Primeiro Disparo
5 Último Disparo
Notas iniciais
Jannet e Oliver corriam até o abrigo onde ela tinha deixado Jasmine para dormir.
— Como você tem coragem de deixar sua filha sozinha sabendo que existe o risco de um canibal entrar aqui? — perguntou Oliver, enquanto os dois corriam.
— Eu não a deixei sozinha, meu marido estava lá cuidando dela. — respondeu Jannet.
Os dois chegam até o abrigo, e a primeira cena que vêem faz Jannet gritar desesperada: era o marido dela, o Sr. Foster, morto com a cara toda devorada.
— Onde está o canibal? — perguntou Oliver.
— Ah, meu Deus! — disse Jannet, desesperada. — Deve ter entrado dentro da casa!
Oliver entra no abrigo de Jannet, e corre em direção ao choro da menina. Ao entrar no quartinho improvisado onde Jasmine ficava, viu o canibal puxando a neném pelo pé, com água na boca e um sorriso aterrorizante. O soldado dá uma cotovelada na cabeça do canibal, fazendo-o cair e soltar Jasmine. Oliver deita cuidadosamente a bebê no berço e pega uma arma que trazia consigo. Aponta a mira para a cabeça do canibal.
Nesse momento, a adrenalina estava a mil em seu corpo. Hesitou por um momento, não queria tirar a vida de um outro ser humano, já havia provocado caos demais naquele mundo; coitado, era um canibal, mas sua mente estava dominada pela Febre de Kuru, não era bem sua culpa. Mas ele sabia, se o canibal não morresse, ele e a pequena Jasmine estariam em perigo.
Atirou. A parede ficou manchada de sangue. O barulho do disparo assustou Jasmine e a fez chorar. Oliver a pegou nos braços, e a olhou por um instante. "Viagem no tempo é mesmo uma coisa louca, estou segurando nos braços a bebê que se tornou a mulher com quem conversei horas atrás", pensou.
Levou Jasmine até Jannet, que se derramou em lágrimas. Algumas era de imensa alegria, por ver que sua filha estava bem; outras eram de profunda tristeza, o seu marido estava morto.
Todos os vizinhos se aproximaram e saudaram Oliver pela atitude heróica que ele acabara de tomar. O soldado, por sua vez, não tirava os olhos de Jannet. Sabia que era o principal responsável pelo sofrimento da mulher.
No meio daquela alvoroçada multidão, Dave Relf se destaca.
— Soldado Oliver Hayes, posso ter uma palavrinha com você? — perguntou o cientista.
— O que você quer agora, Dave? — perguntou Oliver.
— Quero te devolver isso. — disse, entregando o smartphone de volta para Oliver. — Agora, gostaria que nós conversássemos a sós.
Dave e Oliver se dirigiram até um local longe de toda aquela gente, para poderem conversar em paz.
— Como você faz isso? — perguntou Dave.
— Isso o quê?
— Você sabe... Viaja no tempo.
— É uma longa história, Dr. Relf.
— Bom, então, por que queria tanto o projeto Another Way?
— Resumidamente, um cientista do futuro, amigo meu, precisava do seu projeto para poder usá-lo para mandar pessoas além da Via Láctea.
— Então, de onde você vem, a exploração espacial é algo comum?
— Tecnicamente, sim. Inclusive já temos uma estação espacial orbitando a Terra.
— Parece ser uma época melhor do que essa. Por que não volta pra lá?
— Os motores da minha nave foram danificados pelos soldados que foram atrás de mim naquele dia.
— Então é por aquela nave que você fez essas viagens no tempo?
— É sim.
— Os soldados disseram que o fugitivo, no caso, você, havia ido embora numa espécie de nave espacial. Ninguém acreditou neles, óbvio. Nem mesmo eu. Fiquei esperando você por todos esses anos.
— Para então, poder me maltratar daquele jeito?
— Começamos com o pé esquerdo, de fato. Mas, me diga, que cientista é esse que queria o meu projeto?
— Ah, é o Dr. Bernard Griffin. Um dos maiores gênios da minha época.
— Dê isso a ele quando voltar?
Dave entrega a Oliver um pequeno cartão de memória. Era um daqueles antigos, que sustentavam no máximo 500MB.
— O que é isso? — questionou Oliver. — E o que quer dizer com "quando eu voltar"?
— Quando você voltar para 2040, óbvio! — respondeu Dave.
— Eu já disse, meu motor está danificado.
— É, mas esse não está.
Dave retira de um monte de escombros um motor novinho em folha.
— Claro, vamos precisar adaptá-lo para poder ser usado em sua nave. Além disso, acredito que ele só terá energia para uma viagem, mas provavelmente te levará de volta para 2040.
— Dr. Relf, o senhor é incrível! De onde tirou esse motor?
— Era ele que gerava energia elétrica para meu abrigo.
— Ah, então nesse caso, não posso aceitar. Numa situação como essa em que vocês vivem, acredito que ter energia é fundamental.
— Oliver, eu insisto. Acho que já fui egoísta demais. Está na hora de ajudar as outras pessoas.
— Bom, então, obrigado.
— Vamos fazer logo os ajustes, você precisa retornar o quanto antes.
Apesar de desconhecer a tecnologia usada na nave de Oliver, Dave consegue remover o motor danificado e o substitui pelo seu. Os dois levam a nave para a superfície, e Oliver se preparava para a viagem.
— Eu agradeço mais uma vez, Dr. Relf. — disse Oliver.
— Não tem de quê.
Oliver aciona a nave, e ela começa a voar. As turbinas são ligadas e a nave começa a se dirigir para fora da atmosfera terrestre. Dave olhava Oliver indo embora.
A nave começa a acelerar novamente, até atingir a velocidade que a faz viajar no tempo. E assim fica por alguns minutos.
11 de abril de 2040
A nave acaba sua viagem, Dave se dirige até o planeta Terra. Procura, mas não encontra a Heavely Miracle novamente. "Será que ainda não estou em 2040?", pensou.
Pousou em Denver novamente. A atmosfera estava mais limpa, o frio havia diminuído bastante, mas os prédios ainda um pouco destruídos, mas curiosamente, menos do que antes. Parecia que tinham sido reconstruídos, e depois destruídos novamente. Olhou um calendário que estava jogando por ali, e viu que estava no ano de 2040. Percebeu que as mudanças na linha do tempo haviam afetado inclusive aquele tempo. Ligou os fatos e concluiu que a Heavely Miracle não existia naquela linha do tempo.
Sua linha de raciocínio foi quebrado por uma bala que passou raspando pelo seu ombro. Ela tinha sido disparada por um soldado que falava palavras em russo que Oliver não entendia.
Não sabia o que aquele homem dizia, mas estava claro que queria matá-lo. Fugiu, enquanto o tal soldado vinha atrás dele. De repente, há um outro disparo, que acerta o soldado que perseguia Oliver.
Ao olhar para o lado, percebe quem havia matado o homem: era ela, Jasmine Foster!
— O que está fazendo aqui? — perguntou Jasmine. — Sabe que é perigoso alguém da Resistência andar por aqui nesse horário.
— Jasmine? — disse Oliver.
— Como sabe meu nome?
— Não me reconhece?
— Eu? Nunca te vi!
Oliver olha para o homem que Jasmine acabara de matar.
— Você está bem? — perguntou Jasmine.
— Estou. Apenas acho que você é igualzinha à sua mãe.
— Conheceu minha falecida mãe? Afinal, quem é você?
— Oliver Hayes.
— Oliver Hayes? — perguntou, surpresa. — O viajante do tempo?
— Agora me conhece?
— Venha comigo. — disse Jasmine, segurando o braço de Oliver.
— Aonde estamos indo?
— Preciso te levar até Dave Relf.
— Dave Relf ainda está vivo?
— Está sim. Agora cale a boca, não queremos chamar a atenção dos soviéticos.
— Soviéticos?
— É! Anda, vamos logo!
— Espera. Tenho uma maneira melhor de fugir.
Oliver leva Jasmine até a nave. Os dois seguem em busca do Dr. Relf.
— Agora há pouco você me falou de uma tal Resistência. O que quis dizer com isso?
— Você sabe. Depois que a URSS ganhou a guerra, eles dominaram o território estadunidense. Algumas pessoas, como nós, não aceitamos isso, e nos armamos para enfrentar por conta própria a ditadura soviética. — Jasmine para por um tempo. — É aqui!
Os dois param no mesmo antigo teatro municipal, e descem o mesmo alçapão por onde Jannet o havia levado anteriormente.
— Já vi que vocês não gostam de se mudar, não é? — disse Oliver, com um tom sarcástico.
— Digamos que não seria o ideal. — respondeu Jasmine.
Dessa vez, o local subterrâneo estava bem mais arrumando. Os abrigos pareciam mais firmes, havia energia em todos eles e havia um número maior de pessoas.
— O que aconteceu com os canibais? — perguntou Oliver.
— Todas as pessoas que possuíam a Febre de Kuru foram mortas. — respondeu Jasmine. — Só gostaria que tivessem feito isso antes de meu pai ser morto por um deles.
Oliver se sentiu mal novamente. Na linha do tempo original, o pai de Jasmine, o Sr. Edward Foster era um policial civil bastante experiente. Trabalhava em Nashville, e inclusive fazia parceria com um xará seu, Edward Sanders, que em algumas ocasiões fazia ponta como segurança em grandes eventos. Claro, isso até Oliver mudar toda a linha do tempo.
— E aquele soldado que me atacou? — perguntou Oliver.
— Faz parte do exército soviético. — respondeu Jasmine. — Eles criaram um grupo de elite especialmente para acabar com nós, a Resistência.
Os dois chegam até onde Dave Relf estava.
— Sr. Relf, olha quem está aqui. — disse Jasmine.
Dave sai de seu abrigo e seus olhos brilharam ao ver o soldado Hayes.
— Oliver Hayes? Não acredito, é você mesmo?
Dave estava bem mais velho. Sua visão já não estava muito boa. Sua pele estava enrugada e seus cabelos todos brancos. Se movia lentamente na cadeira de rodas. Normal, afinal, haviam se passado 48 anos desde a última vez que vira o soldado Hayes. Mas para Oliver, só se passava pouco mais de uma hora desde que viu Dave pela última vez, por isso, ver ele velho daquele jeito o assustou.
— Dr. Relf, não acredito, o senhor ainda está vivo!
— Sim, estou. Desde 1992 que espero o seu retorno.
— Bem, estou aqui agora.
— Acho que não era bem este ano de 2040 que você esperava, não é?
— Não, não é. Minha interferência na linha do tempo foi maior do que imaginei.
— Oliver, venha comigo. Jasmine, volte a cuidar da segurança.
— Sim, senhor. — disse Jasmine, deixando os dois a sós.
— Para onde estamos indo, Dr. Relf? — perguntou Oliver.
— Tem alguém aqui que quer te ver. Alguém que está ansioso pela sua chegada bem mais do que eu.
— Quem?
— Venha ver.
Dave e Oliver se dirigem até um abrigo que estava por ali perto. Era a maior construção que existia naquela sociedade subterrânea. Ao entrar, Oliver se surpreende com quem ele encontra. Era Bernard.
— Dr. Griffin? — disse Oliver, boquiaberto
— Olá, você deve ser o... — antes de acabar a frase, Bernard é interrompido por um abraço de Oliver.
— Desculpe. — disse Oliver. — Esqueci que nessa linha do tempo vocês não me conhecem.
— Está enganado. — disse Bernard. — O Dr. Dave Relf fala muito de você. Meu sonho sempre foi construir uma máquina do tempo. Fico feliz em saber que uma versão paralela de mim conseguiu isso. Pena que as consequências não foram boas.
— Vocês estiveram me esperando? — perguntou Oliver. — Todo esse tempo? Por quê?
— Porque só você pode reverter o que fez, Oliver. — disse Dave.
— Eu?
— Venha comigo.
Dave e Bernard levam Oliver até uma sala, escondida ainda mais no subterrâneo. Uma sala extremamente ampla, semelhante a um hangar, mas não foi isso que atraiu a atenção de Oliver. O que existia lá era fantástico. Era uma espécie de túnel em forma de círculo, semelhante a um acelerador de partículas. No meio do círculo, havia uma máquina semelhante à NEUTRY.
— Que coisa é essa? — perguntou Oliver.
— Isso é o INFINITY-LOOP dessa linha do tempo. — respondeu Bernard.
— Desde que você se foi em 1992, estive trabalhando nele secretamente, por coincidência do destino, conheci Bernard Griffin alguns anos depois, e juntos conseguimos construir algo que se assemelhasse à máquina do tempo que você viajou. — disse Dave.
— Quer dizer que com isso eu posso viajar para o passado? Igual eu fiz antes?
— Afirmativo. — respondeu Bernard. — Entretanto, só poderá fazer duas viagens: uma para o passado e outra para o ano de volta para 2040.
— Oliver, essa é a oportunidade que você tem de salvar o mundo que você destruiu. — falou Dave.
— Como assim?
— Oliver, quero que volte para o ano de 1962 e me assassine. — disse Dave.
— Dr. Relf, do que está falando?
— Me escute! Você foi quem causou a mudança da linha do tempo, mas só fez isso porque estava atrás de mim! Me mate um dia antes de eu apresentar o meu projeto, e assim eliminará a causa que provocou a consequência.
— Mas lembre-se. — Bernard começou a falar. — Para evitar um paradoxo temporal, deve destruir os manuscritos do projeto Another Way após matar Dave.
— Bernard tem razão. Você só viajou no tempo porque precisava dos manuscritos perdidos. Para que a história siga seu curso sem problemas você deve destruí-los.
— Isso é loucura! — disse Oliver. — Não posso fazer isso com o senhor, Dr. Relf!
— É o único jeito de resolver esse problema. — disse Dave. — Você mudou a história, agora precisa transformá-la de volta. Se me matar, evitará a Terceira Guerra e o mundo não será mais destruído.
— Mas tem outro porém. — disse Bernard. — Após matar Dave, retorne direto para 2040, se nossa teoria se confirmar, os acontecimentos da sua linha do tempo retornarão. Mas preciso de um favor, quando voltar, dê um jeito de destruir o INFINITY-LOOP. Mesmo que o meu outro eu não goste nada disso.
— Destruir o INFINITY-LOOP? — questionou Oliver. — Por quê?
— Viajar para o passado trouxe consequências terríveis. Não posso deixar que isso aconteça de novo. Com Dave morto, os manuscritos perdidos e a máquina do tempo destruída, a história voltará a seguir normalmente.
— Mesmo assim. Não sei se terei coragem para te matar.
— Oliver, minha morte é muito importante para que a linha do tempo volte a ser como era. Eu li no seu smartphone que em 2040, na linha do tempo original, a população da Terra estava próxima dos 9 bilhões de habitantes. Nesta linha do tempo onde estamos, a população está reduzida a 4 bilhões de pessoas. A Terceira Guerra Mundial e o inverno nuclear que ela causou matou mais da metade das pessoas do mundo. A morte de uma pessoa, no caso eu, não é um preço justo a ser pago para que a vida de 5 bilhões de pessoas sejam salvas?
— E também não é um preço justo a ser pago para dar a todas as pessoas que se escondem nesse abrigo subterrâneo uma vida melhor? — completou Bernard.
Oliver refletiu.
— Vocês têm razão. Então, tudo o que tenho que fazer é assassinar o Dr. Relf no ano de 1962?
— Sim. — disse Dave. — Em que dia da sua linha do tempo eu fui assassinado?
— Dia 17 de outubro de 1962. — respondeu Oliver.
— Curiosamente, o mesmo dia em que o primeiro míssil estadunidense foi disparado contra a URSS. — disse Bernard.
— Então, você precisa me matar um dia antes, em 16 de outubro de 1962. — falou Dave. — Na noite desse dia eu estava no meu apartamento em Los Angeles, lembro-me que na madrugada seguinte fui para o aeroporto, pegar o avião que me levaria até a base militar onde conheci você. Evite que o nosso encontro aconteça. E também evite que os manuscritos do Another Way permaneçam ilesos.
— Vamos, Oliver. — disse Bernard, chamando o soldado. — Vamos pegar a sua nave, temos que te mandar para o passado logo.
— Mas a minha nave está sem energia!
— O gerador no meio do círculo se encarregará de alimentá-la com energia suficiente para cumprir sua missão. Agora, vamos.
Oliver e Bernard trazem a nave para aquela sala e a posicionam no grande círculo.
— Está pronto, Oliver? — perguntou Dave.
— Afirmativo.
Quando os dois cientistas iam ligar a máquina, Oliver ouviu um barulho de sirene, o mesmo que em 1992 tocava para alertar sobre os canibais.
— E essa sirene? — perguntou Oliver.
— São os soldados soviéticos, devem ter invadido o local! — respondeu Bernard.
— Rápido, Oliver, precisa ir antes que eles entrem aqui!
Oliver escuta os gritos de desespero de Jasmine, mais uma vez ela foi responsável por fazer Oliver perder o foco da missão. O soldado Hayes abandona Bernard e Dave e vai ajudar sua amiga.
Ao chegar no local onde os soviéticos haviam invadido, ele encontra Jasmine no chão, e um dos soldados apontando um fuzil para o seu rosto.
— Não se preocupe, isso vai acabar logo. — disse o soviético, já com o dedo no gatilho.
Oliver imediatamente pega sua arma e dispara contra o rosto do homem, que cai morto.
Jasmine olha para trás e vê Oliver, com o cano de sua arma ainda fumaçando.
— Estamos quites agora. — disse Oliver, correndo de volta para onde a máquina do tempo estava.
Jasmine o segue. Oliver chega até o local onde Dave e Bernard o esperavam.
— Desculpe a interrupção, tive que resolver um probleminha. — disse o soldado, entrando de novo em sua nave.
— Muito bem, Oliver. Está pronto? — perguntou Bernard.
— Afirmativo.
— Será mandado de volta para 1962. Contagem regressiva.
10...
9...
8...
7...
6...
5...
4...
3...
2...
1...
O mesmo impulso que havia sido dado na primeira viagem, faz a nave de Oliver acelerar rapidamente no enorme círculo construído por Dave e Bernard. O gerador semelhante à NEUTRY, ao mesmo tempo que energizava a nave de Oliver, também distorcia o espaço-tempo ao redor, da mesma forma que o cilindro do INFINITY-LOOP fazia. Oliver se impressionou com a inteligência de Dave Relf e de Bernard Griffin; em meio a todo aquele caos, eles haviam secretamente construído aquela estrutura. Enquanto dava as voltas, se perguntou o que havia feito Dave mudar de ideia a respeito dele, olhou para o cientista uma última vez e viu que ele usava uma camiseta com a estampa de Carl Sagan.
Oliver desaparece. Nesse momento, Jasmine chega, assustando Dave e Bernard.
— Jasmine? O que faz aqui? — perguntou Dave.
— Eu... — dizia Jasmine, ofegante. — Eu só queria... Me despedir... E agradecê-lo.
Jasmine não pôde agradecer Oliver por ter salvo a sua vida.
16 de outubro de 1962.
A viagem demorou mais do que a primeira vez, já que a estrutura circular não possuía tanta energia quanto o INFINITY-LOOP original. Oliver aparece no espaço, apesar da viagem ter acontecido na Terra. O motivo era que a Terra não estava no mesmo lugar do espaço, devido o movimento de translação.
Oliver segue com sua nave até Los Angeles, e tentando não chamar atenção, pousa num prédio vizinho ao apartamento de Dave Relf.
Na varanda do prédio, podia ver Dave pela janela, que ele sempre deixava aberta. Ele estava no telefone, conversando com o presidente Kennedy.
— Senhor presidente, eu peço que tente considerar a minha ideia. — dizia Dave, ao telefone.
— Dr. Relf, elaborar seu projeto gastaria muito dinheiro, é inviável. — respondia o presidente Kennedy. — Você pode ir amanhã na nossa base militar na Itália, o general de lá provavelmente lhe dirá o mesmo.
— Pois é isso que farei. Passar bem, presidente.
— Passar bem, Dr. Relf.
Desligam.
Oliver pega sua arma e mira exatamente no pescoço de Dave, que estava de costas. Apesar de se sentir um pouco mal por isso, imediatamente apertou o gatilho.
Por ser bem mais moderna que a maioria das armas do ano 1962, a arma de Oliver acerta em cheio o pescoço de Dave, que cai inconsciente no chão.
Oliver desce do prédio onde estava e entra no apartamento de Dave. Abre sua mala, retira os manuscritos do projeto Another Way e os rasga.
— Descanse em paz. — disse, olhando o cadáver.
Oliver volta para a sua nave, dirige-se para o espaço e aperta o botão vermelho que o faz viajar para o futuro.
11 de abril de 2040.
Após cerca de uma hora de viagem, Oliver já podia ver que o plano havia funcionado: percebeu que estava reaparecendo no INFINITY-LOOP. A nave desacelerou e ele pôde ver que o espaço-tempo ao seu redor estava se estabilizando, olhou para baixo e viu a si mesmo fazendo a primeira viagem que o levou para 1962. Ainda faltava uma coisa. Pegou sua arma, que possuía agora apenas uma bala. Mirou na NEUTRY que ficava no centro do INFINITY-LOOP. Se sentia mal por destruir uma máquina tão fantástica, e que custou tanto a Bernard e a Danilo para construir. Mas era necessário, esse seria o último disparo que precisaria dar. Oliver aperta o gatilho.
Patrick, Bernard e Danilo olhavam aquilo maravilhados, e após alguns segundos, viram a nave de Oliver desaparecer instantaneamente, como se tivesse sido apagada da existência.
No exato momento em que Oliver desapareceu, uma explosão misteriosa acontece na estrutura.
A explosão tinha sido provocada pelo tiro que o Oliver que voltava de viagem havia dado.
— O que foi essa explosão? — perguntou Patrick, preocupado.
— Não faço ideia. — disse Bernard.
— Olhem lá! — disse Danilo, apontando para a nave de Oliver, aparecendo nos escombros da explosão.
— O sistema de oxigênio da nave foi destruído! — disse Bernard. — Temos que resgatá-lo antes que morra!
Bernard e Danilo mandam uma nave de emergência, que traz o soldado são e salvo.
Após algumas horas inconsciente, Oliver acorda assustado, na sala de saúde da Heavely Miracle.
— Ei, calma, soldado! Está tudo bem. — disse Patrick, tranquilizando Oliver.
— General Baker? O que aconteceu?
— Você desmaiou com a explosão do INFINITY-LOOP, ao que tudo indica houve um problema na NEUTRY que produzia energia para a estrutura. O Dr. Griffin está arrasado. Pelo visto, não conseguimos te mandar para o passado.
— Não, conseguiram sim! Eu fui para 1962!
— Está falando sério, soldado?
— Estou.
Oliver explicou, resumidamente, toda a aventura que havia passado. Nesse momento, Bernard e Danilo entram no quarto.
— Vejo que está recuperado, soldado Hayes. — disse Bernard.
— Como você está? — perguntou Danilo.
— Estou muito bem, obrigado.
— Felizmente a nave te protegeu da explosão. — disse Patrick. — Mas se tivesse ficado ali por mais um pouco de tempo, a falta de oxigênio te mataria.
— Já sabe o que aconteceu na NEUTRY da estrutura? — perguntou Danilo, se dirigindo a Bernard.
— Não. Isso é um mistério.
Oliver virou os olhos discretamente, disfarçando a culpa.
— Me diga, Oliver. — disse Bernard. — Conseguiu falar com o Dr. Dave Relf? Ele te deu os manuscritos?
— Bom, ele não estava disposto a entregar os manuscritos.
Oliver viu a decepção nos olhos de Bernard.
— Mas, ele me pediu para te entregar isso. — Oliver dá a Bernard o cartão de memória que Dave havia lhe entregado.
— Um cartão de memória? — perguntou Bernard. — Mas como? Na época em que Dave morreu os cartões de memória ainda não haviam sido inventados.
— É uma longa e exaustiva história, Dr. Griffin. — respondeu Oliver.
Bernard se dirige até seu computador pessoal, pega o leitor de cartões e abre os arquivos no seu PC.
— Não acredito! — disse o cientista, com os olhos brilhando.
Dave havia gravado, no cartão de memória, todas as páginas do projeto Another Way.
O grito de alegria de Bernard pôde ser ouvido por todo o andar.
12 de abril de 2040.
Um dia depois, Oliver estava no primeiro andar da Heavely Miracle, observava pela redoma o planeta Terra. Sua mente ainda dava muitas voltas. A aventura que acabara de viver era incrível. A linha do tempo onde a Terceira Grande Guerra ocorreu não existia mais, mas ele sabia que ela já havia existido. Pensou direito e percebeu que não encontrou com o Oliver daquela linha temporal. O general Patrick Baker também não existia por lá, nem o Dr. Danilo Oliveira. Estariam escondidos? Ou simplesmente não existiam naquela versão da história? Assim como gente que deveria ter morrido, como o Dr. Relf, estavam vivos naquele mundo, é provável que pessoas que originalmente deveriam estar vivas acabaram falecendo naquele mundo.
Uma mão toca o ombro de Oliver, era Jasmine, que se posiciona do lado dele para também observar o belo planeta azul.
— Como vai, soldado Oliver?
— Muito bem, Jasmine. Obrigado.
— O Dr. Griffin já deu início aos estudos do Another Way. Ele acredita que dentro de alguns anos estaremos ultrapassando o limite da nossa galáxia.
— Eu não duvido de Bernard. Ele é capaz de fazer tudo para conseguir o que quer.
— Ele também acredita que possamos estar perto de descobrir vida inteligente fora da Terra. Você acha isso possível, Oliver?
— Jasmine, depois dessa missão que eu passei, eu acredito que tudo pode ser possível. Tudo mesmo.
Os dois ficam em silêncio por um tempo.
— A Terra é linda, não é? — disse Jasmine, quebrando o silêncio.
— Linda demais.
— Obrigada, Oliver.
— Pelo quê está me agradecendo?
— Eu não sei. Sinceramente não sei. Apenas me subiu a ideia de que eu te devia um agradecimento.
Os dois se olharam, Oliver sorriu para Jasmine e ela retribuiu com outro sorriso.
Foi a primeira vez que ele a viu sorrir.
Fale com o autor