Primeira Pessoa
1 Prólogo
É insuportável esperar pelo momento que pode definir sua vida.
Estava no banco de um ônibus, como de costume. O mesmo ônibus velho que cruza a cidade, a mesma tarde ensolarada de um dia ordinário da semana e, para manter o hábito, sempre ao lado de alguém nada interessante. Dessa vez era um senhor que não pesava menos de 180 quilos e que amigavelmente decidiu deixar seu cotovelo pousado sobre minha cocha. Eu teria demonstrado incomodo ou até mesmo criado uma confusão, mas minha mente já havia chegado em casa a algum tempo.
É bastante óbvio que se espere um sim quando vai pedir em casamento a pessoa que está contigo a mais de seis anos. Principalmente se levar em conta o fato de que já moramos juntas a dois anos e nossa ralação não poderia estar melhor — tirando nossa briga mais recente. Contudo, as coisas não são tão óbvias quando se trata de Elena.
Me lembro bem do dia que a pedi em namoro: ela me olhou, com a cara mais surpresa do mundo e me disse que não precisaríamos daquilo, o namoro, para vivermos felizes. Tentei argumentar mas ela completou, dizendo que era apenas um modo de nos aprisionarmos uma a outra que a sociedade inventou; que o correto seria continuarmos juntas enquanto fosse de consentimento mútuo; que preferiria que não houvesse nada assim, tão oficial, nos prendendo. Assim, explicou ela, caso surgisse uma necessidade de nos separar não precisaríamos evitar fazê-lo para manter algo imaginário e socialmente construído.
Sempre fui a mais medrosa e sensível da relação. O simples fato dela considerar uma futura possibilidade de nos separarmos me enchia os olhos d'água. Gosto muito de segurança, de planos, de organização de listas e rotina. Um namoro sempre me pareceu uma boa ideia. Nós já estávamos juntas a mais de um ano antes de tomar coragem para pedi-la em namoro. Passávamos quase todos os dias juntas e não mais ficávamos com outras pessoas havia meses. Francamente, isso para mim significava um namoro. Nomes foram criados para definirmos as coisas e por namoro se entende uma relação monogâmica de amor e afeto.
Demorou pouco tempo para Elena ceder. Quando cheguei no meu quarto estava lá, nua, deitada na minha cama, assim, de surpresa. Apesar da personalidade ela era pequenina, quase metro e sessenta, e seu corpo todo derramado não ocupava uma grande parcela da cama. Me aproximei. Sentei no canto. Me aproveitei da proximidade para acariciar seu abdome sexy, ela se retraiu. Estava com as sobrancelhas um tanto arqueadas como se tivesse se contendo ou tomando coragem. Se sentou e falou então, um pouco hesitante mas tentando soar desinteressada.
— Sabe, aquele lance de namoro que você tinha falado?! Então, tava pensando, acho que a gente pode chamar assim se você preferir...
Me lembro que mal consegui conter a risada. O tom que ela usava e seu olhar focado na minha cômoda sugerindo que “isso não significava nada para ela” eram extremamente forçados. Era ela dado o máximo para não ridicularizar seu orgulho e sua filosofia de vida de sempre ser “a mulher livre”.
— Você está me pedindo em namoro?! — fingi surpresa — Ah! Meu deus, eu posso pensar um pouco?
— Não seja tão cheia de si, safadinha! Na verdade estou só te deixando chamar assim. Saiba que isso não muda nada, garota. — E afagou minha cabeça desfazendo meu coque.
O senhor que sofria de obesidade mórbida ao meu lado fez esforço para remover seu cotovelo da minha cocha e aproximá-lo um pouco mais de seu corpo espaçoso. Ele já ocupava mais de um terço do meu banco e não parava de comer aqueles salgadinhos fedidos de amido de milho. Aproveitei o momento para dar uma olhadela nas recém compradas alianças. O ônibus balançou um tanto, como se o motorista tivesse dado uma guinada rápida no volante. Maldito momento para isso acontecer! A caixa caiu com as alianças e me levantei para procurar. Uma senhora no fundo gritou meia dúzia de palavrões para o meia-roda ao volante enquanto se levantava com dificuldade para pegar seus tomates que, como minhas alianças, rolavam pelo chão. O motorista diminuiu a velocidade e pouco a pouco as sacudidelas se acalmaram, provavelmente um pneu furado. Peguei minhas alianças debaixo do banco de um garoto magricela que ouvia AC/DC no fone de ouvido (tão alto que eu podia entender cada palavra da letra). Me sentei, mas logo tive que me levantar para me desvencilhar do grande homem ao meu lado e olhar pela janela. Parecia haver um engarrafamento lá fora. Aproveitando o transito lento o motorista parou no acostamento para que algo fosse feito pelo pneu.
As pessoas no ônibus murmuravam sem parar reclamando da parada inesperada. O motorista pediu para descermos e ninguém parecia entender muito bem o que estava acontecendo. Eu ainda tinha a impressão de sentir os solavancos do ônibus quando desci, como quando passamos muito tempo na praia e sentimos as ondas nos balançarem mesmo depois de sairmos. Lá fora percebi que não fora apenas uma impressão. As coisas realmente balançavam e as pessoas voltavam a murmurar e gritar, não apenas aquelas do ônibus, mas nos seus carros e também pessoas muito distantes da rodovia que corta a cidade. Só me dei conta do que estava acontecendo quando ouvi um dos gritos "TERREMOTO!" e corri desesperada como todas as pessoas, ainda segurando a aliança fortemente na mão a procura de um lugar seguro.
Meu coração estava pela boca. A respiração me faltava. Me movia o mais rápido que podia e parecia não sair do lugar! Não sabia para onde ia até perceber que o local mais próximo era um posto de gasolina. Os gritos eram assustadores e na adrenalina dificilmente conseguia distinguir os vultos das coisas que se desprendiam e caiam ao meu redor. Ouvi estrondos e percebi que um edifício desabava a menos de duas quadras de mim! Na rodovia as pessoas gritavam e se empurravam. Correr era uma tarefa difícil quando o chão se movia tanto abaixo de você, mesmo para uma atleta como eu.
Percebi que o posto talvez não fosse a melhor ideia, mas já era tarde, estava muito perto de lá e além disso, longe de todos outros lugares. Tropecei quando já estava muito perto do posto, ou talvez eu tenha sido arremessada por um dos tremores. Não senti qualquer dor, estava completamente anestesiada pelo medo. Consegui me arrastar por mais alguns metros. Senti todo peso do meu corpo sobre mim. Cada músculo tremia a cada movimento. O chão não parava de balançar, assim como o grande pórtico da loja de conveniências e os prédios ao redor. Uma mulher gritava desesperada, e meu coração apertou. Era Elena?!
Isso é tudo que eu me lembro, antes de acordar aqui.
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