Primeiro ano

Dúvidas


Aquele dia foi mágico. Sempre que penso nele é como se lembrasse de um sonho. Mas depois me dou conta de que ele realmente aconteceu. Ela me aceitou! Ela quis ficar comigo!

Já se passaram alguns meses. Saímos algumas vezes e conversamos muito. Ela deixou que eu lesse seus rascunhos. Eram sempre histórias tristes, sombrias e que me faziam pensar: “Eu realmente posso ajudá-la? Posso fazê-la feliz?”. Ela já havia passado por coisas que algumas pessoas não aguentariam; que eu não aguentaria. Eu entendi finalmente o sentido de “fugir da realidade”. O que eu mais queria era ajudá-la. Ver aquele sorriso todos os dias e, se possível, ser o motivo dele.

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As férias de julho chegaram. Ela passou pelos dois primeiros bimestres com méritos, o que, é claro, não me surpreendeu. Tínhamos planos para todos os dias de férias e eu estava feliz por isso. Mas, apesar dessa alegria algo me incomodava. Ela não disse, nem uma única vez, o que sentia por mim. Ela demonstrava que gostava de mim de varias formas e eu achei que isso fosse o suficiente. Mas começou a me incomodar. Ela não é o tipo de pessoa que brinca com os sentimentos de alguém, tenho certeza disso. Mas depois de 4 meses de namoro acho que ela deveria ter dito alguma coisa. E não é só isso. Ela tem agido de forma estranha ultimamente. Ela está se fechando para mim de novo. Está falando menos que o normal e isso está me enlouquecendo. Sempre que pergunto se algo a está incomodando ela desconversa ou muda de assunto.

Hoje vamos sair de novo. Vamos ao zoológico. Talvez em um local mais neutro, onde nunca fomos juntos, mas que também é tranquilo, ela me diga o que a preocupa. Eu ia busca-la em casa. Minha mãe nos levaria e os deixaria lá, depois nos buscaria.

Arrumei uma cesta com lanches que ela gostava. 8h saímos, eu e minha mãe, de casa. Passamos na casa da Kali e 9h já estávamos no zoológico. Andamos um pouco, vimos animais que nem mesmo sabíamos que existiam, até que ela disse estar cansada. Coloquei um lençol na sombra de uma árvore e nos sentamos. Ela encostou a cabeça no tronco e fechou os olhos.

– Você está bem? – perguntei um pouco preocupado.

– Estou. Só um pouco cansada.

– Talvez não tenha sido uma boa ideia vir a um lugar em que temos que andar. Talvez seu corpo ainda não esteja totalmente recuperado.

– Não, eu gostei.

– Você quer lanchar?

– Quero.

Comemos alguns sanduíches em silêncio. Ela parecia estar com a cabeça em outro mundo. Eu também estava. Pensava o porquê daquilo. Será que ela perdeu o interesse e estava apenas procurando uma forma de me dizer?

– Posso te fazer uma pergunta? – quebrei o silêncio. Precisava saber.

– Claro.

– O que você sente por mim?

– Como assim?

– Eu só quero saber – ela hesitou.

– Você sabe o que eu sinto.

– Sim. Mas eu queria que você me dissesse.

– Mas se você já sabe, eu não preciso te dizer – ela estava fugindo do assunto. Me irritei. Por que ela não me dizia? Por que desconversava? Fugia? O que havia de errado? Respirei fundo.

– O que está acontecendo, Kali?

– Nada.

– Já disse que você mente muito mal.

– Não é nada, Diego.

– Como não é nada? Você está agindo de forma estranha. E isso já faz algum tempo. Por que não me diz o que é?

– Por que não é nada. Você está imaginando coisas.

– Quer saber? Vamos embora. Não quero mais ficar aqui – comecei a guardar as coisas e levantei.

– Mas sua mãe só vem daqui algumas horas – ela se levantou também.

– Não tem problema. Pegamos um ônibus. Eu te deixo em casa. Vamos.

Voltamos em silêncio o que fez a viagem parecer mais longa do que realmente era.

– O que aconteceu lá? – ela perguntou quando chegamos à sua casa.

– Entra. Amanhã a gente conversa.

– Não! Por que você está tão estranho? O que aconteceu?

– Eu estou estranho?! Você está estranha! – comecei a me alterar – Você não fala mais comigo direito. Responde minhas perguntas com uma ou duas palavras. Entra sempre no seu mundo e me ignora. Por quê? – respirei fundo – Seu olhar voltou a ficar sombrio e até seu sorriso mudou.

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– Isso não é verdade. O que há de errado com você?

– Amanhã a gente conversa – me virei para ir embora.

– Diego... – ela chamou com a voz trêmula. Parei, ainda de costas para ela – O que há de errado, Diego? Me diz...

– Por que você não me diz o que sente? Por que foge? – me virei – Você age como se gostasse de mim, mas quando eu te pergunto você simplesmente muda de assunto, desconversa. Você nunca responde. Isso tá me enlouquecendo! Não sei como lidar com isso... – ela olhava para o chão – É surreal... Eu nem mesmo sei porque isso me irrita tanto. Acho que só quero que você me diga, que me confirme, se o que eu acho que você sente por mim é real ou não – ela continuou olhando para o chão. Um silêncio surgiu entre nós e ela começou a chorar. Não entendi porque e sabia que ela não me falaria. Resolvi desistir – Eu sei que você não vai me dizer nada. Já percebi isso. Não entendo o porquê de você agir assim. Pra mim... por... mais difícil que seja... não posso conviver com isso... não por muito tempo – me virei para ir embora – eu te amo, você sabe – a ouvi soluçar – mas não posso viver amando sem saber se sou amado – dei alguns passos e a ouvir gritar.

– Porque... – parei. Não quis me virar por medo do que iria ouvir – Eu... ainda não disse nada porque... eu não apenas gosto de você... não apenas estou apaixonada por você e... por isso estou com medo – me virei. Ela olhava para o chão, as mãos fechadas em punho, ainda chorando.

– Medo?

– Sim, medo – ela falava entre soluços – Tenho medo. Medo desse sentimento. Medo que por algum motivo, que mais uma vez , eu perca alguém importante... – ela me olhou – Medo de mais uma vez perder alguém que eu amo.