Primeiro, eu matei o meu pai...
3 Capítulo II.
Paris. A cidade luz, o lugar onde célebres nomes cruzam as ruas como se fossem meros mortais. Também asilo de uma família tão célebre e infame quanto os Bourbons franceses: os Romanov. Após a queda da coroa em 1917 e o fuzilamento de quase toda a família, uma única descendente de Nicolau II, Tatiana, sobreviveu graças aos seus poderes paranormais e ao resgate de Keith, cavaleiro de peixes da época. Depois de muitas batalhas e jogos psicológicos, o mínimo que Tatiana conseguiu recuperar foram propriedades e sua herança, a fazendo proprietária de uma fortuna incomensurável.
Seu atual herdeiro, Dimitri, vivia com a família em um prédio Haussmaniano perto da ópera, onde a família era proprietária de dois andares. Era uma vida tranquila, a cidade proporciona tudo o que eles precisavam, mas, às vezes os males de terem tanto dinheiro, mas pouco propósito, perturbava o homem. Diferentemente de sua mãe, Dimitri educava os filhos, como se no dia da sua morte, fossem assumir o trono da Rússia. Se ele pudesse, por mais que amasse sua vida de bon vivant, com poucas responsabilidades, retomaria sua monarquia, e o direito de governar de seu sobrenome.
O ruivo tinha dois filhos, Tatiana e Vladmir, crianças gêmeas de 7 anos, que eram o orgulho e o mimo dos pais, Raissa, mãe dos gêmeos tinha sido espiã do governo comunista, mas sua missão de eliminar o jovem Gatsby russo, acabou por se tornar um casamento. Era uma linda tarde primaveril, o sol brilhava tímido para o encanto e deleite dos turistas. Como de hábito, a morena levaria as crianças junto com Vassily, seu melhor amigo e chefe da segurança da família a um dos famosos museus da cidade. A jovem mãe caminhava tranquila pelo apartamento, portando um terninho chanel branco, até encontrar o marido fumando na janela, enquanto observava o movimento da rua.
—Querido, vou levar os monstrinhos para o Museé Rodin, quer ir? — A morena abraçou o marido pelas costas, ele que se virou e a deu um selinho
—Querer eu até quero meu amor... mas não acho que não posso sair… — O ruivo suspirou e a olhou com um ar divertido — E não chame eles de monstrinhos… são tão fofinhos.
—Ah, mas por quê? — Ela deu um meio sorriso, o encarando com os enormes olhos verdes, acariciando o rosto do marido — E verdade… monstrinhos são os seu cachorros.
—Por quê mamãe disse que quer me ver e… Não fale dos cachorros! Você tem ciúmes deles.. isso sim… — Dimitri suspirou mais uma vez e olhou o relógio de pulso
A Russa ouviu os gritos de comemoração das crianças e os latidos agudos dos huskys, aquele escândalo todo deveria ser a sua sogra. As crianças tinham uma verdadeira adoração pela avó. Também pudera, como ela poderia manter a tamanha doçura mesmo depois do que tinha sofrido.
A senhora que caminhava de braços dados com os netos, parou para se segurar na parede e logo foi amparada pelo filho que desceu num pulo da janela:
—Oi, mamãe! Não acredito que te deixaram vir sem ninguém te ajudar a andar… sinceramente..
—Oh não, meu querido — A senhora de enormes olhos azuis deu um risinho — Seus cachorros, para variar, estão prendendo sua irmã no saguão.. você sabe como ela os adora… — Ela tinha um ar irônico quando segurou um dos braços do filho
Raissa, que tinha seu semblante tranquilo, logo fechou a cara ao ouvir da presença de sua cunhada. Alexandra era intragável, vivia de se queixar com sua mãe e seu irmão e dizer que ela não prestava e que seu irmão era um bobo de ter caído nas garras de uma cadela comunista interesseira.
—Ah Dimitri! — Uma voz se ouviu entre os latidos — Você pode, por favor, recolher seus pulguentos para que eu possa entrar em casa?
—NÃO! — gritou o pequeno Vladmir, correndo com a irmã aos risos logo depois- Vem Bombay!!
—É sério que você falou que eu iria sair com as crianças pra sua irmã? — Rosnou — E pior, convidou ela?
—Amorzinho, me perdoa... ela ligou pra saber dos bebês… — Disse ele, com um sorriso amarelo — E eu meio que deixei escapar...
—Ah não Dimitri! É tortura passar uma tarde sozinha com sua irmã… Tortura essa que pode acabar em homicídio.
—Mas o Vassily não vai com você, meu amor?
—Pra cuidar da gente, não pra ficar rindo dos turistas estranhos comigo — A morena fechou os olhos e bateu o pé — Ela só sabe me atacar, debochar de mim e você sabem muito bem que eu não sou mulher de aguentar desaforos.VOCÊ que deveria fazer o programa cultural dessa semana então.
—Deixa de drama, Raissa… — Dimitri se afastou da mãe e foi para o lado da esposa, a abraçando ternamente — Eu tenho uma reunião importante hoje. Por isso que sugeri o passeio a você e ao Vassily.
—Eu sei, mas que inferno — Disse ela, se arrepiando com os toques do marido
—Prometo que mais tarde te recompenso. Posso te levar pra jantar e… — Quando o ruivo ia completar, ouviu as pisadas fortes da irmã e os gritinhos das crianças — Boa sorte...
A morena amaldiçoou baixinho o marido, respirou fundo e virou o corpo, sorrindo falsamente ao ver a cunhada surgir na ponta do corredor:
—Alexandra! Resolveu juntar-se a nós nesta maravilhosa tarde?
—Me parece muito feliz Raissa. Está sob o efeito de antidepressivos? — A mulher de cabelos compridos castanhos disse, alisando a cabeça de uma das crianças — Vamos, antes que entardeça! Não quero que as crianças fiquem no sereno.
Raissa apenas encrespou os olhos e praguejou mentalmente, até ouvir a voz de Vassily:
—Vamos? — Ele tinha um ar de riso, pois sabia que a amiga odiava e era odiada pela cunhada — Tente não afogá-la nos jardins do museu tá ? — sussurrou — Eu sei que vai ser difícil — Oferece o braço
—Afogar? Eu queria era enterrar meu punhal na jugular dela! “Está sob o efeito de antidepressivos Raissa?” — Ela imitou com ódio a voz da cunhada e ouviu o loiro prender uma gargalhada — Coitada da minha sogra... ter sido obrigado a criar essazinha...
—Ah minha querida… Porque você acha que a maluca vivia trancada no colégio interno enquanto o senhor seu marido era mimado pela sua sogra.... por isso ela é amarga desse jeito e o seu Mitrya parece uma princesa.. — O loiro deu um risinho e se apressou em descer para conferir o carro e a segurança para que as mulheres descessem tranquilas.
—Vamos crianças? — A morena disse animada, tentando ignorar o fato de que passaria a tarde com um desafeto declarado — Antes que fique tarde demais.
—A gente pode tomar sorvete, mamãe ? — O pequeno Vladmir pulava em volta da mãe enquanto sua irmã apenas seguia apressando o passo, fugindo da tia.
—Só se vocês se comportarem está bem?-A Morena apertou uma das bochechas do filho, que fez uma careta.
Raíssa e Alexandra não pararam de trocar ofensas durante todo o trajeto e em boa parte do passeio. Algumas mais sutis e outras tão pesadas, que era necessário que Vassily interviesse, afinal elas estavam em um local público. O passeio se tornou tediosos e até um pouco vergonhoso, sobretudo para as crianças. Vladmir sempre foi um pouco mais centrado, enquanto Tatiana era quase ou tão geniosa quanto a mãe. Irritada com mais uma briga das duas, acabou se afastando do grupo e indo para outra ala do museu. Vlad alertou a mãe e a tia, mas parece que piorou tudo, pois a briga das duas começou a ficar mais intensa:
—Eu não acredito que terei que resolver tudo sozinho — o pequeno resmungou, saindo de perto dos adultos em busca da irmã.
Apenas alguns minutos depois, Raíssa olhou para os lados e se desesperou quando não viu os filhos:
—Vassily, o que-...
—Tatia se irritou com vocês brigando e decidiu olhar as esculturas em outra ala. Vlad tentou avisar, Alexandra o chamou de malcriado, você rebateu e voltaram a discutir. O pequeno se irritou e foi procurar a irmã sozinho.
—E você não foi atrás deles por quê? — Alexandra vociferou.
—E correr o risco de vocês duas serem presas? E eu tô falando da coisa mais branda que poderia acontecer, pois sei bem que as duas são capazes de tirar facas das bolsas e tentarem matar uma a outra.
—Sério, Vassily, não é hora pra isso — a morena indagou, tomando a frente do grupo — conheço bem Tatiana para saber onde ela está.
A ex-espiã tinha razão. Encontrou-a junto do irmão e perto de um homem de cabelos extremamente loiros. Sentiu o sangue gelar em suas veias. Ele não parecia russo, mas ainda assim ela sentia algo sobre ele. Algo que não lhe agradava nem um pouco. Após a partida dele, interrogou Tatia, que disse exatamente o que ela havia dito:
—Eu acredito em você — a morena respondeu, ainda tensa.
—Como acredita? Essa sua miniatura com cabelos de fogo aproveitou-se de um momento para escapar e ainda começou a conversar com estranhos.
—Meus filhos não mentem para mim, Alexandra… Eles sabem que não podem.
—Ah claro… Você tem treinamento para detectar mentiras, esqueci que você é da KGB.
—Alexandra, pela última vez… Ah, quer saber? Desisto. — olhou para os filhos — O passeio da semana que vem será mais tranquilo. Eu prometo.
—A senhora podia fazer o que está pensando que eu não ia reclamar — a pequena ruiva murmurou — seria interessante vê-la com uma faca na jugular.
—O quê? — Alexandra se espantou
—SORVETE! — Vlad falou mais alto — Vamos tomar um sorvete pra compensar esse passeio ruim. Tia Alix paga, já que ela estragou tudo.
—Vladimir Dmitrievich Romanov, contenha essa boca!
—Ele tem razão, Raíssa — a mulher falou, abaixando para ficar na altura das crianças — Eu vou compensar ter estragado o passeio de vocês, mas, ao invés do sorvete, vou levar vocês ao rancho para verem os potros que nasceram há algumas semanas. O que acham? Só vamos deixar sua mãe em casa e buscar a Babushka. Depois eu trago vocês com minha caminhonete.
A resposta veio em forma de sorriso. Vassily os conduziu de volta ao apartamento. Alexandra estava calma e sorridente, para espanto de Raíssa. Ela sentia que aquela expressão não ia durar muito e, mais uma vez, estava certa. Ao chegar lá, Dimitri pediu a irmã que cuidasse dos gêmeos, pois precisaria ir a um jantar de negócios com Raíssa. A expressão sorridente desapareceu e ela voltou a ter a expressão carrancuda de sempre:
—Claro que sim, Mitrya… Eu cuido dos pequenos hoje.
—Ah, que bom, Alix — o irmão a abraçou — Eu juro que te compro um presente bem bonito para você. Que tal uma caminhonete nova?
—Não… Eu gosto da minha. Vamos? Senão fica tarde para vocês verem os cavalos.
Apesar de não serem grandes fãs da tia, Vladmir e Tatiana adoravam ir ao rancho em que ela e a avó moravam, há cerca de 1hr de Paris. O lugar era calmo, tranquilo e tinha um enorme jardim e um bosque, pelos quais os pequenos eram apaixonados. Alexandra sabia disso e seguiu todo o caminho falando aos sobrinhos sobre os potros que tinham nascido semanas atrás. Os gêmeos estavam mais do que animados para conhecerem os filhotes, porém, assim que Vassily os deixou e retornou para Paris com o Rolls Royce, Alexandra fechou a cara e falou:
—Agora vão tomar banho para que possamos jantar em paz – resmungou, segurando a mãe por um dos braços, ajudando-a a caminhar – Eu não acredito que aqueles dois resolveram me fazer de babá justo hoje!
—No tetya – Vlad murmurou, com leve voz de choro – Pensei que você ia nos mostrar os potrinhos.
—Xenya, minha filha! Leve os pequenos para verem os potrinhos! Precisam se distrair — A idosa cruzou os braços encarando a filha
—Você não ouviu quando mandei tomar banho para jantarmos? — ela o olhou séria -Andem, entrem logo e me obedeçam!
Os gêmeos seguiram de mãos dadas e cabeça baixa até o andar de cima ouvindo a avó reclamar em russo com a filha. Naquela casa não se dava praticamente uma palavra de francês. Foram diretamente para a porta da suíte onde eram acostumados a dormir. Ainda ouviram a tia resmungando para a mãe sobre como Dimitri escolheu Raíssa, sendo que era cortejado por belas moças, inclusive algumas princesas. Tatiana sentou na cama e revirou os olhos:
—Sério… Às vezes eu entendo porque a mamãe discute tanto com ela.
—Ela é nossa tia, Tatia… Mais respeito.
—É nossa tia, mas é uma completa chata – pulou da cama e encarou o irmão –Ela nos enganou com bebês!Vamos dar a poção do papai.
—Mas…
—Papa explicou exatamente como fazer – a ruivinha falava, enquanto tirava um pequeno vidrinho do bolso do pijama– 20 gotinhas no chá que ela toma antes do noticiário… Bastam 20 gotinhas e 5 minutos para que ela durma como um bebê por 12 horas. Só precisamos manter o teatro do jantar e aguardar ela apagar.
Conforme o combinado, os gêmeos tomaram banho e vestiram os pijamas horrendos que a tia gostava que eles usassem quando dormiam por lá, desceram e jantaram tranquilamente ao lado dela e da avó. Não tinham problema com a comida, parecia estranho, mas eram crianças que gostavam de vegetais. Enquanto comiam os morangos com Chantilly que a avó colocara de sobremesa, observaram a tia ir até a cozinha colocar a chaleira de água no fogo. Acompanharam atentamente o apito indicando a fervura da água, Alexandra colocando a água na infusão de folhas e saindo da cozinha, enquanto falava:
—Vou levar a mamãe para o quarto e, depois, assistirei meu noticiário. Terminem logo de comer esses morangos para escovarem os dentes e irem dormir.
Eles precisavam ser rápidos e silenciosos. Ouviam as passadas lentas da vovó Tatiana em direção ao quarto, enquanto sua tia reclamava algo em russo. Vladmir correu para a porta e vigiava, enquanto Tatiana pingava as gotas do tranquilizante que Dimitri lhe dera:
—Será que vai funcionar? — o ruivinho murmurou.
—Papa garantiu que fez isso a vida toda, sempre que a Tetya vinha para casa nas férias… Se ele está vivo, significa que funcionou.
—Ela tá voltando.
Os dois correram e sentaram em seus lugares, observando a tia pegar a caneca com a bebida fumegante e seguir para a sala de TV. Ficaram um tempo apenas fingindo que comiam, até ouvir o ronco somado ao âncora do telejornal. O sonífero funcionava:
—Agora vamos brincar com os cavalinhos– riu o ruivinho animado, correndo para fora da cozinha.
Já no estábulo, os gêmeos olhavam os potrinhos tão bonitos e espertos. Vladmir sempre tivera um fascínio por cavalos, já Tatiana os achava bonitos, mas apenas isso. Não gostava de montar e nem de ficar muito tempo próximo aos animais:
—O que acha de darmos uma volta, Tatia? — o pequeno questionou, já colocando a sela em um garanhão.
—Você sabe que não sei montar, Vlad – respondeu, segurando o cotovelo esquerdo e desviando o olhar.
—Não confia em mim?
—Claro que confio, mas… — respirou fundo – Ah, quer saber? Vamos.
O ruivinho ajudou a irmã a montar e saíram, cavalgando noite adentro pelo bosque no entorno do rancho. A cada vez mais, um sentimento ruim possuía Tatiana. Ela passou as mãos com força na cintura do irmão, que apenas riu e comentou:
—Calma, Tatia… O Vassily e a mamãe me ensinaram a cavalgar. Eu não vou te derrubar.
—Não é isso, Vlad… Eu… Estou com um sentimento ruim. Vamos voltar?
—Pare de ser boba, sestra . Não vai nos acontecer nada, confie em mim.
De repente, o cavalo parou de trotar. Um homem usando uma armadura negra estava parado de frente para o animal. Por mais que Vlad batesse as rédeas, o garanhão não o obedecia, era como se ele tivesse perdido todo o controle sobre seu corpo. Ambos os gêmeos estavam apavorados. Foi quando sentiram uma pressão no ar e foi como se uma mão invisível arrancasse Tatia do cavalo, fazendo-a cair direto no chão. Em seguida, outros homens de preto saíram das sombras. Vladmir fez menção em gritar, mas, do nada, o cavalo deu meia volta e saiu trotando em disparada, dando tempo do ruivinho apenas olhar para trás com os olhos lacrimejando, vendo as pessoas de preto se aproximando de sua irmã:
—Eu juro que voltarei com ajuda – gritou e sentiu um aperto no peito. Era sua irmã apavorada.
—Ora, Ora… Finalmente achamos a princesinha – um dos homens falou, se aproximando da criança paralisada no chão. Ele falava francês, mas seu sotaque era diferente. A herdeira dos Romanov rapidamente notou a semelhança com as camareiras do hotel de um passeio que fizera com os pais a Mônaco – Passamos horas esperando aquela mulher ranzinza sair da cola dela.
—Então vamos logo, Chad – um outro homem falou, seu sotaque já era um pouco mais americanizado – Ananda não é de muita paciência.
—Você é um grande puxa-saco, Kiev! — um terceiro homem falou – Ela é apenas a mulher grávida do chefe.
—A mulher grávida do chefe e que é mais poderosa que você, Ivo. Na verdade, mais poderosa que vocês três juntos!
Tatiana sentia o corpo pesado, como se estivesse sob efeito de um feitiço. Ouvia a conversa daqueles homens com atenção, tentando entender o que estava se passando. Eles usavam roupas parecidas com armaduras, nada que ela já tivesse visto. Será que eram sequestradores ou mercenários? Ou será que a KGB finalmente viera se vingar por sua mãe os trair para casar com Dimitri, o cara que ela devia vigiar e eliminar? Foi quando viu uma figura feminina se aproximando e impondo respeito naqueles brutamontes. Tinha traços indianos, mas um cabelo enorme e alaranjado. Ela também usava armadura, mas tinha uma característica interessante: estava grávida:
—Acho melhor irmos, Ananda – o homem primeiro homem falou – A princesinha tem fama de arisca. Apenas está calada porque lhe apliquei um golpe paralisante.
—Que seja! Peguem logo ela e vamos para o ponto de encontro – virou de costas e murmurou – Só espero que Zephiros tenha conseguido pegar a outra garota sem trazer a maldita da ex-mulher junto. Espero que aquela porca francesa tenha mantido toda a devoção a cavalaria de Athena que possuía há 5 anos.
A ruivinha percebeu que a mulher era a líder do grupo, o que ela achou deveras interessante. Gostava de mulheres fortes. Inspirava-se nelas para o dia que enfim recuperasse o trono que pertencia a sua família. Em seu íntimo, achava a líder de sua gangue de sequestradores interessante, a começar pela armadura e pelo poder de voz sobre todos aqueles brucutus. Apesar de temerosa, a pequena adoraria conversar melhor com a mulher, mas achou melhor guardar esse desejo para si, principalmente quando foi pega nos braços por Chad e viu Kiev tomar a linha de frente e, manipulando o vento, atirar chamas em direção a diversas árvores do bosque. Foi somente nesse instante que o medo lhe assolou e o grito preso na garganta finalmente fluiu:
—Me soltem, seus mercenários malditos – apesar de apavorada, a frase foi proferida de forma firme.
—Olha só, ela conseguiu quebrar o golpe e falar – Ivo debochou – Não precisa gastar sua voz comigo. Pode falar o quanto quiser, que não vamos te soltar.
Ao ameaçar, o homem colocou a mão em seu rosto e, em troca, recebeu uma mordida no braço, respondida com um tapa na face direita da garota. Quando daria mais um tapa, o homem apenas caiu desfalecido no chão. Kiev interrompeu as chamas e olhou para Ananda, sussurrando algo que Tatiana não compreendeu:
—Cavaleiros...
—Não, Cavaleiros não, meu caro… Amazonas!
Kiev foi atingido por um duplo chute desferido das duas jovens que chegaram ao local. A ruiva só descobriu que eram garotas por causa da voz, pois ambas usavam máscaras, além de armaduras mesclando cores e prata revestindo o corpo. Ananda rugiu, deu um grito e foi rodeada por mais homens com armaduras negras, desaparecendo entre eles, enquanto as garotas mascaradas lutavam contra os demais caras. Chad pegou a criança nos braços e também aproveitou para correr, mas por uma direção oposta. Tatiana entendeu que nada importava, a não ser entregá-la a quem quer que fosse:
—Shina! Um está fugindo com a garota! – Gritou uma das jovens, rodeada pelos mercenários.
—Ah não! Ele não vai fugir não, Geisty! – Respondeu a tal Shina, uma jovem com forte sotaque italiano, correndo na mesma direção que Chad com uma habilidade incrível. Quando Tatiana se deu conta, ela estava na frente, bloqueando o caminho de Chad – Eu não faço ideia do que vocês querem com a garota, seus merdinhas da Ilha da Rainha da Morte, mas deixem-na em paz GARRAS DO TROVÃO.
A ruivinha viu a mulher erguer os punhos para o alto e sentiu como se eletricidade percorresse o seu corpo, sobretudo quando Chad caiu no chão, afrouxando os braços para que ela escapasse. Um sorriso surgiria em seu rosto, se Kiev e outros dois guerreiros negros não tivessem aparecido e a pegassem, correndo em seguida, na direção oposta. A Italiana arfou e gritou para sua companheira:
—Como você os deixou escapar, Geisty? Você já foi melhor que isso!
—Mantenha o respeito, Shina! Não é porque você é precoce e prodigiosa o suficiente para vestir uma armadura de prata sendo tão jovem que pode falar assim comigo! Eu ainda sou sua mestra!
—Aff... Está bem, me perdoe, Geisty.
—Ficar falando não adiantará de nada. Temos que resgatar a menina.
—E o incêndio?
—Logo alguém alertará os bombeiros. Vamos logo, antes que esses lixos de subcategoria escapem novamente.
As duas amazonas correram até uma clareira, derrubando os dois guerreiros menores, sobrando apenas Ananda e Kiev na linha de frente. O Cavaleiro Negro avançou contra elas, investindo o máximo que fosse. Eram dois contra dois, porém Ananda parecia mais preocupada em proteger a menina. Shina, astuta, percebeu a atitude da comandante daquele grupo. Na certa, a garota era uma mera mercadoria:
—Geisty! — a italiana de cabelos esverdeados bradou – A menina! O único objetivo deles é a criança!
—Mas o que os Filhos do Vento querem com essa fedelha?
—Não faço ideia, mas deve ser alguma barganha. Você mesma me explicou que, a maioria dos Cavaleiros Negros que conseguem escapar da Ilha da Rainha da Morte, sobrevivem agindo como mercenários.
—Faz todo o sentido… Bom, mas se a garota é a moeda de troca… — Geisty elevou o cosmo assombrosamente – basta livrar-nos desses dois e a salvamos! GARRAS DO INFERNO.
O golpe dilacerou o Cavaleiro Negro. Teria atingido também a amazona grávida, porém Kiev a protegeu como se fosse um escudo humano. Era uma verdadeira devoção por sua líder. Por fim, restavam apenas as três amazonas e uma criança:
—Eu sei que estamos no meio de uma batalha – Shina falou, se aproximando sem baixar a guarda – Mas minha honra não me permite agredir uma mulher grávida.
—O que é uma verdadeira pena, Amazona de Athena, pois eu não possuo empatia em combate – a mulher de negro sorriu ardilosamente, jogando a garota no chão – Vou acabar com você.
—Pelo amor dos Deuses, Shina – Geisty reclamou, partindo para cima de Ananda, que espancava a jovem italiana sem piedade.
Tatiana assistia a tudo aquilo ainda paralisada. Precisava fazer alguma coisa. Precisava de forças para ajudar aquelas garotas de máscara. Pensou no pai dançando Beatles com ela na sala do apartamento, no irmão que fazia de tudo para que ela confiasse nele, na mãe atirando punhais na parede quando ficava nervosa, na avó lhe contando histórias fantásticas e lhe ensinando a falar russo e até na tia sendo, bem, sendo ranzinza e chata como sempre. Quando se deu conta, estava de pé. Sentia seu corpo quente, pisando na grama do bosque – nem se deu conta de quando perdeu um dos calçados:
—Ei você – a jovem atirou uma pequena pedra, que atingiu o ombro da amazona negra – Seu nome é Ananda, não é? Pois bem, deixe-as em paz! É a mim que você quer, não é mesmo?
A mulher indiana virou e encarou a garota, não acreditando naquilo que via. Os cabelos ruivos estavam voando e uma aura avermelhada circulava seu corpo. Palavras começaram dos pequenos lábios rosados, enquanto ela encarava a sequestradora. Ananda permanecia espantada, até que sentiu uma dor lancinante, como se diversas agulhas perfurassem sua cabeça. Era apenas uma criança, uma criança que não tinha domínio sobre seu poder. Geisty e Shina, que estavam caídas, ergueram a cabeça e encaravam tudo abismadas. Foi quando um brilho dourado tomou conta do lugar e uma bela figura surgiu. Afrodite de Peixes finalmente chegou ao local no qual sentiu o cosmo de suas asseclas. O sueco também ficou em choque com o que acontecia, mas percebeu que o poder que atingisse o chão:da pequena se esvaia. Correu o mais rápido que pode, conseguindo pegá-la antes
—Diabos… — Ananda murmurou, antes de usar suas últimas forças para lançar uma rajada de vento no chão, espalhando poeira, que serviu de camuflagem para que ela escapasse.
Shina fez menção em segui-la, mas foi impedida por Afrodite:
—Deixem-na… — o sueco murmurou – É desleal duas amazonas de prata seguirem uma Amazona Negra – A essa altura, as chamas consumiam uma parte do bosque e sirenes dos bombeiros podiam ser ouvidas ao longe — Ainda mais ela estando grávida e ferida. Certamente, tem alguém a esperando...
—De fato… Você não reparou, Shina, que os homens a protegiam em excesso? Não era apenas por ela, aparentemente, liderá-los: era pelo fato da gravidez. Parece que as mulheres são raras na Ilha e, quando carregam um descendente, são extremamente protegidas. Creio que esta mulher era muito importante dentre os Filhos do Vento, senão jamais estaria no campo de batalha.
—Mas agora… Acho que temos outro problema…
Ambas olharam para a garotinha nos braços de Afrodite. Ela apertou a mão dele, sorriu e falou:
—Marie Curie que nada! Isso é que é poder feminino– olhou nos profundos olhos azuis do rapaz e falou — Nossa! Como você é…. — em seguida, desmaiou.
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