Primeira Pessoa

2 Capítulo 1 - Enterrada em Lembranças


Tudo é completo breu ao meu redor. Sinto cheiro de poeira e um calor nada confortável. Tenho montado mentalmente uma lista com algumas observações que me provam que eu estou viva:

1 Sinto meu corpo, e ele dói em cada centímetro. A maior fonte de dor é minha nádega esquerda. Eu estou de bruços e sinto que algo perfurou superficialmente meu traseiro e toda vez que tento me mover me arrependo. Essa frase certamente soaria mal se me restasse algum senso de humor nesse momento. Contudo, só consigo sentir um medo terrível da morte iminente.

2 Não acredito em vida após a morte. Certamente esse é um bom momento para começar, para clamar pelos santos que reneguei a vida toda, mas sinto que meu orgulho ainda é maior.

3 Acabei de ser acorda por um novo tremor, se me lembro bem chamavam esses de réplicas, mais fracos do que o que me enfiou aqui, mas ainda assim amedrontadores.

Que diabos! Acabo de perceber que a caixinha com as alianças não está mais comigo! Depois de estender as mãos e tatear ao redor percebo que estou completamente cercada, sem nenhuma chance de realizar grandes movimentos. Acima de mim sinto algo metálico e frio e abaixo consigo contar os paralelepípedos da rua. Toco alguma coisa com uma textura estranhamente familiar a minha frente, mas não consigo distinguir o que é apenas pelo tato.

Não preciso pensar muito para entender como ainda estou viva. Certamente o pórtico havia desabado sobre mim assim como o resto da cidade. Agora eu estou aqui, soterrada a não-sei-que profundidade pronta a passar não-sei-quanto tempo até que uma equipe de resgate me localize.

Penso na primeira pessoa que me vem à mente: Elena. Respiro fundo para tentar controlar o turbilhão de perguntas que vem à frente. Onde será que ela está? Meu coração acelera mais uma vez. Tento acalmá-lo. Ela certamente está segura e em casa. As edificações são pequenas por lá, todas residenciais e afastadas umas das outras. Quem sabe eu também estaria bem se não tivesse vindo treinar hoje, como ela propôs. Tudo bem, logo me tiram daqui.

Me questiono se seria lógico tentar gritar agora. Talvez alguém possa me ouvir e chame o resgate. Talvez eu apenas gaste meu fôlego atoa, afinal, até então não ouvi um sequer barulho, nem sirenes, nem pessoas: nada. Apenas silêncio e sombras aqui embaixo. Quem sabe uma vez:

— SOCORRO!!! – grito.

Passo alguns segundos ouvindo minha voz ecoando metálica pela placa de alumínio do pórtico. E logo minha voz se dissipa na escuridão. Nada. Apenas o som do meu coração batendo assustado.

Certamente seria muito idiota tentar empurrar a placa de alumínio para cima. Seria muito idiota também tentar arrastar meu corpo para o lado, a custo de arrancar minha nádega por completo. Mas mais idiota ainda é que eu ainda não havia me lembrado que eu tinha um celular! Tentei acessa-lo com minha mão e arrastei ela cuidadosamente pelo chão até o bolso da frente. Minha coxa estava fortemente pressionada pelo teto contra o chão, o que dificultava tanto essa tarefa quanto a minha circulação sanguínea.

Depois de quase um minuto procurando uma postura adequada consigo tocar o aparelho e arrasto para fora do bolso. Aperto o aparelho no botão de ligar e a luz branca quase me cega. Isso significa que ele está funcionando! Quem sabe o tempo que eu passarei aqui será muito menor do que esperava! Trago o celular de vagar para a frente do meu rosto, tentando realizar um movimento circular com o braço. Consigo que ele alcance no meu ângulo de visão, mas ainda estou me acostumando com a luminosidade.

Perdi todas as esperanças. A tela está um caco! Completamente quebrada. Tento arrastar o dedo pelo touch e ele simplesmente me ignora. Apenas uma pequena parte da tela ainda exibe imagem, ao invés daquele amontoado de tiras colorida do LED quebrado. Consigo ler: 23 chamadas perdidas.

Me sinto um pouco melhor apesar da lágrima que está escorrendo agora pelo meu rosto. Com certeza são ligações de Elena que ficou extremamente preocupada comigo depois do terremoto. Ela é a única pessoa que tenho, ninguém mais teria me ligado. Nem mesmo minha mãe.

E acabo deixando meu pensamento me levar até a minha história, oito anos atrás. Naquele dia o sol vestia seu tom mais feliz e amarelado. Parecia que Deus fazia uma grande piada da fúnebre cerimônia que vagarosamente se desenrolava ali. Eu estava lá, ouvido um padre dizendo infindáveis besteiras sobre meu pai. E todo esse ambiente fazia a tarefa de estar vestida de preto se tornar ainda mais árdua. Ainda assim continuava prestando minhas condolências e pedindo desculpas por seu assim, como sou. Hoje em dia me arrependo das desculpas, na época ainda não entendia bem.

Até aquele momento já haviam se passado três dias sem que nenhuma palavra fosse pronunciada dentro de nossa casa. Tudo começou quando contei ao meu pai que era lésbica, tinha 16 anos. Ele apertou os olhos e pensou por um segundo. Depois simulou um sorriso confuso:

— Desculpe, não entendi. – e perguntou – Como?

Eu repeti a afirmação do modo mais direto, como sempre gostei de ser.

— Papai, eu gosto de meninAS. – Me assegurei de pronunciar claramente o fim da última palavra. Estava tremendo um pouco, talvez isso tenha afetado minha dicção.

Naquela noite meu pai saiu. Apenas no dia seguinte ficamos sabendo que ele havia ido a um bar afastado de nosso bairro e se embriagado. Os amigos disseram que ele não demorou a travar uma discussão com um outro rapaz imaginando que esse estivesse interessado nele. E logo tentou descontar todo o ódio que sentia de mim no rapaz e deu início a uma luta que foi, infelizmente muito curta. O rapaz não demorou a sacar um revolver e atirar três vezes. Os amigos não puderam fazer nada, afinal o homem estava armado.

E a partir desse dia eu e minha mãe não mais trocamos qualquer olhar ou palavra. Nenhum sinal de gentileza ou rispidez. Apenas aquela ausência de som que significava muito mais do que qualquer frase.

Em menos de seis meses eu me mudei para uma república universitária apesar de ainda estar no ensino médio. Admito: experimentei arrependimento orgulho ao mesmo tempo. Não mais visitei minha mãe desde então. E ela tão pouco se esforçou para falar comigo. Uma vez voltei à casa dela para buscar algumas coisas que poderia reaproveitar. Entrei, subi as escadas e ela estava lá, no corredor, segurando um balde e um bocado de roupas. Me observou por alguns instantes e disse seca:

-- Não leve nada que não te pertença.

Ela continuou seus afazeres, eu continuei os meus. Essas foram as últimas palavras que ouvi dela. Não sou de guardar rancores, mas todos temos nossos limites. Se antes eu já tinha decidido abandoná-la aquilo foi a última gota d’água. Me certifiquei de pegar todas as coisas para nunca mais voltar. E não voltei.

Quando foi que me perdi nessas lembranças?! Não são as melhores memórias que tenho guardadas para momentos como este. Parece que consumi todo o ar do ambiente apenas respirando. Além disso suportar as pontadas agudas em minha nádega se torna cada vez mais difícil. Tenho certeza de que o ferimento está infeccionando. Consigo sentir o calor vindo do local. Ou talvez seja o outro calor, aquele vindo de todo o ambiente ao meu redor. Uso o celular para lumiar o ambiente e me localizar melhor.

É incrível perceber como devo minha vida àquela placa de alumínio e alguns pilares que a sustentam. À minha frente uma reentrância da placa foi perfurada por um enorme vergalhão. Meu corpo está em um túnel de pórtico retorcido que se mantem a apenas cinquenta centímetros de distância de mim e....

— AAAH!! – grito assustada.

Mas que merda! Meu coração quase voou pela boca e por reflexo tento mover meu corpo e apenas consigo cutucar mais um pouco o ferimento da minha bunda. Demorei um pouco para reconhecer o que estava à minha frente. Somente depois fui reparar que aquela coisa suja e retorcida não era nada menos do que um braço humano.

Notas finais
Se gostou comente, se não faça o mesmo. Em ambos os casos justifique-se! Pedidos de um autor desesperado!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.