Prig Stígur- A Atrevida
3 O solilóquio da ladra e o sofá voador
Notas iniciais

(http://i1294.photobucket.com/albums/b608/Fox-Snow/sweater_knitting_by_weila9-d6j3sci_zpsdc8eb208.jpg)
A noite foi gélida e cruel com a nossa personagem, o frio aumentava mais e mais, logo tornou-se impossível dormir na casinha de cachorro da casa que havia invadido... Precisava de algum lugar com uma lareira, mas aquela hora todas já estavam apagadas, espere um pouco... Apagadas! É isso!
Prig correu para o centro da cidade, as orelhas de gato se alongando e ficando cinza com faixas negras, a cauda desapareceu e as roupas mudaram para seu costumeiro conjunto preto (o mesmo do primeiro capítulo), a runa do seu polegar direito brilhou fazendo-a sorrir:
-Hora do guaxinim!- Ela saltitou pela rua cheia de lojas fechadas, provavelmente faltava uma hora para amanhecer, a padaria deveria estar colocando os pães na fornalha... Hummmm, só de pensar a água inundava a boca! A moça cantarolava feliz- Eu vou, eu vou, roubar pães eu vou, pararatibum, pararatibum, eu vou, eu vou, eu vou, eu vou...
Só havia ela na rua, exceto por um rapaz que arrumava mesas em frente à padaria, ela sabia que ele era o filho do padeiro, era um rapaz alto, os cabelos morenos arrumados e o avental branco que cobria a calça jeans e a blusa também branca. Prig sorriu e passou despercebida, com sempre, entrou na padaria e pegou uma cesta, encheu-a de pães, água, suco, uma tal de Coca Cola, brioches, presunto, queijo e o seu favorito, tortinha de prestígio (chocolate com coco, vocês conhecem né???), ela lambeu os lábios em um gesto que seria notado se ela fossa visível...
Saiu saltitando da padaria, o dia amanhecia e as pessoas vinham vagarosas para a fila do pão, enquanto isso vendendores começavam a abrir suas lojas, Prig passou por uma loja de artigos caseiros e pegou uma toalha com um desenho de bosque varonil, vários desenhos de animais estavam espalhados pelo tecido, todos pareciam felizes, a moça encarou bem o pano e se perguntou o porquê de não ter nenhum guaxinim, corvo, hiena, gralha azul ou um gato Bombaim, aquilo doía no coração, para quem não sabe, esses animais a representavam por ninguém ligar para eles ou ao menos os notar.
O guaxinim era sempre um rato selvagem que roubava lixo, o corvo era mensageiro do azar e do mal presságio, a gralha era um pássaro nojento por cantar de forma estridente e pegar tudo o que brilhava, a hiena era uma carniceira e uma lixeira tonta e risonha ao excesso, já o gato preto... As bruxas que o digam não é? Aquilo frustrava, amargurava até a ladra mais sapeca e travessa.
Prig empinou o nariz e continuou andando, chegou finalmente ao parque que desejava, a neve formava um macio tapete branco, ela guardou a cesta no tronco velho de uma árvore amiga e voltou para a cidade, precisava de roupas de frio, parou em uma loja cheia de cachecóis e sobretudos, era daquilo que ela precisava, entrou, pegou um sobretudo preto, um gorro cinza que teve que furar para deixar suas orelhas animalescas passarem, agarrou um cachecol verde junto com luvas de lã negra e partiu sorridente, agora se sentia aquecida e pronta para um piquenique, chegou ao parque, estendeu a toalha e montou a "mesa" de café da manhã, ninguém a notava, aquela era uma área restrita no parque, mas quem iria ver a moça ali?
Ela fez sanduíches com os brioches, comeu o pão puro, bebeu o suco, mas guardou a água para futuras ocasiões, se bem que iria congelar... Então ela deu de ombros e tomou a água, comeu os sanduíches, entornou a lata de Coca Cola... Aquela coisa era boa! E ela sabia onde era a fábrica, parece que teríamos um roubo... a moça lambia os dedos quando lembrou-se de sua tortinha, desmbrulhou-a com todo o cuidado, pegou o garfo prateado e cortou um pedaço, engoliu-o, deuses aquilo era bom! Dava vontade de dançar, de roubar uma loja inteira! Ainda bem que era só vontade, suas orelhas se mexeram inquietas, ouvia um farfalhar suspeito.
Procurou discretamente a origem, mas não encontrou nada, revirou os olhos e lembrou-se que ninguém podia vê-la, terminou a tortinha e sorriu tanto que pensou que a boca rasgaria igual á um palhaço que uma vez havia visto na loja de eletrônicos... Ela sacudiu a cabeça para parar de divagar e limpou a toalha, colocou todo o lixo na cesta, depois respirou fundo e se jogou na toalha, ficou deitada para ver as nuvens, lembrava de quando fazia isso com a mãe, quando ainda era viva, a única diferença é que era primavera, mas o céu era o mesmo, até a nuvem em forma de casa... Prig fechou os olhos, não iria chorar, não iria ser fraca, já havia sido isso há muito tempo, agora era hora de ser forte, o espírito travesso que assalta padaria e não uma mocinha tola e chorona que lembra da vida...
Ficou ali de olhos fechado e respirando fundo até ouvir um farfalhar á sua frente, abriu os olhos exitante, sua primeira reação foi esconder as orelhas dentro do gorro, mas a sua hora de guaxinim já havia passado e agora só tinha as orelhas humanas escondidas pelos cachos castanhos, ela abriu mais os olhos como se estivesse se espreguiçando e o viu.
Na sua frente estava um garoto, na verdade um rapaz, os cabelos repicados e rebeldes eram brancos como gelo e caíam desleixados em sua face ainda mais branca, o que gerava um contraste perfeito com aqueles olhos azuis como as águas de um lago congelado, ele trajava um casaco azul escuro com alguns riscos brancos, uma calça marrom justa que fez a morena segurar o riso, ele estava descalço e segurava um cajado comprido e com uma curva na ponta como se servisse para segurar algo, o cajado tinha partes cobertas parcialmente de um gelo branco e fino, formando desenhos, o garoto ainda a encarava, ela percebeu que ele a via, franziu a testa, ela sabia quem ele era:
-Pensei ter ouvido...- Ela falou relutante fingindo procurar algo ao seu redor, fingindo que não via o garoto á sua frente o que visivelmente o machucou, ele sentou-se no chão, ao lado da moça que arrepiou-se com o frio que ele emanava, lembrou-se da última vez que havia visto aquele albino.
"Era Páscoa e Prig tentava desesperadamente encontrar os ovos do Coelho da Páscoa, mas havia acontecido uma nevasca rigorosa e esta havia coberto tudo, sua mãe a chamava para comer, ela caminhou triste para dentro de casa:
-Mamãe!- Ela dizia, tinha o equivalente á sete anos- O Coelho esqueceu de esconder os ovos aqui! Ele não gosta de mim!
-Oh minha querida- A mãe falava sorrindo meiga, tinha os mesmos cabelos castanhos de Prig só que compridos e bagunçados, os traços cansados não a faziam perder a paciência, ela nunca deixava de fazer nada para a filha- Não é verdade, a culpa é do Jack Frost- Ela acrescentou rindo- Ele exagerou na nevasca esse ano
-Jack Frost?- A pequena arregalou os olhinhos que brilhavam em expectativa, a mãe suspirou e abriu ainda mais o sorriso
-Ele quem faz as nevascas e os flocos de neve que você tanto ama- A menina sorriu mostrando a bangueleira- Além disso ele faz aqueles desenhos de gelo na janela do seu quarto.
-Mas então ele não gosta do Coelho da Páscoa?- A menina perguntou confusa
-Ele gosta, na verdade eles são muito amigos, Jack Frost, o Coelho da Páscoa, Papai Noel, Sandman e a Fada do Dente, eles são companheiros, todos deixam as criancinhas- Ela falou tocando a ponta do nariz da menina que se acabou em gargalhadas- Felizes, e criancinhas felizes deixam os outros felizes- Ela falou abraçando Prig- Ouviu minha pequena?
-Aham, ouvi sim mamãe
Elas almoçaram e brincaram, descansaram e resolveram passear, afinal a nevasca havia parado e a neve havia derretido em parte, a mãe de Prig segurava sua mão e as duas andavam alegres pela rua, o destino era o parque, na rua em frente ao mesmo, a neve recomeçou a cair e Prig jurou ouvir uma risada, a mãe sorriu e começou a atravessar a rua, mas empurrou Prig de volta para a calçada de repente. A menina não entendeu, só ouviu uma buzina e uma freada, seguida de um grito, a mente da pequena trabalhou devagar, até sentir uma mão segurando a sua, olhou para o lado e o viu, Jack Frost, com um sorriso nervoso no rosto, ele a olhava e ela o olhava, a menina sorriu e desviou o olhar no intuito de mostrar para a mãe que o albino existia, mas não a encontrou, vasculhou tudo:
-Mamãe!- A menina chamou, então sentiu um puxão do gaoto ao seu lado, ele indicou o caminhão com a cabeça, ela olhou e sentiu as pernas bambearem, ali estava sua mãe, tossindo e caída no chão, com o sangue escorrendo de seu corpo junto com sua cor e o brilho de seus olhos- MAMÃE!!!!
A menina se soltou de Jack e correu para a mãe, ajoelhou-se ao lado do futuro cadáver e tocou o rosto da mulher, as lágrimas já pareciam cachoeiras, lavavam o rosto da menina e a entupiam de soluços vacilantes:
-Prig- A menina olhou a mãe e viu que ela havia falado- Sabe por que tem esse nome?
-Mamãe...
-Você sabe?- Ela perguntou sorrindo e fazendo a menina esquecer do problema
-Não
-Seu nome é Prig porque significa travessa- A mãe disse fazendo a menina sorrir, ela alisou a bochecha úmida da filha- E você é a minha travessa...
-Mamãe... Você vai ficar bem, não vai?- A menina não sabia ao certo o que acontecia, era como se tudo estivesse em câmera lenta- Você vai ficar bem mamãe e nós vamos ao parque- Ela disse tentando sorrir.
-É claro que vamos minha querida- A mãe sorriu e de longe sons de sirene foram ouvidos, a mulher olhou a filha nos olhos- Ouça querida, talvez você tenha que ficar um tempo na casa da sua tia...
-Mas mãe!- A menina se exaltou- A tia Mari não acredita no Papai Noel, nem no Coelhinho da Páscoa...
-Acredite- Jack Frost disse com uma voz trêmula e um sorriso vacilante- Ele não é "inho"
-Mamãe, eu estou vendo Jack Frost!- A menina falou com os olhinhos brilhando
-É claro que está- A mulher falou sorrindo- Então por quê você não pede pra ele te fazer companhia na casa da sua tia?"
Prig piscou, estava de volta á realidade, um Jack Frost ainda a encarava como se analisasse cada minucioso detalhe de seu rosto, seus olhos azuis semicerrados ficavam lindos daquela maneira... Prig pigarreou para o "além":
-Bem, tenho que voltar aqui mais vezes- Ela falou para ninguém específico, o albino arregalou os olhos e levantou-se, pegou a cesta e fugiu- Maldito vento!- Prig falava sorrindo internamente, ela tinha que admitir que rever o garoto a deixava alegre- Volte aqui sua cesta maldita!
A morena correu pelas ruas, pulou portões, subiu escadas e parou no meio da rua, ela viu o albino sentar no telhado de um prédio e quando este se virou arregalou os olhos e gritou, era o desespero falando por ele, viu o brilho dos olhos da garota á procurarem avidamente a cesta roubada, um sorriso travesso surgia no canto daqueles lábios tão bem desenhados, mas o albino sentia o terror crescer e inundar seu peito...
Agora você leitor me pergunta o que raios aconteceu, bem, Prig havia parado no meio da rua e um carro vinha á toda velocidade, as pessoas não a viam e ela estava ocupada procurando o albino, falando nele... Jack Frost correu, voou em direção à garota, ele sabia que iria atravessá-la, ela não acreditava mais nele, ela já era uma moça...
A morena não viu o rapaz vindo em sua direção, ela finalmente havia notado o carro, ficou de frente para ele e sorriu, esperou até ele estar próximo e então pulou, tocou o capô do carro e aterrissou em uma cambalhota na calçada, uma manobra fácil para a nossa ladra, Jack tentou parar, mas o impulso havia sido demais, ele se descontrolou e bateu a cara na vitrine de uma floricultura, seria até engraçado se não tivesse atravessado uma pessoa, a sensação de vazio tomou-o por inteiro e ele fechou os olhos tentando reaprender a respirar.
Prig desmanchou o sorriso, sabia exatamente como ele estava se sentindo, a moça deu meia volta e continuou andando pela rua, estava perto da padaria onde havia pegado a cesta, ela estendeu a mão e agarrou a cesta furtivamente, sentiu a runa de seu polegar brilhar, as orelhas de guaxinim crescerem... Torceu para o albino não estar vendo aquilo.
E ele não estava, na verdade ele estava ocupado ouvindo um garoto perguntar "quem é Jack Frost?", arregalou os olhos e babulciou debilmente coisas sem nexo, a morena fingiu não vê-lo e voltou andando para o parque, no caminho roubou uma lata de Coca Cola, aquela coisa viciava...
Ela estava terminando de tomar sua bebida quando viu o albino novamente, ele voava e formava uma trilha de gelo para um garoto que estava deitado em um trenó, espere um pouco... Aquele não era o garoto dono do galgo? Era Jaime! Ela viu quando um sofá caiu de um caminhão e veio na direção dela, Jack havia feito o garoto trombar em uma pilha de neve e agora ria junto com as outras crianças, Prig sorriu malignamente, a vingança surgia na sua frente, ela em purrou o sofá com toda a sua força e ele foi direto para o garoto que havia duvidado dela.
Jaime foi nocauteado certeiramente, mas logo se levantou feliz por ter perdido um dente, o garoto esqueceu subitamente da diversão do trenó e começou um diálogo animado com os amigos sobre a Fada do Dente, Prig torceu o nariz, aquela era uma coisa chata, um beija flor tamanho família, alguém com quem ela nunca mais gostaria de encontrar... A morena praguejava mentalmente quando viu o albino gritando para o nada:
-Não! Mas e aquele trenó? Aquilo fui eu! Somente EU!- ele pareceu ponderar um pouco, meneeou a cabeça- Menos a parte do sofá, eu não fiz aquilo...- Ele virou-se e viu Prig que rapidamente se virou e andou normalmente, o albino franziu o cenho e voou em sua direção, seu coração estava acelerado com a ideia absurda- Prig- Ele sussurrou, mas a morena ignorou, ele esticou a mão e tocou seu ombro levemente esperando que seu braço atravessasse a garota, mas ele não o fêz, ao invés disso a mão repousou sob o ombro da morena que parou abrupta, mas não se virou- PRIG!- Jack sorria abertamente, foi para a frente da moça e olhou em seus olhos amendoados- Prig... Eu, eu só... Oi- Ele disse se atropelando com as palavras, queria dizer tudo e ao mesmo tempo nada...
-Quem é você?- Prig perguntou arqueando uma sobrancelha, o albino murchou com o sorriso, como ela o via e não sabia quem ele era?
-Sou Jack, Jack Frost- Ele disse com a esperança entalada na goela, a morena negou com a cabeça enquanto fechava os olhos com força, ela cerrou os punhos e trincou os dentes
-Não pode ser, Jack Frost não existe, não para mim.
Notas finais
Se bem que o que eu estou esperando é a opinião de vocês e não a minha própria, hehehe, então comentem, xinguem e tals, de agora em diante eu vou tentar colocar uma fotinho por capítulo, ok? Achei tantas bacanas ^-^
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