Notas iniciais
Boa noite meus queridos, olha só quem resolveu aparecer em pleno carnaval...

... Oh, por que não posso conquistar o amor?
E posso ter pensado que éramos um só
Queria lutar nessa guerra sem armas

...Tenho uma pele insensível e um coração de elástico

Mas sua lâmina pode ficar muito afiada

Sou como um elástico até que você puxar bem forte

Mas posso estourar e agir rápido

Mas você não vai me ver desmoronar

Porque eu tenho um coração de elástico

Vou ficar acordado à noite

Vamos ser claros, não vou fechar meus olhos

Sei que posso sobreviver

Andaria no fogo para salvar a minha vida

E eu quero, eu quero tanto a minha vida

Estou fazendo tudo que posso

E mais um fracassa

É difícil perder um escolhido...

(Elastic Heart – Sia)

Confesso que acordar todas as manhãs nos braços de Peeta parecia uma dádiva, dada as circunstâncias. Eu já tinha acostumado com minha nova vida. Havíamos criado uma rotina agradável e sempre fazendo o possível para que Hope tivesse um bom ambiente familiar. Principalmente agora que as coisas no Distrito pareciam cada vez mais tensas. E esse era um dos motivos que me fizeram evitar ir até o centro do 12. Tinha receio de sair com Hope nos braços, já que os pacificadores pareciam mais empenhados a patrulhar. Não queria sentir que estava sendo vigiada, porém não podia me esconder para sempre dentro da Aldeia dos Vitoriosos.

— Papai foi ajudar o vovô na padaria e a mamãe precisa ir comprar algumas coisas. Você ficará um pouco com a tia Prim, está bem? – Acabo de amamentar Hope e enquanto troco sua roupa converso com ela. Uma mania boba de não me sentir sozinha quando Peeta sai logo pela manhã. Seus olhinhos azuis penetram nos meus como se entendesse cada palavra.

Olhando para ela noto que está corada, saudável e no quanto tem se desenvolvido. E isso tem me assustado, e muito já que o tempo parecia estar passando muito rápido e em partes não queria que ela continuasse crescendo. Mesmo assim, não podia impedir. Como também não podia impedir que o nome da Prim, ou até mesmo o dela — daqui a alguns anos — fossem colocados na colheita. Esse, aliás era um dos meus novos pesadelos. Do que adianta ser uma vitoriosa, se não posso salvar as pessoas que amo e tanto prezo? A vida não é justa.

Já escutei antigas histórias no Prego, de um mundo onde as pessoas tinham liberdade de ir i vir. Um mundo onde você tinha o direito de votar e escolher quem estaria no poder. Nunca quis acreditar nessas histórias que passava de geração em geração, histórias que pareciam velhos contos de um mundo fictício e diferente. Pensar em como devia ser bom ter o direito de escolher quem governar. Um lugar sem cercas onde, ir e vir, era possível, onde nossas crianças não eram obrigadas a matar, ou morrer simplesmente para entreter e castigar. Mas ao que dizem, foi um dos últimos presidentes daqueles tempos escolhido pelo povo, que tinha apenas fome por guerra que fez com que bilhões de pessoas e continentes fossem dizimados e transformados em cinzas. Isso foi o que escutei.

Termino de vestir minha rechonchuda menina e pego uma bolsa contendo os suprimentos necessários para ela passar algumas horas. Ao abrir a porta suspiro profundamente. Tem manhãs que é difícil de querer seguir.

Ao abrir a porta da casa da minha mãe caminho até a cozinha. As duas estão preparando medicamentos. Minha mãe sempre gostou de manter os suprimentos necessários à mão para facilitar na hora da emergência.

Hope se esperneia nos meus braços ao ver as duas em movimento.

— Ei, Hope quer dizer que vai passar um tempinho com a titia? – Prim vai até a pia e lava as mãos para pegar a sobrinha que não protesta ao ir com ela.

— Ela acabou de mamar e tome cuidado que ela já quer pegar e puxar tudo que vê pela frente.

— Eu sei mãe coruja. E não posso mais deixa-la dormir sem que esteja cercada por travesseiros, ou almofadas. Sou uma tia atenta, lembra? – Prim faz graça e acabo por colocar uma mexa loira que estava solta em seu rosto, atrás de sua orelha. Minha irmã está uma moça crescida e bonita. Chego até imaginar garotos atrás dela. E dócil como é, não me espantaria de vê-la apaixonada.

— Me desculpe, as vezes me esqueço que você é tão cuidadosa quanto Peeta no assunto Hope. – Acabamos por rir e me dirijo a minha mãe. – Precisa de algo do centro?

— Faixas, gases, mais agulhas para sutura, álcool e... você está pensando de ir até a floresta?

— Posso planejar isso para amanhã bem cedo, já que é domingo.

— Tudo bem, se puder me trazer algumas plantas, agradeceria. Preciso de preparar alguns antibióticos para xarope e ferimentos...

— Por que?

— Os novos pacificadores não estão para brincadeira e temo alguns costumes podem voltar.

— Que tipo costumes?

— Nada, não vamos nos preocupar antes do tempo, mas você deve tomar cuidado. E se não conseguir ir até a floresta darei um jeito.

Me despeço delas e sigo para o centro.

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Durante o trajeto sinto olhares sobre mim, atravesso a praça e vejo que estão colocando algo no centro da praça. Pouco sei sobre os novos pacificadores, mas como Haymitch mesmo havia mencionado antes que Thread, o novo Pacificador chefe, trabalhava rápido e não era tão pacifico como outros que eu e Gale lidávamos.

Entro na loja e peço o que minha mãe tinha listado. Ao sair ando em direção a padaria.

— Katniss, cadê a princesinha? – Esdras pergunta assim que me vê entrando apenas com sacolas nas mãos. Assim como Prim, ele adorava a sobrinha e sempre que dava ia até a Aldeia dos Vitoriosos para vê-la.

— Está com a Prim, não quis trazê-la comigo...

— Eu entendo, veio ver o Peeta? – Não respondo nada e ele prossegue. — Ele está lá nos fundos decorando um bolo... você sabe, ossos do ofício – fala dando de ombros.

— Como está a Delly?

— Está bem, trabalhando na sapataria com os pais, e estamos juntando dinheiro para o depósito do aluguel de um cantinho. E aí vai ser só marcar a data do casamento. – Ele abre um largo sorriso, como sempre faz ao falar da noiva, ou dos planos para o casamento deles.

— Espero que seja em breve.

— Também espero.

Ele me dá passagem e adentro rumando aos fundos da padaria, onde os fornos trabalham a todo vapor. Paro na soleira ao notar a concentração de Peeta decorando o bolo.

— Katniss! – Levo um susto com a voz do Sr. Mellark ao surgir a minha frente.

— Boa tarde, vim ver como estão as coisas por aqui – comento laconicamente.

— Como vê, Peeta está empenhado em terminar aquele bolo. Amélia subiu para começar a preparar o jantar e Sedah também subiu.

Sorrio e me dirijo até Peeta que notou minha presença, mas apenas limitou-se a dar seu típico sorriso enviesado.

— Oi. – Aproximo dele e recebo um beijo inesperado em meus lábios.

— Oi pra você também – diz continuando seu trabalho. – E nossa Hope, como está?

— Está bem. Deixei-a com a Prim e vim comprar algumas coisas.

Penso em voltar pra casa, mas Peeta pede para eu espera-lo, pois já está terminando. Então acabo ficando ali observando a concentração dele a cada detalhe, e não posso deixar de notar que ele parece tão concentrado como quando está pintando, e no fim, o bolo faz jus a uma obra de arte de tão belo. Nos despedimos do meu sogro e do Esdras. Ele segura algumas sacolas e com a mão livre entrelaça seus dedos aos meus. Não conversamos durante o trajeto até a Aldeia, parece que os olhares direcionados a nós não nos permite a isso.

Entrego as encomendas a minha mãe, pegamos Hope, que aparenta estar cansada e a levamos pra casa. Dou banho nela enquanto Peeta toma o seu. Depois descemos com ela para eu dar uma papinha, e nós mesmos jantarmos.

— O que acha de irmos até a campina amanhã fazer um piquenique? – Peeta sugere enquanto estou com Hope dando suas últimas colheradas.

— Minha mãe precisa de plantas, eu ia dar uma volta na floresta amanhã.

— Está pensando em caçar? – Sua voz soa com certa preocupação.

— Não, vou pelas plantas mesmo e o cheiro que preciso sentir da floresta.

— Certo.

— Se quiser vir comigo – sugiro e ele me entrega um guardanapo para limpar a boca da nossa filha.

— Que horas partimos?

— Assim que eu amamentar a Hope e deixa-la com a Prim. Não quero leva-la conosco.

— E eu nem me arriscaria. – Ele afaga meus cabelos com sua mão.

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Pela manhã sou acordada pela minha garotinha que se remexe ao meu lado. Me espreguiço e vejo Peeta acariciar seu fino cabelo castanho.

— Ela resmungou e fui pegá-la, e quando cheguei aqui com ela ficou te observando.

Sorrio para Hope e beijo suas bochechas rosadas. Ela logo se aconchega a mim e dou passagem para se alimentar em meu seio. É nestes momentos que sinto uma forte conexão com ela enquanto suga o leite. Hope fica me observando com seus olhinhos lindamente azuis e curiosos. Até parece que quer me dizer algo.

Peeta troca ela enquanto faço minha higiene matinal. Tomamos café e arrumo um lanche para comermos na floresta. Ainda está bem cedo, mas minha mãe já nos aguardava. Peeta e eu beijamos Hope e minha mãe entrega uma bonequinha de pano a ela. Hope não protesta nossa saída, então rumamos para a floresta. Próximo a cerca paro para escutar o zumbido. Ela não está ligada, pelo menos ainda não. Falo com Peeta que é seguro atravessar.

Caminhamos durante um tempo, recolhendo algumas ervas, antes de prosseguirmos, sentamos num tronco caído e lhe entrego o cantil de água.

— Quando você vem aqui, não sente como se estivesse de volta a arena? – Observo Peeta por um tempo antes de responder. O suor escorre um pouco sobre sua testa e por ser muito branco todo o rosto se encontra corado.

— Sempre me senti bem aqui, mas depois que voltamos do Jogos era como se eu revivesse tudo de novo. Entretanto, tento formular na minha mente que aqui é o Distrito 12 e não a arena.

Após nosso pequeno descanso continuamos a caminhada. E, é bem no meio da relva que Peeta me surpreende puxando-me para si e beijando meus lábios com ímpeto.

— Gosto de passar um tempo com você, sem ninguém por perto. Eu te amo.

— Peeta...

— Eu sei, só estou comentando. Sem pressão. – Nossa relação vinha evoluindo aos poucos, ainda assim, não tinha certeza do que sentia. Minha única certeza era o carinho enorme que tinha por ele. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, ouvi passos e me pus atenta imediatamente puxando uma flecha. Peeta logo está atento ao meu lado também, observando ao redor. Ele se posiciona atrás de uma árvore e faço o mesmo.

Os passos ficam mais próximos e no momento que alguém com o uniforme branco dos pacificadores passa, Peeta o agarra pelas costas com uma chave de braço no pescoço do soldado. Miro na direção deles, mas me surpreendo ao ver uma mulher.

— Pare! – Viro na direção de onde ela veio, já com o arco e a flecha pronta para atirar, e posso ver outra mulher não muito mais velha que eu, também com o uniforme dos pacificadores bem maior do que deveria. Uma de suas mãos para cima e a outra segurando uma espécie de muleta feita com galhos. — Por favor, não nos machuque.

— Quem são vocês? – Peeta pergunta, a voz em um tom que não reconheço. Observo rapidamente as duas. As roupas, embora fossem de um pacificador, estavam amassadas e sujas demais para um soldado do presidente. Ambas são magras e seus dentes são tortos. Sem dúvida nenhuma elas não eram pacificadores e nem cidadãs da Capital. – É a última vez que pergunto, quem são vocês?

— Meu nome é Bonnie, e ela é Twill. Nós fugimos do Distrito 8. Por favor, solta ela, está fincando sem ar. – Peeta olha para mim, e confirmo com a cabeça, ele empurra a mulher Twill na direção da outra e observo com a flecha em posição enquanto ela apoia uma mão no joelho e a outra obre a garganta tossindo.

— Não tente correr, ou eu disparo – aviso. — Onde vocês conseguiram os uniformes?

— Roubei-os da fábrica – explica Bonnie. — Nós os fazemos lá. Só que eu pensei que este seria... para outra pessoa. É por isso que está grande. Será que pode abaixar o arco Katniss. Eu não consigo correr, torci meu pé e ela mal consegue respirar.

— Por que fugiram do 8? – Peeta questiona.

— Vocês mais do que nós, devem saber...

— Pra onde estão indo? – pergunto baixando o arco.

— Para o Distrito 13.

— Não há Distrito 13. A única coisa que há além do Distrito 12, são cinzas e ruínas.

— Isso é o que o presidente quer que a população pense – responde Bonnie.

— Como assim?

— Vocês nunca reparam? – Twill fala pela primeira vez. – O vídeo que passam todos os anos na colheita, é o mesmo, nunca mudou. Meu pai diz que desde a época em que ele era criança, as imagens das ruínas do 13 são as mesmas.

— E daí?

— Não acham isso nem um pouco estranho? A Capital tão atenciosa em fazer um belo espetáculo, para matar nossas crianças, passa o mesmo vídeo maçante.

— Meu avô dizia, que o pai dele passou a vida chamando o 13 de bando de covardes traidores. Ele acreditava que eles eram o Distrito mais forte, que poderiam ter derrubado a Capital, que não caíriam tão facilmente como dizem que aconteceu.

— Você está dizendo que o 13 existe e que eles não morreram naquele bombardeio?

— Não, só que tudo é muito estranho e que esconder a destruição não é coisa da Capital. Não sei como, mas sei que há mais naquele lugar do que dizem. E, é o que vamos procurar.

Ofereço o restante do lanche que trouxemos as duas. Elas agradecem e fico instigada com as últimas palavras.

— Deram um nome muito especial a filha de vocês. Tudo o que nós vemos depois que pegaram as amoras, é nossas esperanças renascerem das cinzas. – Twill inclinou a cabeça em uma leve mesura antes de se virarem e seguir adiante.

Peeta e eu fizemos nosso caminho de volta em silêncio, em partes porque não era seguro falar sobre o que acabamos de escutar próximo ao Distrito, e em partes porque era difícil acreditar. Assim que chegamos ao centro notei uma aglomeração incomum. Assim que me aproximei, as pessoas foram abrindo caminho em meio a murmúrios. Então a imagem que eu vi me deixou sem reação.

Gale estava sem camisa, amarrado e sendo chicoteado.

Notas finais
É isso, espero que tenham gostado do capitulo. Bom feriadão prolongado e temos boas noticias. Além da capa nova feita pela Bel ( que na minha humilde opinião esta linda), teremos 3 dias de atualizações essa semana, sim uma pequena maratona que espero que vocês gostem. Uma ótima semana a todos. Beijos