Primeira Melodia

6 CAPÍTULO V – Sombras.


Isabella Seymour grunhiu de irritação ao sentir o celular vibrar debaixo do travesseiro. Remexeu-se de forma impaciente, se perguntando como já podia ser a hora de levantar, se tinha acabado de fechar os olhos.

Ao puxar o aparelho, preso ao carregador na cômoda, percebeu que de fato tinha acabado de fechar os olhos — a vibração não era o despertador, mas uma chamada.

O relógio no topo da tela marcava três e doze da madrugada, mas atendeu ainda assim.

— Nate?

— Hey, Bonita...

Eles não se falavam há meses, então era uma ligação no mínimo estranha.

— São três da manhã. — Resmungou, ainda confusa pela sonolência.

— Eu sei... Desculpa te acordar. É que acabei topando com sua amiga loirinha em uma festa da universidade, e bem... Ela não tá legal. Achei que seria sábio te avisar.

Isabella apertou os olhos, sentindo sua cabeça começar a despertar.

— Maya?

— Sim. Ela tomou alguma coisa, deu uma surtada… Pensei em levá-la para casa, mas não quis falar o endereço. E mesmo se falasse... Não sei se a família dela ia gostar de um cara desconhecido...

— Onde vocês estão?

♪


Quando encontrou Maya encolhida no jardim da casa da mãe com um hematoma enorme no braço, Damen sentiu uma vontade insana de entrar na casa para tirar satisfações com aquela mulher terrível.

Mas a amiga o impediu, implorando para que a tirasse dali — e foi exatamente o que ele fez.

Acomodada e mais calma, Maya contou que a senhora Renée tinha aparecido no apartamento do Dr. Certinho há alguns dias, com policiais a tiracolo. Tinha bancado a mãe injustiçada na frente dos oficiais e, como consequência, arrastado a filha de volta.

Nos últimos dias, agira como se a garota fosse uma ingrata e naquela tarde, tinha voltado a usá-la como seu saco de pancadas particular.

— Aí ela finalmente caiu na cama, e eu… Só queria sair de lá.

Um suspiro pesado escapou de seus pulmões.

— Não conte ao meu irmão… Ele não vai poder fazer nada e só vai ficar mais frustrado. Também não conte à Isa, porque ela vai acabar abrindo a boca.

Damen concordou, embora soubesse que esconder mais uma agressão não seria de grande ajuda.

Depois, insistiria no assunto, mas naquela noite, decidiu acatar o pedido desesperado de sua amiga desesperada, e a levou até o dormitório da faculdade onde ele vinha pensando em se mudar nos últimos tempos.

Sabia que os colegas comemoravam o final do período de provas em uma festa regada a álcool, drogas e Rock n’ Roll.

Naquela altura da noite, ninguém se importava com a voz de Axl Rose cantando como plano de fundo do caos, mas aquele era, sem dúvidas, o lugar perfeito para esquecer os problemas…

Tão perfeito que Lopez — que também tinha coisas a serem esquecidas — acabou caindo na cilada da diversão. Seu objetivo inicial era vigiar a amiga para que ela ficasse longe de problemas, mas horas depois, era difícil saber quem estava pior.

Ela, que tinha começado a chorar em um canto escuro na cozinha…

Ou ele, que por alguma razão, tinha saído do prédio e agora afundava seus pés na piscina.

Sua mente era um poço sombrio, cheio de dor e ideias confusas…

Primeiro, havia Dylan.

Não esperava muito da tia Dara, mas como ela podia ter sido idiota ao ponto de colocá-lo na natação, entre tantos esportes?!

Anos antes, o corpo de Dianna tinha passado dois dias inteiros perdido no lago imenso de Montgomery Hall — a casa ancestral da família.

Dam ainda se lembrava daqueles dias, quando o mundo parou no tempo…

Das fitas amarelas da polícia isolando o perímetro — que também tinha sido o mesmo lugar onde ele e seu irmão haviam passado o verão nadando. Da atividade incansável de familiares e autoridades, apenas para encontrá-la sem vida.

Depois daquilo, ele nunca mais voltou a nadar.

Não porque não soubesse nadar, mas porque sua cabeça guardava um medo muito mais irracional do que o afogamento… Mesmo agora, encarando o azul iluminado da piscina imensa, imaginava como seria estar lá dentro — e inevitavelmente encontrar o corpo morto da mãe.

Se ele se sentia daquela forma, como Dylan — que tinha estado no lago naquela noite maldita — se sentiria?

Devia perguntar…

Devia ter perguntado.

Deveria ter continuado à mesa naquela manhã, encarado tia Dara e perguntado como ela poderia ser insensível ao ponto de fazer seu sobrinho passar por algo assim, mas não conseguiu. Porque sabia que no fim do dia, o irmão a defenderia.

Damen, como sempre, sairia como a ovelha negra.

O filho problemático que ninguém sabia como lidar.

Enquanto virava a garrafa de cerveja, perguntou-se o que o irmão de Maya faria em seu lugar. De vez em quando, queria ser mais como Nicholau — que conseguia lidar com a meia-irmã com naturalidade, ainda que fossem completos opostos…

Que a amava, apesar de todas as diferenças.

Não que ele odiasse Dylan, só… Só era impossível não pensar em como seria sua vida se os Montgomery simplesmente tivessem decidido parar no primeiro filho.

Para começar, a mãe ainda estaria ali. E talvez, com sua pequena família de três, a vida seguisse um caminho menos dramático.

Podia imaginar aquele universo: um mundo onde Dianna ocuparia a cadeira maior do grupo Brittan e Byron seria seu braço direito, comandando a companhia aérea.

Como filho único, Dam teria tido uma infância solitária, seguida por uma adolescência cansativa e uma vida adulta de preparações para ocupar o lugar da mãe. Talvez usasse gel como o irmão, e paletós impecáveis que fariam Maya zombar dele.

Era um bom futuro…

Um bom mundo para viver.

Mas Dylan tinha nascido e Dianna perdera a vida para salvá-lo.

Mesmo sendo o agregado favorito dos Montgomery, Byron se tornou um inútil, e o próprio Damen não fugia muito disso, já que tinha pavor da ideia de assumir o lugar dos pais.

Foi aquele pavor que o fez assumir o nome Lopez do lado paterno — e ninguém tentou questionar aquela decisão.

Os Montgomery ficariam a cargo do irmão, e ele podia fazer o que quisesse com eles… Era o que costumava pensar. Mas de vez em quando, em momentos obscuros como aquele, Damen percebia a injustiça daquilo.

Lembrava de como a mãe desejaria que seus filhos dividissem o peso do sobrenome.

Mas Dianna não estava mais ali, e foi justamente sua ausência que o transformou em um covarde — alguém que corria da própria família para fingir que não tinha perdido a pessoa que mais tinha amado na vida.

Alguém que precisava culpar alguém pela dor de sua perda, e que tinha escolhido o próprio irmãozinho como alvo de sua raiva.

No próximo gole de cerveja, ele percebeu que não merecia ser um Montgomery…

Na verdade, não merecia nada. Nem aquele sobrenome idiota, nem Santana, nem Dara, nem Dylan e muito menos Alice, que era doce e gentil.

Damen Lopez era apenas um homem egoísta.

Alguém que merecia o fim solitário.

Estava pensando nisso quando alguém passou por suas costas e o empurrou sem perceber.


= ♫ =


Zachary Seymour detestava aquele tipo de bagunça.

Música alta que ninguém escutava, gritos de gentinha querendo se exibir e cheiro de insalubridade: essa era a descrição perfeita de cada um dos corredores do dormitório que Joshua, seu irmão mais velho, comandava.

Com o fim do trimestre, ele já estava preparado para encontrar o caos generalizado quando fosse visitá-lo, mas não esperava que fosse tão longe assim.

Para piorar, Josh não estava em lugar nenhum.

Era muito fácil imaginá-lo enfiado em um dos quartos com Amélia — ou com qualquer outra garota que não fosse Amélia —, mas também era fácil imaginá-lo desmaiado em algum canto, com um saco de pó do lado.

Depois da última internação, Zach preferia enfrentar aquela caótica comemoração para evitar que aquela segunda visão se concretizasse.

Durante a busca incansável, deparou-se com Nathaniel Hudson — amigo e traficante particular do irmão.

Ele era um cara grande — típico jogador de futebol —, mas tinha uma natureza pacífica. Naquele momento, estava recostado ao balcão da cozinha, se entupindo de Doritos. Fazendo guarda para ninguém mais, ninguém menos do que Maya Renée.

Seymour se aproximou com certa curiosidade, franzindo as sobrancelhas ao vê-la encolhida em posição de feto, abraçando as próprias pernas para choramingar feito uma garotinha.

Não parecia em nada a loira durona da escola, que gostava de usar coturnos pesados que já tinham esmagado seu pé mais de uma vez.

Embora fosse um ano mais velho, eles eram colegas no grupo de canto… Mas Maya era amiga de Isabella — o que tornava a aproximação praticamente impossível.

Foi pensando nisso que se voltou para o grandalhão, decidido a voltar para sua missão.

— Onde está o meu irmão?

Nathaniel não deixou de observá-la.

— Chapado, acho. Subiu para o quarto com uma ruiva.

Zachary fez uma careta, lamentando-se por Amélia, e voltou a se distrair com a chorona.

— Ela não parece bem.

Hudson concordou.

— Chamei sua irmã para buscá-la.

— Que traficante sensato nós temos…

Nate ignorou o comentário, porque sua vida já era difícil o suficiente sem que precisasse se preocupar com o julgamento de mauricinhos como Zachary Seymour. Além disso, ele conhecia aquela família o suficiente para saber que nenhum deles era fácil de se lidar.

Um grito estridente, vindo da parte externa do prédio o distraiu.

— Escutou isso?

Zachary não ouvia nada além da música alta.

— Acho que também tá chapado.

Nathaniel não tinha tomado uma gota de álcool, e a voz gritando ao fundo lembrava muito a de Isabella, então ele entregou o saco de salgadinhos para o outro e comandou:

— Fique aí. — Antes de correr para fora.

Zach soltou um suspiro cansado... Então sentou ao lado de Maya, oferecendo um dos nachos. Ela o espiou entre os cachos loiros e desgrenhados, se acomodou em seu ombro como se eles fossem muito íntimos e aceitou a comida.


♪


Damen não sentiu muita coisa enquanto afundava na água.

No começo, o susto e o frio o tinham apavorado — era como cair sobre o vidro quebrado… O gelo da água no inverno cortou sua pele e rasgou seus pulmões, mas a dor se dissipou muito rápido.

Um instante depois do sofrimento, seu corpo ficou leve — anestesiado — e a falta de ar não parecia um problema tão grande.

De repente, ficar ali esperando o inevitável não era uma ideia tão ruim.

Todo mundo morria uma hora, não é?

Ele viu uma sombra se aproximar — os cabelos longos de uma mulher flutuando pela água…, e se perguntou se Dianna tinha voltado para resgatá-lo, assim como tinha feito com Dylan anos atrás.

Todos os temores com a água se mostraram sem sentido, porque encontrar a mãe não era uma experiência assustadora. Pelo contrário: quando sentiu os braços finos envolvendo sua cintura para erguê-lo de volta à superfície, Damen se sentiu seguro pela primeira vez em anos.

Como se finalmente tivesse voltado para casa.


Nathaniel ajudou Isabella a erguer o rapaz para fora da piscina.

Ele o puxou pelo chão de pedra, e iniciou os primeiros socorros imediatamente.

— Damen!

Isabella arrastou os joelhos até alcançá-los, assim que conseguiu sair de lá — seus olhos claros estavam vermelhos pelo choro e pelo cloro.

Nate nunca a tinha visto chorar antes, mas conseguiu entender o desespero. Ele estava desesperado, e não sabia nada sobre aquele cara — nada além do fato de que era um dos amigos festeiros da Bonita.

— Dam! Acorda!

Súplicas não ajudavam em nada, mas Hudson não a impediu. Continuou trabalhando para fazer o garoto voltar a respirar — contando as massagens cardíacas e torcendo para ainda se lembrar do procedimento correto.

— Dam…

Nathaniel puxou o celular velho e pesado do bolso para atirá-lo a Seymour.

— Liga para a ambulância, Bonita. Agora. — Ordenou.

Apertou o nariz do outro e abriu a boca para empurrar o ar para dentro.

Por sorte, Damen começou a tossir antes que os dedos trêmulos da amiga completassem a ligação.


— Damen!

Enquanto tossia, Lopez pensou que fosse botar as tripas para fora.

Alguém o ajudou a se virar e ele vomitou um bocado de água gosmenta no chão — mesmo assim, continuou se engasgando com a própria tosse.

Alguém estava chorando… Mas, com a visão turva, o jovem só conseguiu reconhecer Isabella quando ela se aproximou para ajudar a se sentar — e entre os rios de lágrimas, bateu em seu peito.

— Eu pensei que você ia morrer!

O acusou, um minuto antes de envolvê-lo em um abraço trêmulo e choroso.

Damen levou um minuto inteiro para entender que ela, e não Dianna, tinha sido a pessoa a tirá-lo daquela água — e entristeceu-se com aquilo.

Sentiu o agridoce da decepção se espalhar pela boca, mas pousou os dedos pela cabeleira loira para acalmar aquele choro assustado.

— Não vou morrer hoje.

Suas palavras saíram roucas, com tom de promessa — mas ele se lembrava de querer ficar na água… De querer afundar, e torcer para que o inevitável o encontrasse logo.

Odiou-se por isso, porque Santana não merecia perder o filho.

Dianna não merecia isso…

E Isabella definitivamente não merecia passar o resto da vida assombrada por ele, como os Montgomery eram pelo fantasma da mãe.

Mais uma vez, a consciência do que havia se tornado o atingiu — nada mais que um garoto covarde, medroso demais para querer seguir com a própria vida.

Comprimiu a boca em uma linha reta e afundou o rosto na dobra do ombro da garota Seymour, que se encolhia em seu peito.

Assim como Isabella, Damen começou a chorar.

Odiando a si mesmo e desejando, silenciosamente, se tornar outra pessoa.


= ♫ =


No fim da noite, Nathaniel era a única opção de motorista disponível para aquele bando de riquinhos mimados e problemáticos.

Ele ajudou Zachary e Isabella a colocarem seus colegas chapados dentro do carro de Damen, e os levou para sua casa — que também acabou como a única opção, dado o estado dos jovens.

Hudson morava em um kitnet chinfrim que ficava perto da universidade onde fazia suas vendas. Era um lugar minúsculo, frio e feio, mas surpreendentemente organizado para um homem sozinho.

Zach tinha ficado no dormitório para buscar o irmão e os amigos da Bonita estavam fora de área há muito tempo. Após serem vestidos com roupas secas e limpas pelas únicas pessoas sóbrias do recinto, foram jogados sobre o velho colchão de origem duvidosa — que havia custado apenas vinte pratas ao seu dono.

A jaqueta de Nate cabia em Isabella como um vestido curto, mas ela não se importou. Juntou-se ao rapaz no balcão da cozinha minúscula, onde dividiram um pacote de biscoitos velhos e a única cerveja que restava na geladeira dele.

— Você gosta dele?

Nate perguntou distraidamente, apontando para o rapaz sobre a cama.

— Pensei que tinha deixado meus sentimentos muito claros no seu aniversário.

O rapaz disfarçou o rubor de seu rosto com mais um gole de cerveja e pigarreou.

— É que… Eu nunca te vi chorar…

— Com certeza vou chorar se precisar te salvar da morte algum dia, não se preocupe.

Eles trocaram um sorriso antes de Hudson voltar a analisar o tal Lopez.

— Ele é bonitão... E parece gostar de você, Bonita.

Ela voltou a rir. Puxou o saco de bolachas das mãos de Nate e o jogou sobre o balcão pequeno, junto da lata de cerveja que mal tinham tocado.

Pousou as mãos sobre os ombros fortes e ajeitou-se sobre o colo do rapaz — estreitando os lábios em um ligeiro sorriso de satisfação quando o viu enrijecer pela aproximação.

— Ele tem namorada... — Bella explicou, roubando um beijo longo e sedutor que Nathaniel não pensou duas vezes antes de retribuir. — Até onde eu sei, você é o único cara com namorada que eu cometi o erro de me interessar.

A voz dela era um sussurro.

Como de costume, fez a cabeça do Hudson girar.

— Que droga, Bonita...

Resmungou, mas segurou a nuca dela com firmeza, se esticando para voltar a beijá-la.

Isabella estava usando apenas o moletom, sem nada por baixo, então era muito fácil deslizar a mão pela perna pálida e macia. Subir, subir...

Mas ela se afastou para espirrar, graças a Deus.


Damen percebeu que preferia estar morto a ter que assistir Bells transar com outro cara.

Como se o universo ouvisse suas preces, ela espirrou — interrompendo aquela aproximação traumatizante — e Hudson recuperou sua sanidade.

— Eu devia ir. Seu irmão está procurando Josh, preciso ser um bom amigo e ajudar.

Levantou-se num pulo, absolutamente desconcertado por sua fraqueza.

Mas quando ela o puxou para roubar mais um beijo, não se esforçou para resistir.

Mesmo sem querer, Damen sentiu seus ossos doerem de inveja.

Ele viu Nathaniel se afastar devagar — a respiração pesada. O viu recostar a testa na de Bella e balançar a cabeça em negativa, obrigando o próprio corpo a resistir.

Embora não se orgulhasse disso, no lugar dele, Damen percebeu que agarraria os cabelos molhados e puxaria Isabella de um jeito que ela nunca mais se cansaria de beijá-lo.

Um espirro definitivamente não o faria parar para pensar.

Mas quando Nate deixou o lugar e ela se aproximou, deitando-se entre os amigos na cama velha que fazia um barulho desgraçado, não conseguiu fazer nada além de olhá-la.

— Você está bem?

Sua voz era um cochicho preocupado.

Como Lopez não tinha presença de espírito o suficiente para respondê-la, a garota interpretou o seu silêncio como uma negativa.

— Me assustou lá...

— Você ia transar com plateia?

A mudança de assunto a surpreendeu.

Um segundo depois, Bells conteve uma risada — balançando a cabeça como se dispensasse a preocupação do outro.

— Eu não ia transar, sabia que ele ia parar.

— Não ia não. Ele não tem namorada?

Os lábios pálidos se estreitaram — claramente incomodados com aquele tom.

— Não que seja da sua conta, mas eles têm um relacionamento aberto... Está tentando mudar de assunto, por acaso? Porque não vai funcionar.

Damen soltou um suspiro cansado e sentou devagar, fazendo uma careta com o ruído da cama. Bella o acompanhou, e encostou o queixo em seu ombro receosa, enquanto o espiava com curiosidade.

— Minha família biológica voltou para a cidade… — Confessou, sem entender o porquê. — E eu… Hm… não sei, minha cabeça está uma bagunça desde então.

Isabella nem sabia que o amigo ainda tinha contato com a família biológica.

— Vocês não se dão bem?

O rapaz negou devagar, pensando no assunto por um momento.

— Quer ouvir?... — A olhou de lado. — A trágica história sobre a minha família?

— Acho que o mínimo que você pode fazer por sua salvadora é contar a fofoca completa.

Ela tinha um sorrisinho esperto nos lábios, mas a tinha visto chorar mais cedo — sabia que devia estar preocupada.

— Minha mãe morreu. Salvando meu irmão de um... Acidente.

Não queria pensar na palavra “afogamento”.

Não depois do que tinha acontecido.

— Meu pai tentou se matar depois disso, e perdeu nossa guarda para uma tia... Mas eu costumava lembrar meu irmão com frequência como ele tinha matado minha mãe, então essa tia me entregou para a meio-irmã do meu pai. Mi madre, Santana.

A garota não estava mais com o sorrisinho esperto.

— Eu sinto muito.

— Não sinta... — Ele suspirou pesadamente, passando as mãos pelo rosto. — Eu era uma criança terrível. O problema é que não consigo parar de ser terrível, mesmo que tenha mais consciência hoje...

Ele estalou os ombros, desconfortável.

— Por alguma razão, meu pai e meu irmão decidiram voltar para Londres e... Não sei. Só queria fugir de todo esse passado de merda.

Isabella deitou em seu ombro, parecendo refletir.

— Sei como é a sensação. — Murmurou. — Às vezes eu fecho os olhos e fico imaginando como seria bom escapar pela porta de casa. Fugir daqui para sempre.

Foi a primeira vez que Damen notou que não sabia muito da vida dela.

Os Seymour não se davam bem, e isso era um fato conhecido por cada alma da British. Pelas piadas de seus irmãos, sempre imaginou que o motivo da rivalidade fosse o favoritismo do senhor Seymour pela caçula.

Mas Bells não parecia uma irmãzinha mimada quando disse aquilo.

Parecia... Cansada. Assim como ele.

Com a diferença que ela era um anjo, enquanto ele era um maldito covarde.

Mesmo assim, o rapaz encostou a testa na dela, fechando os olhos como ela.

— Podemos fugir juntos, se você pedir.

A risada dela era suave, e aqueceu seu coração.

— Podemos ir para a praia, então?

Damen odiava praias, mas acenou do mesmo jeito.

— Para onde quiser.


Quando chegou em casa mais tarde àquela manhã, percebeu que estava mesmo falando sério: se Isabella pedisse, ele faria as malas, jogaria tudo no carro e partiria para onde quisesse.

Também percebeu que se ela tivesse se esticado em sua direção de manhã, como Kloe tinha se esticado no balanço na tarde anterior, não teria força de vontade o suficiente para se esquivar, mesmo que sua consciência soubesse que era errado.

Se ela tivesse beijado Damen como tinha beijado o Hudson naquele balcão...

— Dam.

Alice o chamou assim que ele passou pela porta.

Ela estava no sofá, com Santana, que tinha começado a servir o chá, mas levantou-se ao vê-lo finalmente entrar em casa.

Apesar da desconfiança em seu olhar, su madre apenas se levantou, ajeitando o robe de seda, e avisou Ally que precisava resolver algo — apenas para deixá-los sozinhos.

Damen detestou aquela privacidade.

Não esperava ver Ally tão cedo... Pelo menos não enquanto seus pensamentos estavam embolados dentro da cabeça.

Notou que os olhos da namorada estavam inchados, e sentiu mais uma dose de culpa.

— Ally... — Droga.

Não sabia nem o que dizer.

Alice franziu os lábios, ajeitou a saia do uniforme e voltou a se sentar.

— Vai mesmo terminar comigo por uma mensagem?

Ele não fazia ideia do que ela estava falando, mas quando puxou o telefone — que por milagre tinha escapado do banho mais cedo — e conferiu a caixa de saída, encontrou um texto confuso enviado naquela madrugada.

Provavelmente antes de cair.

Era uma mensagem enorme, cheia de erros ortográficos, onde basicamente se repetia — sobre ser um grande covarde, sobre não merecê-la, sobre como ela precisava de um cara mais legal, e pedia que o perdoasse.

Soltou um suspiro cansado.

Não eram nem dez da manhã, e já queria que aquele dia acabasse.

— Sei que algo está acontecendo, Damen. Mas não posso ajudar se você não me deixa nem estar do seu lado!... Por favor, eu não quero que acabe assim. Sabe que eu faria qualquer coisa... Qualquer coisa para ficarmos bem, para você ficar bem.

— Devíamos subir pro quarto, então?

Ela não respondeu, mas seu rosto ficou dois tons mais vermelho do que o de costume, exatamente como sempre ficava quando o namorado brincava sobre irem para o quarto.

Alice era virgem, e é claro que ele já tinha tentado avançar o sinal.

Em todas as tentativas, a namorada ficava tão nervosa que desistiam de continuar.

Aquilo nunca o incomodou... Dam sabia que devia respeitar seu tempo, suas vontades e, até aquele momento, pensou que teriam a vida inteira para passar por aquela experiência.

No fim, foi melhor assim.

Ele sorriu sem jeito, sentou-se ao lado dela no sofá e puxou sua mão.

— Eu estou brincando... — Fez uma careta ao espirrar. — Sabe que nunca ia te pressionar para isso... E também não estou com cabeça, mesmo que você quisesse tentar.

Alice apertou sua mão, e ignorou a sucessão de espirros que Lopez deixou escapar.

— Sabe que pode confiar em mim, Dam.

Ele sabia mesmo, e de fato confiava.

Se sua vida dependesse da vida de Alice, sabia que ela morreria por ele sem nem piscar. Assim como morreria por Amélia, por seus pais, ou por um gatinho na rua prestes a ser atropelado.

Porque Alice era boa, gentil e não tinha nenhum senso de autopreservação.

— Eu sei. — Beijou sua mão carinhosamente. — Mas isso não é sobre você, Ally... Eu sinto muito. Não estava muito bem quando te mandei isso, mas...

Outro espirro.

Já estava começando a irritar.

— Você está doente... — Ela tocou seu rosto, mas Damen meneou a cabeça em uma negativa. Não precisava colocar mais uma preocupação na cabeça da pobre garota.

— Ally... Talvez seja melhor pararmos por aqui mesmo.

~ ♫ ~