Primeiros Socorros.
1 Dia de esporte.
Notas iniciais
— Sorata! Segura aí!
Um grito animado e Sorako jogou, de forma brusca, a bola de basquete para o irmão. E este pegou, batendo-a no chão, outrora, jogando para o alto. Arremessou de volta, de forma repetida e recebia também. Nenhum dos dois sabia jogar basquete, mas queriam qualquer desculpa para estrear a nova quadra esportiva que havia ali. E foi o que fizeram: Agarraram a primeira bola que encontraram dentro da caixa de esportes e correram em direção ao novo lugar, que ainda estava fechado.
Apenas convidados especiais poderiam visitar o ambiente antes da estreia, mas isso, os dois poderiam inventar uma desculpa rápida e elaborada em questão de minutos. Sempre fizeram isso. Nada poderia dar errado, naquele momento.
Sorata agarrou a bola, jogando por cima do irmão, rindo. Tentou fazer uma cesta, mas o seu salto fora muito baixo para conseguir concluir a ação desejada. Sorako também tentou, chegando um pouco mais perto.
Também estava longe.
— Tive uma ideia! — Exclamou o albino, que havia sido o último a jogar. Sentou-se no chão, esticando as mãos até os pés, como se tentasse fazer um alongamento descuidado e improvisado.
— Qual é a sua ideia? — O mais moreno, também se sentou no chão. Cruzou as pernas, alongando os braços. Mexeu a cabeça, tentando estalar o pescoço, que reproduziu um grande som. — Nossa...
— A minha ideia é o seguinte: Vamos fazer arremesso à cesta! O primeiro que acertar cinco vezes dentro da cesta, vence! — Sugeriu, deitando no chão e olhando para o teto. — Aí depois, sei lá... O perdedor compra alguma comida para o vencedor, ou faz alguma coisa que queira.
— Eu topo! Se eu vencer, eu vou querer... Hum... — Pôs-se a pensar de forma silenciosa, como se tivesse a grande certeza de que iria vencer.
— Se eu vencer, eu vou querer dez barras de chocobors.
Chocobors é uma grande barra de chocolate, mas com formato de robôs diferentes. E a caixa era reutilizável, pois dava para brincar com ela, por ser articulável. E Sorako era apaixonado por esses chocolates.
— Dez?! É muita coisa! — Sorata exclamou, chocado.
— Dez ou vinte.
— Você não está me ajudando! — Reclamou, dando um peteleco na testa do garoto deitado ali. Ouviu um “ai”, e logo riu também.
— Oito.
— Cinco.
— Oito! — Insistiu, de forma atrevida e com um sorriso de canto.
— Seis.
Sorako bufou, tentando não perder a paciência. Olhou para o irmão, que estava rolando a bola de basquete para lá e para cá, mas não era uma distância relevante. Respirou fundo, murmurando:
— Nove.
— Nove. — Apertaram as mãos como se fechassem um acordo. Ambos se sentiam como “homens grandes”, fechando um ‘negócio’. Mesmo que fosse apenas uma negociação injusta e de certa forma, banal. — Se eu vencer, você vai me emprestar sua bicicleta durante um mês inteiro!
— O quê?! Isso é injusto! — Sorako levantou, como se estivesse visivelmente ofendido pelo pedido do irmão. Rosnou, de forma rude e tomou a bola da mão dele, jogando na cesta. Errou. — Não vou te emprestar a minha bicicleta coisa alguma!
— Então, acordo encerrado! Não vou te dar os nove chocolates.
Sorata alcançou a bola, enquanto estava deitado no chão e simplesmente a abraçou, logo se elevando e saindo correndo do irmão que estava nervoso atrás de si.
— O que você quer com a minha bicicleta?! — O albino exclamou, tentando alcançar o irmão e puxá-lo, talvez, pelo cabelo. E o moreno desviava por poucos milésimos, por geralmente se abaixar ou inflar o peito, afim de não ser pego.
— Você tem duas bicicletas e dois patinetes! Eu só estou pedindo emprestado!
Sorako parou, como se raciocinasse.
Sorata também parou, de forma ofegante. Soltou a bola e esta saiu quicando para longe dos dois, enquanto permaneciam com as mãos no joelho e de cabeça baixa, semelhantemente tentando recuperar o fôlego perdido.
— Certo, volto atrás. Empresto-te a minha bicicleta verde.
— Melhor ainda! — Comemorou, de forma animada e pegou a mão do irmão e a apertou, balançando. Fechando literalmente, um acordo forçado com suor.
Combinaram tudo. E voltaram com uma caixa de isopor, cheia de garrafa de água e gelo. Também trouxeram toalhas para se secarem e sapatos mais confortáveis. Equiparam-se e amarraram lenços em suas cabeças, para o cabelo não cair nela. Enquanto Sorako terminava de amarrar o cadarço do sapato, Sorata marcava o chão com giz de cera.
— Para que isso?
— Para ser mais justo! Não podemos ultrapassar essa linha. — Estalou os dedos, se sentindo o gênio do esporte. Terminou de riscar o chão e descartou o giz, jogando-o no canto, próximo a um gramado.
— Você está se sentindo o rei do esporte? Ditando regras, assim?! — Sorako reclamou, dobrando as toalhas e pondo em cima do isopor com gelo.
— Você sempre dita regras do nosso jogo.
Como se estivesse sem argumentos, o gêmeo de cabelos brancos apenas cruzou os braços e permaneceu em silêncio, não querendo admitir como o outro havia a plena e total razão em questão disso. Ambos foram para suas marcas e apostaram a rodada em uma pedra, papel e tesoura, que chegou a ser duradouro. Deixando simplesmente o orgulho de lado, Sorako murmurou:
— Vai você primeiro.
Sentia-se humilde fazendo isso, mas não reparou o notável tom de deboche que havia em sua voz. Seu irmão ignorou totalmente, pegando a bola e quicando-a no chão. Entrou em posição, andou para trás e voltou correndo, não ultrapassando a linha demarcada.
Arremessou, mas ela caiu fora. Sorata imaginou que se tivesse jogado um pouco mais fraco, teria acertado a cesta.
Sorako pegou a bola, se agachando o máximo que podia e deu um grande salto. Também errou, praguejando de forma mínima, pois não queria que seu irmão absorvesse esse mal palavreado.
O moreno pegou a bola e arremessou com toda a força, acertando dentro da cesta.
— Oba! Falta agora mais quatro! — Comemorou, pegando a garrafa de água e bebendo, observando como seu irmão parecia desolado. — Maninho?
O menino de cabelos pálidos caiu de joelhos e parecia estar realmente desacreditado. Seu hábito, sempre foi ser muito competitivo e agora, estava sendo ultrapassado. Pegou a bola e quicou alto, jogando-a na cesta.
— Ótimo arremesso, maninho! — Sorata elogia, observando com seu irmão fez uma boa curva com a bola, acertando-a na cesta. — Estamos empatados!
Se literalmente pudéssemos dizer, Sorata estava levando isso na inocência e pura brincadeira. O momento em que ele quisesse, poderia pegar a bicicleta de sua amiga e sair andando por toda a região. Ao contrário de Sorako.
A criança competitiva, que estava levando isso a sério, mais do que o normal. Isso era perceptível pela forma como seus dentes estavam rangendo. Assistia furiosamente seu irmão pegar a bola de basquete e arremessar na cesta, sem dificuldade alguma.
— Parece mais fácil! — Murmurou, pegando a bola e estendendo até o garoto enfurecido. — Toma...
— Não quero. — Resmungou, cruzando os braços e dando as costas.
— O que está havendo? Desistiu?
— Só não quero mais jogar.
Quando o menino que suportava a bola em mãos abaixou a guarda, Sorako tomou das mãos dele e correu, ultrapassando a linha demarcada e jogando a bola na cesta com toda a força. E esta bateu na tabela, voltando com toda a força em ambos.
— Se abaixa! — Sorako gritou, deitando no chão com toda a pressa.
Antes que o distraído pudesse reagir, levou uma bolada em sua testa com toda a força, impulsionando-o ao chão; Em seguida, desmaiou. Inicialmente, o albino achou que era uma brincadeira, mas ao ver que faltavam reações do garoto, entrou em desespero repentino.
— Sorata?! Irmão! Acorda!
Correu até ele, balançando o braço do mesmo. Pôs a mão no peito dele, verificando os batimentos cardíacos, logo arregalando os olhos. Ao escutar os sons, que estavam mínimos, deu um suspiro aliviado.
— O que foi que você fez?
A voz da melhor amiga deles assustou o único acordado ali. Pôs a mão em seu próprio peito, respirando de forma ofegante.
— Wantaru, você me assustou! — Esbravejou, se levantando.
— Você não respondeu a minha pergunta! — Argumentou de volta, chegando perto do corpo desacordado do amigo. — Ele... Está bem?
— Desmaiado, mas está ótimo.
— Você não diria isso se soubesse o quão roxo vai ficar essa testa dele... — A menina ruiva disse, apontando para onde tinha visto a bola acertá-lo.
— Shhh! Ninguém vai desconfiar.
Os dois se entreolharam em silêncio, mas retornaram a observar o corpo desmaiado do moreno. Sorako estava preocupado, sem imaginar o quão poderia ficar roxa a testa do irmão. Enquanto Wantaru, pensava se algum dos dois sabia o básico de primeiros socorros. Ainda permaneceram quietos, sem fazer a mínima ideia de como iriam acordar o adormecido. E então, Wantaru exclama um “Eu sei como resolver!”, assustando novamente o amigo albino.
Ela tirou do bolso da mochila, um grande livro que o título era ilegível. Lambeu os dedos, folheando as páginas com um grande sorriso no rosto. Parecia orgulhosa, enquanto lia algum dos parágrafos.
— Achei...
Comentou, abrindo ainda mais o livro e mostrando para Sorako o que deveria fazer, com alguém desmaiado no momento. Seus dedos finos apontaram exatamente para o parágrafo que descrevia recomendações.
*Etapa 01:
Em caso de desmaio, não mexa no corpo da pessoa adormecida. Não fique em cima do corpo e segure seus ombros, para evitar que a vítima desmaiada bata de cabeça em algo ou se prejudique durante o despertar.
— O nosso problema é acordar a vítima, não como lidar com ela. — Sorako deixou de ler o texto, como se apenas tivesse lido o óbvio do momento.
— É-é, mas são as recomendações.. Nunca pode ignorar as recomendações!
Continuou folheando o livro, deixando com que apenas os sons das folhas passando preenchessem o ambiente. E enquanto isso, Sorako comia as unhas de forma nervosa. Olhava para a bola de basquete e sentia agora, uma leve culpa por ser competitivo. Se não tivesse ficado com raiva, talvez não teria desmaiado seu irmão.
— Aqui está! — Apontou novamente para o texto no livro. — Aqui diz: Precisamos de álcool ou vinagre e um pano molhado!
— E isso vai ajudar no quê? Não querendo questionar, mas já questionando...
— Isso vai acordar ele!
— Onde vamos achar álcool ou vinagre?
Pensaram.
Pensaram, mas nenhuma solução parecia visível. Sorako tirou um pouco de dinheiro do bolso, também pegando o dinheiro dos bolsos do irmão. Com toda a quantia junta, dava para comprar uma garrafa pequena de álcool.
— Isso não é roubo? — Wantaru questionou, olhando para o albino contando o dinheiro em sua mão.
— Não é roubo se for por uma boa razão.
Deixaram de discutir e Wantaru foi ao mercado o mais rápido possível, voltando mais veloz ainda com a garrafinha de álcool nas mãos. Umedeceu uma das toalhas com álcool, pondo a garrafa no chão.
— Enfermeira Wantaru ao comando! — A garota expressou alto, rindo.
— Não é hora de brincadeiras! — Pôs as mãos no ombro do irmão adormecido, enquanto revirava os olhos com os comentários desnecessários de sua amiga.
Não demorou muito: Pôs a toalha próxima ao nariz do Sorata, que parecia despertar aos poucos pelo cheiro do álcool. Antes que pudesse ir com tudo para frente, foi forçado a ficar deitado no chão.
— Missão bem sucedida. Parece que meu trabalho acabou aqui. — Sorako comemorou, soltando o irmão e saindo da quadra.
— Mas você não fez nada... — Wantaru contraria, pondo a toalha com álcool na acima do isopor.
— Cala a boca!
Mais tarde, havíamos no total: Um garoto com a testa quase roxa andando de bicicleta verde; Uma menina tomando sorvete e o outro se acabando no chocolate tão desejado.
— Até que valeu a pena essa bolada... — Sorako murmurou, limpando a boca com chocolate.
— Você não sabe o quanto dói. — Sorata comentou, apertando o guizo da bicicleta, ouvindo um “trim-trim”.
O trio riu, apenas aproveitando o resto do dia.
Fale com o autor