Prig Stígur- A Atrevida
15 Número 12
Notas iniciais

Os pingos de chuva escorriam pela janela quando ele acordou, o clima havia esfriado, esfriado demais para ficar na cama com um lençol sem vergonha e trajando apenas shorts, afinal, todos precisamos de um sapato bonito para combinar com tudo! Ele se levantou e colocou sua roupa de costume, a meia calça cinza, o casaco bege, shorts azuis e sapatos marrons em estilo antigo, claro que escovou os dentes (N/A: não que ele gostasse...), deu uma olhada na aparência com a ajuda de um pequeno espelho e saiu do quarto, a porta de ferro bateu com um estrondo, hoje era um dia especial, hoje era sexta de panquecas!
O jovem caminhou até o hall e sentou-se em uma das poltronas velhas, a música clássica tocava suavemente, a mesma música, toda hora, todo dia, dizem que uma vez uma das "residentes" tentou desligar a música e ficou uma semana na "toca do corvo", claro que ele não ficou parado por muito tempo, logo se levantou em um pulo e foi para o corredor dos quartos, queria ver a novata de que todos falavam, já era o quarto dia dela na "toca do corvo", provavelmente não havia comido nada, diziam que ela tomava uma injeção por dia quando o normal para todos era duas por semana, ou seja, aquela garota precisava realmente de ajuda.
Os enfermeiros olhavam para ele enquanto passava pulando alegre, assoviava a música clássica do hall, ninguém iria impedí-lo, ninguém ligava, ou melhor, quase ninguém, duas pessoas precisavam ser temidas, um dos enfermeiros se aproximou dele:
–Não pode andar por aqui doze- Ele falou chamando o menino pelo seu número de identificação
–Bem, eu sou o número oito, deve ter se enganado senhor- Ele respondeu sorrindo sem parar de andar
O enfermeiro respirou fundo e sacudiu a mão para o jovem que já havia ido embora, ele já estava em frente à porta da "toca do corvo", o engraçado de St. Agnes é que ninguém ligava para ninguém, qualquer um poderia entrar em áreas restritas e o mais engraçado era que mesmo assim ninguém tentava ajudar ninguém, isso sim é solidariedade! Ele sorriu e abriu a tranca da porta.
A "toca do corvo" continuava nauseantemente branca, uma pessoa estava encolhida no meio da sala almofadada, ele virou uma estátua, não conseguia entrar novamente naquele lugar horripilante, todas as coisas que fizeram a ele que há tanto tempo foram escondidas agora eram lembradas pelo mesmo, a garota não se mexeu, permaneceu encolhida e de costas para ele.
Pareceu uma hora agonizante quando só se passaram alguns minutos, ele finalmente entrou no quarto, as mãos tremendo, os joelhos bambeando, sentou-se encostado na parede, de frente para a menina que permanecia encolhida, o cabelo cobria seu rosto, a única coisa discernível era seu braço fino esticado para servir de apoio à cabeça:
–Hey- Ele sussurrou tentando acordá-la, mas não obteve resposta- Garota- Ele chamou mais alto- Acorda caramba!- Ela continuou estática e ele continuou ali, somente a encarando, por algum motivo vê-la o agradava
Nem sabia se era noite ou dia quando saiu daquele quarto, o fato é que as visitas se seguiram diariamente, uma semana, duas semanas, a menina não se mexia, no meio da terceira semana seu braço exibia hematomas, ele hesitou, mas logo desistiu do bom senso e apertou o machucado, esperou um tapa, um murro, um grito ou um arfar, todavia nada ocorreu, ele segurou um grito e a empurrou virando-a de barriga para cima, hematomas se espalhavam pela pele da garota, Wiliam estancou, ela parecia o próprio corvo, os cabelos longos e descuidados, a camisa de força desbotada, o rosto marcado por lágrimas, machucados e sofrimento, sua expressão era dolorosa de se observar, ela abriu levemente os olhos castanhos e o encarou:
–Oi- Ele falou sorrindo, ela não respondeu- Eu sou o Wiliam, sou outro residente daqui, bem, não daqui da "toca do corvo", mas aqui de St. Agnes, se bem que eu já fiquei aqui quando cheguei, todos começam ficando aqui, mas você- Ele fez uma pausa para olhar a garota de aparência frágil- Você está sendo drogada diariamente
–Toca do corvo?
–É o nome desse quarto e... Um minuto de silêncio para o milagre de você ter falado comigo- Ele anunciou rindo, ela sequer sorriu- Tá bem enfezada, hunf, pessoas como você acabam com a graça- Ele a olhou de relance e sorriu- Quer sair daqui? É claro que quer, hum... Não sei se posso te ajudar nisso- Wiliam deitou ao lado da menina que continuava imóvel a não ser por uma leve tremedeira, o garoto sussurrou ao pé do ouvido dela- Eu sei o que ele fez com você, ele faz com todas
–Não fizeram nada comigo- Ela respondeu fechando a cara
–Se você diz, amanhã é sexta de panquecas- Um sorriso tomou conta do rosto do jovem, a menina sorriu levemente
–Pode me trazer um pouco?
–Essa foi a primeira vez que falou comigo e já começou a exigir? Depois não vem falar que mulher não é exigente- Ela abriu o sorriso, mas seu rosto pareceu se contorcer obrigando-a a murchar o sinal de felicidade- Não comemos panquecas, o diretor daqui come panquecas e o manicômio inteiro fica cheirando... É uma delícia
–Ah, o jardim é bonito aqui
–Realmente, acho que é o melhor lugar pra se ficar- Ele comentou estranhando a mudança repentina de assunto
–Pode me levar lá amanhã?- Ele a olhou incrédulo, que menina mais atrevidamente sensacional ele foi achar... Parabéns Wiliam, você é demais!
–Vou tentar me convencer a tentar- Ele falou dando de ombros e se levantando
–Espere!- Ela pediu e ele a olhou sorrindo- Ele só faz isso com as meninas?
–As meninas sofrem de um jeito, os meninos de outro, cada um tem seu tipo de tortura particular, é como se ele estudasse a sua ficha para descobrir tudo de você e arquitetar o jeito mais legal de te fazer sofrer
–No jardim tem petúnias? -Como?- Ele arqueou uma sobrancelha, ela era sempre tão avoada assim? E biruta? Talvez levemente inteligível, sem dúvida um corvo interessante- Ah, tem várias flores, eu não entendo muito de jardinagem...
–Lógico que não entende
–Oras, corvo pentelho!- Ele soltou fazendo uma expressão brava que logo sumiu em uma gargalhada- Brincadeira, você está parecendo um corvo, então acho que será seu novo apelido, um ótimo apelido já que fui eu quem criou
–Corvo? Você é patético
–Melhor que um corvo- Ele mostrou a língua para ela e saiu andando
Seria maravilhoso dizer que o resto do dia da menina foi divertido, mas seria mentira, a verdade é que o enfermeiro a invadiu novamente e deixou-a na mesma situação que Wiliam a havia encontrado, em trapos e semi-morta, mas nada, nem ninguém mudariam dois fatos:
1- Ela estava ansiosa para a sexta feira de panquecas que acabaria se tornando seu dia favorito;
2- Ali começou a definição da sina de Prig Stígur.
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