Primavera dos Mortos
1 Adeus, papai e mamãe. Olá, Submundo.
Notas iniciais
Críticas construtivas, sugestões, elogios: deixe seu comentário e diga o que achou. Estou sempre tentando melhorar e aprecio muito a opinião dos leitores. Não seja fantasminha, me deixe feliz! -q
P.s: Capa temporária.
P.s²: Não tenho data definida para postar, mas não demorarei muito.
P.s³.: Deixei o link de uma fic minha nas notas, vê lá. -q
Quando você está em uma fila, o tempo parece fluir lentamente. Aquela revista de fofocas com uma matéria bombástica sobre uma subcelebridade desconhecida de repente se torna interessante. Observar uma criança berrando para a mãe comprar seus cereais favoritos não é mais desagradável. Se torna intrigante tenta adivinhar quem levará a melhor: a mãe sofredora ou a menina encabulada. Infinitas coisas que antes era maçantes tornam-se passatempos.
Após 20 minutos em pé, a minha vez já estava chegando. Peguei minha carteira do bolso da calça jeans e retirei quinze dólares. Enquanto conferia se a senhora a minha frente não tinha cochilado em pé, notei um movimento brusco na porta rolante. Dois homens encapuzados e com máscaras de esqui no rosto entraram, analisando o ambiente. Droga.
“Calma, Janie” pensei, tentando não desviar o foco. “São pessoais normais vindo fazer compras.”
— Isso é um assalto – anunciou um deles. – Todos no chão com as mãos na cabeça enquanto recolhemos seus pertences.
Eu já devia saber. Que tipo de pessoa em sua sanidade viria vestida como se quisesse se esconder de Deus e do mundo? Ladrões.
Fiz o que ordenaram e me ajoelhei, tentando me manter calma. Eu não tinha muita coisa, apenas alguns dólares e umas balinhas de hortelã, caso eles quisessem combater o mau hálito. Não tinha muito a perder. Dei uma olhada nas outras pessoas presentes. A mãe da criança birrenta apertava a filha com tanta força que achei que fosse afundar as unhas no braço dela. A senhora idosa se mantinha em pé, provavelmente porque os joelhos não permitiam. Dois rapazes estavam na mesma posição que eu, em silêncio, perto do caixa. Uma porção de pessoas de várias idades estavam um pouco mais distantes, igualmente amedrontadas.
Respirei fundo quando os assaltantes estenderam a sacola para que eu pudesse depositar meus bens. Despejei o dinheiro com um pequeno pesar no coração, afinal, era fruto do meu suor. O ladrão franziu a testar ao constatar minha falta de recursos.
— É tudo isso que você tem? – ele perguntou em um tom de voz ríspido.
— Infelizmente. – respondi, com uma expressão neutra. Meio que era mentira, porque eu ainda tinha as balinhas, mas não deviam valer muita coisa.
Ele me encarou por alguns segundos, decidindo se devia acreditar na minha resposta. Se ele observasse o estado das minhas roupas surradas, notaria que eu não era uma Kardashian da vida. Por fim, ele se retirou e foi recolher o restante.
Tudo estava correndo tranquilamente, tanto quanto um roubo poderia ser. Achei até que voltaria para casa sem visualizar nenhuma tragédia e ilesa, apenas com uma história para contar para os amigos. Porém, notei um movimento da parte de um dos garotos perto do caixa. Ele tentava digitar algo no celular sem chamar atenção. Provavelmente, planejaria ligar para a polícia, como toda boa vítima.
Procurei um modo de chamar sua atenção, mas ele não estava olhando para mim. Queria alertá-lo de que aquilo era perigoso. Ele poderia ser descoberto e isso talvez significasse o fim da linha para ele.
Movi meus joelhos em direção ao caixa. Os assaltantes estavam quase terminando e iriam voltar a atenção para ele a qualquer momento. Eu não era nenhuma heroína, mas não queria ver nada ruim acontecendo com alguém na minha frente.
— Ei, ei, ei – sussurrei, a uma boa distância dele.
Ele se sobressaltou, assustado, e deixou o celular cair no chão, produzindo um ruído suficientemente alto para ser escutado em todo estabelecimento, imerso na quietude
— Eu... eu... Estava... estava só t-tentando ligar... – ele começou a gaguejar.
— Anda logo, guarda isso antes que eles vejam o que você está fazendo – orientei.
Ele se atrapalhou ao tentar guardar o celular de volta. Escutei passos vindos do corredor e praguejei mentalmente, me arrependendo de ter saído de casa.
— Ei, moleque! O que você tá aprontando aí?
O garoto recebeu uma coronhada dolorosa no pescoço, mas permaneceu consciente, apenas um pouco desorientado. Um dos caras com máscara de esqui recolheu o aparelho e visualizou a tela.
— Tentando ligar para a polícia, né? – disse, com um sorriso de escárnio nos lábios. – Tsc, tsc, rapaz.
Vi o medo estampado nas feições do rapaz quando o bandido deslizou o dedo em cima do gatilho. Senti meu sangue gelar por ele. Eu não queria ser testemunha de um assassinato.
— Por f-favor... eu não queria... Leve o meu d-dinheiro... – ele pedia, se encolhendo como um feto. – Não me mate, por f-favor...
— Não existe perdão da minha parte para delatores, garoto. Pare de choramingar e encare isso como um homem. – ele mirou a arma na testa. – Posso até considerar se você me der um motivo bom o suficiente para ficar vivo.
— Por favor, eu tenho uma família... Meus pais... Eu sou filho único... Pegue meu dinheiro, cartões de crédito, carro! Leve o que quiser, mas, por favor, me deixe viver – o garoto tentou não se atrapalhar com as palavras dessa vez, com o corpo inteiro tremendo.
— Ah. O velho clichê. É o que todos sempre dizem, rapaz. Que azar o seu.
O impulso foi mais forte do eu. Como afirmei anteriormente, eu não era nenhuma heroína. Sempre preferi evitar o conflito e viver sem problemas. No entanto, digo que o ser humano é capaz de coisas incríveis em situações de grande tensão. Deve ter sido o meu caso. De qualquer forma, descobri em mim mesma uma nobreza que não sabia que existia. Daquelas dignas de um filme de super-heróis.
Me joguei na frente do garoto, utilizando meu corpo como escudo. Quando o gatilho foi acionado, só tive tempo de registrar o barulho do tiro. E o som do meu corpo tombando no chão.
***
Quando abri os olhos novamente, tomei um susto. Gritei tão alto que devia ter estourado alguns tímpanos alheios. Em frente a mim, vi meu corpo. Completamente ensanguentado, ainda quente e sem a cabeça. Os miolos do meu cérebro estavam por toda parte, salpicando as paredes e o chão. Senti meus olhos arderem com as lágrimas que estavam por vir.
Não, não, não, não. Aquilo não podia estar acontecendo. Não era eu, não era eu.
Me agachei, tomando goles profundos de ar. Eu não conseguia acreditar naquilo. Fechei os olhos. Eu tinha sido tão burra. Por que protegi aquele cara? Eu nem sequer o conhecia. Ele não era problema meu. E mesmo assim eu dera minha vida por ele. Por quê?
“Estúpida.” pensei. “Tudo por causa da merda de seu altruísmo idiota. Deveria ter ficado fora disso.”
Balancei o corpo para frente e para trás, sentindo um rastro de lágrimas quentes descendo pelo meu rosto. Continuei chorando por um tempo indefinido, negando aquilo que estava à minha frente.
Pensei em mamãe, papai e Aimeé, minha irmãzinha de quatro anos. Eles ficariam arrasados com a notícia. Eu nunca mais os veria, nem acompanharia o crescimento da minha irmã. Não iria para faculdade, nem para festas, nem falaria com meus amigos. Nunca teria minha própria família. Era o fim para mim.
Eu soluçava com tanta força que tremia. Amaldiçoei os assaltantes por terem escolhido fazer aquilo justamente naquele dia, amaldiçoei o garoto também, por tentar ligar para a polícia. E à mim, por não ter nenhum senso de autopreservação.
A cacofonia da loja não me incomodava. Eu estava imersa demais no meu próprio sofrimento para me importa. Não registrei quase nada direito, apenas desespero e gritos estridentes. Minha dor era grande demais para que eu notasse a de outros.
Quando minhas lágrimas secaram, tive que manter minhas pálpebras fechadas. A ardência era quase insuportável. Minha cabeça latejava, meu ouvido zumbia e minha garganta estava apertada.
— Essa cena é lamentável. Sinto muito por você. – a voz flutuou até mim.
Não respondi, nem sequer me dei ao trabalho de ver quem se dirigia a mim.
— Tudo bem, então. Permita-me fazer as honras.
Senti uma leve pressão no ombro. Ergui a cabeça para cima e me deparei com um desconhecido de 1,85cm me olhando de volta.
— Quem... é... você? – murmurei, sentindo minha voz em fiapos.
Ele abriu um sorriso largo e zombeteiro, mostrando fileiras de dentes perfeitos. Seus olhos tinham um brilho travesso, como se alertasse a quem os visse que poderia cair em uma pegadinha a qualquer momento.
— Sou Hermes, mensageiros dos deuses, deus dos viajantes, das estradas, diplomatas, comerciantes, e vários outros atributos. Popularmente conhecido como o deus dos ladrões.
A menção a palavra fez com que eu me afastasse bruscamente de seu toque. Ele suspirou.
— Bem, esse não foi o momento mais adequado para dizer isso. Minhas sinceras desculpas.
Desviei o olhar.
— Me explique o que está acontecendo.
— Lamento informá-la, mas você, pelo sadismo das Três Parcas, faleceu em causa de outra pessoa – Hermes relatou, pesando a cautela em suas palavras, apenas confirmando o que eu já sabia.
— E... agora? – perguntei, pensando no que viria depois. Eu nunca tinha pensado nisso.
— Irei guiá-la até o Submundo, para onde todas as almas vão após a morte. Lá, será julgada por três juízes e eles decidirão seu destino. Estará fadada a glória, ao esquecimento ou ao tormento? – Hermes esticou seus lábios em um sorrisinho de canto.
Eu o encarei, confusa.
— Submundo?
— Também chamado de Mundo Inferior e Reino de Hades. Ah, alguns também chamam de Inferno, se acabarem nos Campos de Punição.
— Isso tudo é... estranho. – balancei a cabeça. Os nomes me pareciam vagamente familiares, como se eu já os tivesse ouvido antes. – Hã, certo. Precisamos ir para esse lugar agora? Tipo, neste exato momento?
— É importante que não demoremos muito aqui. – Hermes ergueu uma sobrancelha. – Por quê?
— Eu queria ver a minha família. Uma última vez. É meu último desejo. – adicionei, esperando que aquilo causasse alguma misericórdia.
— Um último desejo só conta quando você ainda está viva ou deixa um testamento. De qualquer maneira, eu não posso permitir isso. É perigoso deixá-la vagar por aí, há predadores lá fora e uma alma tem um valor incalculável, principalmente para seres divinos como eu. Sem contar que, na sua atual situação, isso poderia afetá-la bastante. Deixe as coisas como estão.
Assenti silenciosamente. Hermes sussurrou algumas palavras e duas cobras deslizaram das mangas de sua blusa. Ele disse algo para elas que soou como “trabalho quase finalizado”, então as serpentes se entrelaçaram, seus corpos assumindo a forma de um caduceu. Cravei o olhar nas pupilas sem vida do caduceu-serpente e me perguntei se nada mais poderia ficar mais bizarro ainda.
— Feche os olhos. – Hermes ordenou, tocando levemente em meu braço.
Fiz o que ele pedi. Mesmo com os olhos fechados, pude ver que estávamos sendo envoltos por uma explosão de luz branca.
— Você pode olhar agora.
Mordi o lábio inferior e abri os olhos. O Submundo não tinha uma boa iluminação, provavelmente porque parecia uma caverna subterrânea.
— É aqui?
Um rio cortava a paisagem, fluindo lentamente adentro do local. A grama estava morta e quebradiça, sem nenhum sinal de vida. Na margem, um barqueiro aguardava por um passageiro, segurando um remo e de costas para Hermes e eu.
— Receio que sim.
Mirei o perfil de Hermes de esguelha, me sentindo desajeitada.
— Nos despedimos aqui, então.
— Você tem que seguir em frente.
— Não pode me acompanhar? Até eu ser julgada? – perguntei, mesmo sabendo a resposta. A presença dele me deixaria menos apreensiva em relação ao que iria acontecer comigo dali em diante.
— Não. Este ponto é a minha linha final. Tenho que continuar o trabalho, guiar outras almas, entregar as mensagens dos deuses... Enfim. – ele deu de ombros. – Ah, vai precisar disso.
Ele depositou uma moeda na palma da minha mão. Eu esfreguei os dedos na superfície, curiosa. Estava bastante corroída, então não pude enxergar a imagem gravada nela.
— O que é isso?
— Chama-se óbolo. Você deve pagar Caronte com ela, caso contrário ficará presa na margem para toda a eternidade.
— Bem, obrigada. Pela moeda e por ter me trago aqui.
— É o meu trabalho. Boa sorte, Janie.
Ergui minhas sobrancelhas.
— Como você sabe meu nome?
— Minha cara, eu sou um deus. – Hermes deu uma piscadinha para mim. Sorri pela primeira vez no dia
Hermes desapareceu em uma luz ofuscante. Me virei, suspirei e fui encarar o barqueiro infernal.
Notas finais
Beijooooos!
~Link das minhas outras fanfics~
How to Hate Death [Amor Doce/oneshot] (https://socialspirit.com.br/fanfics/historia/fanfiction-amor-doce-how-to-hate-death-5699485)
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