Pretérito Imperfeito
9 Capítulo IX - And I'll Try To Love Only You
Notas iniciais
Damon bateu a porta de seu quarto bruscamente, trancando-a. Em seguida, passou suas mãos pelos cabelos e jogou-se na cama. Relutante, resolveu tomar um banho para esfriar sua cabeça, mas era inútil, a inconstância havia tomado conta dele, mas por quê? Agora ele sabia que teria Juliana de volta, mas por quê? Por que ele continuava transtornado?
Após se vestir, jogou-se mais uma vez sobre sua imensa cama medieval, e algumas lembranças despertaram um singelo sorriso na face torturada do vampiro.
[...]
Há quase 146 anos atrás...
Correr. Eles precisavam correr por entre a sombria floresta de Mystic Falls. Damon e Giuliana estavam de mãos dadas correndo de um javali da montanha, isso mesmo, um javali da montanha! Damon bem que a avisou, mas ela teimosa e caprichosa sentiu a necessidade de interromper um pequeno passeio pelas propriedades dos Fell para pirraçar o pobre suíno que estava tentando caçar um pequeno mamífero que eles não conseguiram identificar.
– Ah! – Ela deu um gritinho agudo e breve quando quase tropeçou em uma pedra que notou surgir em seu caminho.
– Avisei-te!... – Damon dizia ofegante e pausadamente, em sua corrida. – Não... Perturbes... O porco-bravo...!
Giuliana olhava para trás alarmada e divertindo-se com a situação em que os dois estavam inseridos.
Foi então que ela virou sua cabeça para frente e notou o surgimento de um tronco delgado de árvore entre ela e Damon. Eles tiveram que soltar as mãos, os dois continuaram correndo lado a lado, acabaram distraindo-se com os barulhos expelidos pelo javali, que se aproximava cada vez mais, e nem notaram um pequeno penhasco surgir em suas frentes.
Os dois caíram, mas era uma espécie de rampa coberta de folhas, eles desciam deitados, ambos gritaram assustados com a brusca mudança na rota do movimento. Desceram, ou melhor, escorregaram por alguns segundos até chegar ao fundo do penhasco.
O javali havia chegado à borda, ficou parado por alguns segundos e achando inútil continuar a perseguição, desistiu, deu meia volta e foi embora.
Ainda deitados, os dois viram de ponta cabeça o javali ir e inevitavelmente começaram uma crise de risos gostosos, eles pareciam crianças em sua infantil diversão. As risadas duraram alguns minutos.
Por um instante, eles continuaram ali, olhando o céu azul por entre as árvores acima de suas cabeças enquanto ainda ecoavam alguns risos até eles sumirem completamente.
– Confesses! Se minha pessoa ouvisse seus alertas, Damon, você não teria metade das aventuras de sua vida! – Disse Giuliana ainda estirada ao chão.
Damon riu e bufou, mas ele sabia que era verdade. Ele, que ainda estava deitado, apoiou seu cotovelo no chão e pousou a cabeça em sua mão, ficando de lado com Giuliana, seu tronco estava a milímetros do dela.
Ele começou a encará-la em silêncio.
– O que houve? – Perguntou a garota Salvatore começando a ficar com a face encabuladamente rubra.
Damon passou a mão pelo cabelo castanho escuro dela retirando algo que parecia estar suspenso.
– Tinha uma folha em seu cabelo... – Ele disse ingerindo um pouco de saliva que havia si acumulado em sua própria boca.
– Ah... – Ela falou em tom baixo, quase suspirando.
Giuliana também levantou sua mão, dedilhando o cabelo de Damon, igualmente retirando alguma coisa.
– Tinha um gravetinho em seu cabelo... – Ela completou.
Damon apenas sorriu para Giuliana, a garota sibilou um suspiro, ele talvez não soubesse, mas aquele sorriso mexia com cada parte do corpo jovem e inocente dela.
– Por que você não é igual às outras? – Perguntou ele ainda sorrindo.
A pergunta assustou curiosamente a garota.
– Como assim “igual às outras”? Quais outras? – Indagou Giuliana inquieta, sentando-se.
– Ah! Não sei... – Damon sibilou erguendo-se e sentando-se também. – Igual a todas as outras...
– Como assim? – Giuliana continuou indagando.
– Igual a todas as outras garotas que conheço... Você é... Diferente! – Damon expeliu.
– D-i-f-e-r-e-n-t-e?! – Giuliana falou assustada, quase ofendida.
– É que... A maioria delas é interessante ao começo, mas em seguida, passam a ser previsivelmente entediantes... – Damon terminava sua linha de raciocínio.
– Isto é um elogio?!... – Giuliana interrompeu Damon, franzindo seu cenho.
Damon sorriu inocentemente
– Sim. É uma espécie de elogio... – Ele complementou.
– Então continue... – Giuliana enrijeceu-se e fez uma pose presunçosa quase cômica.
– Você... Sempre me surpreende! E... Sei que posso falar-te qualquer coisa... Simplesmente consegue me entender... E você é insana! – Damon continuava falando.
Com a última palavra Giuliana quase pulou.
– O que aconteceu com o “elogio”? Insana, eu? – Ela ofendeu-se.
– Mas é um elogio! Gosto do seu jeito anti-bom senso! – Damon ofendeu-se por ela ter se ofendido.
– Uma pessoa insana e sem bom senso não é sinônima de uma pessoa virtuosa! – Giuliana emburrou-se ainda ofendida e virou seu rosto em oposição a Damon.
– Claro que sim! – Damon falou e segurou o rosto dela, virando-o para si. – Se tivesses bom senso eu não teria “metade das aventuras da minha vida”...
Giuliana lutou, mas não conseguiu prender seu sorriso quando ele falou aquilo. Damon sorriu de volta.
– E você também é linda... Por dentro e por fora! – Ele falou ainda segurando o rosto dela.
A garota ficou vermelhíssima com as palavras dele.
– Aposto que um dia você vai se cansar de mim... – Giuliana retirou as mãos de Damon de seu rosto.
– NUNCA! Eu vou gostar de você para todo o sempre... Não importa o que aconteça, não importa quando, onde ou como. Nada, nem ninguém, vão conseguir estragar o que nós temos... Parceiros de crimes para todo o sempre, se lembra? – Disse Damon segurando novamente o rosto dela por entre seus dedos.
– Sim, eu me lembro. – Giuliana disse sorrindo novamente. – Eu também gosto muito de você, Damon, e a única pessoa que pode me afastar de você é você mesmo, não se esqueça disso nunca...
– Não irei! E você está fadada a me aturar até quando ficarmos velhinhos, caçaremos dragões com nossas bengalas, serão nossa espadas... – Damon imaginava a cena.
– Acho que nenhum dragão fugiria de nós assim... – Giuliana pensava em dois velhinhos corcundas caducando.
– Mas com certeza fugiria da sua cara quando ela ficar toda enrugada! – Imaginava Damon.
– O QUE? – Disse a garota. Giuliana pulou em Damon e começou a esbofeteá-lo. – SEU PATIFE!... SEU SAFARNADA!... SEU BILTRE DESAVERGONHADO!...
E ela continuava surrando ele, enquanto Damon ria e se divertia apanhando, até que ela começou a usar mais força, então ele prendeu as mãos dela.
– Calma! Eu também terei rugas! – Disse ele ainda rindo cinicamente.
– Eu não terei rugas! – Disse ela triunfante presa pelas mãos dele e acalmando-se. – Apenas sofrerei inevitavelmente o preço da minha experiência de vida!
– RUGAS! – Ele traduziu.
A garota se agitou, na tentativa falha de voltar a golpeá-lo.
Damon conseguia contê-la, mas ela ainda assim era ágil e corria o risco de conseguir se soltar, então ele a deitou no chão, e sobre ela, prendia suas mãos com o auxílio de seu tórax, finalmente imobilizando-a.
– Se acalmou? – Perguntou Damon provocando a fera de vestidos.
Giuliana esbravejou por mais alguns instantes, mas Damon estava em cima dela, e ela não conseguia mais se mexer.
– Está domada agora... – Disse ele em rosto a rosto com ela.
– Por um acaso está a me comparar a uma égua, para necessitar ser domada? – Questionou Giuliana irritada por estar contida e pelo comentário do primo.
– Não, uma égua lutaria menos... – Ele terminou provocativamente.
Giuliana bufou irritadíssima.
– Alguém já te contou que o rubro das suas bochechas quando você está com raiva é três tons mais escuros do que quando está envergonhada? – Damon pensou alto.
– Você repara no tom das minhas bochechas? – Perguntou a garota intimidada.
– E em outras coisas... – Sussurrou Damon com seu hálito fresco e quente próximo a face da menina.
Giuliana só o encarou, engolindo a seco mais uma vez. O azul-claro dos olhos de Damon estava frente a frente com o castanho escuro quase esverdeado dos olhos dela.
A garota se sentia dormente, ela só não sabia diferenciar se era pelo peso dele contra o dela ou por causa do formigamento esquisito que sentia encarando-o de uma distância quase mínima.
– Giuliana... – Damon sussurrou o nome dela, mas parecia quase um gemido.
– Sim... – A garota suspirou a resposta.
Damon soltou uma das mãos dela e em seguida, acariciou levemente a face suave de Giuliana. Ele a olhava retraído, mas parecia que ele ia fazer alguma coisa... Ele ia fazer! Ele ia avançar. Ele estava avançando! Ele estava quase... Quase... Mas...
– Giuliana!... Damon!... Vocês estão bem? – Berrou Stefan de cima do barranco assustando-os e fazendo-os se afastar.
– Estamos... – Respondeu Damon. Ele se levantou e ergueu sua mão para ajudá-la a fazer o mesmo.
Ele a ajudou a se levantar, mas quando ela se ergueu, as mãos não se separaram, elas tinham vontade própria, não pretendiam se soltar.
[...]
Damon balançou sua cabeça tentando afastar suas lembranças, como se esse movimento fosse realmente conseguir, mas tudo o que ele fez foi atrair mais memórias.
[...]
Há quase três meses atrás...
Juliana escutou alguma coisa golpear levemente o vidro de sua janela, o barulho foi irritante o suficiente para desperta-la de seu sono tranquilo. Ela resolveu ignorar e afundou sua cara novamente no travesseiro.
O barulho então se repetiu, ela levantou sua cabeça e olhou no relógio digital com números avermelhados “3:30”. Abaixou a cabeça novamente e tentou voltar a dormir.
Houve outra vez o mesmo barulho. Dessa vez ela se irritou e foi até a janela ver o que era.
Quando Juliana chegou à janela se surpreendeu com o que encontrou, viu lá fora Damon recostado em seu conversível azul clássico, iluminado pela luz de um poste, segurando algumas pedrinhas, ele mirava novamente o vidro, mas parou ao ver a namorada aparecer.
Ela abriu a janela sonolenta e falou numa altura que ele conseguisse escutar:
– O que você está fazendo aqui, seu maluco?
– Eu vim para te sequestrar por um dia! – Disse ele jogando as pedrinhas no chão e limpando as mãos.
– O que? Não! – Ela disse bocejando. – São três horas da manhã... O único lugar que eu vou é pra minha cama!
– Não me faça te obrigar a descer... – Ele disse calmamente.
– Ui, o que você vai fazer? – Perguntou ela, fingindo-se ameaçada.
– Simplesmente vou te arrastar para dentro desse carro... Te dou 15 minutos para se trocar. – Ele disse entrando no carro.
– Ai meu Deus! Ele pensa que manda agora... – Disse Juliana obedecendo e indo se trocar.
Não demorou muito e ela estava entrando no carro também. Bateu a porta do carro sonolentamente chateada.
– Não é porque você é um morceguinho, que eu também tenha que criar hábitos noturnos... – Ela disse dengosa se aninhando no banco do carro como uma criancinha bêbada de sono.
Damon riu arrancando com o carro.
– No final, garanto que você vai gostar... – Ele disse pousando o olhar nela que quase fechava os olhos.
O vampiro dirigiu por uma estrada por pouco mais que uma hora enquanto Juliana estava super apagada ao seu lado, ele estacionou no encostamento.
– Meu amor!... Acorda!... Lagartixinha?! – Essa última palavra provocou um riso descomposto na face de Damon.
– O que?... Hãm?- Juliana acordou assombrada. – Já chegamos? – Ela perguntou sentando-se corretamente no banco do carro.
– Ainda não... Mas você vai ter que colocar isso. – Damon falou estendendo uma faixa preta de tecido.
– Nossa, eu vou ter que colocar uma venda nos olhos... Quanto mistério! – Ela disse pegando o pedaço de tecido e amarrando em seu rosto. – Pronto!
Damon verificou se estava bem amarrado e se ela conseguiria enxergar alguma coisa. Para finalizar ele a beijou rapidamente.
– Vou precisar ser algemada também?! – Ela brincou.
– Talvez mais tarde... – Ele riu e arrancou novamente com o carro.
Damon dirigiu por mais uns quinze minutos e finalmente estacionou onde queria, era uma colina no meio do nada.
– Chegamos?- Perguntou Juliana.
– Dessa vez sim... Vou te ajudar a sair... – Ele saiu, abriu a porta do carro e começou a auxiliá-la enquanto caminhava.
– Estou pisando em pedras? – Perguntou ela com o tato dos pés calçados em uma sapatilha.
– Está! E agora você vai começar a pisar na grama... – Disse Damon empolgado, segurando-a pelos braços.
– Que suspense!... Quando posso tirar a venda? – Perguntou a garota curiosa.
Damon a posicionou especificamente num monte de terra mais alto e ficou atrás dela, envolvendo-a pela cintura.
– Agora pode! – Ele falou e ela rapidamente retirou o tecido do rosto.
Juliana olhou para frente e não entendeu nada. Percebeu que estava numa colina, talvez houvesse árvores ao seu redor, mas ela não conseguia enxergar nada, estava tudo muito, muito escuro. Ela fez um movimento virando-se confusa para Damon.
– Não estou entendendo nada... – A garota mal conseguia enxergar a própria face dele, que estava a centímetros da dele.
– Olha para frente que você já vai entender! – Ele disse e sorriu, pelo menos, Juliana achou que Damon tinha sorrido, mas ela não tinha, estava mesmo uma escuridão total.
Ela voltou para a posição inicial que ele a colocou, mas continuou confusa.
Tudo estava numa cor negra, o céu era de um tom preto uniforme, Juliana mal conseguia ver sombras, ficou alguns instantes olhando para frente, e foi então que algo começou a mudar.
O céu opulento em uma escuridão triste e irremediável começou a se tornar mais heterogêneo. Primeiramente se tornou azul-marinho, depois alguns feixes ficaram violeta, outros bem finos e raros foram ficando celestes, e a base, que tocava o horizonte foi se tornando de um forte alaranjado quase vermelho. As humildes nuvens, ainda sombriamente escurecidas estavam começando a mudar seu humor. Isso tudo acontecia em uma fração de segundos.
O céu agora estava parcialmente sombrio, mas a tristeza da noite estava sendo vencida pelo calor e esperança trazidos pelos primeiros raios de luz que iniciavam o seu banho diário de luminescência, deleitando os olhos da espectadora.
– Uau! – Juliana pensou ou disse, com certeza aquele era o nascer do sol mais lindo que ela já tinha visto em toda a sua vida. – É lindo, meu amor!... – Ela disse virando-se para Damon, mas voltando rapidamente para a posição que estava. Juliana não queria perder nenhum segundo daquele milagre perfeito da natureza que a fazia querer chorar de tão magnífico que era.
Damon a abraçou por trás, e depositou um beijo suave no cabelo dela.
– Por que você queria tanto me mostrar? – Ela perguntou olhando o céu que já estava completamente dominado pelo azul anil, mas ainda não tinha revelado o sol.
Ele a virou, deixando-a de costas para o cenário que queria tanto que ela visse, e fazendo com que seu rosto ficasse de frente com o dela.
– Porque eu queria que você visse pessoalmente o que aconteceu com a minha vida quando você entrou nela... – Damon respondeu olhando no fundo dos olhos dela.
Juliana ficou sem palavras.
– Damon... – Ela disse segurando as mãos dele. – Eu amo você...
– E eu te amo demais... – Ele disse avançando. -... Mais do que qualquer coisa que um dia eu vou chegar a amar!
A garota sorriu extasiada.
– Eu também! – Disse ela.
Damon finalmente a beijou de uma forma quente e intensa.

[...]
– Urgh! Damon! Damon! Damon! – O vampiro se repreendia. — O que você está fazendo consigo mesmo? – Ele perguntou inquieto deitado na cama ainda tentando afastar as lembranças.
Damon não tinha dúvidas de quem amava, e sabia que a teria de volta, ele só precisava esperar passar o período desse mês. Juliana voltaria e Giuliana ia novamente descansar em seu túmulo. Mas por quê? Por que a presença dela mexia tanto com ele? De uma coisa ele tinha plena certeza: NADA SERÁ COMO ANTES QUANDO GIULIANA SE FOR NOVAMENTE.
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