Primeira Queda

1 Capítulo Único


— Hoje nasce um novo campeão em Galar!

Após vários contratempos, a final da liga pode ocorrer, trazendo a inesperada derrota de Leon e revelando uma nova campeã.

A euforia tomava conta de todo o estádio. Entre tantas pessoas querendo parabenizar a jovem que havia acabado com o título de imbatível do antigo campeão, Leon se absteve de longos discursos, apenas apresentando ao público a nova representante de Galar e deixando a ela toda a atenção que agora teria.

Silenciosamente deixou o centro do estádio, retornando para sala de espera onde antes estavam os desafiantes. Agora vazio, o lugar abafava o som de fora, e sem ninguém por perto podia finalmente descontar suas frustrações.

— E assim o “campeão imbatível” foi derrotado... – repetiu para si, esboçando um sorriso em ironia. – Acabou...

— Estranharia se o encontrasse ainda sorridente. – Leon não pareceu se importar com aquela “invasão”. Não se dando nem ao trabalho de olhar para a pessoa, conhecia bem aquela voz.

— Eu já não me surpreendo em vê-lo fugindo da multidão.

— Nesse momento a estrela não sou eu, não tenho motivos para ficar no tumulto. – caminhou até um dos bancos do lugar para se sentar. — Até porque fui eliminado nas quartas de finais.

— Mas ficou até a final.

— Eu precisava ver o Raihan tremendo na base nas semifinais, mas aquela Vaporeon da desafiante realmente lhe deu canseira.

— Um Solar Beam e três Thunder certeiros, o Pokémon custou a ceder. Aquele Lucario também não mostrou piedade contra o Duraludon.

— Foi a garota que você mesmo indicou junto com seu irmãozinho. Sua vizinha, não? – indagou e Leon apenas assentiu. – Todos os campeões viram da mesma região rural mesmo?

— Como alguém consegue evoluir tão rápido...?

— Você, mais que qualquer um, deveria ter essa resposta. Invicto por quase dez anos. Começamos juntos a corrida pelo título. Você ganhou a fama de campeão e eu aceitei a proposta de me tornar líder de um dos ginásios. – pausou. – E como bons líderes só deixamos passar os melhores para o campeonato.

— Ela passou pelo seu ginásio, como foi a luta?

— Enfrentando aquele Lucario? Um massacre. – riu sem humor. — Obviamente a função de um líder não é vencer, mas orientar e ensinar os desafiantes, mostrando que nem sempre ter a vantagem de tipagem garante a vitória. Acima de tudo que a Dinamax não é um trunfo. Mas a garota já tinha um bom fundamento e uma ligação bem forte com seus pokemon.

— Ela... Mereceu o título. – admitiu com dificuldade.

— Cada um tem seu próprio Nemesis, eu foi aquele Lucario, Raihan com certeza pegou trauma de Vaporeon e você.... Caiu para uma aranha.

— Era uma Galvantula. — corrigiu ríspido. — Muito bem treinada.

— Como era mesmo que a garota a chamava?

— Chokito... Todos seus pokemon tinham nomes próprios.

— Uma maneira diferente de criar laços entre treinador e pokemon. – disse apoiando as mãos no banco e jogando a cabeça para trás, encarando o teto. – E o que você fará agora?

— Ainda não sei... Vou demorar a digerir todo o ocorrido.

— O que acha de ir em casa afogar as mágoas? – sugeriu repentinamente. –

— Ir com você pra Spikemuth? – deixou escapar um som de risada entre os lábios. – Não me entenda mal, mas aquele lugar não tem um ar muito acolhedor.

— Realmente é uma pena ouvir isso. – deu de ombros antes de ajeitar-se para conseguir deitar sobre o banco.

— Piers, você vive em um gueto¹. Não que isso seja um problema, mas...

— Já entendi seu ponto, “garoto do campo”. – interrompeu a desculpa disfarçada de discurso. – Não vivo no lugar mais feliz e bem frequentado da região, mas não deixa de ser um lar. – pausou – Sua outra opção é esperar o Raihan cansar da comemoração e decidir ir embora, o que pode demorar. Hammerlocke é melhor localizada afinal.

— E movimentada demais... – complementou. – Não estou no clima pra confrontar a agitação de uma cidade turística. – suspirou. – O convite pra sua casa ainda está de pé?

— Mudou de ideia? – sorriu em um tom de provocação.

— Talvez o que eu esteja precisando seja justamente a hospitalidade de Spikemuth.

— A hospitalidade, não é? – repetiu, voltando a se sentar no banco. – Posso me arrepender do convite se demorar mais.

— Tem um Táxi aéreo ao lado do estádio. Talvez possa nos deixar próximo de Spikemuth.

— Só vamos logo. – ditou levantando-se e seguindo para saída.

— Piers... – chamou incerto. – Quais são seus planos exatamente?

— Apenas conversar e beber. – respondeu. – Ou passou ideias erradas pela sua cabeça?

— Só conversar e beber está ótimo! – ruborizou, apresando os passos e passando à frente de Piers.

— Seu problema é baixar demais a guarda estando comigo ou o Raihan. – pontuou, deixando Leon ainda mais desconcertado. – Fica fácil ler seus pontos fracos.

— Cala boca, Piers! – parou de costas para o outro. – O problema foi eu andar demais com vocês na infância.

— E continua cometendo o mesmo erro então. – sorriu, batendo de leve nas costas de Leon ao passar por ele. – Vamos ou não?

Leon apenas soltou um suspiro ruidoso por entre os lábios dirigindo-se para o local dos táxis aéreos. Piers apenas riu da situação.


x-x-x

— E quanto sua irmã? – Leon indagou ao passar pela porta da casa.
— Já lhe mandei mensagem. – respondeu enquanto tirava sua jaqueta. – Ela ainda está no estádio e avisou que chegaria tarde. – deixou a jaqueta jogada em uma cadeira, se dirigindo para geladeira.

— E ta tudo bem? Justo você que tem fama de “irmão coruja”.

— Quer que eu te largue aqui e vá busca-la? – respondeu em um tom nada amistoso. – Ela não é mais criança, mesmo eu discordando em partes... – quase murmurou a última frase. – Agora ela também é a nova líder do ginásio de Spikemuth. E o pessoal do team Yell não deixaria que nada lhe acontecesse.

— Verdade.... Vocês sempre tiveram um fã clube particular. — sorriu. – Mas então você desistiu mesmo do ginásio?

— Estava se tornando algo cansativo. – respondeu fechando a porta da geladeira após pegar duas latas de cerveja. E já não estou mais animado pra continuar uma vida dupla. – deixou as duas latas sobre a mesinha de centro, sentando-se no sofá.

— Então escolheu seguir só com a carreira musical. – deduziu pegando uma das latas e abrindo.

— Enquanto tiver alguém que goste das minhas músicas, não vejo motivos pra não continuar. – pegou a outra lata, a abrindo e dando um longo gole.

— Sempre bem decidido. – pronunciou sem humor na voz, virando a lata até o último gole. – Piers...

— Tem mais na geladeira. – interrompeu já imaginando o que seria dito. – Fique a vontade.

— Não está pensando em me embebedar, não é? – brincou ao se levantar para caminhar até a geladeira.

— Você já tem maturidade o suficiente para saber seu limite. – respondeu sem a intenção de ser rude. – E Sônia não está aqui pra ficar pilhando nenhuma competição sem sentindo.

— Lembra da última reunião que fizemos?

— A ressaca do dia seguinte não me deixa esquecer. – sentiu como se a cabeça quisesse doer só com a lembrança. – Nunca mais entrar em nenhuma competição que envolva a Sonia e álcool. – devolveu sua lata vazia para a mesa. – Traz outra pra mim. – pediu e Leon riu, voltando com as latas.

— Não lembro quem nos socorreu naquele dia.

— Raihan e Bea, provavelmente... Talvez Milo tenha ajudado também. – tentava lembrar de mais detalhes daquele dia enquanto abria a nova lata. – Lembro de que Nessa tinha avisado que ia acabar mal aquela competição e ficou no canto dela só assistindo. Kabu estava em outro canto conversando com a Opal. Melony chegou mais tarde com o filho, só vendo o vexame de dois sem juízo.

— Pensei que depois daquele dia nunca mais fosse beber. – riu.

— E parei mesmo. Nunca mais bebi com a Sonia. – a resposta de Piers fez Leon rir. – Na verdade depois que ela se tornou assistente da professora e as coisas ficaram mais agitadas com o ginásio e minhas apresentações, quase não tenho a visto, fora assuntos de trabalho...

— Agora ela assumiu oficialmente o laboratório e tem até sua própria assistente.

— Com mais tempo livre posso ir visita-la qualquer dia. – sorriu. – Mas estou feliz por ela.

— Parece que nosso tempo está passando mesmo. Você passando o ginásio pra sua irmã, Opal também se aposentando após “sequestrar” um garoto para treiná-lo e assumir o ginásio de Ballonlea. – riu de sua própria tentativa de piada. – Sonia conseguiu o reconhecimento que procurava... – aos poucos voltou ao semblante triste. – Talvez já estivesse mesmo na hora de Galar receber um novo campeão.

— Ainda não sabe o que fazer agora?

— Posso participar da Battle Tower, dá pra manter o título durante um bom tempo e também encontrar treinadores de outras regiões, igualmente fortes.

— Sabia que você não desistiria fácil das batalhas. – sorriu. – Então um brinde aos novos começos. – levantou sua lata e Leon apenas repetiu o gesto sorrindo.

Se puseram em silêncio enquanto bebiam, Piers sorria sem motivo aparente, o que chamou a atenção de Leon, o fazendo quebrar o momento.

— O que é tão engraçado?

— Não é nada. Só algumas lembranças.

— E não vai compartilhar?

Piers sorriu apenas negando com a cabeça, bebeu o líquido que ainda restava em sua lata e se manteve em silêncio. Leon preferiu não insistir.

— Vou pegar outra cerveja. – Leon anunciou, já se levantando.

— Tem certeza? Depois não vai conseguir nem ir embora.

— Posso dormir aqui. – se auto convidou, causando a reprovação de Piers.

— Vai ficar no sofá. – respondeu por fim, desviando o olhar para não encarar a cara de pedinte de Leon.

— Tudo bem. Só quero mais um tempo para organizar as ideias antes de encarar o pessoal de casa.

— Como preferir... – ainda evitando contato visual. – Melhor preparar algo para comermos. – decidiu-se. – Tenta não perder os sentidos antes.

— Quer ajuda na cozinha?

— Sua? Melhor não, precisa ser algo comestível. Marnie também deve chegar com fome, nada de comida não digerível.

— Não cozinho tão mal assim. – se sentiu realmente ofendido com a acusação.

— Liga pro Raihan e pergunte se ele aprova você na cozinha. – alfinetou. – Tenho certeza que ele tem lembranças “maravilhosas” das vezes que acampamos pela Wild Area durante os treinamentos. Ou se quiser eu mesmo posso refrescar sua memória. O real teste de sobrevivência era sempre que você inventava de pôr a mão na massa.

— Eu melhorei... Um pouco.

— Prefiro não arriscar, apenas não beba a nível de apagar. Não vou acordar ninguém depois. – finalizou se dirigindo para a cozinha.

Leon bufou ficando inquieto no sofá, não gostava da ideia de ficar parado. Se dirigiu até a cozinha para pegar outra cerveja, percebendo que o outro havia ignorado sua presença e ainda pedido ajuda a um de seus Pokémon.

— O que esse Toxtricity pode fazer que eu não posso? – indagou apoiando-se a porta da geladeira.

— Seguir ordens e não sair jogando qualquer coisa na panela, sem nem saber o que é. – respondeu direto, sem se desconcentrar do que fazia. – Se está tão inquieto pode ligar a Tv.

— Melhor não, no mínimo ainda estão falando sobre o final da Liga.

— Então vá tomar um banho, vai te ajudar a esfriar a cabeça.

— E ainda tem alguma roupa minha por aqui? – sorriu novamente.

— Ainda tem a displicência de perguntar. Até parece que é a primeira vez que você faz com o doce, dizendo que é melhor não vir pra essa parte da região, bebe e come, depois resolve dormir aqui. – relatou. – O Obstagoon está no meu quarto, ele sabe onde estão suas roupas reserva. Andar de cima, você já conhece o caminho, a porta ta só encostada.

— Sim senhor. – respondeu em um tom de brincadeira, saindo da sala após terminar a cerveja que havia pego.

Piers suspirou ao escutar os passos se afastando para o andar de cima e encarando o Pokémon que o ajudava apenas desabafou.

— Cada um tem as amizades que merece, não é? – o Pokémon só o encarou de volta sem entender muita coisa. – Às vezes me pergunto se tenho muita sorte ou se é azar mesmo...

x-x-x

Já era tarde quando Marnie retornou para casa. Ao passar pela porta pôde ver alguém dormindo no sofá, junto ao um grande Pokémon laranja.

— Marnie? Sabe que horas são? – Piers chamou sua atenção enquanto descia as escadas. Estava com o peito descoberto e cabelos soltos, ainda úmidos. Entregando que fazia pouco tempo que havia saído do banho.

— Oi irmão. – respondeu de forma natural. – Eu também tenho amigos, sabia? – Piers nem se deu ao trabalho de responder. – Raihan estava com a gente também, foi uma comemoração pela conquista da nova campeã. – continuou. – Pensei que ele tivesse falado algo.

— Não prestei atenção nas ultimas mensagens. – confessou. – Você acabou bem próxima da campeã, não é?

— Ela foi minha rival durante o desafio dos ginásios, e acabamos virando amigas no caminho. Não foi o mesmo entre vocês e o antigo campeão? – novamente ela viu o irmão fugir da resposta. – Posso perguntar por que o Leon está no nosso sofá?

— O mesmo de sempre: Leon estava de baixo astral, veio pra casa, bebeu, comeu e apagou no sofá. – resumiu. – Deixei sua marmita pronta, se estiver com fome é só esquentar.

— Posso deixar pra amanhã? Eu realmente comi bem hoje e será bom ter um almoço preparado pelo meu irmãozão enquanto crio minha rotina como a nova líder do ginásio. Foi nosso combinado, não é? Se eu não conseguisse o título de campeã, cuidaria do ginásio com você queria.

— Sim... Eu lembro. – se permitiu sorrir serenamente. — Vou terminar de guardar as coisas então.

— Ah! Só mais uma pergunta. – fez uma pequena pausa antes de continuar. – Aquele casaco que o Leon ta usando pra dormir... Não é o mesmo que você pegou “emprestado” com Raihan e nunca devolveu? – Piers congelou com tal percepção da irmã.

— Vá logo tomar seu banho e dormir. – evitou novamente responder as perguntas, agora falando em um tom mais autoritário.

— Já estou indo. Estou certa afinal. – alfinetou uma última vez antes de subir as escadas rapidamente.

— Marnie! – elevou a voz, porém foi totalmente ignorado. Ela já avisa corrido para o quarto.

— Piers? Algum problema? – Leon finalmente despertou com a voz sonolenta. – Marnie chegou?

— Sim. Agora cala a boca e volte a dormir. – acabou sendo ríspido sem querer.

— Ela falou algo que o irritou, não foi?

— Por que você tinha que pegar justo esse casaco?

— Porque é confortável e fica bem em mim. – provocou. Piers apenas suspirou ruidosamente sentando no chão, em frente ao sofá. – Hey... Ela falou alguma verdade que não queria ouvir? – indagou, esticando o braço de modo que conseguisse acariciar a cabeça de Piers.

— Nunca escondi nada dela, mas, certos assuntos, preferia que ela não comentasse...

— Hey... Eu sei como é difícil ser o irmão mais velho, responsável e exemplar. Também tenho um irmãozinho. – tentava consolar o outro. – Seu problema é ser muito protetor, acaba se preocupando demais.

— Parece simples quando vem de alguém que ainda tem os pais como apoio.

— Não é esse o caso. – se defendeu. – Quando meu irmão disse que queria participar do desafio dos ginásios eu fui o primeiro a ser contra. Sabia que seria perigoso e achava que ele não estava pronto.

— Em um ponto você estava certo, foi perigoso, principalmente porque quiseram mexer com uma força que não deveria nem ser explorada.

— Sinto um tom muito forte de desaprovação na sua voz. Concordo que o presidente Rose, ex agora... Agiu de modo impensável e ainda tentou me arrastar pra seus planos... Na verdade foi péssimo despertar um Pokémon com tanta energia. As intenções eram boas, mas os métodos totalmente errados.

— “Boas”? – repetiu. – Por conta dessas “boas intenções” a final precisou ser adiada, porque o antigo campeão precisava se recuperar após ser atingido pela explosão de energia de Eternatus. Várias partículas dessa energia se espalharam por Galar e precisaram ser contidas. Não sei se devo considerar sorte o fato de seu irmão e a amiga terem ido atrás de você, ainda me pedirem ajuda.

— Me considero com sorte por saber que posso contar com você em qualquer situação. – respondeu, surpreendendo Piers a ponto de se calar. – Reclama, parece sempre ta na má vontade, mas é coração mole.

— Já chega disso. – quis encerrar a conversa, levanta-se. – Eu sou importante pra você. – sorriu. – Agora vai dormir e volte ao seu normal, seu irmão ainda precisa do campeão que sempre admirou.

— É... Eu sei... – sorriu ao concordar.

— E, antes de ir embora amanhã, eu quero o casaco de volta. – recordou. – Não foi nada fácil convencer o Raihan a desistir dele.

— É... Imagino. – riu focando sua atenção para o casaco. – Me lembre de manhã.

— O farei. Com certeza o farei. — enfatizou a última frase.

Notas finais
¹A região de Galar, em Sword/Shield, foi inspirada no Continente Europeu, utilizando de diversas referencias e pontos marcantes. O termo gueto originariamente se referia a áreas de cidades europeias em que os judeus viviam ou eram forçados a viver, posteriormente passou a ser aplicado às áreas onde qualquer grupo minoritário é forçado a viver devido à pressão social e econômica. Qualquer grupo, estrato social ou modo de viver que resulta de algum tipo de discriminação.

Ilustração do meu time: https://www.instagram.com/p/B8EuKYTlh2p/

A parte do casaco veio de outro quadrinho que desenhei e postei aqui https://www.instagram.com/p/B7_Oecmli8V/
Mas ta nos meus planos escrever outra one só na base dessa tirinha
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!