Pretérito Perfeito Ana

1 Pretérito Perfeito - Ana


Notas iniciais
Corto meu pescoço, mas não digo que essa história é baseada no meu primeiro romance com uma mulher, muito menos que Alycia sou eu ou que ainda é vívida a lembrança, apesar de alguns anos terem se passado.

Tecla após tecla formava o som uniforme da digitação que se estendia pelo corredor, dedos ágeis em todos aqueles cubículos do escritório da rua XV com a Monsenhor, O som ecoava profundamente, muito mais alto, na mente de Alycia, do que realmente estava. Os dedos vacilaram, atropelando dígitos, parou, respirou fundo e apagou a última sentença. Olhou novamente o bilhete semiaberto ao lado do teclado. A curvatura volumosa de seus lábios afinou. O que significava aquilo. Significaria o que cada palavra queria dizer em toda amplitude implícita no vocábulo? Seus dedos abandonaram o teclado e possuiu aquele pequeno pedaço de papel, como a uma pétala delicada. Tinha o cheiro dela, a letra dela, as palavras martelantes e incisivas dela. Leu pela quarta, quinta, sexta vez, sem que a frase perdesse o sentido ou deixasse de lhe causar algum efeito.

“Gostaria de vê-la fora do trabalho, para ficarmos mais a vontade”

O subtexto, se é que se tratava de subtexto, era referente ao que imaginava? O que imaginava ao certo? Eram muitas questões sem resposta. Aquilo a enlouqueceria. Suas mãos aflitas voltaram ao teclado ignorando o bilhete, digitando com a velocidade que podia para tentar esquecer as palavras confusas e discrepantes daquele bilhete. Em alguns minutos estava novamente inquieta a segura-lo. Devia responder, mas o que devia responder? O questionamento a impedia de prosseguir com o simples trabalho de responder o e-mail de um cliente, sobre qualquer produto, sem importância, diante do seu dilema. Era óbvio que aceitaria o convite, afinal se Ana não o fizesse, teria sido ela a tomar a atitude em algum momento. Mas o que responder, em que tom responder, não queria assusta-la, não queria inibi-la, se é que realmente havia algo mais nesse bilhete do que uma colega de trabalho gentil a convidando para um café.

Suas mãos estavam trêmulas, ao iniciar a escrita, a caneta escorregou e vacilou em seus dedos, riscando erroneamente o primeiro bilhete. Rasgou-o, jogou ao lixo, assim como seria o destino de muitos outros antes que seus dedos e punho voltassem a obedecer. Não tinha nenhuma experiência em convidar colegas de trabalho para sair, mas aquele bilhete a fazia pensar mil coisas, mas quem era ela para ter algum parâmetro? Alycia não tinha nenhuma experiência em praticamente nada, esse era seu primeiro emprego, estava ali a um mês talvez. E o que a sorte a reservara, um acumulo de acontecimentos que levaram-na a isso, noites de insônia e contraditoriamente sonhos intensos .

Nem de longe Ana era a mulher mais bonita que Alycia já vira ou já conhecera, mas tinha algo nela, algo naquele olhar por trás dos óculos de grau, algo no salto alto que alongava suas pernas formando uma elevação em sua lombar. Aquela curvatura perfeita que atraia o seu olhar. Como podia tal infortúnio acontecer tão rápido, não se permitiu a isso, não queria, mas todos os seus sentidos a traiam ao menor contato ou proximidade com Ana. Logo no primeiro dia cruzou com aquele olhar misterioso e convidativo. Perguntou pela sala do gerente e Ana muito solicita a levará até lá. Despediram-se com um sorriso e Alycia sentiu-se invadir por uma sensação de saciedade agradável.

Suspirava o seu nome quando não a via, como uma suplica para que adentrasse seu cubículo, olhava os bilhetes que trocavam a semanas, não se lembrava mais como aquilo começara, mas certo dia pegou-se aguardando ansiosa pelo bilhete de “bom dia” cair pela parede que dividia o seu cubículo do dela. Era ávida com as palavras, tanto as faladas como as escritas, Ana poderia conseguir qualquer segredo de Estado em uma conversa. Não pensou mais, passou o bilhete com a resposta para o outro lado do cubículo e voltou a sua digitação, rapidamente, para sobressalto de seu coração, outro bilhete pulou a divisória invadindo o espaço entre o teclado e suas mãos.

“Gostaria de jantar em minha casa hoje? Meu marido está viajando.”

MARIDO, a palavra que tanto odiava nas últimas semanas, ela era casada, o maior motivo para interpretar todos aqueles subtextos como fantasias ilusórias da sua mente fértil, encantada por uma mulher mais velha, sua colega de trabalho, Ana. Seus olhos decaíram acompanhando a curvatura íngreme, triste de sua boca. Ana estava apenas sendo cordial, simpática, a convidando para jantar ou simplesmente não queria ficar sozinha. Respondeu afirmativamente o bilhete apenas para não contradizer a primeira eufórica resposta, mas não deixou espaço para continuarem com os bilhetes. Não saiu para almoçar com Ana, como fazia praticamente todos os dias nas últimas semanas. A verdade é que estava com uma raiva dentro de si, uma angustia que afligia seus músculos como uma onda gélida dolorosa.

Continuou a trabalhar, não tinha mais o que fazer, novamente amaldiçoou sua sorte de topar com aqueles olhos verde-escuros para pedir informação em seu primeiro dia ali. Se irritou com todas as terríveis coincidências que permeavam seus encontros tão casuais quanto podiam ser, e o seu maior infortúnio, o marido. Estava tão imersa em pensamentos autodestrutivos que só percebeu que não estava só, quando avistou aquela mão suave e delicada a afagar seu braço carinhosamente. Apreciou cada instante daquele toque como se voltasse a vida aos poucos. A voz inebriante veio em seguida preenchendo seus ouvidos como a sonata mais doce não poderia fazer, depois, mas não menos importante, o perfume a entorpecer o ambiente com sua docilidade tóxica, embriagante. Estava sendo envenenada aos poucos pelo mais doce e afável veneno. Ciente de cada efeito colateral que sofreria em breve e ainda assim morreria por uma gota desse veneno.

Ela trouxe seu almoço, sempre tão atenciosa, cuidando e mimando Alycia como uma criança. Ah Ana, pensava ela, queria que me visse como a mulher que sou. Ana sempre falava eloquentemente da juventude de Alycia saudosa de sua própria “ Tão novinha, essa pele de pêssego, menina perfeita” Falava a tocar-lhe a fase com gesto carinhoso. Gestos que a deixavam rubra, não pelas palavras, pois essas não a deixavam feliz, mas pelo toque que acionava sensações tão intensamente desconhecidas. Recomendou a ela que almoçasse com tom autoritário, que adorava, e depositou um beijo rápido em seu rosto, antes de sair dizendo que a buscaria em casa para o jantar.

Acompanhou o andar leve daqueles saltos elegantes, a sinuosidade de sua silhueta e os cabelos pretos a destacarem a pela branca, quase pálida. Sentiu o perfume se esvair deixando uma saudosa melancolia no ar. Uma aflição tomara seu corpo, a cólica que afligia seu pensamento era muito mais penosa que qualquer dor física. O que seria desse jantar? O que seria dela sob aqueles olhar profundo de um esmeralda intenso? Os olhos de Alycia corriam reincidentemente para o relógio de parede do outro lado do corredor. Tinha pressa em correr para casa se arrumar, se arrumar para Ana. Não era feia, mas estava longe de ser o padrão de beleza de alguma revista de moda. Sua feminilidade deixava muito a desejar em alguns pontos, mas nada que uma hora de maquiagem, esmalte e roupas delicadas não pudessem corrigir. Queria estar perfeita, elegante, como as mulheres de outro setor que Ana elogiara no dia anterior. Queria ser o alvo dos elogios dela.

Como era tortuoso o passar lento daquele ponteiro compassado, sem pressa. Seu pé ditava um ritmo acelerado a bater no chão rapidamente, inutilmente, tentando apressar os ponteiros. O dia passou mais arrastado que o pior dos castigos. Pensara no que diria para sua mãe para sair e em qualquer questionamento que julgava não poder responder com a verdade. Ensaiara diálogos inteiros, presando por palavras cultas e assuntos interessantes para falar com Ana, mas afinal não havia nada de interessante em sua vida. Certamente a parte mais interessante de sua vida era o trabalho, que de interessante só tinha Ana.

De repente foi tomada por uma culpa crescente, seus lábios cerrados e a o polegar a cutucar insistentemente a cutícula de seu indicador, a ansiedade a deixava ainda pior, sentia-se sentada sob o olhar inquisidor de um júri que a considerava culpada, mesmo antes do julgamento começar. Seu crime, a maior das insanidades acometidas pela humanidade, amor. Pensou claramente pela primeira vez sobre essa palavra tão pequena e tão pesada. Amava Ana, seria essa a tradução literal para o declínio e elevação do seu ser?

Dezessete horas, finalmente os ponteiros lhe trouxeram alguma alegria. Intencionava correr para pegar o primeiro ônibus que passava na próxima esquina e a deixaria a uma quadra de sua casa, mas para sua infelicidade ao levantar o rosto em direção à saída, topou com Sr. Gomes. Ele resolverá, justo hoje, falar-lhe sobre seu desempenho no trabalho, ficou parado ali no corredor a falar amenidades enquanto Alycia não tirava os olhos do relógio. Tentou ser gentil e cordial, afinal Sr. Gomes era sempre tão atencioso e, além disso, seu chefe, mas sentia seu estômago apertado em frangalhos calculando que perderia o ônibus e chegaria mais tarde em casa, não tendo tempo para fazer as unhas. Olhou com pensar para suas unhas curtas e sem graça. Sr. Gomes a segurou por exatos sete minutos e meio antes de dispensa-la de forma sucinta. Era um homem agradável, aparentava cinquentas e poucos anos, calvo no topo da cabeça, com um andar engraçado parecendo que penderia para algum lado, devido a barriga muito maior do que a proporção de sua baixa estatura.

Ana a avistou ao final do corredor principal, e seu sorriso iluminou o local enquanto trocaram algumas palavras, ria abertamente, assim como se enfurecia abertamente e todas as demais facetas que poderia ter. Ana não tinha papas na língua, mas parecia sempre saber o que dizer e principalmente como dizer, uma destreza com palavras e pessoas, que Alycia estava muito longe de possuir. Reafirmou o horário que a encontraria e saiu desfilando elegantemente pelo corredor principal. Ela acompanhou cada passo até Ana sumir por entre os cubículos.

Parou em frente ao pequeno espelho do banheiro de sua casa e observou sua imagem refletida. O espelho recoberto por gotículas condensadas escondia as imperfeições que sabia bem onde estava. A pequena cicatriz ocasionada por uma acne na bochecha esquerda, o lábio inferior ligeiramente mais fino no canto direito e seu sorriso o mais perfeito que alguns anos de aparelho dentário puderam providenciar. O cabelo ondulado, úmido, castanho apagados, olhava para si como uma menina sem graça. Passou a mão retirando a nevoa da superfície e começou a se maquiar, não levava muito jeito para isso, hora ficava torto, hora exagerava na mão, ao fim das contas utilizou mais removedor do que maquiagem. Finalmente estava satisfeita com o resultado, deu uma última ajeitada nos longos cabelos e resolveu por arrancar um fio insistente que voltava a ficar em pé.

Estava apresentável, não o suficiente para arrancar elogios de Ana, pensou consigo, mas era o máximo que podia fazer. Sua mãe elogiava a produção, mas os elogios de sua mãe nunca eram totalmente imparciais, se é que algum elogio maternal possa ser imparcial. Amava sua mãe tanto quanto uma boa filha pode amar uma boa mãe, mas seu maior medo era ficar como ela, uma senhora grisalha de seus sessenta e poucos, cujo prazer maior na terra era ver os talheres e panelas brilhando. Aquela pele enrugada e queimada de sol, junto a mãos calejadas do árduo trabalho que teve durante toda a vida. Tinha muito orgulho dela e medo de seguir pelo mesmo caminho tortuoso e cruel.

Deu um beijo naquela testa enrugada e afagou os cabelos se despedindo da senhora que apresentava muito mais idade do que realmente tinha. Não queria que sua mãe visse os olhos com que olhava para Ana, sentiria vergonha do que a mãe pensaria a seu respeito, não sabia o que dizer a sua família, não sabia ao certo nem o que pensar de si mesma. Entrou no carro de Ana parado a alguns metros de sua casa, o percurso durou apenas alguns minutos que passaram sem serem percebidos. Ana não usava os óculos de grau, estava leve, casual, ao volante do seu Ford semi novo, falaram sobre o trabalho e sobre as nuvens carregadas que se formavam ao longo da linha do horizonte, em nenhum momento seus olhos se permitiram mergulhar nos olhos de Ana, tinha medo do que ela pudesse ler em seu olhar.

Em um sinal vermelho, na esquina da Marechal com a Taunay ao trocar a marcha, aquela mão delicada e sutil resvalou em sua coxa e ao que Ana não afastou a mão e ela não afastou a perna, os olhos se encontraram traiçoeiramente. Ana tinha um sorriso misterioso e indecifrável nos lábios. Parecia um discurso imenso dentro daquele inquietante olhar. Pela primeira vez no dia Alycia sentiu seu corpo relaxar, livrando-se daquela tensão incomoda e da angustia que tomara posse de seu estômago, o sinal abriu, não perceberam, foram tiradas do transe pela buzina de um fusca branco atrás delas.

A casa era de arquitetura colonial americana, tinha estruturas brancas e uma varanda, o gramado recém-aparado com um balanço no meio, era a única indicação que naquela casa morava uma criança. O assoalho em madeira escura dava um toque aconchegante ao ambiente, Parou no correndo observando um porta retratos, Ana com a filha pequena no colo, provavelmente recém-nascida, pensou, mas não comentou nada. Ao lado uma foto em família, o marido, abraçando mãe e filha, desviou o olhar como alguém que de súbito olha a luz do Sol diretamente. Não queria gravar os traços daquele homem em sua mente, isso apenas o tornaria mais real em seus pesadelos.

Durante o jantar conversaram sobre muitas amenidades e coisas pessoais, Ana falava sobre o marido e sua filha, contava de seus grandes feitos ao mesmo tempo em que o criticava com certa veemência, pelo tempo que passava viajando e por levar a filha junto sempre que ela não estava estudando. Alycia sentia-se sufocada, o ar naquela imensa sala de jantar estava rarefeito, perguntava em demasia, o que estava fazendo ali, não devia ter aceitado o convite, o que pensou que aconteceria? O que de bom isso poderia trazer, nada exceto mais sentimentos impossíveis.

Ana estava séria, de repente, como se forçasse uma casualidade que já não existia. Será que tinha dito algo que não devia, feito algo errado, apressou-se em tirar os pratos da mesa, assim que forçou a última garfada. Ana a interrompeu, segurando sua mão, um olhar terno surgiu daquele toque, tão perceptível quanto às ondas que oscilavam entre suas mãos. Ana a levou para outra sala, dizendo que a levaria ao seu canto favorito da casa, um lugar só dela. Adentraram a sala um pouco menor, o tapete macio se estendia da lareira até os pés do sofá, não pode deixar de reparar que havia muitas fotos de sua filha, mas nenhuma do marido. Ana tirou o salto e afundou os pés no tapete, fechando os olhos e soltando um breve suspiro, Alycia sorriu tão naturalmente, espontâneo assim como Ana a observa-la. Esses momentos eram tão raros, momentos em que palavras não eram necessárias, nem explicações, nem inseguranças. Tão raros e breves quanto os poucos segundos que podiam durar. Ana postou-se a acender a lareira e indicou a pequena adega do outro lado da sala, dando-lhe uma pequena lista verbal das opções de vinho que tinha a sua escolha. Alycia deu de ombro não sabendo a mínima diferença entre todas as especificações a sua frente. Ana a recriminou por seu paladar pouco refinado. Resignou-se ao silêncio e a crítica que continuava a martelar em seu pensamento, afinal era isso que Ana achava dela, uma menina burra que nem ao menos um vinho sabia escolher. Teve vontade de sair correndo daquela casa pomposa. Como Ana podia fazer isso tão facilmente com ela, leva-la ao êxtase num segundo e joga-la num poço obscuro e fundo, em outro.

Uma pancada de chuva bateu na janela com força, rompendo o silencio pesado daquela sala solitária. Ana voltou com as taças, ela se adiantou em dizer que não beberia, preferia ir embora, antes que a chuva piorasse. Ana a ignorou enchendo a taça:

— Não seja boba, ainda é muito cedo, venha sente-se aqui.

Apontou para o tapete onde já se sentava de frente a lareira.

— Beba, experimente e me diga o que acha.

O sabor era intenso, tomou todas as suas papilas gustativas, murchando-as com o azedo sobreposto, em seguida, pelo doce sabor de uvas maduras.

— É delicioso

Intenso e contraditório como Ana, por isso gostou tanto. Bebeu até a última gota, beberia mais, mas Ana disse que era o suficiente para ela. Deixaram as taças ao final do tapete macio. A chuva se intensificava formando um espelho d’agua na janela. A conversa agora seguia mais leve, solta pelo vinho, sorria das coisas que Ana falava, ela conhecia tanta gente, fazia tantas coisas interessantes. E no fim das contas era apenas uma mulher de seus trinta e poucos anos fugindo da monotonia de ser uma dona de casa, esposa de banqueiro. Foi com pesar naqueles tristes olhos verdes que se deixou abater e sibilar essas palavras como um segredo maldito, falava como se fosse um alivio não ter o marido próximo, com exceção a filha que levava junto com ele. Não falou mais do marido, disse que isso a deprimia.

Às vezes suas mãos se tocavam durante a conversa, em cada uma delas ela sentiu seu corpo se acender, como podia um simples esbarrão causar essa eletricidade a correr sua pele. Seus olhos novamente se encontraram, o ar ao seu redor parecia condensado congelando aquele momento e fazendo com que durasse muito mais do que devia. Um relâmpago cruzou o céu fazendo com que sua claridade adentrasse a sala e desmistificasse aquele torpor exalado poe elas. Em seguida o trovão soou forte fazendo sua pele eriçar e explodindo junto a um apagão que cobriu várias quadras. A sala ficou iluminada apenas pela lareira. Ana segurava sua mão em aflição, estava a tremer, bem junto ao seu corpo, as mãos gélidas distribuíam um tórrido calor por onde passava, tão ambíguo quanto à própria Ana.

Tinha medo de fazer um movimento qualquer que pudesse encerrar aquele contato, mal respirava. Apenas a fitou sob a luz opaca da lareira, seus olhos estavam assustados, não demonstrava a costumeira confiança, as mãos foram acalmando-se conforme os olhos tornavam palpável a redoma de luz que as envolvia e separava do resto do mundo, nada mais existia além do que aquelas chamas podiam iluminar. A chuva intensa era a única trilha sonora daquele momento. Aquele momento ficaria eternizado em sua memória como a página de um diário que pode ser relida com a mesma vívida sensação. Cada milímetro de seus corpos reagiu, não existia mais espaço entre elas, a turva claridade que condensava a escuridão a sua volta foi à única testemunha do beijo que se seguiu. Os lábios que se tocaram aflitos, indecisos, até que o último grito de razão se fez calar.

Seus pés flutuavam em uma imensidão aquosa, quente, delirante, eufórica e receosa. Não existia respiração, ou pulsação, apenas o silêncio seguido do tenso e impiedoso palpitar do seu coração colado ao dela. Uma calmaria que inundava suas veias e a regava com euforia e satisfação. A luz voltou, trazendo consigo a incerteza do que havia ocorrido, o semblante apático tomou posse do verde-esmeralda ofuscado pela luz. Esperando uma a outra por uma deixa, um sinal qualquer do que fazer em seguida, mas não veio de nenhuma das partes. Pensou que Ana se afastaria, a abandonaria, visualizou o rosto enfurecido a recriminando pelo que tinha feito. Uma corrente fria correu seu corpo em todas as direções, se sentia febril. Imaginou-se sendo expulsa daquela casa no meio da chuva, sofreu precipitadamente pelo seu constrangimento e seu rosto tomou forma da sua inquietude e apavoramento, precisava sair dali o mais rápido possível:

— Não precisa ter medo.

Ana segurou seu rosto com ternura e tomou seus lábios para si, tão calmo e explosivo quanto à ambiguidade em tudo que Ana fazia. Aqueles doces lábios sinceros invadiram boca e pele como uma onda quente onde Alycia voltou a afogar-se.

Notas finais
Esse foi apenas o começo... O resultado final, como podem imaginar, quando junta a equação marido+filha=coração partido. Foi algo incrível, transformador, doloroso e significativo, Despertou coisas que eu não sabia existirem em mim, coisas boas e más. Demorou alguns anos, mas finalmente entendi que no fim Ana me amava, talvez até mais do que eu a ela.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!