Preço do Amanhã
45 All my Love
Notas iniciais
Oh, querida, eu vejo todas as suas cores
Sugo de você
Oh, querida, eu sinto toda a sua energia
À medida que começa a desaparecer de você
E eu vejo toda a sua sombra em pedaços no chão
Pessoas, eles querem mais de você e
Eu vejo todas as sombras
Todo meu amor
Todo meu amor
Oh, desde que eu era criança com você
Eu mantive um lugar no meu coração seguro para você
Na sua mente
Na sua mente
Todo meu amor
Todo meu amor
Todo meu amor
Todo meu amor
(All My Love – London Grammar)
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Com o retorno de Peeta só posso me sentir aliviada. Ele recebeu um perdão presidencial, assim como eu. Infelizmente as feridas que tinha eram mais profundas do que qualquer um de nós. Graças ao doutor Aurelius melhorou muito e teve alta. Sei que estava relutante em retornar, mesmo assim, voltou. Prim teve a brilhante ideia de fazermos um jantar de boas-vindas para ele. Sei que ficou apreensivo no início, mesmo assim, trocou carinhosamente brincadeiras com minha irmã. E, nesse reencontro dos dois pude notar os olhos de ambos emocionados pelo ocorrido na Capital, quando Peeta a salvou de uma morte trágica.
Ele tem tido um pesadelo atrás do outro com os eventos da Capital. No início, quando chegou, não queria se abrir comigo, mas aos poucos foi me contando. Sempre usa as telas para pintar as cenas aterrorizantes que povoam sua mente a noite. Em outros momentos, já o peguei agarrando as costas da cadeira. É uma cena bem triste e logo que passa, sai pra caminhar. Um dia desses, vi Doryan sair com ele e quando retornaram parecia bem melhor.
Eu mesma tenho muitos pesadelos, entre um e outro, sempre com Gale. Lembrar dele dói de um jeito diferente. Apesar por tudo o que passamos, com seu ciúme e competição, jamais me esquecerei dos bons momentos que tivemos como amigos. Ajudo sua mãe e irmãos como posso. Na verdade, Peeta tem tomado a frente e sempre abastece a família com o que necessitam.
Com o cair da tarde, preparamos diversos pratos. Delly nos ajuda com a salada e os legumes grelhados. Eu, preparo os temperos para assar o ganso que caçara há pouco. Minha mãe faz seu famoso, ensopado de carne com especiarias colhidas da nossa horta. Até Peeta, com suas mãos calejadas pela guerra, mas ainda habilidosas, prepara um delicioso pão.
O jantar segue com um clima aconchegante e acolhedor. Mesmo Amélia, senta-se à mesa conosco, ela baixara a guarda e aquela armadura de amargura e ódio parecia ter deixado de lado. Cada um de nós tínhamos nossa parcela de angústia e cada um, lida como pode.
— Acha que exageramos com o jantar? — pergunta Prim, quando vem me trazer uma de minhas travessas que Doryan levou com comida para casa após nosso jantar na noite passada.
— Acho que não. Nem pesadelo teve – digo, lembrando do momento que tivemos. Peeta ficou feliz por ver tantas pessoas importantes reunidas. — Prim, você e o Doryan estão passando muito tempo juntos.
— Katniss, ele é um bom amigo e tem ajudado a mim e a mamãe como voluntário no hospital. – Ela sorri. — Outro dia fomos até a floresta pegar algumas ervas daquele livro da nossa família.
— Ele não parou de te olhar na noite passada – a censuro, batendo de leve em seu ombro.
— Nos beijamos ontem – confessa, logo seu rosto enrubesce. — Ele insistiu em nos acompanhar até em casa. A mamãe entrou e ficamos conversando um pouco e de repente... – reflete. — Não foi nada demais, foi um beijo rápido...
— Pra quando marcaram a data de casamento? – questiono, apenas para provocar.
— Katniss! Não é como se fossemos nos juntar amanhã – repreende, mas logo que me vê rir, revira os olhos e começa a rir comigo.
— Só pensei se é o que quer. – Ergo minhas mãos na defensiva.
— Não quero pensar nisso agora – pontua e a respeito.
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Os dias vão passando e as semanas também, tudo vai se ajeitando. Cada um carrega sua cicatriz, mas com a certeza de um futuro mais esperançoso. As arenas estão sendo destruídas. Nunca mais Jogos Vorazes. Máquinas e materiais estão sendo enviados para os Distritos mais afetados, a fim de se reerguerem e todos terem a chance de um amanhã melhor. Cada um está se ocupando como pode.
Meu cunhado se anima muito em poder reconstruir a padaria Mellark e ter sociedade com o irmão. Até mesmo a mãe quer participar, mas foram bem específicos de que ela seguiria as ordens dos dois.
Peeta e Esdras se dedicam de corpo e alma à reconstrução. Eles limpam os escombros, buscam materiais, trabalham incansavelmente, lado a lado. Eles usam os materiais enviados pela Capital. A comunidade se une para ajudar, oferecendo mão de obra e apoio moral. É incrível o quanto as pessoas se importam, alguns são amigos do Gale, os que trabalhavam nas minas.
Peeta conta que a reconstrução da padaria se torna um ato de memória. Uma homenagem ao passado e uma promessa de que o amanhã trará novas possibilidades.
A padaria Mellark vai tomando forma. O dia em que o primeiro pão sai do forno recém-construído, é um momento de celebração e emoção. As pessoas se reúnem para degustar o pão, símbolo de renascimento e união.
Finalmente a padaria Mellark reabre as portas, renovada e revitalizada. Realmente um símbolo de vida e esperança. A reconstrução da padaria Mellark representa a superação da guerra e a força da comunidade. O pão, símbolo de união e esperança, se torna um símbolo de renascimento para o Distrito 12. Peeta e Esdras, retomam a tradição de oferecer pão fresco e saboroso, transmitindo o legado da família e a esperança de um futuro melhor. Claro que Delly e eu estávamos presentes na inauguração para apoiarmos nossos maridos. Foi um momento maravilhoso e de emoções significativas.
Noto em Peeta que, em meio ao trabalho árduo e à reconstrução, redescobre o amor por tudo que seu pai inevitavelmente deixou. Encontra consolo e paz na arte de transformar a farinha em pão. Nas decorações que faz em suas tortas e nos mais deliciosos bolos. Ele e o irmão, unidos pelo amor e paixão pela panificação, perpetuam o legado da família Mellark, oferecendo pão fresco e saboroso para as futuras gerações.
— Acho que o Haymitch está apaixonado pela Effie, só não quer admitir – comenta Peeta, entrando com o Benjem no colo e Hope no seu encalço.
— Ele não deu nenhum sinal contrário – digo pegando Benjem e beijando de leve seus lábios. Encosto a ponta do meu nariz na curva de seu pescoço, absorvendo o leve aroma de canela e aneto dos pães que ele deve ter assado hoje. O tempo pode passar, mas isso tem um grande significado pra mim.
— Passei agora mesmo para deixar alguns pães e doces da padaria e disse que Effie está para nos fazer uma visita.
— Que ótima notícia!
— Por isso notei que está mais agitado, desde a breve ligação dela – observa ele.
Rimos com a imagem do nosso antigo mentor agitado por conta de uma mulher. Ele que outrora nos instruiu para fazermos um show de um relacionamento faz de conta, agora não consegue lidar com seus próprios sentimentos.
— Acho que poderia lhe dar umas dicas. O que acha? – brinca Peeta.
— Você sempre foi bom com as palavras, de repente, consegue tirar dele a essência de um cavalheiro. – Rimos imaginando um Haymitch apaixonado.
Pego as crianças para dar banho e Peeta me segue para ajudar.
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Recebo uma inesperada ligação, Effie Trinket, me informando que estaria vindo para o Distrito 12. Confesso que fiquei surpresa quando mencionou um tal trato que fez com Haymitch antes de voltarmos da Capital. A estilista excêntrica e sempre sorridente, tentava se adaptar à nova realidade, sem tanta pompa e o glamour. Quando converso com Peeta ficamos imaginando o que seria esse trato.
— Você acha que estão namorando? – pergunta enquanto tomamos banho após ter colocado as crianças para dormirem.
— Peeta! – o repreendo, enquanto esfrego levemente suas costas. — Não acho que seja esse o caso.
— Foi você que me contou do beijo de despedida dos dois. – Ele se vira erguendo as mãos como um sinal de rendição.
— Eles deram um selinho – friso.
— Demos selinhos e beijos ardentes, inúmeras vezes – diz se gabando.
— Eram para as câmeras, Mellark.
— Não adianta fazer essa cara Sra. Mellark. – Ele se aproxima me tomando em seus braços. — Você gostava de ter que tocar meus lábios – sussurra bem próximo ao meu rosto fazendo meu corpo se render a ele, enquanto a água morna escorre sobre nossos corpos nus.
— Não fique se achando... – Juro que perdi meus sentidos.
— O que fará a respeito? – Com sua voz grave e enrouquecida, desliza suas mãos para a base da minha coluna, apenas para me apertar ainda mais.
— Vou fazer isso.
Fico na ponta dos pés para alcançar seus lábios e capturá-los em um beijo ardente.
— Como eu amo você Sra. Mellark – declara todo apaixonado.
No dia seguinte, vamos com as crianças até o lago para aproveitarmos o dia ensolarado. Levamos bastante comida entre guloseimas. Passamos o dia com nossos filhos. Mergulho inúmeras vezes aproveitando ao máximo do meu tempo. Como Benjen ainda necessita muito dos meus cuidados, mesmo que engatinhe, quase não tenho tempo para este divertimento. Hope adora nadar com o pai. Ele a pega erguendo no ar e gargalha quando finge que vai soltá-la bruscamente na água, mas no fim, a solta com toda delicadeza.
Após o almoço nos deitamos com as crianças debaixo de um salgueiro. Hope repousa sobre o peito de Peeta e Benjen se aninha ao meu lado e assim dormem profundamente. Meus olhos que se encontram fechados, se abrem, quando escuto um profundo e longo suspiro vindo do loiro.
— Amo você, Peeta. – Estico meu braço direito em direção a um cacho de seu cabelo que se encontra sobre sua sobrancelha esquerda e o afasto. — Amo nossa vida assim.
— Também amo. Não trocaria esse momento por nada – diz baixo para não acordar as crianças.
Ficamos mais um tempo até as crianças acordarem. O sol começava a se pôr, tingindo o céu em tons de laranja e roxo. Caminhávamos de volta para casa, a cesta de piquenique balançando levemente entre nós. O ar fresco da tarde carregava o cheiro de pinho e terra úmida, um aroma reconfortante após um dia relaxante à beira do lago.
Quando nos aproximamos de casa noto uma pequena movimentação.
Effie Trinket e Plutarch Heavensbee vem ao nosso encontro, ambos sorrindo.
— Katniss! Peeta! – exclama Trinket. — Que bom vê-los.
— O que os traz até aqui? – pergunto, um pouco surpresa mais com a presença do homem à frente.
— Plutarch queria conversar com você, Katniss – responde Effie, olhando para ele.
Plutarch assente, um olhar sério em seus olhos.
— Katniss, precisamos falar. É sobre meu novo programa. Preciso que cante uma canção... sobre esperança. Panem precisa te escutar – diz empolgado.
Sinto um aperto no peito. Sei que quando cantei nos Jogos havia tocado o coração de muitos, mas não esperava que precisava cantar novamente. Presumo que alguns não gostem de mim pelo que fiz com a presidente deles.
— Eu não sei, Plutarch. Não sei se sou a pessoa certa para isso – digo sincera.
— Você é a única, Katniss – declara ele com convicção. — Sua voz, sua história, sua força... elas inspiram as pessoas. Dão esperança, sabe? – Ele se aproxima, colocando a mão em meu ombro. — A canção que você cantou pra Rue, aquela melodia simples... ela ecoou por toda Panem. Nesse momento as pessoas estão famintas por esperança. Por um sinal de que as coisas podem mudar. Você pode ser essa luz, Katniss.
Olho para Peeta, buscando apoio em seus olhos. Ele me encara com um olhar de compreensão e acaba por acenar levemente com a cabeça.
— Mas o que eu posso fazer? – pergunto, ainda hesitante.
— Cantar – fala com um sorriso esperançoso. — Cantar para eles. Panem está se reerguendo. Precisa de algo que os anime. Uma canção de esperança. Uma canção de liberdade. Uma canção dizendo que o futuro pode ser diferente. Alguns ainda parecem hesitar... temem de que tudo possa voltar como era.
Sinto um nó na garganta. A responsabilidade é imensa, mas a ideia de poder dar esperança às pessoas, de poder contribuir para uma mudança, me enche de vigor que pensei ter perdido outrora.
— Eu vou cantar. – digo, com a voz firme. — Vou cantar por todos eles.
— Estou orgulhoso de você. – Peeta sorri ao me abraçar. — Sempre estarei ao seu lado. Conta comigo no que precisar. Sei que é capaz de realizar qualquer coisa. – Sinto uma segurança e me emociono com suas palavras.
— Então, vamos começar a trabalhar. – Plutarch, nos chama a atenção. — Vamos criar uma canção que abrace a nova Panem. Que acenda a chama da esperança em cada coração – fala com um brilho nos olhos.
E assim, sob o céu crepuscular, entramos em casa; enquanto Peeta subiu pra cuidar do banho das crianças, eu, Effie e Plutarch começamos a traçar um plano para uma canção que ecoaria por toda Panem. Algo que carregue a esperança de um futuro melhor.
Plutarch faz algumas ligações e em alguns dias um pequeno grupo de músicos com instrumentos; incluindo aparatos para gravações, chega até nosso distrito. O escritório que, quase não usamos, vira um estúdio. Novamente Heavensbee se transforma no secretário de comunicação. Ensaio pelo que me pareceu horas. Confesso que já estava cansada, mas Peeta continua me dando o maior apoio. Me ajudando com as crianças. Minha mãe e Prim também participam desta tarefa.
— Sabe... você me lembra muito o seu pai – confessa minha mãe, emocionada, assim que finalizo de gravar a melodia com os músicos. — Ele nasceu em um lar com muita música e amor. Isso foi o que mais me chamou a atenção nele.
— Agora podemos ter um lar assim mãe. – A tomo em meus braços, pois escorrem lágrimas de seus olhos, tão certo como dos meus também.
"A Chama da Esperança"
Intitulada por Plutarch.
Noite escura cai sobre Panem, frio na alma, medo no ar
Mas no coração, uma chama, que a escuridão não pode apagar
Lembranças de um tempo melhor, quando a liberdade era o nosso bem
E a esperança, um farol que guiava, a todos nós, para um futuro sem fim...
Com as câmeras ligadas, inicio a canção. Uma melodia calma a princípio e as notas vão flutuando conforme o violino sola.
A chama da esperança, arde forte em nossos corações
Um grito de liberdade, quebrando as correntes, que nos prendiam em trevas e aflições
A força do amor, que nos une, unidos em um só ideal
A justiça e a paz, para sempre, em Panem, vamos construir um novo lugar
Tenho uma pequena plateia. Minha mãe, Prim, Doryan, Esdras, Delly e claro, Peeta e as crianças. Apenas Effie estava ausente e sabia muito bem onde se encontrava.
Os jogos sangrentos, já não nos dominam, a voz do povo, agora se levanta
A opressão e a crueldade, não mais nos calarão, a revolução, finalmente, se acende
No rosto de cada um, a chama da esperança, quebrando as muralhas, que nos separavam
Unidos em um só propósito, a liberdade, finalmente, conquistaremos...
O sol da manhã, em breve, irá raiar, sobre Panem, um novo dia vai nascer
A sombra do medo, se dissipará, e a liberdade, em nossos corações, irá florescer
Meus olhos se encontram fechados antes de concluir.
Panem, Panem, a esperança renasce, um novo futuro, para todos nós, vai começar
A chama da esperança, arde forte, em nossos corações, para sempre, a liberdade, vamos alcançar!
O silêncio paira na sala após a última nota ecoar. A melodia ainda pairando no ar. Observo os rostos ao redor, buscando uma reação. Um sinal de que a canção havia tocado as almas daqueles que a ouviram.
Minha mãe com os olhos marejados, apertou minha mão com força, um gesto silencioso de aprovação. Prim, com um sorriso radiante, parecia hipnotizada pela melodia que ainda ressoava na sala. Doryan, com um olhar de admiração, assentiu levemente; enquanto Esdras, um pouco mais contido, apenas sorriu, seus olhos brilhando com um brilho diferente. Delly, tinha um leve rubor nas bochechas e seus lábios sibilaram "maravilhoso". Solto o ar dos pulmões, pois, Peeta, com um olhar intenso e apaixonado, apenas me observa, como se fosse a primeira vez.
Plutarch, com um sorriso de satisfação, ergueu-se da poltrona.
— Katniss, você fez algo extraordinário! Essa canção... ela é a chama que precisamos para acender os corações. – Ele caminha até o técnico que gravava e cochicha algo e o homem assente. — Essa canção será ouvida por todos, em todos os distritos.
Sinto um frio na barriga. A responsabilidade dessa melodia, da mensagem, pesa sobre seus ombros. Dei tudo de mim. Cantei com o coração. Com a alma, mas agora, a canção transcende um significado pessoal.
— Eu... eu só quero que as pessoas tenham esperança – digo sentindo a voz tremer levemente.
— E você deu a elas – responde Plutarch, com um toque de admiração. — Você deu a elas a esperança que tanto precisam. E isso, Katniss, é algo que ninguém jamais poderá tirar de você.
Peeta aproximou-se, segurando minha mão com carinho.
— Você é incrível, Katniss. Essa canção... ela é você. É a sua força, a sua coragem, a sua esperança. – Sinto um aperto no peito. A emoção transbordando em coração e olhos.
Plutarch, com um sorriso confiante, aponta para o homem que gravara tudo e diz:
— Essa canção irá ecoar por toda Panem.
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