmo assim, como se para confirmar. E, de fato, lá estava acomodada a figura esguia e exígua de Leo Valdez, com seus cachos rebeldes e olhos de chocolate caramelado, os lábios eternamente abertos em algum tipo de sorrisinho prepotente, como se ele soubesse de uma piada que ninguém mais sabia.
Os olhos de Leo estavam fincados em Jason, uma aura divertida o cercando, como se o aturdimento do loiro o entretivesse.
— O Grace não pode fazer esse desafio! Ele tem namorada! — gritou um menino de Afrodite.
— Eu não acho que um beijo com o Leo vai mudar isso, Mitchell — devolveu uma de suas irmãs, e logo todos, inclusive Leo, estavam rindo. No entanto, Jason não conseguiu forçar-se a se juntar a eles — por algum motivo, a ideia de beijar Leo fazia as palmas de sua mão encharcarem-se de suor, apesar do frio.
— O que é, Grace? — provocou um campista de Ares (Mark, se Jason recordava corretamente). — Tá com medo de beijar o Valdez e querer mais?
Uma nova onda de risos alastrou-se pelos semideuses como fogo em palha, e Jason pôde sentir chamas quentes queimando em seu rosto e pescoço. Leo continuava o observando com diversão recheando seus olhos brilhantes, como se para ver sua reação. Por um mínimo segundo, a ideia de beijá-lo pareceu mais tentadora que ameaçadora.
— Não! — retrucou ele rapidamente. Talvez um pouco rápido demais. — É só que eu namoro a Piper, e não me sinto confortável beijando outra pessoa.
Uma menina de Afrodite guinchou um "que fofo!", e Jason corou novamente. Assentiu com a cabeça, como se reafirmando para si mesmo que aquela era a razão para não querer beijar Leo, enquanto tentava ignorar aquele aperto borbulhante incomum em seu estômago.
— Bom, se esse é o problema, eu estou de boa — disse Piper tranquilamente. Jason olhou para a namorada, incrédulo. Piper mantinha um sorriso largo (talvez um pouco excessivamente largo) no rosto, e ela parecia esforçar-se para manter uma pose relaxada.
— Tem certeza, Piper? -indagou Jason, cauteloso
— Absoluta — respondeu ela na hora. Ela riu e soou ligeiramente artificial. — Não estou preocupada.
— Ótimo — disse Mark com impaciência. — Agora que tem a permissão da namorada, anda logo com isso.
Jason olhou novamente para Leo, que mantinha um sorriso bonançoso no rosto. Repentinamente, o filho de Júpiter tornou-se muito consciente do bom e impregnante aroma de graxa, fogo e canela que parecia emitir de Leo. Ele sabia que todos o encaravam, mas parecia que, enquanto o filho de Hefesto estivesse olhando para ele, Jason não seria capaz de mover um músculo.
— Anda logo, Jason — apressou-o a garota havia feito o desafio. — Eu vou começar a marcar o tempo do beijo. Três minutos, nada menos.
— Vamos lá, Jason — disse Leo levianamente, um tom de brincadeira em sua voz. — Eu não beijo tão mal assim.
Hesitou. E então, fechando os olhos, Jason o beijou. No começo, ele pôde ouvir as exclamações, gritos e risadas dos outros semideuses, mas depois tudo pareceu dissolver-se ao seu redor conforme o beijo acontecia. Os lábios de Leo eram surpreendentemente quentes, como se o frio da noite não os afetasse. Depois de um começo desengonçado, suas línguas começaram a valsar juntas como uma só, e Jason sentiu como se aquele beijo emitisse raios de energia para o resto de seu corpo, espantando o sono como se ele nunca houvesse estado presente. Em algum momento durante o beijo, o nariz de Jason roçou no de Leo, e deuses como alguém podia ter uma pele tão macia...
— O tempo acabou!
Jason abriu os olhos, surpreso. Leo afastava-se dele, um tanto sorridente, mas eles ainda estavam próximos o suficiente para que o aroma gostoso do filho de Hefesto invadisse completamente as narinas do romano. Seus lábios estavam molhados e inchados do beijo, e Jason sentiu um ímpeto insano de avançar e beijar Leo novamente.
— Bem, isso foi nojento — comentou Percy risonho. — Não achei que você fosse realmente ficar os três minutos, Jason. Me surpreendeu, cara.
Jason encarou-o, aturdido. Havia esquecido momentaneamente que ele e Leo não estavam sozinhos, e, agora que percebia que uma pequena plateia havia os observado, sentia-se envergonhado e estranhamente culpado.
O jogo continuou, mas a atenção de Jason dissipara-se. Sua mente continuava voltando para o beijo com Leo, e aquilo fez com que seu peito doesse por culpa e seu rosto esquentasse em embaraço. Ele até mesmo olhou de soslaio ao redor, como se para garantir que não havia ninguém para ler seus pensamentos. Não podia pensar essas coisas de Leo — tinha uma namorada, e Leo era seu melhor amigo, além de bastante hetéro, pelo que Jason sabia. Mas, ainda assim, não podia deixar de imaginar como gostaria de beija-lo de novo, talvez acariciar seus cachos, ou quem sabe até mesmo deslizar uma mão em sua cintura...
Ele não notou que os outros começavam a partir até Piper pegar sua mão, convidando-o a sair. Ele meio que tinha esquecido-se da presença dela, e isso fez o nó culpado em seu estômago apertar. Eles caminharam em silêncio até metade do caminho para a cabine de Afrodite, quando Piper quebrou o silêncio, comentando levianamente:
— Não precisa ficar todo estranho por causa do beijo com o Leo, bobo. Eu sei que não significou nada.
— Claro que não — riu Jason. Mentira. — Eu não estou agindo estranho por causa disso. — Mais uma mentira.
— Ah, não, Jason! — guinchou Piper, começando a rir repentinamente, os olhos brilhando como se tivesse acabado de descobrir algo. — Você não está incomodado por causa do que o Mark disse, não é?
— C-claro que não! — devolveu Jason, rindo também, embora rir fosse a última coisa que o garoto queria fazer.
— Bem — começou Piper sem fôlego depois de alguns minutos. -, vocês garotos tem a masculinidade ofendida muito facilmente, não é?
Rindo efêreamente, Piper despediu-se dele, mas não sem antes dar-lhe um beijo. Os lábios dela pareciam frios e sem vida comparados aos de Leo.
Enquanto caminhava de volta para a Cabine 1, as palavras de Mark retornaram para a cabeça de Jason.
"Tá com medo de beijar o Valdez e querer mais?"
Jason só pôde pensar nos lábios quentes e fervorosos de Leo antes que a escuridão o engolisse por completo.
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