Primeira vez, primeira de muitas

2 Capítulo 02 - O que acontece agora?


O apartamento de Spencer estava mergulhado no silêncio confortável da manhã. O despertador já havia sido silenciado, mas ainda não nos movemos. Estávamos ali, entrelaçados, como se qualquer movimento pudesse quebrar o encanto do momento.

Eu não sabia o que aconteceria depois. Se fingiríamos que nada aconteceu ou se esse seria um ponto de virada para algo novo. O que eu sabia era que não queria sair daquela cama.

— Você está pensando demais — Spencer murmurou, a voz ainda rouca de sono.

— Eu sempre penso demais.

— Eu sei. Mas agora não precisa.

Ele deslizou os dedos pela minha cintura, um gesto quase inconsciente.

— O que acontece agora? — perguntei baixinho.

Ele me encarou, e vi algo indecifrável em seus olhos.

— O que você quer que aconteça?

Engoli em seco. A verdade era que eu queria muitas coisas. Eu queria poder segurar sua mão sem precisar justificar. Queria deitar ao lado dele e discutir teorias absurdas sobre crimes sem medo de que isso significasse algo maior. Queria o conforto de saber que ele estaria ali amanhã e no dia seguinte.

Mas não disse nada.

Ele não insistiu. Apenas sorriu de leve, me puxando mais para perto, como se aquele gesto fosse a única resposta necessária.

E talvez fosse.

Descemos juntos para pegar café. Spencer vestia uma camiseta preta que contrastava com sua pele clara, os cabelos bagunçados pelo sono. Eu, por outro lado, usava a camisa dele — e o olhar que ele lançou para mim quando percebeu me fez sorrir.

O café era forte, do jeito que ele gostava. Ele observava enquanto eu despejava açúcar demais na minha xícara, um pequeno sorriso no canto dos lábios.

— O que foi? — perguntei.

— Nada. Só estou memorizando isso.

— Isso o quê?

Ele deu um gole no café antes de responder:

— Você, assim. Aqui.

Eu queria responder, mas algo dentro de mim se apertou. Uma mistura de medo e esperança.

Sérgio, que agora parecia ter nos perdoado pela interrupção de seu descanso na noite anterior, saltou para a mesa e começou a brincar com a manga da camisa de Spencer.

— Traidor — brinquei com o gato, pegando-o no colo.

— Acho que ele está tentando me dizer para tratar você bem.

— Você já me trata bem.

Ele não respondeu. Apenas me observou, como se tentasse gravar cada detalhe daquele momento.

O caminho até o escritório foi tranquilo, mas senti a tensão no ar. Não tínhamos discutido como agiríamos ali. Se manteríamos distância ou se as pessoas perceberiam que algo havia mudado.

Quando chegamos, JJ e Emily já estavam na sala de reunião. Morgan lançou um olhar suspeito na nossa direção.

— Vocês vieram juntos? — perguntou com um tom divertido.

— Meu carro estava na oficina — respondi rápido demais.

Morgan arqueou uma sobrancelha, mas não insistiu.

O dia seguiu normalmente, mas a cada vez que cruzávamos olhares, eu sentia uma faísca que antes não estava lá — ou talvez sempre tivesse estado, e eu só estivesse reconhecendo agora.

Ao fim do expediente, quando todos estavam se despedindo, Spencer parou ao meu lado.

— Quer jantar comigo?

Meu coração pulou no peito.

— Na sua casa?

— Ou onde você quiser.

Respirei fundo. Era um convite simples, mas carregado de possibilidades.

Sorri.

— Sua casa está ótima para mim.

O sorriso dele cresceu, e naquele momento, eu soube.

Não havia mais volta.

E, sinceramente, eu não queria que houvesse.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!