Pride and Joy

20 Capítulo 20


Notas iniciais
N/A1: Antes de entrar no mérito do capitulo, quero comentar os chutes de vocês. Recebi de tudo, tudo mesmo hahaha. Chutaram até o próprio Itachi, o que é humanamente impossível. Muita gente achou que seria um OC meu... mas quero deixar claro pra vocês que eu NÃO ponho meus OC em fanfic e nem faço crossover. Nunca comentei isso, mas depois desses chutes achei melhor deixar claro...
N/A2: Os chutes das pessoas que leram a cena não-publicada de estupro (que eu disponibilizava por e-mail pra quem pedisse) foram os que chegaram mais perto de acertar por causa de um comentário que o Fugaku fez na cena. Mas ninguém acertou... O que me deixou feliz, pois consegui manter o mistério e essa foi minha intenção desde o começo. Se você não leu não se preocupe, porque apesar de dar uma leve dica sobre a trama (não muito importante e que já vai ser revelada nesse capitulo, diga-se de passagem) não dava dicas de quem seria o pai.
Querem descobrir? Então boa leitura! xD
[N/A (14/04/2012): Capítulo corrigido/revisado]

PRIDE AND JOY


Naruto ouviu a campainha tocar varias vezes, mas somente na terceira vez criou coragem para se levantar do sofá e matar seja lá quem estivesse atrás daquela porta perturbando seu sono, o corpo ele pretendia enterrar apenas depois de nove horas ininterruptas de descanso. Seus planos assassinos foram deixados de lado assim que viu o amigo ruivo parado do outro lado da porta, com os braços cruzados e cara de poucos amigos.

_ Eu podia ter esperado mais dez minutos tranquilamente, ó vossa majestade. – Gaara falou ironicamente, irritado por ter que esperar tanto para a porta ser aberta.

_ Não é minha culpa que você escolhe o momento mais errado do mundo para aparecer. – Naruto saiu do caminho do ruivo, dando espaço para que ele entrasse na sala. Percebeu que o amigo carregava apenas uma maleta, o que evidenciava que estaria apenas de passagem.

_ Achei que estivesse me esperando. – Gaara retrucou, sentando graciosamente no sofá sem perder a compostura, por mais que estivesse cansado ao extremo. Naruto, por outro lado, se jogou ao seu lado, descansando despojadamente, fechando os olhos enquanto falava.

_ Sim, estava. Tô passando a maior parte do meu tempo em casa na sala, pra não deixar de ouvir o barulho da campainha. Mas não esperava que você fosse chegar as... – fez menção de abrir os olhos e olhar um relógio de pulso imaginário, mas desistiu, deixando o braço cair ao lado de seu corpo com violência – puta que pariu depois da meia noite.

_ São quatro horas da amanhã.

_ Exatamente o que eu disse.

Ficaram em silêncio, Gaara olhava para a televisão desligada que se comportava como um espelho quando não estava em funcionamento. Viu através do reflexo que Naruto ainda estava de olhos fechados ao seu lado e se perguntou se o garoto havia voltado a dormir. Antes de decidir se deveria cutucar ou não o amigo loiro, este falou em voz baixa, ainda de olhos fechados.

_ É importante não é?

_ O que? – o ruivo perguntou confuso, virando para encarar o amigo. Naruto suspirou e fez o que parecia ser um esforço enorme para o seu corpo: abriu os olhos, levemente pequenos devido ao sono, e encarou o amigo antes de responder com as feições sérias.

_ Você pode ser um louco, mas não apareceria na minha casa de madrugada se não tivesse escolha. Tá acontecendo algo importante e perigoso, se não você viria num horário mais normal...

_ A convivência com os Uchiha deve ter feito você criar algum raciocínio logico, não é Baka? – a tentativa de descontração foi frustrada, pois Naruto apenas piscou e manteve as feições sérias, agora levemente mais atentas. Gaara suspirou, também entrando no clima de menos descontração – Sim. É importante.

_ Fugaku descobriu? – o ruivo não estava surpreso ao ver Naruto lidar com toda a situação com tamanha maturidade. Naruto podia ser uma pessoa barulhenta e brincalhona na maior parte do tempo, mas quando o assunto era sério ele sabia muito bem como agir.

_ Na verdade não tenho como afirmar isso. Ele parece dissimulado como sempre, é difícil tirar conclusões. Mas pelas atitudes desesperadas do Itachi, Fugaku já deve ter ciência do problema de Sasuke.

_ Então... isso quer dizer que... Itachi te contou a verdade? – Naruto perguntou confuso, coçando a lateral da cabeça.

_ Não. Mas eu sei somar dois mais dois. Eu convivi a vida toda eles, sei muito bem que Fugaku só estaria atrás deles devido algum tipo de vingança. Nenhum deles pareceu roubar financeiramente o pai, então tudo indica que foi alguma coisa mais seria do que o próprio dinheiro para ferir tão consideravelmente o orgulho Uchiha dele. E pelas atitudes de Itachi, com certeza é algo ligado a Sasuke. Se fosse ligado a si, Itachi estaria calmo e despreocupado.

_ Hmm... bom... realmente é algo sério, o Sasuke não é...

_ Eu não quero saber Naruto. De verdade. – Gaara falou se levantando e andando pensativo pela sala – eu sei que você sabe por ler o tal diário, mas acho que seja lá o que esteja escrito nesse negocio não deveria ser de conhecimento geral.

_ Certo. Pare de tentar fazer eu me sentir mal por bisbilhotar e conte o que aconteceu.

Gaara resumiu o plano de Itachi e o que os dois fizeram, explicitando o porquê de cada passo. Naruto ouviu atentamente, achando o plano de Itachi falho e perigoso, mas ainda sim ouvindo com atenção, não parecia sequer respirar. Quando Gaara terminou seu discurso, o loiro se levantou bruscamente e marchou para o quarto. O ruivo piscou confuso e correu atrás do amigo com velocidade.

_ O que diabos você esta fazendo? – Uzumaki buscava uma mala no fundo do armário, puxando-a de forma desajeitada e quase caindo sentado no chão no processo. Endireitou-se e começou a colocar peças de roupas aleatórias no compartimento.

_ Eu vou atrás do Sasuke, o que parece?

_ Você esta doente? Naruto! Você esta comprando briga com Fugaku Uchiha!

_ Eu não me importo.

_ Naruto! — Gaara forcou o loiro a se virar, segurando-o pelos ombros. Sentiu borboletas no estomago por estar tão perto do objeto de sua afeição, podia ver cada detalhe do azul dos olhos de Naruto, mas manteve qualquer sentimento escondido. Haviam coisas mais importantes em jogo – Sasuke precisa ir, não há nada que você possa fazer por ele agora a não ser esperar o telefonema que eu tenho certeza que ele vai te dar quando chegar no destino dele.

_ Você não entende Gaara, eu preciso ir! O Sasuke vai precisar de mim agora!

_ Não entendo mesmo! – o ruivo exclamou, soltando os ombros do loiro e dando as costas pra este, segurando tufos do cabelo avermelhado enquanto caminhava em direção a janela – Não entendo NADA que se passa na sua cabeça. O que você sente pelo Uchiha hein? Por que você diz amar a Haruno, mas está sempre correndo atrás do Uchiha!

Gaara se debruçou na janela, respirando fundo e xingando todos os deuses do planeta por terem permitido ele explodir de ciúmes num momento nada apropriado (ou em qualquer momento de modo geral). Sentiu a presença de Naruto se aproximar, tinha certeza que sua pele já estava avermelhada devido a vergonha.

_ Eu também não entendo direito como as coisas funcionam na minha mente. – a voz de Naruto exibia vestígios de confusão e seriedade, prendendo a atenção do outro rapaz — Eu quero ajudar Sasuke pois sei que ele precisa de mim agora, e eu faria o mesmo por você se você estivesse no lugar dele. Quanto a Sakura... Faria o mesmo por ela, a considero minha grande amiga independente da falta de maturidade dela. Quanto ao todo resto que você deixou implícito... Nós ainda temos que conversar – o loiro colocou a mão em cima do ombro de Gaara, mas este não ousou se virar. Sentiu que Naruto aproximava de si milímetro por milímetro, e quando sua boca estava consideravelmente próxima do ouvido do ruivo, falou em voz baixa – Mas agora não é a hora.

Sentiu o peso da mão do loiro deixar seu ombro, ouvindo o amigo retornar a fazer as malas. Pensou algumas vezes no que deveria tirar de conclusão das palavras de Naruto, mas decidiu que ele não podia concluir nada. Não queria criar esperanças e sofrer ao perceber que Naruto não pretendeu dizer o que ele concluiu... Já havia perdido toda e qualquer esperança no momento da rejeição, não merecia passar por isso uma segunda vez.

_ Espere, Naruto. – falou, virando e encarando os olhos duvidosos do amigo – Eu não concordo com o que você esta fazendo, mas o que pretende fazer? Correr a esmo pelo mundo ate encontrar os Uchiha?

_ Eu não sei ainda o que vou fazer, mas alguma coisa tenho que fazer.

Suspirando, Gaara caminhou ate a cama e abriu a maleta que carregava, revelando os dólares entregados por Fugaku dias atrás. Os olhos de Naruto se arregalaram.

_ Esse foi meu pagamento por dedurar o Itachi. Eu não queria receber, mas Fugaku insistiu e eu achei melhor aceitar e não gerar maiores questionamentos sobre o porquê das minhas ações. Mas eu não quero o dinheiro, não quero nem olhar pra esse dinheiro sujo e asqueroso. Eu vim aqui para responder as suas perguntas e conversar sobre os acontecimentos, mas também para te entregar isso.

_ Quê? – Naruto deu dois passos para traz, tremendo de leve e encarando Gaara com os olhos assustados – Mas... eu... Gaara! Eu não quero seu dinheiro!

_ Esse dinheiro não me pertence. Ele é o dinheiro sujo de Fugaku Uchiha, e eu me recuso a recebê-lo de bom grado. Se você está disposto a correr atrás do Sasuke, use esse dinheiro. De uma utilidade boa para algo de origens tão deploráveis, faça um bem com isso, seja com o Uchiha ou com você mesmo.

_ Mas Gaara...

_ Não há cristo que faça essa maleta voltar para a minha mão.

Gaara saiu de perto de Naruto, andando em direção à porta e deixando a maleta aberta com o dinheiro exposto. O loiro, ainda atordoado, demorou a perceber que o amigo se retirava, mas voltou a si em tempo de ouvir mais informações.

_ Itachi comentou de ir até Otogakure provisoriamente. É um província pequena, recém reconhecida como país e, como você deve saber, bem próxima daqui. Não possui muitas cidades ainda e a rota de rodovias segue linearmente por algumas delas, não tem outro caminho para atravessar nesse pais a não ser este. Ele também não tem trem e duvido que Itachi se arriscaria para tentar aeroportos, principalmente aqui de Konoha. Acho que é um bom lugar para começar a procurar... Com dinheiro, tudo fica mais fácil.

_ Gaara. – Naruto interrompeu, fazendo o ruivo se calar e parar de andar. Não se virou, mas manteve a audição atenta. Naruto parecia pensar no que falar sem chegar a um a conclusão, e mordendo o lábio proferiu algo simples, mas que expressava sua preocupação momentânea – Você me compreende?

Gaara sentiu as palavras o atingirem como uma bigorna. Engoliu em seco antes de responder tristemente:

_ Não, eu não entendo. Mas aceito qualquer atitude que você tomar na sua vida, e te apoiarei em todas.

Naruto sorriu com a resposta, rindo de leve, fazendo com que o ruivo se virasse para encarar o amigo. Sorrindo aquele sorriso radiante que apenas o loiro possuía o dom de exibir, fez um sinal positivo com a mão direita, antes de falar animadamente:

_ Então espera Gaara. Quando eu voltar, você vai entender!

Gaara sentiu um impulso incompreensivo de sorrir em retorno, mas não o fez. Deu as costas ao amigo novamente hiperativo, saindo do quarto sem ser impedido por este, e falando em voz baixa, de modo que não teria como saber se o loiro ouviu ou não sua declaração final:

_ Eu sempre vou esperar Naruto. Sempre.


(***)


Sasuke encarou Itachi por alguns segundos antes de explodir numa gargalhada colossal, extremamente fora do normal para um Uchiha. O mais velho permaneceu com as feições imparciais, apertando os dedos das mãos em punhos tensos. Sasuke perdia o controle da risada, que pendurou por quase dois minutos. Quando finalmente pode se controlar, limpou as lágrimas e respirou ofegantemente antes de falar entre leves risos:

_ Por um instante eu achei que você estivesse falando sério Aniki...

_ Sasuke – Itachi o interrompeu, falando com voz firme e fazendo o menor se calar brevemente, voltando a questionar em seguida.

_ É serio Itachi, por que você acha que...

_ Eu já te respondi Sasuke. Porque Fugaku não é seu pai.

Novamente o caçula procurou no olhar de seu irmão qualquer indicação de brincadeira. Qualquer coisa que mostrasse que aquilo que ele falava era mentira. Mas nada estava no olhar do mais velho a não ser medo da reação do caçula: estava sendo completamente franco. Abaixou a cabeça, encarando o acolchoado da cama de casal onde sentava, tentando fazer seu cérebro entender o que estava acontecendo naquele quarto, mas nada fez sentido.

Não percebeu quando Itachi cruzou o quarto e retirou algumas coisas de sua mala menor, estendendo em seguida uma fotografia para Sasuke. O menor não esboçou nenhuma reação, e Itachi se viu obrigado a coloca-la em cima de seu colo para que ele enxergasse o conteúdo.

_ Este é seu pai. – Itachi falou, apontando para uma fotografia de três garotos, que aparentavam estarem no inicio da adolescência. Sasuke reconheceu Fugaku Uchiha, com feições muito mais risonha do que o normal, sendo ele o maior dos três. Os outros dois garotos, cada qual posicionado um de cada lado de Fugaku, eram extremamente semelhantes e levemente mais baixos do que o garoto do meio. Fugaku passava o baço por cima do ombro do garoto a sua esquerda, que tinha o cabelo mais bagunçado do que sua sósia, e este, por sua vez, não estava tão próximo aos outros dois garotos da foto, mas sorria da mesma maneira que eles.

Sasuke, ainda analisando a foto, percebeu que os dois garotos mais baixos se pareciam muito mais com ele fisicamente do que Fugaku. Tinham as feições mais delicadas, o sorriso mais largo, os olhos mais arredondados e maiores. Mas, num contexto geral, os três eram evidentemente parentes. Havia muitos traços de Uchiha neles.

Itachi, cansado de esperar uma reação de seu irmão, e preocupado que esta pudesse ser um rompante, começou a falar.

_ Os três são irmãos. Você deve ter percebido, Fugaku é o garoto do meio. Os outros dois, Madara e Izuna, são os irmãos mais novos de Fugaku.

_ Madara... e... Izuna... – Sasuke repetiu mecanicamente, pegando a foto com as duas mãos e aproximando-a de seu rosto.

_ Os gêmeos. – Itachi concluiu, sentando ao lado de Sasuke e agradecendo aos céus por não ter havido nenhum rompante ate então. Retirou delicadamente a foto das mãos de seu Otouto.

_ Isso não vem ao caso. Como eu nunca soube que ele tinha irmãos? Como nunca vimos essa foto? – Sasuke perguntou em voz baixa, ainda olhando para suas mãos como se a foto ainda estivesse ali. Itachi suspirou, buscando respostas em sua cabeça para explicar tudo. No entanto, essa tarefa parecia extremamente difícil, muito mais difícil do que fugir do país por causa de seu pai lunático. Estendeu a outra mão, colocando o diário vermelho sobre as mãos de Sasuke. O mais novo piscou atordoado, levantando o olhar para Itachi de forma questionadora.

Itachi sentiu seu peito ficar pesado com o olhar perdido do irmão. Sabia que boa parte disso era culpa sua.

_ Eu... eu não sei como começar a te contar Sasuke. Eu passei vários dias da minha vida ensaiando um discurso pra falar pra você, pra te fazer entender minhas razões de não ter mencionado isso antes. Eu lia e relia esse diário, tentando por as ideias na cabeça de forma organizada, mas tudo parecia cada vez mais confuso. Depois de mais velho eu entendi cada letra que estava escrita ai, especialmente depois de quando eu comecei a ver você com outros olhos... mas eu não sabia se você estaria pronto pra saber a verdade. Espero que esteja agora, sinceramente.

Com estas palavras, Itachi deu as costas para Sasuke, deixando-o ainda com o diário rubro em suas mãos, saindo do quarto em passos silenciosos. Sasuke viu através fresta da porta do quarto do hotel que Itachi havia sentado à sua frente, aguardando a leitura de Sasuke e lhe dando privacidade necessária para suas emoções.

Com as mãos trêmulas, ele abriu a primeira página. A ansiedade o fez ler pequenos trechos das primeiras paginas, adquirindo informações importantes. Percebeu que o diário se tratava de o diário de Mikoto, e que era escrito uma vez ao mês. As primeiras páginas se referiam a gravidez de Itachi, seu nascimento e desenvolvimento. Falava em alguns momentos sobre o sofrimento que era viver com o marido, pelo qual não possuía paixão, mas estava evidente que este era um assunto que ela sequer gostava de pensar, muito menos escrever. Desta maneira, a maioria de suas palavras se referia a Itachi, e posteriormente a tentativa de engravidar novamente.

Pulando algumas páginas, Sasuke se deparou com uma extremamente gasta, como se tivesse sido lida e relida diversas vezes nos últimos anos.


(***)


Nunca escrevi sobre mim. Nunca. O que é no mínimo peculiar, pois isso era para ser um diário a meu respeito. Nunca me senti confortável o suficiente, segura de mim mesma, para escrever sobre mim, ate porque eu me perdi em mim mesma a muitos anos. Vivo há anos uma mentira, sabendo se tratar de nada mais nada menos do que o desejo de meus pais, mas fingindo ser também o meu desejo. Eu não sei ao certo quem eu sou, não sei se ainda posso ser considerada alguém ou meramente a sombra de meu marido.

Não tenho como negar, depois que engravidei de Itachi eu quis que as coisas funcionassem. Eu quis amar Fugaku, eu quis ser feliz com o homem que estava ao meu lado. Eu quis esquecer todo meu passado, e por muito tempo eu o guardei a sete chaves, não me permitindo sequer relembrar os bons momentos antes de eu me casar com esse homem.

Eu quis ter outro filho com ele, e me prendia a ideia de que essa criança me traria a felicidade que Itachi não trouxe. Amo meu filho mais do que tudo nesse mundo, mas por muito tempo pensei que faltava algo nele, talvez mais humanidade e menos perfeição, para que eu pudesse me sentir uma mãe completa. Eu achava que o fato de meu filho ser independente me fazia alguém descartável, e que apenas outra criança que dependesse de mim geraria uma utilidade para minha pessoa. Mal eu percebia que a felicidade não é trazida por alguém e sim adquirida por paz interior, e que eu não poderia ter pedido a deus uma criança melhor.

Se existe algo que ainda me mantem em pé é Itachi. Pensava que Fugaku e Itachi não precisavam de mim, mas estava errada.

Itachi ainda é uma criança e precisa da mãe sempre ao seu lado. Principalmente com um pai ranzinza e prepotente como Fugaku. Itachi precisa mais de mim do que muita criança que está nesse mundo precisa de sua mãe.

E Fugaku... Fugaku precisa de mim para manter as aparências.

Descobri que Fugaku tem um caso. Um caso de anos, anos!

Mas isso não é o pior, o pior de tudo é com quem ele tem um caso: Madara.

Sim, Madara, meu querido cunhado!

Chega a ser constrangedor, pois eu me distanciei de Izuna por causa de Fugaku. Na nossa noite de núpcias ele deixou claro que não queria me dividir com ninguém. Céus, ele sabia do meu namoro de anos com Izuna! Eu subi no altar crente de que estaríamos casando por aparências e para satisfazer a vontade de nossas famílias, que não precisaríamos consumar o casamento. Ele enganou a mim e a Izuna, mas ambos engolimos nosso orgulho e fizemos a vontade dele.

Rompi uma vida de sonhos que eu tinha com Izuna por causa de uma promessa de família. Porque eu tinha que casar com o Uchiha mais velho, não aquele que eu escolhi. Porque os outros Uchiha deveriam se dedicar aos estudos, enquanto a mim e Fugaku caberia a empresa e a continuação do clã. Eu aceitei tudo e joguei meus sonhos de adolescentes para trás por causa de uma mentira. Só não posso dizer que me arrependo, pois se não fosse essa mentira Itachi nunca teria nascido, e eu não consigo imaginar minha vida sem o meu menino.

Eu não me importo o fato de Madara e Fugaku serem irmãos e terem uma relação incestuosa. Pouco me interessa, na verdade. Não me importaria se Fugaku tivesse um caso com todos os homens e mulheres da face da terra, mas eu me importo por ele ter me feito sacrificar o meu amor enquanto ele continuou disfrutando do amor dele...

Eu sei que isso é egoísta, um pensamento mesquinho, mas não consigo pensar diferente. Dizer que me sinto traída seria ridículo. Eu sabia, no meu intimo, que Fugaku nunca teve lealdade ou fidelidade para comigo.

Mas, sem medo de errar, posso dizer que me sinto injustiçada. Injustiçada e fraca. Fraca por não conseguir por um fim nisso tudo, fraca por ainda me deitar com este homem, mesmo não trocando sequer uma palavra com ele durante o dia, na esperança de engravidar e ter meu segundo filho. Fraca em me pegar, de tempos em tempos, achando que as coisas vão melhor. Mas, sobretudo, fraca por não achar que eu mereço o meu amor de volta.

Por mais que ele insista em implorar isso a cada olhar que me direciona.


*algumas paginas (meses) para frente*


Izuna e Madara nos visitaram esta noite para um jantar em família, supostamente para discutir questões referentes à empresa. Como sempre, Madara e eu nos cumprimentamos de maneira educada, fingindo não ter conhecimento de toda verdade. Ora, dissimulação ao extremo, pois fui eu quem pegou os dois juntos naquela cama...

De qualquer maneira, os Uchiha tem que manter suas aparecias, e depois de anos de convivência com eles aprendi a agir assim sem nenhum problema.

Izuna ainda me olha da mesma maneira que me olhava quando eu era jovem e bela: com admiração. Um olhar que Fugaku nunca direcionou para mim. Eu, como sempre, tomo a faceta mais indecifrável que consigo fazer (resultado de anos de convivência com Fugaku) e ignoro por completo o calor do olhar de meu amado, sem perder a elegância e compostura, nem por isso parecer sem educação.

O jantar seguiu, e após a sobremesa Fugaku e Madara se retiraram para uma "conversa em particular sobre a vice-presidência da corporação". A quem eles queriam enganar? Ainda mais na minha frente! Na frente de Izuna!

Eu ouvir o barulho de chave trancando a porta do escritório e os gemidos. Ouvi os vasos de porcelana caindo da mesa de Fugaku e fazendo um estardalhaço, duvido que os pombinhos tenham sequer tomado consciência disso.

E eu sucumbi. Ouvir meu marido transar com o amante a poucos metros de mim, enquanto meu amor me olhava com aquele olhar de adoração, me fez perder completamente a compostura. Eu deixei de ser a Sra. Uchiha, e me tornei Mikoto. Mikoto: a fraca.

Chorava e soluçava naquela mesa de jantar, debruçada sobre meus cotovelos. Duvido que Fugaku tenha parado um segundo para pensar sobre o que eu sentia, pois tenho certeza que ele ouviu o meu lamentar e não se incomodou nem um pouco. Talvez isso até o tivesse feito se sentir melhor.

Não sei ao certo o que Izuna fez enquanto eu chorava, não conseguia ver nada além dos meus cabelos jogados sob minha face e o matejar de lágrimas. Mas então, quando eu já estava me acalmando e me preparando para pedir perdão pelo meu comportamento deplorável, ouvi a voz doce e quente dele falar em alto e bom som:

_ A capacidade de aguentar o sofrimento silenciosamente não torna alguém forte ou fraco. Homens fortes choram com a perda de familiares e a dor de coração partido. Mulheres fracas apanham calada de seus maridos. E o que eu chamo de forte, pode ser uma fraqueza para outro alguém, e vice versa. Tudo que posso te dizer é que eu estou aqui, de braços abertos, para ser forte ou fraco ao seu lado. E pouco me interessa esse ponto de vista.

Olhei para frente e vi seu olhar suave e compreensivo. Ele sempre compreendeu, sempre, ate quando eu subi naquela merda de altar.

_ Você sabe que eu te am...

_ Coisas óbvias não devem ser ditas Mikoto. – ele me interrompeu, sorrindo aquele sorriso lindo que possuía. Ele nunca me deixou dizer que o amava, por achar óbvio e desnecessário. Muitas vezes cheguei a pensar que isso era uma grosseria sem tamanho, mas depois, ao perceber a quantidade imensurável de casais que declaravam amor eterno sem senti-lo, percebi que o verdadeiro amor não necessita mesmo ser dito em palavras.

_ Mas eu tenho medo! Eu tenho uma família Izuna! Eu tenho Itachi! Independente de seu conceito de fraqueza, ter medo me torna fraca.

_ Os fracos não são os que sentem medos, mas sim os que não o enfrentam. Medo é essencial, faz parte do desenvolvimento. Aqueles que não sentem medos se tornam imprudentes e acabam levando seu corpo e mente ao extremo, culminando na morte. Aqueles que, porventura, sintam medo e nada façam, vivem uma vida indigna de ser vivida. A escolha correta que um ser humano poderia fazer era, sem duvidas, a prudência e a balança. A prudência para fazer as boas escolhas, e a balança para manter sua mente equilibrada. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra.*

Aquelas palavras ecoaram na minha mente, estou certa de que nunca vou me esquecer. Pois foi naquele momento que eu descobri que não teria o céu, mas não precisava me contentar só com a terra. Eu não conseguiria, jamais, me casar com Izuna e ter a vida que eu sonhava com ele, mas eu não necessitaria sofrer ao lado de Fugaku sozinha.

Eu cedi.

E não me arrependi.


*paginas (meses) para frente*


Seria errado dizer que Izuna fez eu me reencontrar... Seria errado novamente colocar a minha felicidade nas costas de outra pessoa. Mas posso dizer sem medo de errar que Izuna foi quem pegou na minha mão e me ajudou a sair daquela caverna sombria onde meu espirito permanecia a anos, e Itachi foi quem iluminou nosso caminho.

Fugaku esta cada vez mais distante, tanto comigo quanto com Itachi. Por outro lado, Itachi tem pedido me para leva-lo para visitar Izuna quase toda semana, o que eu faço de bom grado. Me alegra saber que meu filho está gostando do meu homem, mesmo que não saiba de nossa relação.

Apesar de nunca conversarmos a respeito, Itachi não menciona as visitas para o pai. Ele, sendo o prodígio que é, já percebeu que Fugaku é o tipo de gente que quanto menos souber, melhor.

O fato é que estou feliz. Imensamente feliz.

Ainda sofro as noites com Fugaku, rotina essa que não posso deixar para trás sem que cause duvidas. Izuna entende bem, nunca escondi nada. Ele me aceita, com todas as limitações que tenho – e constantemente me pergunto o que fiz para receber um homem tão caridoso ao meu lado.


*duas paginas para frente*


Estou gravida.

Finalmente o filho que eu tanto almejava está a caminho, e eu não poderia estar mais preocupada.

Isso não quer dizer que não esteja feliz por estar gravida, longe de mim. Estou muito feliz, e sei que Izuna também está. Pois o filho é de Izuna. Quando fui ao hospital confirmar minha gravidez e descobri quantas semanas de gestação haviam se passado, percebi que o filho era de Izuna. Foi concebido durante uma viagem longa de negócios de Fugaku, não havia qualquer chance de ser filho dele. O que, no fundo, me deixa muito mais feliz ainda.

Izuna sequer questiona a paternidade do pai. Apegou-se a criança assim que lhe dei a noticia, e esta especialmente mais paternal, até mesmo com Itachi. Fala constantemente em fugir e deixar tudo para trás, em sairmos do país, somente nós dois e as crianças. Isso me preocupa, pois acredito que Izuna não tenha pensado em todas as consequências dos atos.

Fugaku viria atrás de mim, perder a esposa para o irmão mais novo será uma ofensa ao seu enraizado orgulho Uchiha, principalmente quando a mídia tomasse conhecimento disto. Além disso, há toda questão financeira envolvida, fugir com uma mão na frente e outra atrás é algo muito arriscado.


*paginas (meses) para frente*


As coisas pioraram consideravelmente. Fugaku desconfia de algo, parou de me procurar para sexo. Estou tentando esconder a barriga o quanto posso. Temo por mim, temo pelo bebê, temo por Izuna. Fugaku não é um homem que age por impulso, mas quando decide agir não há santo que o faça parar. Nem quero pensar no que ele fará quando descobrir a verdade.

Descobri o sexo do bebe, é um menino. Eu e Izuna ficamos muito felizes, apesar de que amaríamos o neném da mesma maneira se fosse uma garota. Quero chama-lo de Sasuke, Izuna gosta do nome Hiro... Mas, sinceramente, vou chama-lo de Sasuke, Izuna gostando ou não. Hiro é um nome tão comum.

Nesta ida ao hospital recebi uma previsão do nascimento. Fiz as contas comparando com o calendário da empresa: Sasuke está por nascer no mês de setembro, na mesma época do seminário internacional de corporativismo que Fugaku e Madara atenderão. Isso me deixou muito aliviada, vou marcar uma cesárea para esse período pois... Decidi fugir.

Izuna tentou me convencer diversas vezes de que isso seria o melhor para o bebê. Eu poderia revelar a gravidez para Fugaku hoje mesmo e ele aceitaria um novo filho sem qualquer problema, ele mesmo queria ter uma criança e apenas por isso ainda continuava se deitando comigo até pouco tempo atrás. Mas e quando tempo passar? E se Sasuke se parecer mais com Izuna do que comigo? As duvidas começariam a surgir... Seria perigoso demais para o meu filho e para todos nós.

Apesar de sempre ter desejado recomeçar minha vida com Izuna, Itachi sempre foi a corrente que me impedia de fazê-lo. Eu achava (e ainda acho) que não tenho o direito de privar meu filho da vida que ele tem direito a ter: com riqueza, com um futuro brilhante pela frente, com, por mais que não seja o melhor de todos, o pai.

Porém, esta manhã, Itachi falou em alto e bom som que preferiria que Izuna fosse o pai dele, e não o tio. E ele falou isso para Fugaku, após uma discussão nada importante.

Não foi a declaração de Itachi que me fez jogar para trás todos esses pensamentos de "não posso privar meu filho de conviver com o pai". Foi a ação de Fugaku.

Fugaku o bateu com tanta força... Foi necessário que Madara e Izuna segurassem Fugaku juntos para que ele parasse de bater no meu filho, em uma criança de cinco anos. Izuna se descontrolou e a briga com Fugaku foi feia, tudo indica que Izuna nunca mais colocará os pés nessa casa. Itachi está internado, e eu estou decidida. Nunca mais, na nossa vida, vamos ter que lidar com aquele homem. Nunca. Pelo bem dos meus dois filhos acima de qualquer vontade minha.

Itachi ainda não sabe, não tenho certeza se vou contar... Sinto que Sasuke não poderá ter o mesmo luxo que Itachi, e me dói pensar nisso. Mas tenho certeza de que tomei a decisão certa, partiremos logo após o nascimento...


(***)


Era a ultima pagina do diário, Sasuke revirou o caderno por paginas soltas, mas nada encontrou... Com um aperto descomunal no coração e a sensação de que respirar se tornou uma tarefa muito mais difícil nos últimos instantes, Sasuke se levantou da cama e sentou com as costas para a porta, assim como seu irmão fazia ao outro lado desta.

A porta era fina, o piso de madeira aumentava o impacto dos passos, Itachi não precisava ter grande audição para perceber que Sasuke havia se sentado no chão. Esperou que ele falasse algo, qualquer coisa, mas novamente o menor estava em silêncio.

_ Você deve ter terminado o diário... Deve estar esperando por mais respostas – o silêncio continuava, mas Itachi sabia que Sasuke o ouvia, tinha certeza absoluta de que o ouvia.

_ Fugaku descobriu tudo. Subornou o medico que nossa mãe frequentava e adquiriu as informações, mas isso eu só fiquei sabendo anos depois... Soube que nossa mãe estava grávida, somou o fato de ela não ter dito nada com a considerável aproximação do Izuna nos últimos meses... Não era difícil descobrir.

As lágrimas formadas previamente nos olhos de Sasuke começaram a escorrer silenciosamente. Ele sabia o fim da historia, mas queria ouvir, queria confirmar...

_ Eu presenciei boa parte do que aconteceu — foi impressão de Sasuke ou a voz de Itachi acabara de falhar? — Eu... eu estava com Fugaku e Madara aquele dia, eles foram me buscar na escola. Fugaku comentou que queria fazer uma visita a Izuna, ninguém percebeu nenhuma diferença no seu comportamento. Vi quando ele entrou na casa de Izuna e percebi que algo estava errado quando ouvi a mãe gritar, corri para a casa, Madara correndo a minha frente... — Itachi ficou subitamente quieto por alguns instantes, como se tentasse recuperar o fôlego e manter a voz estável — Madara entrou primeiro e correu entre os dois irmãos pra tentar impedir a briga. Foi tudo muito rápido, Fugaku estava... estava... apontando uma arma para ela... Izuna estava entre eles. E quando Madara alcançou os três, Fugaku já tinha disparado o gatilho, mas a bala atingiu o Madara. Ele foi o primeiro a morrer.

_ Observando a cena, nossa mãe entrou em trabalho de parto. Caiu no chão gritando de dor com as mãos no ventre, e Fugaku ficou estático olhando para o corpo de Madara no chão, sem tomar qualquer reação. Eu lembro que não entendi direito o que aconteceu, achei que a bala tinha atingindo a minha mãe e perdi o controle. Corri pra perto dela, mas Izuna me segurou antes que eu pudesse alcança-la, tentando me tirar de perto. E ai... Sasuke... Eu cometi o maior erro da minha vida — Novamente a voz de Itachi falhou, as lagrimas já escorriam em cascata no rosto do Uchiha mais novo, os punhos apertados, a pele sendo rasgada pelas unhas — Eu o chamei de pai. Eu chamei o Izuna de pai, e pedi para que me soltasse. E isso foi a gota d'agua para Fugaku... Ele sabia que não havia como Izuna ser meu pai, mas percebeu a minha preferência pelo meu tio. E o culpou de tudo: do casamento falido, do filho que não o amava, da morte de seu amante. Izuna morreu com três tiros nas costas enquanto me abraçava para me proteger...

Itachi chorava. Era evidente na voz falhada, levemente tremula. Sasuke nunca havia visto Itachi chorar, sequer ouvido, pelo menos não desde a briga terrível que ele e Fugaku tiveram. Mas não pode pensar nisso naquele momento, um sentimento novo se formava em seu coração, maior que o espanto e a tristeza que sentia com as informações. Um sentimento de ódio tão intenso que ele sequer sabia que poderia existir.

_ E ele nos deixou Sasuke. Nossa mãe estava em choque, chorando sem parar, e eu não sabia o que fazer. Fugaku simplesmente deu as costas e saiu de lá cantando pneu. Tudo que ela fazia era gritar de dor e chorar, mas ela teve tempo de me instruir para ligar pra ambulância do telefone que estava na sala, e eu liguei. Quando voltei, ela me contou onde estava o diário, pediu para eu prestar atenção nas palavras dela. Ela disse: "Guarde o diário, só leia quando tiver dez anos. Dez anos Itachi! Nunca deixe o seu pai ver o diário". Eu não entendi, não sabia nem o que era um diário, mas não questionei, achei que ela estivesse delirando. A ambulância veio junto com a polícia, levaram minha mãe e me levaram pro conselho tutelar de menores. Não fiquei lá muito tempo, Fugaku subornou todo mundo: a polícia, o conselho, os paramédicos... De modo que eu sai de lá antes mesmo de você nascer. Fugaku teve o direito de escolha entre a sua vida e a de nossa mãe, e ele escolheu manter a sua vida. Me levou pra casa em seguida, não ficamos pro seu nascimento... Eu encontrei o diário e tentei ler uma pagina, não entendi muito bem: mas percebi que minha mãe queria nomear seu segundo filho de Sasuke. Guardei em meu quarto, em um lugar que Fugaku nunca descobriu.

Mais uma pausa. Itachi gaguejava tentando recomeçar a falar.

_ Fugaku me castigou. Apanhei muito àquela noite, me castigou declarando que eu sabia, que eu ajudei o casamento a se destruir, que eles estavam mortos por minha causa. E-eu sofri muito, chorei e apanhei, e de alguma forma bloqueei todos esses acontecimentos. Exclui da minha mente a existência dos meus tios, lembrava vagamente de minha mãe. No outro dia, Fugaku e eu fomos conhecer você, Fugaku me mandou escolher o nome, eu disse que seria Sasuke, pois foi o primeiro nome que veio em minha mente... Devia ser meu subconsciente lembrando de algo.

_ Cale-se... – Sasuke sussurrou, sentindo o sangue quente escorrer entre seus dedos pela força que fechava os punhos. Não queria ouvir, não queria saber mais, mas seu irmão não parecia ouvir.

_ Ele percebeu que eu bloqueei os acontecimentos da minha mente, e começou uma farsa. Me contou que minha mãe havia tido complicações no parto e por isso morreu. Eu fiquei muito triste, apesar de não lembrar direito dela e comecei a viver apenas pra você, cuidar de você, ver você. Eu sabia que havia algo sombrio no meu passado, e sabia que estava naquele livro vermelho que eu havia guardado na minha gaveta e eventualmente o encarava por horas, mas eu tinha medo de abrir e descobrir. Mas aquele dia... que eu e Fugaku tivemos... hm... a briga, eu li, entendi, descobri, e relembrei.

_ Cale-se...

_ Não Sasuke você tem que entender. Me afastei de você naquela época por não apenas por causa do desfecho com o Fugaku na noite em que eu... apanhei. Mas também por que eu li o diário. Porque eu comecei a ter ódio de mim mesmo e de Fugaku, me achei semelhante a ele por estar gostando de você da mesma maneira que ele gostava de Madara. Ele matou os próprios irmãos, e indiretamente a nossa mãe. Eu o acho repulsivo, nojento, e não queria ser como ele, nunca. – a entonação da voz de Itachi mudou novamente, estava falando rispidamente, como se realmente sentisse repulsa – Essa foi a segunda coisa errada que eu fiz: me afastar de você.

_ CALE A BOCA! – Sasuke gritou, batendo com os punhos no chão.

_ Eu percebi a tempo que o que eu sentia por você não me tornava igual a ele e me reaproximei de você. No entanto, isso não me impediu de deixar o ódio agir e cometer o erro que gerou consequências que estamos pagando até hoje.

Itachi ficou quieto, assim como Sasuke. O menor ouviu o barulho de madeira rangendo e sentiu a porta abrindo atrás de si. Não se moveu, Itachi saltou por cima de seu corpo, fechando a porta novamente, e se sentando no chão com as pernas cruzadas à sua frente.

Os olhos dos dois irmãos estavam molhados de lagrimas e avermelhados. Itachi, por mais que possuía vestígios de lágrimas no rosto, ainda estava com o rosto impecavelmente gélido e indecifrável devido ao nervosismo. Sasuke contorcia suas feições sentindo dor e ódio, as lágrimas ainda escorrendo. O cheiro metálico do sangue da palma das mãos do Uchiha mais jovem já estava por todo o quarto.

_ Fugaku preferiu viver na dúvida. Talvez ele tivesse algum tipo de consciência pesada. Ele nunca fez exame pra saber se você era filho dele mesmo. Mas... – o primogênito olhou para as mãos ensanguentadas do irmão e tentou pega-las com a sua. Sasuke puxou-as para longe, ainda olhando nos olhos de Itachi – eu fiz questão que ele descobrisse...

_ O sangue... no desfiladeiro.

_ Não há necessidade de você sangrar tanto. Fugaku imaginaria que eu seria quem ia reagir mais e, consequentemente, apanhar mais. Aqui, suje o freio de mão, pois lá já tem as digitais da sua mão esquerda... Isso... Deixe cair apenas uns pingos ate o caminho do paredão, não precisa sujar sua mão. Basta evidenciar que você esteve aqui, que reagiu, foi ferido e derrubado.

_ Sim. Esse foi o meu terceiro erro. Eu falei pra você deixar o sangue propositalmente, para que ele descobrisse que você não é filho dele. Eu quis me vingar, eu quis que ele sofresse ao saber que cuidou de uma criança que não era seu filho legítimo. E quando Gaara me contou que ele desconfiava que estávamos vivos... Eu soube que ele também queria estava atrás da vingança dele. – Itachi viu o mais novo levantar a mão para si, mas não impediu o golpe. Ele merecia. Sentiu sua bochecha esquerda arder e esquentar com o impacto, sua boca começara a sangrar e ele podia sentir o gosto. Respirou fundo, e recomeçou com a voz baixa – Eu te contei isso pra você entender que o ódio não vai fazer você tomar as melhores decisões. Você é um Uchiha, o ódio é uma herança entre nós... Por favor Sasuke, pelos meus erros, pelos erros dos outros, não erre você também. Acabe com esse ciclo vicioso de ódio.

O segundo impacto foi mais forte, Itachi sentiu os olhos encherem de lágrimas novamente. Não pela dor, ou pelas lembranças, mas por perceber que Sasuke não estava pronto, talvez nunca estivesse pronto. Ódio fazia parte de sua natureza, ele era um Uchiha afinal.

E como todo Uchiha, o ódio seria o causador de sua ruína.

_ E quem é você pra me falar de ódio! Seu hipócrita!

_ Sasuke...

_ VOCÊ NÃO É NEM UM POUCO MELHOR QUE ELE! VOCE É IGUAL! HIPÓCRITA!

_ Eu sei os meus erros. Mas eu também sei os meus acertos. Nós vamos... – Sasuke tentou mais uma vez acertar o irmão, mas dessa vez ele interceptou o tapa, segundando a mão do menor com a sua sem mover outro musculo do corpo. O olhar de Sasuke se arregalou com a rapidez do movimento de Itachi – ... conseguir! Não estrague com o seu ódio tudo que conquistamos até agora!

Sasuke puxou bruscamente o seu braço, fazendo Itachi soltar a mão do menor para não quebra-la. Começou a gargalhar, seu corpo inteiro tremia enquanto ele gargalhava. Itachi sentiu seu corpo arrepiar, percebia no ar o ódio emanando no corpo do menor, um ódio tão intenso que beirava a loucura.

_ CONQUISTAR? O que eu conquistei até hoje? Minha família está debaixo da terra! Meu irmão mente pra mim mais do que qualquer pessoa nesse mundo! O que eu tenho Itachi? Me responde?

_ Nos temos o suficiente Sasuke, nos temos um ao...

_ NÃO OUSE TERMINAR ESSA FRASE! – Sasuke se levantou, saindo de perto de Itachi antes que ele pudesse ter qualquer reação, fechando a porta do quarto atrás de si com força. Itachi deixou as lágrimas escorrerem, fazendo o sangue de Sasuke em seu rosto escorrer em lágrimas vermelhas, sujando sua roupa e seu colo. Não foi o momento certo, ele errou mais uma vez... De que adiantava ser o prodígio Uchiha quando os poucos erros que ele tinha na vida acarretavam tantos problemas?

Eu prometi a mim mesmo que eu não erraria uma quarta vez. Eu falhei.


... continua...


Notas finais
N/A3: Uma pergunta: Por que todos vocês que leram a cena, sem exceção, acharam que o irmão do Fugaku é o Madara? Eu não falei isso em nenhum momento hahahaha! Eu ate fiz uma busca na fanfic inteira e na cena cortada pra ter certeza disso. Falei apenas na cena cortada que o Fugaku tinha um irmão, mas não disse que era o Madara... Muito menos que era um irmão só ;). HANHAN!
N/A4: Eu sei que o Izuna e o Madara não são gêmeos no mangá, que a galera confunde isso direito por causa dos gêmeos Hyuuga etc, etc, etc... Mas eu os coloquei como gêmeos por causa da semelhança física, pra dar motivo pro que o Fugaku disse na cena cortada e de todo contexto psicológico que vai surgir devido isso. Alias, o Fugaku também não é irmão deles no mangá, e o fato de eu ter colocado os dois como gêmeos é apenas mais uma salada mista que estou fazendo na família Uchiha.
* Esse foi o segundo paragrafo do primeiro capitulo da fanfic xD estou desde aquele capitulo esperando pra fazer esse quote.