Primavera Cativa

1 01. Introdução: A Casa Amarela


Naquela manhã, acordou como sempre. Levantou ainda com sono, fez o seu café, algo leve para comer e se apoiou na pia da cozinha, onde sempre fazia sua refeição matutina pensando em coisas diferentes da vida. Saboreava seu café com calma, tinha muito tempo antes de precisar começar de fato a fazer alguma coisa. Quando acabou, resolveu ler um livro sentada na sala da sua casa, aproveitando o silêncio que predominava o lugar. Passava os dias assim, presa naquela casa sozinha, somente com a companhia das paredes e móveis, além daquela coisa. Fazia sua rotina de modo mais tranquila possível, já que não tinha muito o que fazer mesmo, sempre lendo, vendo alguma coisa na TV ou olhando a paisagem além da janela, algo que nunca mudava, como uma fotografia. A criatura olhava para ela de forma fixa, com certa distância, sempre mudando de forma. Em uma hora era uma menina, outras, um homem, e em muitas outras uma espécie de animal que não conseguia identificar. Era sempre assim, sua eterna companhia. E, em muitos momentos, fazia a coisa que mais amava: devanear. Sempre devaneava a qualquer momento, não importava muito. A coisa estava sempre em seus devaneios, aguardando quando desse um passo em falso para tomar de conta de si, para poder agir quando bem entendesse. Acabava viajando por mundos diferentes, sendo uma grande heroína ou uma grande vilã, onde era uma personagem triste e sofrida ou que era a maior rebelde de todas. Sonhava com mundos próprios, com mundos que via nos seus programas favoritos de TV e no mundo dos seus livros. Assim, ela passava seu tempo naquele lugar todos os dias, aproveitando os dias calmos.

Sua casa era uma pequena e aconchegante casa amarela que ficava no meio do nada. A porta parecia uma grande vilã para ela, uma coisa que ela jamais pensaria em atravessar. Preferia ficar alí, segura com seu pequeno demônio do que sair e encarar o que estivesse atrás daquela porta. Cada cantinho foi feito de modo que parecesse aconchegante e acolhedor. E assim, ela passava seus dias.

Ainda bebendo de seu café, agora frio, acompanhando um livro fofinho de romance (ou seria algo mais mórbido?), parou para respirar o ar mais uma vez. De olhos fechados, pensava na sua vida e em como tudo se andava de modo calmo, sem pressa ou pressão.

E olhando para a porta escura, seus olhos começaram a ficar turvos, sua mente começou a flutuar. Ela já conhecia aquela sensação, era uma velha amiga que vivia com ela todos os dias.

E mais uma vez, ela começou a devanear.