Primeiros Amores
1 Capítulo único
Se tivessem me avisado que amar doeria tanto, arrancaria este tolo coração de meu peito e atearia fogo. Meu peito doía, o ato de respirar parecia um desafio e de meus olhos minava água translucida salgada. Ali estava eu, Brenda, aos prantos em algum canto qualquer daquele jardim da casa do meu amado que estava anunciando seu noivado, com uma mulher que não era eu, e isso corroía meu bem estar.
Hyuuga, este era seu nome. O nome que tantas vezes chamei sempre que precisei independente da situação. Ele é mais velho, muito mais velho do que é aconselhável para eu amá-lo. Este amor que sinto, nasceu fadado ao fracasso. Meus sentimentos eram como uma rosa que nasce no deserto que estava fadada a secar e morrer.
Hyuuga praticamente cuidou de mim a vida inteira, ele é o melhor amigo de meu pai, Ayanami, pelo menos duas décadas nos separam. Não sei ao certo em qual momento passei a vê-lo como figura masculina, ao invés da fraterna. Hyuuga era viúvo, mal aparentava sua idade, devido aos treinos do exército e seu sorriso radiante. Seus cabelos pretos e um pouco cheios, lhe davam vivacidade, os olhos azuis eram simplesmente hipnotizantes.
Tentei me acalmar, sequei aquelas lágrimas inúteis e resolvi esperar a minha cara dar uma melhorada, certamente estava avermelhada. Naquele momento, eu estava sentada no banco do jardim, onde ao longe eu podia ver a festa acontecendo. Amélia, a mulher que casaria com ele estava vindo em minha direção, provavelmente percebeu a minha ausência, já que Hyuuga sempre me mantinha por perto dele, afinal ele é como um pai coruja, atitude que não desgosto, mas que após o casamento, certamente mudaria, afinal, outras prioridades surgiriam.
— Brenda, o que houve? — a mulher loira me questionava — seus olhos estão inchados!
— Ah, não se preocupe, fui andar pelo jardim, torci o tornozelo, tentei forçar para andar, e acabou doendo muito. — contei, não era uma mentira, no processo de menina desiludida correndo pelos jardins acabei sim torcendo o tornozelo. — Acho que preciso de uma ajuda... — comentei.
— Oh céus, seu tornozelo esta inchado. — parabéns, constatou o óbvio — Consegue se apoiar em mim?
— Acho que sim, Amélia. — Usei meu pé esquerdo que estava bom e me apoiei em seu ombro — se formos devagar acho que consigo.
E assim foi, andando devagarzinho chegamos até a tenda onde acontecia a festa, eu queria morrer por passar por algo tão vergonhoso. Estava lá eu, uma mula manca, com olhos inchados na frente de Hyuuga, o destino não colaborava nem um pouco comigo. E cada vez que eu me lembrava da minha situação, mais vontade de chorar eu queria. Chorar pela perda do homem da minha vida, que sequer cogitava que uma rapariga o amava, pela dor no meu pé, e pelo ódio que sentia de Amélia. Mas nada superava o sentimento de derrota, afinal Amélia era um doce, uma mulher digna e eu a odiava, e me odiava mais ainda por ter esses sentimentos negativos em relação a alguém tão boa.
Os olhos azuis daquele tenente me encaravam preocupados, e eu fugia dos mesmo efetivamente. Hyuuga tomou a iniciativa de pegar-me no colo e me carregar para não sei aonde, deixando então sua noiva como anfitriã principal da festa. Seus braços fortes envolveram meu tronco e por debaixo dos joelhos, evitando qualquer contato com o chão.
— O que você aprontou dessa vez? — a voz dele soou alta e rígida, diferente do tom normalmente usado para comigo.
— Não fiz nada, Hyuuga! — protestei — Apenas me descuidei desse salto infeliz e torci o tornozelo — falava tentando o máximo conter o choro.
— Um tornozelo torcido, não a faria chorar desta forma... — ele comentou enquanto me colocava sentada sobre a cama de seu quarto — Ou melhor, segurar um choro tão sentido, como o que você está fazendo agora.
— Apenas esta doendo... — ditei com a voz cada vez pior
A cada passo que ele dava em direção ao corredor que levava para dentro da casa minha respiração praticamente sumia. Se ele me questionasse mais uma única vez o motivo do choro eu desabaria na sua frente. Despedaçaria o pouco que sobrou de mim e sequer poderia lhe revelar o motivo.
Com dificuldade ele abriu a porta que era de seu quarto, com o pé fechou-a com rebeldia, num pequeno estrondo. Fui posta sobre a cama fofa e acolchoada em tons de vermelho carmim e dourado. Caminhando até a suíte ele sumiu do meu campo de vista, escutei algo caindo, ele sempre foi desastrado, sorri com o pensamento. Tirei os saltos e deitei na cama, estava cansada de tudo aquilo. Diziam que quem ama liberta, mas eu não queria libertá-lo, uma atitude egoísta minha, eu não consigo abrir mão dele.
— Voltei Brenda.... — ele anunciou saindo do banheiro com uma caixa de primeiros socorros e algum spray — Oh, já se apoderou da minha cama! — fez um comentário brincalhão.
— Ela me pareceu muito confortável... — respondi olhando para o teto.
— Sim ela é. Fiz uma ótima escolha não é mesmo? — ele dizia enquanto sentava-se no colchão ao meu lado — E É bem forte também, durará bastante tempo.
—... — não fiz questão de responder, apenas sorri sem graça, eu queria abraça-lo forte e nunca mais soltar, mas meu auto controle se mostrava invejável para qualquer um que o visse.
— Então, você vai me contar por bem ou por mal o por que de estar agindo estranhamente?
— Eu estou normal Hyuuga, não sei de onde surgiu isso... — respondi o mais calma possível — Isso é coisa da sua cabeça.
— Se é coisa da minha cabeça por que está me evitando? — ele questionou — Há quase um mês inteiro você foge e me evita. — sua voz demonstrava chateação — Te fiz algo?- questionou
— Hyuuga...
— Me responda....- ele me interrompeu — Te fiz alguma coisa que não gostou?
— Não, nunca... — respondi por fim — Só é difícil colocar em palavras, está confuso para mim — falei enquanto buscava sua mão.
Hyuuga entendendo o que eu queria entrelaçou nossos dedos num aperto moderado, quanto mais fitava seus olhos preocupados, mais sentia meus olhos encherem d’água. Tudo tão confuso e doloroso. Sua destra foi em direção ao meu rosto e ali repousei em sua carícia. Meus olhos começaram a vazar livremente. Era muito carinho e conforto para que eu segurasse todo esse turbilhão de sentimentos incorretos e estranhos.
— Quero saber o que a faz chorar tanto... nunca a vi assim, meu anjo. — aos poucos fui puxada para seu peito largo, e ali o envolvi num abraço.
— Eu não posso dizer.... eu não posso.
— Shiii termine de chorar e me conte mais tarde.
— Não posso. Não posso. Não posso... — eu repetia meu mantra enquanto o apertava cada vez mais.
Eu estava tão angustiada que não sabia mais o que falava, eu apenas o queria para mim me abraçando. E como sempre acontecia, ele me acalmaria com seus carinhos e sua voz grave e calma. Ele acariciava minhas madeixas, me faziam arrepios se espalharem por meu corpo, sua respiração agora batia em meu pescoço nú, dando uma sensação diferente. Mas eu já me acalmava apesar dos pesares.
— Melhorou?
— Sim, obrigada, Hyuu...
— Então mocinha, vamos parar de suspense, o que está acontecendo.
— Esquece isso! — tentei fugir — É besteira minha.
— Alguém te machucou?
— Não! De onde você tira essas coisas? — questionei nervosa — Esquece isso, é besteira, vamos, me ajude com esse tornozelo e vamos voltar para seu... noivado — falei
— Não saio até que me conte o que houve.
— Então melhor avisar seus convidados que o anfitrião deu uma “morrida”.
— Brenda!- ele gritou e eu me assustei
Meu coração sambava agora dentro do peito, o susto foi dos grandes, meu companheiro bombeador de sangue não aguenta isso não! Tentei me levantar mas esse maravilhoso homem me impediu com sua força divinamente inconveniente no momento.
— Eu estou gostando de alguém.- sentenciei
— E por acaso ele não a quer perto de mim?
— Não exatamente Hyuu
— E o que essa pessoa te fez que esta a fazendo chorar?
— Ele é mais velho... primeiro problema
— Não deve ser tanto assim
— Sim, ele é muito mais velho do que eu.
— Ok, mais ainda não é motivo para chorar
— Ele é amigo do meu pai...
— Aya é um cara difícil, mas se conversar com jeito ele sempre sede para filha única dele.- ele comentou divertido — onde está o x da questão?
— Ele é comprometido
— Óh, isso é um problema. — ele comentou — Mas as pessoas podem mudar de opinião...
— Ele ira se casar com uma mulher perfeita! — taquei o foda-se e falei mesmo
— O que...
— Eu te amo Hyuuga.... amo tanto que chega a doer — desabafei
Tudo estava nítido de mais, as pupilas azuis dele se dilataram, as sobrancelhas ergueram-se num arco de pura incredulidade e seus lábios moviam-se como fossem dizer algo, mas nada era pronunciado de fato. O calor de seu corpo dissipou-se assim que ele se afastou. Hyuuga permaneceu sentado ainda, me encarando, procurando qualquer indício que aquilo fosse talvez uma brincadeira sem graça da minha parte.
Meus olhos já voltavam a minar agua, todo o seu corpo estava me rejeitando naquele momento, desde o olhar quanto o afastamento óbvio físico por parte dele. Tentei alcança-lo estendendo a mão, esta que foi repelida num tapa violento. Algumas lágrimas insistiam em cair, afinal acabou aquilo que tínhamos. Agora ele sabia desses sentimentos estranhos e como uma lei natural, ele se afastaria para evitar problemas.
— O que você está dizendo...- ele falava irritado — Não brinque comigo...
—Não estou, eu te amo... — falei enquanto chorava — Eu tentei, juro que tentei esquecer isso, comecei a namorar o Edgar, tentei gostar dele, mas não dá! Não consigo!!!
— Não minta para mim! Brenda o que você tem na cabeça para falar isso? — ele questionou ainda mais irritado — Eu te criei!
— Eu sei! — gritei de volta — Eu penso nisso todos os malditos dias da minha vida!
— Como? Quando?
— Eu não sei, eu só sei que o amo, quero-te mais que tudo! Qualquer coisa que eu faça você está aqui! E não sai por nada! — falei apontando para minha cabeça — Simplesmente os pensamentos não saem de você! Qualquer coisa eu lembro de você! — falei desesperada — Quando me abraça me sinto segura, mas sempre me pego desejando mais e mais! — tentava explicar o inexplicável — Só o afeto não está bastando, olhar de longe também não... então quando você anunciou que estava noivo eu me desesperei.
Hyuuga levantou da cama, andou nervosamente pelo cômodo inquieto, sua mão constantemente bagunçava os cabelos negros, sua respiração estava descompassada. Eu já não ligava mais, o que aconteceria ali entre nós seria definitivo, o rumo que seguiríamos: Continuaríamos os mesmo, nos afastariam ou teríamos algo, ultima que se mostra a mais improvável.
Me remexi na cama e me levantei apoiando no pé bom. Arrumei o vestido verde escuro para que desamassasse e peguei os saltos. Lentamente fui indo em direção à porta, o que não passou despercebido por ele. Numa velocidade anormal, Hyuuga estava atrás de mim e segurava meus ombros de maneira firme, as luvas que compunham o uniforme do traje social do exército não continha seu calor. Olhei para trás, mirei diretamente em suas íris, quase me perdi nelas por tamanha beleza.
— Não pode sair mancando assim.
— Mas não consigo ficar no mesmo cômodo que você nesse momento. — comentei triste — Vamos esquecer que isso aconteceu, sim? — pedi — Eu não sei, apenas queria me livrar desse segredo, me desculpe jogar egoistamente meus sentimentos em cima de você, no dia do seu noivado. — me desculpei.
— Venha, vamos cuidar primeiro desse problema no seu calcanhar, depois vamos para o segundo problema.
Com delicadeza me colocou novamente sentada na cama, desta vez deixou minhas pernas penduradas, com o kit de primeiros socorros, tirou de dentro da caixinha algo que era contra a dor e ataduras, e em instantes eu estava com o pé enfaixado e tratado. Hyuuga pegou meus saltos e olhou descrente para eles.
— Por que vocês mulheres usam esses objetos de torturas? — ele questionava enquanto media com os dedos a altura do salto — Isso aqui deveria chamar Quebra pé!, Só pode ter sido inspirado no sapato de ferro!
— Não é para tanto, é apenas um salto, lindo por sinal, que a pata choca aqui fez a burrice de correr com ele.
— Mulheres são loucas... — assim ele proclamou seu pensamento.
Cansada demais para tomar coragem para levantar deixei na cama relaxada, estava sentida pela rejeição, mas pensei que lidaria pior com a situação, “parabéns pra mim”. Soltei o cabelo que até então estava num coque comportado, mas que está incomodando para encostar no travesseiro. Hyuuga foi para o outro lado da cama e sentou-se escorando as costas na cabeceira da cama. Admirei-o em silêncio, ele era muito bonito. Desde as finas linhas de expressão próximo dos olhos quanto seu sorriso largo e aconchegante. Hyuuga sempre foi e sempre será perfeito para mim. Mesmo que ele seja muito preguiçoso quando se trata de trabalhos burocráticos no exercito, meu pai vive reclamando disso. Mas ele sempre foi excelente em combate corporal, não havia ninguém que o derrubasse. E devido aos anos de prática seu corpo era realmente apropriado para tal exercício, seus músculos eram definidos, seu tórax bem desenhado, deixando-o ainda mais sexy aos meus olhos.
— Então sobre aquilo...
— Se não quiser tocar no assunto Hyuuga, não toque. Vamos apenas fingir que nada disso aconteceu ok?
— Onde eu errei? — ele perguntou mais para si do que para mim — Onde eu dei margem para que me visse como homem?
— Você não fez nada Hyuuga, acredite. Eu também não aceitei isso de primeira. Procurei uma psicóloga, não tinha para quem eu pudesse contar. Bom, pelo menos, poder contar e não correr o risco de isso chegar até você!
— Uma psicóloga?
— Sim, eu não sabia... ou melhor ainda não sei lidar muito bem a situação.
— E o que foi concluído?
— Bem... ela disse que eu tenho o Complexo de Electra, que eu projeto o amor que tenho do meu pai em você... — respirei fundo — Eu a mandei a merda.
— Ela te dá uma explicação e você a manda a merda? — perguntou divertido
— Sim. Eu te amo, não quero que cuide de mim ou me mime, como um pai faria... e outra eu não quero que meu pai me foda... — falei séria.
— Ah... — Hyuuga ficou extremamente sem graça com o comentário.
— Não fique sem graça, não foi você que ouviu isso de uma estranha que acha que entende sua cabeça.
— Hum... — ele elevou a sobrancelha, ele estava querendo perguntar algo e não sabia como, sua comunicação corporal entregava isso — Bem...
— Pergunte logo meu jovem.
— Como pode ter certeza que isso tudo não é temporário, que eu sou apenas a figura de um homem que você casaria num futuro não muito distante?
— Com a mesma certeza que você ama Amélia. Com a mesma certeza que eu sei que o que estou fazendo ultrapassa o limite do absurdo. Mas com a convicção que o que eu sinto é verdadeiro, não tente inibir isso Hyuuga. Quando o inibi tentei procurar por companheiros parecidos com você... mas nenhum saciava o vazio que ficava aqui... — apontei para onde estaria o coração.
— Procurou por homens parecidos comigo?
— Sim, minha psicóloga quis morrer, quando contei a ela... tem certeza que quer ouvir? — indaguei incerta — Tenho vergonha do que fiz, mas não posso mudar o passado...- comentei
— Sempre me contou tudo, não é agora que se fará de recatada, não é Brenda?
— Quando comecei minha procura por algo semelhante eu estava com 14 anos... — comecei e meu nervosismo começou — Me relacionei com um homem de 23. Ele era gentil e afável como você, mas não me transmitia a mesma confiança, e sem falar que ele me pressionava para “evoluirmos a relação”.
— Com 14 você já...
— Não, permaneci virgem até os 17 por assim dizer.
— Como por assim dizer, menina? Não existe “meio virgem”! — ele exclamou estupefato
— Quieto, deixa eu contar! — reclamei mexendo em meus cabelos — Depois dele eu me meti em uma confusão que eu mesma causei. Eu já estava com 16. Eu comecei a sair com três rapazes diferentes que não tinham nada em comum a não ser a semelhança física. Todos tinham cabelos pretos, eram altos e olhos azuis. Meio que criei um padrão para a projeção do meu homem perfeito.
— Que tipo de confusão estaria falando?
— Namorar com um homem só, já da muita dor de cabeça, imagine com três! — comentei divertida — Eu tinha problemas para marcar os encontros, eu confundia os nomes, mas até então eu padronizei o apelido para “mor”.
— Porque “mor” é universal.
— Exatamente! — ri com seu comentário — Só que um certo dia aconteceu uma fatalidade...
— Antes de me contar, quantos anos eles tinham?
— Ah Richard tinha dezenove, Carlo acho que estava na casa do 30 e Erick ...
— O que tem Erick?
— Erick foi o único que eu me arrependi de verdade de ter o usado da forma que usei, ele era mais novo, ele tinha 13 anos.
— Perai, você namorou um garotinho?
— Sim... não me orgulho disso... eu só queria provar pra mim mesma que eu não tinha esse complexo do caralho a quatro.
— E usou uma criança? — Hyuuga estava furioso — Você é problemática!
— Sim eu sei... mas o buraco é mais embaixo Hyuuga. Lembra que falei que até os 17 eu era virgem... com o 16 eu queria tentar algo. Mas os outros dois eram mais velhos do que eu ... Carlo era bruto demais para que eu tentasse qualquer aproximação, eu tinha medo as vezes dele... e Richard era bobo, não tinha iniciativa... mas Erick estava ali... como uma tela branca para que eu moldasse as formas e tons que eu queria...
— Meu Deus... Brenda o que você ...
— Eu o induzi a fazer coisas sexuais... o ensinei o que eu havia aprendido com os outros relacionamentos anteriores. O Fiz submisso a mim... que sempre estivesse disposto a ser obediente tal como um cão... Bastava eu “brincar” um pouco com ele de maneira devassa e ele movia céu e terra para agradar.
— Chegou a finalizar o ato?
— Não... chegou um momento que quando cheguei em sua casa... seus pais não estavam, mas seus colegas estavam... eles jogavam algum jogo e risos infantis podiam ser ouvidos a todo momento.
— E o que isso tem a ver?
— Quando ouvi seus risos, seu quarto decorado com pôster de super- heróis eu comecei a chorar... chorei compulsivamente. Aquilo estava tão errado. No dia seguinte tratei de terminar as coisas.... mas Erick estava moldado de mais, estava dependente de mim... ele chorou como uma criança que ele era perguntando o que ele fez de errado... aquilo foi de partir o coração...
— Imagino.
— E naquele momento eu decidi terminar com todos, mas Ana, minha antiga amiga...
— Aquela que você parou de falar..
— Isso. Ela me dedurou para Carlo e Richard.
— Ah, está explicado porque você parou de falar com ela — ele simplesmente comentou
— Os dois me cercaram próximo dos dois postos.. Bem... Richard berrava horrores, mas como sempre não tomava uma iniciativa para concluir a situação... Carlo, já tinha algo em mente... Richard acabou por ajuda-lo no embalo... Fui estuprada e largada numa viela qualquer... e isso foi no meu aniversário de 17.
— Eles fizeram O QUE ? — Hyuuga gritou indignado — Não, eu escutei isso mesmo? Eles abusaram de você?
— Sim Hyuuga, mas já não importa mais isso.
— Como não!? Denunciou? Falou para alguém? — ele me bombardeava de perguntas ensandecido. — Me mostra quem que são e vou dar um trato neles...
— Não denunciei, eu merecia aquilo... fiz muitas coisas erradas.
— Ninguém merece .....
— Não digo que merecia o ato , mas merecia uma punição... e aceitei isso como uma... sem mais, nem menos... Apenas aceitei. Não fiquei traumatizada por causa disso, se isso for sua próxima pergunta. Não houve um sentimento de perda ali. Alias, não tinha qualquer sentimento por minha parte. E Para finalizar, eu fiquei dois anos sem fazer nada, sem ninguém ou procurando sarna para me coçar.... até que conheci o General Jarguer.
— O General dos campos de Norte?
— Sim ele mesmo.
— Ele não tem nada haver comigo! — ele exclamou — Estou realmente ofendido agora...
— Fica quieto e me escuta!
— Ok, ok Capitã... ficarei quieto!
Respirei fundo me lembrando do momento em específico. Encarei as feições franzidas de Hyuuga e não me contive em tocar o cenho franzido. Ri quando sua expressão suavizou, acariciei seu rosto e o mesmo fechou os olhos. Quando voltou a abri-los vi a sombra da dúvida neles. Aproximei-me mais dele, até que seu perfume pudesse chegar a mim. Seu corpo ficou tenso, mas não me mexi de onde estava. Nossos olhos estavam conectados, sua respiração batia em meu rosto. Por eu estar deitada eu podia visualizar seu pomo de adão tremular cada vez que ele engolia em seco. Com a mão livre segurei seu casaco e o puxei para baixo, num pedido mudo para que ele deitasse também na cama.
—Não irei tentar nada estranho, pode confiar...- tentei acalmá-lo sem sucesso — Apenas deite, meu pescoço está doendo de ter que ficar olhando para cima.
—Se fizer qualquer coisa, juro que mato você!
— Pode relaxar... não farei nada.
Hyuuga deitou-se na cama de lado, virado em minha direção, estávamos frente a frente agora. Sorri para ele. Hyuuga sempre é gentil, até mesmo comigo que não mereço.
— Então, conheci o General Jarguer quando ele veio na reunião aqui na sede. Naquele dia eu estava atoa ali, meu pai como general estava na reunião, então fiquei moscando do lado de fora. Resolvi andar pelo prédio, até que estava próxima a área subterrânea, perto da prisão. O General Jarder, havia sido designado a interrogar um dos bandidos, não sei, ao certo. Jarder me viu ali e acenou me chamando. Me aproximei, sequer o conhecia, mas que mal haveria em conversar um pouco, não é mesmo?
— Pelo seus padrões, está difícil responder isso.
— Um pouquinho Hyuuga, mas continuando, Jarguer me levou até uma mesinha que ficava ali perto sentamos e começamos a jogar conversa fora. Ele era um sujeito divertido, simpático, bonzinho. — comentei sorrindo enquanto lembrava — E calhou de você ir fazer uma missão externa, foi aquela vez que você ficou um mês fora.
—Sim eu me lembro disso. Aquilo foi exaustivo para mim!
— Jarguer estava muito presente desde aquele dia, sempre que o via eu o cumprimentava e conversávamos, até que um dia ele me convidou para um café em sua casa. Até então, não havia problemas, ele era um homem na casa dos quarentas, casados com uma modelo linda de morrer! E eu ali, uma jovem de meros dezessete, sem muito o que oferecer, ele não era uma ameaça e nem um pretendente em potencial.
— E o que aconteceu?
— Aconteceu que quando fui na casa dele, tomei café com ele, conversamos sobre coisas aleatórias, ele sempre foi gentil comigo. Fazia piadas, ela charmoso, não era bonito. Tinha lábia para conduzir uma conversa interessante. Até que por um momento ele soltou uma frase que eu interpretei errado. “ Você é jovem, bonita e com potencial e livre de compromissos — nem tudo que fazemos de errado os outros tem que ficar sabendo — é normal errar “, eu me lembro que estávamos falando sobre relacionamentos, obviamente eu não contei o que estou te contando, mas eu naquele momento, minha cabeça oca entendeu que ele estava sugerindo uma traição.
— Que diabos, o que se passar na sua cabeça?
— Noção é que não foi né, Hyuuga. — Bufei irritada, não precisava de alguém lembrando o quão retardada eu agi naquela hora. — A ideia de traição piscava na minha cabeça como luzes incandescentes a todo momento. E naquele momento o vi como homem em potencial, uma vontade louca de me relacionar com ele as escuras era tentadora demais. Mas nunca apoiei a traição, sim, mesmo eu namorando três caras diferente eu não apoiava o ato em si. Bem hipócrita isso. Afinal ali era diferente, ele era casado se algo desse errado eu estragaria o casamento.- comentei pensativa — Eu fiz o primeiro movimento, quando ele disse algo sobre buscar o álbum de alguma viagem no quarto eu me prontifiquei a seguir. Era um quarto com suíte, ele foi no guarda roupas procurar o maldito álbum, ele estava de costas para mim. Eu simplesmente me despi ali mesmo, fiquei só com as lingerie.
— Vergonha na cara a gente não se vê por aqui!
— Vergonha? Nunca foi uma palavra no meu vocabulário — ri em deboche — No momento em que Jarguer virou, ele se atrapalhou todo, deixou os álbuns caírem, seus olhos arregalaram , simplesmente petrificou ali. Aproveitei sua inércia e o conduzi a cama, eu estava quase conseguindo fazer com que ele transasse comigo ali. Mas sabe o que ele fez quando eu estava pronta pra tirar a calça dele?
— É que nem livro? Te jogou na cama e rapada na lixada?
— Não... ele me deu um tapa na cara e me jogou para fora da cama.
— Finalmente alguém com juízo nessa história.
— Eu chorei! Chorei como se não houvesse amanhã Jarguer se aproximou de mim e gritou um sonoro “não”. — expliquei a situação — Aquele não que fez com que eu parasse de fazer merda na minha vida. Talvez eu quisesse alguém que barrasse isso tudo... sabe parasse essa insanidade.
— E como ficou vocês dois depois?
— Estranhos, ele ameaçou a contar para Ayanami.
— Nada mais justo! — concordou Hyuuga — E Ele deveria, para alguém colocar juízo nessa cabeça!
— Mas ele não contou, agradeço isso eternamente. — ri abertamente — E Essa foi a minha situação Hyuuga. Minha psicóloga quase surtou quando terminei de contar tudo para ela. Ela queria até abrir um B.O contra o Carlo e Richard!
— E Ela deveria! Não deveria ficar quieta.
— Aí está as vantagens de sigilo profissional! — brinquei com a situação.
Ficamos num silencio constrangedor por um tempo. Eu me perguntando o que seria de mim agora... será que continuaríamos próximos como sempre fomos ou estaria caminhando rumo a destruição de nossos laços afetivos. Hyuuga estava de olhos fechados, seu terno era apenas a sombra do que foi no início da noite. Minha maquiagem devia estar só o bagaço... meus olhos ainda estavam úmidos. Mas estranhamente eu estava calma. Talvez por ter desabafado ou por simplesmente ter contado como eu me sentia. Admito que tenho um pouco de medo do que está por vir.
— Então... eu vou me casar
— Sim, você irá Hyuuga.
— Eu não posso retribuir o que sente, e você já sabe disso...
— Sim, eu sei. — respondi firme — Mas não importa o que aconteça, ou a sua decisão, você sempre será o Hyuuga que amo. Aquele que tem toda a minha confiança e sabe meus segredos...
— Sim eu sempre serei esse Hyuuga incrível que você está dizendo...
— Convencido... — reclamei — Vamos, levante-se, você tem um noivado para terminar lá fora! Levanta e vai...
— Não vem comigo?
— Não seja cruel... deixa eu sofrer sozinha aqui sim? — comentei emburrada — Não me faça ver o cara que eu gosto aos sorrisos e beijos diabéticos , sim?
— ... — ele soltou um longo suspiro e sorriu afável — Só por hoje...
— Obrigada!
Meu moreno lindo saiu da cama me deixando sozinha ali, ajeitou a roupa e estava preparado para sair do quarto, quando abruptamente ele parou, como estivesse fincado ao chão. Ele tremia, não sei o por que, cogitei que estivesse passando mal. Mas não, ele virou-se para mim e me encarava com os olhos vermelhos. E então eu o entendi, ele estava triste por me ver triste. Levantei-me também, fui em sua direção, arrumei sua gravata, dei o melhor sorriso que eu poderia dar no momento. Segurei-lhe a face com ambas as mão e lhe disse bem baixinho:
— Seja muito, muito feliz Hyuuga. Eu te amo... e por te amar quero-te feliz... Quero que seja o homem mais feliz do mundo... Mas essa felicidade não serei eu a fornecê-la, será Amélia... nós dois sabemos disto. Correto?
— Brenda... eu
— Não precisa falar nada Hyuuga, eu entendo, desculpe ter o colocado em uma situação chata... Apenas esqueça isso.
— Me Perdoe
— Não há o que perdoar... e mesmo que tivesse eu sempre o perdoaria..- falei mansinha — Agora vá...
Eu o vendo ali, tão inseguro e indeciso me fez sentir mal... o puxei em minha direção, fiz com que os vinte centímetros de diferença inexistissem na hora que resolvi beijá-lo. Ele travou e me empurrou.
— O que está fazendo...
— Estou te dando um motivo para sair deste quarto sem remorso. — Sentenciei séria, meus olhos presos ao seus — Vá...
E lentamente ele saiu do quarto me deixando só... algumas coisas mudariam a partir daquele instante, ele nunca mais seria o mesmo Hyuuga, ele se tornaria mais precavido, até se afastaria por um tempo, disso tenho certeza. Ri amarga com o pensamento. Ele sempre foi amável, nunca me desapontou, mas eu o desapontei a partir do momento em que falei todas as coisas que fiz. Provavelmente ele estava com nojo de tudo que foi narrado, mas ele não se atreveu a dizer no momento. E lá vamos nós, de novo ficar confusa!
Esperei um pouco ainda para sair de dentro do quarto... saí daquela casa sem que percebessem... peguei o carro de meu pai, já que a chave estava comigo e me joguei estrada a fora. Fiquei algumas horas na estrada escura. Eu estava chorando novamente, por mais que eu entendesse que Hyuuga já havia feito a escolha dele... eu estava fazendo a minha naquele momento. Quando dei por mim, eu já estava no pico das Monções, uma estrada velha e já inutilizada, devido a construção de outro caminho mais seguro e rápido. Estacionei o carro por ali mesmo, de qualquer jeito, afinal ninguém apareceria. Caminhei pelo asfalto precário até os restos da ponte que ali tinha.
A estrutura de ferro e madeira estava aos pedaços , mas as vigas grossas que interligavam um lado ao outro, estavam intactas, provavelmente a única parte da ponte que estava inteira. Levantei o vestido e tirei os sapatos novamente, larguei-os.
Ali ventava forte, fazendo com que meu vestido voasse em direções incertas e meu cabelos chicotear conforme a velocidade e constância da natureza. Coloquei-me a caminhar sobre a estrutura e parei na metade do caminho, segurando em alguns ferros que tinham próximos de mim sentei ali, para pensar melhor. Colocar a “casa em ordem”, por assim dizer.
Arrepiei-me conforme ia esfriando o clima, fitei a imensidão de água que havia sob a ponte, provavelmente ali teria muitos metros ainda para que chegasse próximo do rio. A noite estava bonita, a lua minguante estava ali, juntamente com uma imensidão de estrelas brilhantes. O som dos grilos se fazia presente, tudo estava na calmaria. Tudo parecia conectado, como se fosse um organismo vivo.
Um clarão vindo da estrada chamou a minha atenção, um carro para ser mais específica, que estava com o farol alto. O veículo prata estacionou ao lado do meu, e uma figura masculina saiu de dentro dele. Por mais que eu tentasse as luzes fortes não permitiam que eu identificasse quem era.
— Brenda! — a voz saiu num grito desesperado, provavelmente a pessoa não tinha me visto sentada ainda.
— Estou aqui! — respondi, enquanto acenava.
O homem ao me avistar entrou num estado de mini enfarto a me ver na ponte. Correu em minha direção, foi apoiando-se pelas partes boas da mesma até chegar perto de mim. Sua respiração entrecortada e pavor no olhos, num agarro forte, segurou meu pulso. Ele tentava falar algo mas não conseguia.
— Brenda... o que você ia fazer? — pela voz reconheci quem era e suavizei as expressões de surpresa.
— Vim pensar um pouco Richard, sente-se comigo aqui...
— Não, vamos sair daqui, é perigoso — ele praticamente suplicava.
Num suspiro frustrado me levantei e o acompanhei até terra firme. Richard era um dos soldados do exército e um dos meus melhores amigos. Tínhamos quase a mesma idade, ele era apenas dois anos mais velho, estava com 23 anos.
Richard era de aparência comum, tinha os cabelos curtos e castanhos claros, pele bronzeada, e um rosto normal, nem feio nem bonito. Ele sempre foi muito simpático, desde o momento em que o conheci sabia que seria uma amizade verdadeira.
— O que diabos, tu quer ô broto? — indaguei.
— Queria saber por que a moça saiu do noivado e veio para essa ponte escrota?
— Isso foi uma pergunta ou uma resposta? — falei irônica gesticulando
— Você entendeu! — ele reclamou — O que houve?
— Ah, nada de mais Richard... apenas quis tomar um ar.
— E tomar um ar a quilômetros de distância é o melhor a se fazer numa estrada abandonada?
— Sim! — Comentei apenas para irritá-lo — Brincadeira, eu queria pensar, o noivado estava me sufocando.
— Sufocando? — ele indagou — Por quê? O Hyuuga estava com você até então... e seu pai está uma arara por causa que você pegou o carro.
— Eu me confessei para o Hyuuga... — desabafei — E ... E...
— E agora você quer chorar... — ele sentenciou — Vem cá...
Richard me puxou para um abraço apertado e aconchegante, seus braços me envolveram por inteira, trazendo conforto e candura. E somente pelo gesto já senti meus olhos umedecerem, eu estava muito chorona hoje.
Abracei-o de volta e apoiei a cabeça na curva de seu pescoço, chorei como criança, pelo medo e receio do futuro. Foram soluços ruidosos por demais. E Richard acariciava meus cabelos em conforto. Meu mundo estava confuso demais, como lidaria com o afastamento futuro de Hyuuga?
Ele voltaria a me tratar normalmente algum dia? E se não o fizesse e se afastasse de mim completamente? Ele disse que continua a mesma coisa, e se ele falou apenas para me confortar?
Richard me soltou e fiquei um tanto desamparada e exposta demais. Seus olhos amendoados transbordavam compreensão e este sorriu. Afagou minhas maçãs do rosto com ambas as mãos. Permaneceram ali em meu rosto por um tempo até ele resolver que para resolver a situação fosse simplesmente afasta-las ao mesmo tempo e “Xablau” na minha cara.
Foram dois tapas simultâneos e ardidos nas bochechas, eu até parei de chorar tamanha a indignação e o susto. A ardência permaneceu e minha expressão de bunda também. Uma risada foi solta no silencio, preenchendo-o.
— Para de “mimimi”, se não, dou na tua cara de novo por ficar chorando por ele.
— Filho da puta! — gritei com ele tentando devolver o tapa — Você tá loucão cara?
— Viu, já está até melhor!
— Estou mesmo! E agora ao invés de chorar quero te esganar, infeliz! — comecei a bater em seu braço — Obrigada... — concluí por fim.
— Que bom que deu certo... quer ir para a minha casa, já que não quer ficar no noivado?
— Bora...só vamos deixar o carro lá...
Corri para o carro de meu pai e já me ajeitei para dar partida no carro. Foi rápido, em minutos já estávamos lá. Estacionei e já subi no carro de Richard. Coloquei o sinto e já me apoderei de seu som. Colocando uma música aleatória que me animasse, que provavelmente ele não apreciaria tanto quanto eu.
— Que foi, hoje eu estou na bad, e você como um bom amigo, não vai me negar uma música para me animar, não é amore?
— Sim, sim! O que eu não suporto por você!!!
— Quieto e dirija olhando para estrada. — reclamei
A música tocava animada dentro do carro, meus pensamentos estavam longe e fui tirada deles quando senti ser tocada no ombro. Richard estava obviamente me chamando e eu ali distraída. Olhei ao redor e vi que já tínhamos chegado na casa dele, preguiçosamente fui saído pela porta do passageiro. Meus pés claramente pediam clemência.
— Abre logo a porta que meus pés estão me matando... — comentei — Richard!
Richard conseguia ser um babaca as vezes, como por exemplo agora que ele começou a andar em “câmera lenta”, só porque falei sobre minhas dores de idosa de 80 anos. Acelerei o passo e fiquei parada na porta da casa esperando que a infantilidade dele acabasse logo!
Entramos na casa de Richard, meu amigo foi bruto o suficiente para não abrir a porta para mim, simplesmente entrou e me deixou para trás para fechar a porta. Sorri irônica, pensando que se fosse o Hyuuga ele teria sido um perfeito cavalheiro.
A casa era de tamanho médio, ele morava com seus pais, mas que estavam no noivado para variar, aliás, provavelmente o exército inteiro estava por lá. Como intimidade é foda, fui em direção ao quarto dele, enquanto ele estava na cozinha fazendo sabe-se lá o que. Alguma comida talvez, afinal ele é um saco sem fundo.
— Voltei... — ele anunciou — Você é folgada hein...
— Sim e você já sabe disso! — respondi divertida — Sua cama é confortável. — expliquei — E meus pés estão me matando!
— Ok.
Richard colocou no espaço vago da cama ao meu lado um prato com suco e algum lanche natural. Puxou a cadeira e sentou-se de frente para o encosto da mesma. Me sentei na cama para comer direito sem que derramasse algo.
— Nossa, isso aqui está bom.. — falei sobre o lanche.
— Fui eu que fiz, impossível estar ruim..
— Metido!
Começamos a rir de tamanha bobagem. Pedi para que ele se sentasse ao meu lado, logo foi atendido meu pedido, e o prato e os copos colocados sobre a cadeira. Me ajeitei da melhor forma possível e deitei com a cabeça apoiada em seu colo. Manhosamente pedi carinho no cabelo.
— Não vou ficar que nem uma B.F.F. fazendo cafuné! — Richard reclamou — E que folga é essa de ir deitando em cima dos outros?
— Cala boca infeliz, pega a porra da sua mão e meche no meu cabelo. Estou de coração partido e é sua obrigação como amigo me consolar!
— Mereço!
— Você tem sorte de não ser meu P.A ok?
— P.A? Que porra é essa?
— Sério mesmo Richard? — levantei de supetão e o encarei passada — Você só pode estar brincando comigo!
Richard me pareceu desconcertado e curioso ao mesmo tempo. Minha mente trabalhava loucamente para constrangê-lo ainda mais e me divertir um pouquinho com a situação. Richard sempre fora um rapaz muito focado, ele gostava bastante de ir a festas, mas não era de seu perfil ser garanhão, as moças que ele ficou foram por minha causa que as apresentei, mas eram coisas de uma única noite. E nem eram tantas assim.
— Ah, não quero contar...
— Começou termina!
— Então meu amor, P.A é Pau amigo, entendeu?
—... — ele claramente ficou constrangido — Era isso ..
— Háaa que bonitinho está ficando vermelho!
— Não diga besteira!
— Ai que fofo!
— Vai se foder! — ele me xingou nervoso mas as bochechas estavam em tonalidades róseas — E por que diabos alguém teria um P.A?
— Para o óbvio néh, Richard.
Ele revirou os olhos e fiquei me perguntando se tinha algo errado com ele. Afinal eu nunca conheci um cara que não gosta de ter sexo casual. Pensando melhor, Richard não se enquadrava nos padrões de garotos que conheci. Ele era extremamente diferente. Já nem sei quantas vezes ele teve oportunidade de tentar algo e nunca rolou nada, principalmente comigo. Não sei se ele preza a amizade, ou simplesmente não sou o tipo dele.
Agora mesmo, estou com o vestido levantado, o tomara que caia um tanto desajeitado e sobre sua casa ao seu lado, bem sugestivo, mas ele estava normal. Não que eu quisesse que ele sentisse algo, mas algumas vezes acho que ele me esconde algo. Será que devo abusar da intimidade e perguntar coisas indecentes para meu amigo?
— Richard, meu amor... não se sinta ofendido, mas eu queria te perguntar algo...
— La vem... — ele reclamou enquanto se ajeitava na cama e ficava na ponta desta deitado, fazendo com que eu ficasse na parede — Deita ai e desembucha.
Deitei ao seu lado como pedido, aproveitei e puxei a manta que tinha ao pé da cama para me cobrir, Richard pensaria provavelmente que eu estaria com frio ou algo do tipo, mas na verdade eu só queria evitar que quando me deitasse ficasse em evidencia o colo. Somos amigos? Sim!!!! Amigos não precisam mostrar os seios para outros amigos, então não vamos entrar em detalhes.
— Hum... deixe-me tentar achar uma forma... Você não gosta muito de ficar com as meninas que eu te apresento, a Camila estava comentando sobre...
— Ah não acredito que ela falou .... vaca!
— Calma, deixa eu terminar...
— Não quero ouvir, a vergonha já foi demais naquele dia!
— Richard, me escuta caralho! — briguei com meu amigo que estava bravo também — Não é isso que eu quero focar. Essas coisas acontecem...
— Sua amiga que era feia e me tirou o tesão...
— Quem você está querendo enganar? A Camila é uma das minhas amigas mais bonitas que tenho, e sem querer dar muita moral para ela... mas ela é linda demais.
— Arrhg
— Para de resmungar... você já pensou que não é bem isso que você procura?
— Como assim? — ele franziu o cenho — Seja direta, por favor, não sou adivinha para descobri aonde você quer chegar.
— Você é gay ?
Estarrecido seria a palavra exata que descreveria seu estado de espírito, seus olhos estava arregalados em incredulidade, os lábios abertos numa tentativa falha de falar algo. Permaneci séria aguardando a resposta.
— Mas é lógico que não!
— Então por que você não tem atitude com as mulheres?
— Porque eu simplesmente não vivo minha vida com o objetivo de arranjar uma! — ele esbravejou elevando a voz — Francamente! Ideia de jerico isso! Sua retardada!
— Não sou retardada! Foi uma suposição...
—Absurda! Absurda! — ele reclamava — De onde tirou algo como isso?
— Bom, digamos que você não tem o estereótipo de um homem viril...
— Nossa, meu ego está indo as alturas com isso, sua gorda!
— òhhhh! — ele me chamou de gorda, a coisa ia ficar séria agora, fula da vida sentei novamente na cama, mandei pro espaço o lençol, provavelmente eu estaria descabelada e com o vestido amassado — Como assim gorda?
— Olha esses pneus! Horríveis! — ele continuava a me provocar — Você sentada, você tem 4 tetas... que nem vaca... oh não isso é sua barriga!
— Filho da puta! — gritei — Seu broxa!
— Baleia!
Dei um soco de leve em seu ombro em revolta e frustração, dei o olhar mais mortal que consegui e fechei a cara. Gorda não!
— Seu enrustido de meia tijela! Babaca! A gorda aqui consegue se virar muito bem quando o assunto é macho!
Nem deu tempo de terminar a frase inteira que Richard me puxou com tudo e me derrubou da cama, fazendo com que minha cabeça batesse em algo que sequer identifiquei, aquilo doeu horrores. Estatelada no chão, tentei me levantar, mas minha cabeça latejava demais para tal. Logo Richard veio em minha direção, não percebendo meu estado ridículo de desnorteio me puxou pelos pulsos, deixando-me em pé. Me agarrei ao seu corpo em busca de apoio.
— Isso é para parar de ficar falando bobagens...
— Frouxo! — e a besta aqui ainda vai provocar ainda mais.
— Vou te mostrar o frouxo...
Dito isso são mãos fortes foram em direção as minhas cochas e me ergueram. Derrubou-me na cama novamente, deixando-me totalmente tonta.
— Ai chega, Richard, tu é viado mesmo! — reclamei — Minha cabeça, infeliz...
— Se está pedindo para que eu continue com isso!
Abri os olhos que até então estavam fechados e o encarei descrente. Aquilo não fazia sentido, era cômico, ele era frouxo e bem... não estava lidando bem com isso.
— Richard, convenhamos, eu sou gostosa e sei disso
— Humilde também...
— Cala boca homem! — reclamei — Eu to aqui, carente, com o vestido levantado e com as tetas saltando desse tomara que caia e você aí, nem sequer direcionou o olhar, Richard!
— Eu não vou ficar olhando essas coisas!
— Mas deveria Richard! Está vendo onde que está o problema? Você não olha, porque não gosta, ou não te chama a atenção!
— Não é como se eu fosse sentir algo pela minha amiga que parece um cara, de tanta asneira que fala.
Puxei seu braço de forma brusca, fazendo-o apoiar seu joelho na cama e ficar encurvado em minha direção. A esta altura do campeonato eu já estava sentada no fofo colchão, o encarando fixamente. Numa atitude no mínimo sem noção agarrei seu outra mão também e as repousei em meus seios.
— Pronto, está a prova que não sente um pingo de tesão por mulheres... — falei rindo enquanto ele ficava envergonhado e seu rosto ganhava outros tons.
— B-Brenda! — ele me repreendeu assustado ainda, mas segurei firme suas mãos.
— Se não me contar a verdade, faço colocar a mão em outro lugar, brother...
E como um filme americano de quinta categoria a porta do quarto foi aberta por nada menos que o pai de Richard. Fiquei branca na hora, Richard paralisou.
— O que os dois pensam que estão fazendo? — o senhor perguntou sério e com um brilho assassino no olhar.
— Exame de câncer de mama...? — nessas horas eu deveria ficar bem quietinha, mas NÃO minha boca fala antes que eu perceba.
— Então sinto interromper o exame, mas quero os dois lá em baixo, agora! — ele ditou sério e saiu fechando a porta.
Ficamos ali, naquela situação ridícula de mãos na teta e cara de passados. Não preciso ser um gênio para saber como aquilo tudo acabaria. Hoje definitivamente não estava sendo meu dia, o amor da minha vida estava se casando, e quando eu consigo esquecer disso por um momento, acabo provocando meu amigo, o que ajuda a distrair... Mas agora a realidade está aqui, dando tapas na minha cara e mostrando o quanto eu sou trouxa.
Richard afastou-se de mim, levantando-se e me puxando para também ficar de pé, seu olhar estava apavorado, afinal, ambos conheciam o temperamento rígido do pai dele. Suspirei cansada, segurei sua mão e indiquei o caminho até o andar debaixo. As mãos dele transpiravam pela ansiedade, isso acontece desde sempre, pelo que me lembro. Logo descermos as escadas, a luz da cozinha estava acesa, indicando que o velho estaria ali.
Sr.Burnes não parecia contente sentado na mesa da cozinha, aliás, ele não parecia contente nunca! Com a voz irritada ele ordenou que sentássemos. Obedientes aceitamos aquela adorável sugestão. Pois é... Brenda, você está de parabéns, pela segunda vez no dia você está servindo uma torta de climão!
— Quero explicações... por favor, nada sobre exame de mama, entendido?
— Sr.Burnes... bem eu...- tentei começar a falar algo – Sabe o que é...
— Pai, eu fui desrespeitoso com a Brenda. – Richard se pronunciou e eu arregalei os olhos com sua atitude – Ela namora o Edgar e mesmo assim...
— Ah, entendi a situação agora... Brenda querida, sei que vocês tem uma amizade forte, espero que essa atitude ridícula que Richard a fez passar não afete isso. – o senhor de idade falava calmo – Peça desculpa, Richard.
— Me desculpe, Brenda. Não irá mais acontecer!
— Oh.. eu quem peço desculpas... – tentei me desculpar por Richard está numa situação tão chata.
— Nunca mais destrate uma mulher... Não te criei para isso! – ele sentenciou – Dispensados. – quase ri deste comando.
Fomos para o lado de fora, Richard era um amigo excelente, e eu abusava disso. Sentei-me no banco que havia ali e meu amigo me acompanhou nesta ação. Sentados lado a lado ele passou seu braço por meus ombros, apoiando ali, dando aquele suporte de segurança que somente ele me daria. Edgar, o atual namorado, estava longe de me acolher daquela forma. Minha cabeça apoiou-se em seu ombro, ao poucos a tristeza insistia em bater lá no fundo. Mas eu já sou adulta, não posso ficar me lamuriando por causa de um cara que me rejeitou... mesmo que este seja o meu amor desde sei lá... sempre.
— Desculpa essa sua amiga doida que te põe em enrascada...
— Tudo bem... valeu a pena! – ele comentou risonho e acabei curiosa olhando para ele – São bem grandes! – ele comentou. – Edgar é sortudo!
— Idiota! – xinguei rindo triste – Edgar é um babaca.
— Um babaca que você está namorando... – ele tinha que lembrar esse detalhe.
— E que eu vou terminar... não adianta. Eu já tentei de tudo! Não consigo amar ele.
— Você realmente pensou que conseguiria amar Edgar?
— Eu pensei que... ele pudesse me ajudar a esquecer sabe...
— Muito sensato da sua parte... Arranjar um cara que te trata mal e que sequer percebeu que a namorada sumiu do noivado do Hyuuga... Ele te destrata muito, Brenda. Ele não te merece e você não tem que esquecer Hyuuga.
— Como não? – questionei incrédula com a ultima parte – Claro que eu tenho que esquecer. Ele vai se casar!
— Você tem que superar isso.
— Fácil falar... quero ver em prática.- comentei sarcástica, enquanto me aninhava ainda mais em seu corpo – Ainda bem que eu tenho você... Só você me entende!
— Sim, eu te entendo... – ele falou vago – E por te entender tão bem, eu quero uma chance.
Me afastei dele com o cenho franzido. Algo errado estava acontecendo. Richard me olhava intensamente. E por algum motivo aquilo mexeu comigo.
— O que está dizendo?
— Eu quero que me dê uma chance de te fazer feliz, Brenda. Eu sou seu amigo... eu conheço o seu pior... e eu realmente gosto de você...
— Não, espera..
— Você me perguntou o porquê que eu não corria atrás das mulheres... porque simplesmente a única que eu queria estava perdida de amores por outro. – meu coração amoleceu com o que foi dito.
— Nunca o vi como homem, Richard.
—Eu sei disso.- ele respondeu sério – Chega a ser irritante esse fato! – ele comentou casual.
Eu não estava pronta para o que viria a seguir, Richard me beijara, seus lábios nos meus eram suaves, o toque em minha nuca causava arrepios, retribui por reflexo, não estava pensando se aquilo era uma forma de me confortar, ou se eu estava usando-o para amenizar minha tristeza, apenas sei que Richard parecia se encaixar perfeitamente a mim. Quando separamo-nos eu o encarei em choque.
—Richard eu... eu não quero te usar como muleta! Você é meu amigo... Meu melhor amigo!
— Não serei a sua muleta... serei seu remédio. Basta você aceitar minha ajuda... me deixe amá-la da forma correta. Te mostrarei o amor a minha maneira... não precisa me responder agora, seria pedir de mais. Você está confusa ainda.
— Claro que estou... Fui rejeitada e meu melhor amigo diz que me ama! Lógico que estou! – falei exasperada.
Richard sorriu, aquele sorriso calmo dele, acabei o acompanhando... sempre era assim. Ele me fez um carinho no rosto e sussurrou as palavras doces a qual não me lembro, pois eu estava novamente chorando idiotamente. Esse babaca tinha que me fazer chorar!
— Eu não posso fazer isso agora... é muito cruel da sua parte me colocar numa situação dessas agora...
— Sim, sou bem cruel... Mas sou bem paciente.
— E se não der certo... tipo Edgar!
— Não me compare com ele! – ele pareceu zangado – Diferente dele você é a pessoa que eu mais prezo, Brenda.
— Não posso te dar uma resposta agora.
— Não pedi por uma. Agora pare de chorar, sua idiota!
Acabei rindo, Richard era bruto até quando tentava ser adorável, ai como eu odeio essa minha vida complicada. Cada vez que eu olhava para Richard eu queria rir, pois nunca na minha vida imaginei que ele me amasse. Estava tarde demais. Acabei falando para irmos dormir.... Fugir era uma das minhas melhores habilidades.
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Eu estava com certa pena de Hyuuga que parecia perdido com a situação atual, as olheiras profundas davam-lhe o aspecto cansado, os cabelos desgrenhados e os bocejos consecutivos não ajudavam em nada a manter a aparência de homem respeitável. O choro do recém nascido era potente, o pai de primeira viagem parecia querer chorar junto ao filho.
Com cuidado peguei o pequeno Alex e o ninei, aos poucos o choro foi cessando, Hyuga me agradecia com gestos enquanto estava largado no sofá ao lado do berço do quarto do bebê. Era engraçado. Uma diversão maldosa da minha parte. Amélia apareceu na porta do quarto e eu lhe entreguei meu afilhado.
Amélia estava radiante com a maternidade, não era por menos, meu afilhado era a coisa mais totosa do universo inteiro. A esposa de Hyuuga saiu logo em seguida, talvez ciúmes de mãe.. vai saber.
Hyuuga e eu estávamos normais... Nem parecia que a pouco tempo atrás eu estava chorando horrores por este homem, que agora é o pai babão mais abestado que conheci, estávamos bem. Disso eu tenho certeza. A nossa cumplicidade estava intacta. Não vou ser idiota de dizer que nos primeiros meses foi fácil, a distância se fazia necessária, eu não o esqueceria da noite pro dia, era um sentimento muito sólido para mim.
— Alex vai ser um menino e tanto...
— Meu filho vai ser igual ao pai... lindo de bonito! Vai arrasar quando crescer!
— Mas é um babão mesmo! – falei rindo.
Hyuuga levantou-se da poltrona, afagou meus cabelos e sorriu cansado, aqueles dois anos que se passaram foram o suficiente para entender algo muito importante.
— Oh... olha quem está aqui! – a voz de Hyuuga me tirou de meus devaneios.
— Richard! – exclamei dando meu melhor sorriso.
— Vou indo pro quarto... eu REALMENTE preciso dormir! – o moreno anunciou.
— Tudo bem! – respondi animada – Ah que bom que você chegou! Eu queria muito ir lá no shopping comprar um macacãozinho pro Alex, meu afilhado merece ser mimado! – comentei.
— Sim... mas não só ele, querida! – Richard falou enquanto me puxava para um beijo.
— É... você também merece um agrado de vez em quando...
Dito isso o beijei novamente. Agora me lembrei do que eu queria dizer quando comentei que aprendi algo importante naqueles dois anos... Nem sempre nosso primeiro amor vai dar certo. Vai doer. Machucar. Mas vai ter uma hora, prometo para você, que alguém vai aparecer quando menos esperar. Richard era aquilo que eu precisava... e eu apenas não tinha me dado conta disso.
— Eu te amo.- sussurrei em seu ouvido enquanto o abraçava.
— Você finalmente disse...- ele pareceu emocionado.
— Agora eu posso afirmar, Richard. Meu coração é 100% seu. Eu te amo e com toda certeza não o deixarei fugir de mim!
— E quem disse que eu quero fugir?
— Vai que você se cansa dessa doida, chorona, boca suja e melosa!
— Nunca!- acabei me divertindo com a situação – Depois de um ano de namoro você me diz que me ama...
— Antes tarde do que nunca!
— Sádica!
— E você me ama mesmo assim! Trouxão... – o abracei o mais forte que eu pude – Obrigada por ser paciente.
Finalmente eu posso dizer que estou bem... Estou completamente apaixonada por Richard Burners.
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