Pretty Little Liars

11 Capitulo 11 - VOCÊ NÃO Ê CAPAZ DE SUPORTAR A VERDADE


Na sexta-feira à tarde, Viviane estava sentada na arquibancada da quadra de futebol, assistindo à equipe masculina da Rosewood Day dar uma surra na Lansing Prep. Só que ela não estava conseguindo se concentrar de verdade. Suas unhas, normalmente bem-feitas, estavam roídas, a pele dos polegares estava sangrando de tanto que ela a mordia, e seus olhos estavam tão vermelhos devido à falta de horas de sono que ela parecia estar com conjuntivite. Estou de olho em você, M havia dito. É melhor você jazer o que eu digo. Mas talvez as coisas fossem mesmo como os políticos dizem a respeito de ataques terroristas: se você se esconder em casa, com medo deles, é sinal de que os terroristas venceram. Ela ficaria ali assistindo ao futebol, como havia feito durante todo o ano, e no ano anterior. Mas então Viviane olhou em volta. A ideia de que alguém realmente soubesse sobre A Coisa com Cristina, e de que estivesse disposto a colocar a culpa nela, a aterrorizava. E se M realmente contasse a seu pai? Não agora. Justo quando as coisas pareciam estar melhorando. Ela esticou o pescoço em direção ao pátio pela milionésima vez, procurando por Janu. Assistir aos jogos dos meninos era uma pequena tradição Viviane-Janu; elas misturavam uísque com o refrigerante da cantina e gritavam insultos para o time adversário. Mas Janu havia sumido. Desde a estranha briga que tiveram no shopping no dia anterior, Viviane e Janu não haviam se falado. Vivi viu pelo canto do olho um rabo de cavalo loiro e uma trança ruiva, e se encolheu. Claudia e Jéssica haviam chegado e subido a arquibancada até um local não muito distante de Viviane. Naquele dia, ambas as meninas carregavam bolsas Chanel combinando e vestiam casacos de tweed que eram obviamente novos em folha, como se fosse um dia frio de inverno, apesar de estar fazendo 23 graus. Quando elas olharam na direção de Vivi, ela rapidamente fingiu estar fascinada pelo jogo, ainda que não tivesse a menor ideia do placar.

— Viviane fica gorda com aquela roupa. — Ela ouviu Claudia sussurrar.

Viviane sentiu as bochechas esquentando. Ela olhou para o modo como seu top de algodão se esticava levemente sobre seu estômago. Ela, provavelmente, estava engordando por causa do exagero na comida durante aquela semana, por puro nervosismo. O problema é que estava realmente tentando resistir à tentação de vomitar, embora fosse exatamente o que queria fazer naquele momento. As equipes se dispersaram para o intervalo, e os garotos da Rosewood Day foram para o banco. Juca se jogou na grama e começou a massagear a panturrilha. Viviane viu naquilo uma chance e desceu os degraus metálicos da arquibancada. No dia anterior, depois que M lhe mandou a mensagem, ela não havia ligado para Juca para dizer a ele que não iria à Foxy. Ela tinha ficado muito chocada.

— Vivi — disse Juca ao vê-la de pé perto dele.

— Oi — Ele estava lindo naquele dia, como sempre, apesar da camiseta manchada de suor e do rosto mal barbeado.

— Como você está? — perguntou Juca, Viviane sentou-se perto dele, dobrando as pernas sob o corpo e arrumando a saia do uniforme, para evitar que todos os jogadores vissem sua calcinha.

— Eu estou... — Ela engoliu em seco, tentando não cair no choro. Perdendo a cabeça. Sendo torturada por M. — Então... é... olha só. — Ela apertou as mãos. — Eu não vou à Foxy.

— Sério? — Juca inclinou a cabeça. — Por que não? Você está bem? — perguntou Juca, Viviane passou as mãos no gramado recém-aparado que tinha um cheiro doce. Ela havia contou a Juca a mesma história que ira contar a Juca, que seu pai tinha morrido.

— É... complicado. Mas achei que deveria te contar — disse Viviane, Juca abriu o fecho de velcro em sua caneleira e em seguida apertou-o novamente. Por um breve segundo, Viviane teve uma visão de suas panturrilhas perfeitas e musculosas. Por algum motivo, ela achou que eram a parte mais sensual do corpo dele.

— Então talvez eu também não vá — disse ele.

— Sério? — perguntou ela, espantada. Juca deu de ombros.

— Todos os meus amigos vão acompanhados. Eu vou ser o peixe fora d'água.

— Oh. — Viviane moveu as pernas para que o técnico de futebol, que estava olhando fixamente para sua prancheta, pudesse passar. Ela tentou não estapear a si mesma. Será que Juca havia pensado nela como par para a festa? Juca protegeu os olhos do sol usando uma das mãos e olhou para ela.

—Você está bem? Você parece... triste — disse Juca, Viviane colocou as mãos sobre os joelhos à mostra. Ela precisava conversar com alguém sobre M. Só que não havia como fazer isso.

— Só estou cansada. — Ela suspirou. Juca tocou o pulso de Viviane, de leve.

— Ouça, talvez nós possamos sair pra jantar na semana que vem. Eu não sei... Nós, provavelmente, precisamos conversar — disse Juca, o coração de Viviane deu um pequeno pulo.

— Claro. Parece legal.

— Ótimo. — Juca sorriu e se levantou. —Te vejo em breve, então.

A banda começou a tocar o hino de Rosewood Day, anunciando que o intervalo havia terminado. Viviane subiu novamente até o topo da arquibancada, sentindo-se um pouco melhor. Quando voltou ao seu assento, Claudia e Jéssica estavam olhando para ela, com curiosidade.

— Vivi! — gritou Jéssica, quando Viviane olhou para ela — Ei!

— Oi. — Viviane se esforçou ao máximo para abrir um sorriso.

—Você estava conversando com o Juca? — Claudia passou a mão pelo rabo de cavalo loiro.

— Eu pensei que vocês dois tinham terminado mal — disse Jéssica.

— Não terminamos mal — corrigiu Viviane — Ainda somos amigos... ou sei lá o quê — Claudia deu uma risadinha.

— E foi você quem terminou com ele, certo? — perguntou Jéssica, o estômago de Viviane se contraiu. Será que alguém tinha dito alguma coisa?

—Foi — disse Viviane, Jéssica e Claudia trocaram um olhar.

— Então — perguntou Claudia — você vai à Foxy?

— Na verdade, não — disse Viviane, ríspida. —Vou me encontrar com o meu pai no Le Bec-Fin.

— Ooh. — Jéssica franziu a testa.

— Eu ouvi falar que o Le Bec-Fin é o lugar onde as pessoas vão quando não querem ser vistas — disse Claudia

— Não, não é — O calor subiu às faces de Viviane — É o melhor restaurante da Filadélfia — Ela começou a entrar em pânico. Será que o Le Bec-Fin havia mudado? Claudia deu de ombros com o rosto impassivo.

— Foi só o que eu ouvi.

— É — Jéssica arregalou os olhos castanhos — Todo mundo sabe disso — De repente, Viviane notou um pedaço de papel perto dela, na arquibancada. Estava dobrado na forma de um avião, e preso com uma pedra para que não fosse levado pelo vento — O que é isso? — perguntou Jéssica — Origami? — Viviane desdobrou o aviãozinho e o virou.

Oi de novo, Viviane! Quero que você leia para Claudia e Jéssica as frases abaixo, exatamente como estão escritas. Sem trapaças! E se você não fizer isso, todos vão saber a verdade sobre você-sabe-o-quê. E isso inclui papai. — M

Viviane olhou estupefata para o parágrafo logo abaixo, escrito em uma caligrafia arredondada e desconhecida.

— Não — sussurrou ela, o coração começando a martelar. O que M havia escrito iria arruinar sua reputação perfeita para sempre: Eu tentei seduzir Juca na festa do Felipe, mas ele terminou comigo. E, a propósito, eu provoco o vômito pelo menos três vezes por dia.

— Viviane, você recebeu uma carta de amooooor? — cantarolou Jéssica — É de um admirador secreto? — Viviane olhou para Jéssica e Claudia em suas saias plissadas e saltos plataforma. As duas a olhavam como lobos, como se pudessem sentir o cheiro da fraqueza dela.

—Vocês viram quem colocou isto aqui? — perguntou Viviane, mas elas olharam para ela de maneira inexpressiva, e deram de ombros. Então, ela olhou ao redor da arquibancada de futebol, para cada grupo de garotos, para cada pai ou mãe, até mesmo para o motorista do ônibus da Lansing no estacionamento, que estava apoiado contra o veículo, fumando um cigarro. Quem quer que estivesse fazendo aquilo, tinha de estar ali, certo? A pessoa tinha de saber que Claudia e Jéssica estavam sentadas perto dela. Ela olhou para a mensagem novamente. Não podia repetir aquilo para elas. De jeito nenhum. Mas então ela pensou na última vez em que seu pai perguntara sobre o acidente de Cristina. Ele havia se sentado na cama dela e passou um longo tempo olhando para o polvo de tricô que Aria lhe dera de presente.

— Viviane — disse ele, finalmente — Eu estou preocupado com você. Jure para mim que vocês não estavam brincando com fogos de artifício na noite em que aquela menina ficou cega.

— Eu... eu não toquei nos fogos — sussurrou Viviane. Não era mentira.

Lá embaixo, no campo de futebol, dois garotos da Lansing estavam se cumprimentando. Em algum lugar, debaixo da arquibancada, alguém acendeu um baseado; o cheiro doce, de mato, subiu até as narinas de Viviane. Ela amassou o pedaço de papel, levantou-se, e, com o estômago contraído, andou até Jéssica e Claudia. As duas olharam para ela, parecendo se divertir. A boca de Jéssica estava aberta. Seu hálito, Viviane percebeu, cheirava mal, como o de alguém que fazia a dieta do dr. Atkins.

— EutenteiseduziroJucanafestadoFelipemaseleterminoucomigo — balbuciou Viviane. Ela respirou fundo. Aquilo nem mesmo era verdade, mas que se dane. — Eeuprovocoovômitotrêsvezespordia.

As palavras saíram de forma misturada e incompreensível, e Viviane se virou bruscamente.

— O que ela disse? — Ela ouviu Claudia murmurar, mas, certamente, não iria se virar de novo e esclarecer as coisas.

Ela desceu a arquibancada depressa, desviando da mãe de alguém, que estava carregando uma bandeja frágil com copos de Coca-Cola e pipocas. Ela procurou por alguém, qualquer pessoa que pudesse estar olhando de volta. Mas nada. Ninguém estava rindo ou ochichando. Todos estavam apenas assistindo aos garotos da equipe de futebol da Rosewood Day avançando em direção ao gol da Lansing. Mas M tinha de estar ali, M tinha de estar observando.

Na sexta-feira à noite, Bia desligou o rádio de seu quarto. Durante a última hora, o DJ local havia falado sem parar sobre a Foxy. Ele fazia a Foxy parecer um lançamento de nave espacial ou uma posse presidencial, em vez de apenas uma festa beneficente idiota. Ela ouviu o som dos passos dos pais caminhando pela cozinha. Não havia a cacofonia normal NPR no rádio, CNN ou PBS na TV da cozinha, nem um CD de música clássica ou jazz experimental no som. Tudo o que Bia podia ouvir eram panelas e potes batendo. Então, um barulho de algo caindo.

— Desculpe — disse Leandra, seca.

— Tudo bem — retrucou Geraldo.

Bia voltou-se para o laptop, sentindo-se mais confusa a cada segundo. Desde que a sua perseguição a Meredith havia sido interrompida, ela estava fazendo pesquisas on-line. Quando uma pessoa começava a perseguir outra via internet, era difícil parar. Bia descobriu o sobrenome de Meredith; Stevens , em um cronograma das aulas da Strawberry Ridge Ioga que ela encontrou online, e procurou seu número de telefone no Google. Ela pensou que talvez pudesse ligar e dizer a ela, de forma amável, para ficar longe de Geraldo. Mas, então, encontrara o endereço de Meredith e quis saber o quão longe ela morava, e traçara o caminho até lá no MapQuest. Daí pra frente, as coisas ficaram loucas. Ela vasculhou um trabalho, em
hipertexto, que Meredith escrevera no primeiro ano da faculdade, sobre William Carlos Williams. Ela invadiu o portal de alunos da Hollis, para ver as notas de Meredith. Descobriu que Meredith tinha perfis no Friendster, no Facebook e no MySpace. Seus filmes preferidos eram Donnie Darko; Paris, Texas; e A Princesa Prometida, e se interessava por coisas estranhas, como globos de neve, tai chi e ímãs. Em um universo paralelo, Bia e Meredith poderiam ter sido amigas. Isso tornava ainda mais difícil fazer o que M mandou, na última mensagem de texto que lhe enviou faça desaparecer. Parecia que a ameaça de M estava fazendo um buraco em seu smartphone, e sempre que ela pensava que viu não apenas Meredith, mas também Milena, no estúdio de ioga naquela manhã, ela se sentia mal. O que Milena estava fazendo lá? Será que ela sabia de alguma coisa? No sétimo ano, Bia havia contado a Mari sobre ter visto Rubens na oficina de teatro dela, enquanto estava relaxando na piscina da casa de Milena com ela e Marian.

— Ele não sabe de nada, Bia — respondera Marian, calmamente, aplicando mais protetor solar. — Relaxe.

— Mas como você pode ter certeza? — Bia havia protestado. — E quanto àquela pessoa que eu vi do lado de fora da casa da árvore naquela noite? Talvez ela tenha contado a Rubens! Talvez ela fosse Rubens — Milena franziu a testa e olhou para Marian.

— Marian, talvez você devesse...

Marian limpou a garganta, alto.

— Milena — disse ela, em tom de alerta. Bia olhava de uma para a outra, confusa. Então, ela deixara escapar a pergunta que queria fazer havia muito tempo:

— Sobre o que vocês estavam cochichando na noite do acidente? Quando eu acordei e vocês estavam no banheiro?

Marian inclinou a cabeça.

— Nós não estávamos cochichando.

— Mari, nós estávamos cochichando — sibilou Milena.

Marian dirigiu outro olhar ríspido para Milena e se virou novamente para Bia.

— Olhe, nós não estávamos falando sobre Rubens. Além disso — ela deu um sorrisinho para Bia — você não tem coisas mais importantes para se preocupar neste momento?

Bia se irritou. Alguns dias antes, Bia e Marian tinham flagrado o pai dela com Meredith. Milena puxou o braço de Marian.

— Mari, eu realmente acho que você deveria contar...

Marian levantou a mão.

— Mili, eu juro por Deus.

—Você jura que o quê por Deus? — gritou Milena.

—Você acha que isso é fácil?

Depois que Bia viu Milena no estúdio de ioga naquela manhã, ela pensara em seguir-la na escola e falar com ela. Mili e Marian haviam escondido alguma coisa, e talvez isso estivesse relacionado com M. Mas... ela tinha medo. Ela pensava que conhecia suas velhas amigas como a palma de sua mão. Mas, naquele momento, ela soube que todas tinham segredos que não queriam compartilhar...

O celular de Bia tocou, arrancando-a das lembranças. Assustada, ela o derrubou em cima de uma pilha de camisetas sujas que havia separado para lavar. Então o apanhou.

— Oi — disse uma voz masculina, do outro lado da linha. —É o Juca.

— Ah! — exclamou Bia. — O que é que está rolando?

— Nada de mais. Acabei de voltar de um jogo de futebol. O que você vai fazer hoje à noite?

Bia se encheu de alegria.

— Hum... nada, pra falar a verdade.

— Quer sair?

Ela ouviu outro barulho no andar de baixo. Então, a voz do pai ;

— Estou saindo. — A porta da frente bateu com força. Ele nem sequer ia jantar com a família. De novo.

Ela voltou ao telefone.

— Que tal agora?

Juca estacionou seu carro em um local deserto e levou Bia para um aterro. À esquerda deles, havia uma cerca de arame farpado e, à direita, uma ladeira. Acima, estavam os trilhos elevados do trem e, abaixo, podiam ver Rosewood inteira.

— Meu irmão e eu descobrimos este lugar há alguns anos — explicou Juca.
Ele estendeu o suéter de cashmere na grama e fez um gesto para que Bia se sentasse. Então, tirou uma garrafa térmica da mochila e ofereceu a ela — Quer um pouco? — Bia podia sentir o cheiro do rum através do pequeno buraco na tampa. Ela deu um gole grande, e, então, olhou de lado para ele. O rosto de Juca era
extremamente bem esculpido e suas roupas lhe caíam muito bem, mas ele não tinha aquela atitude que parecia alardear sou lindo e sei disso que os outros alunos típicos de Rosewood tinham.

—Você vem muito aqui? — perguntou ela.

Juca deu de ombros e sentou-se ao lado dela.

— Não muito. Às vezes.

Bia supos que Juca e sua turma, típica de Rosewood, dirigiam por aí festejando a noite inteira, ou roubavam cerveja dos pais, na casa vazia de algum deles enquanto jogavam Grand Theft Auto no PlayStation. E para terminar a noite davam um mergulho na banheira de hidromassagem, é claro. Quase todo mundo em Rosewood tinha uma banheira de hidromassagem no quintal. As luzes da cidade brilhavam lá embaixo. Bia podia ver a torre da Hollis, que resplandecia num tom de marfim durante a noite.

— Isto aqui é incrível. — Ela suspirou. — Não posso acreditar que nunca vim neste lugar.

— Bem, minha antiga casa não era muito longe daqui. — Juca sorriu. — Meu irmão e eu pedalávamos por toda esta mata em nossas bicicletas imundas. Nós também costumávamos vir aqui para brincar de Bruxa de Blair.

— Bruxa de Blair? — repetiu Bia.

Ele assentiu.

— Depois que o filme foi lançado, nós ficamos obcecados em fazer nossos próprios filmes de terror.

— Eu fiz isso também! — gritou Bia, tão entusiasmada que pôs a mão no braço de Juca. Ela a puxou de volta, depressa. — Só que eu fiz os meus no quintal.

—Você ainda tem os vídeos? — perguntou Juca.

—Tenho. E você?

— Hum-hum. — Juca fez uma pausa. — Talvez você pudesse vir assistir, uma hora dessas.

— Eu gostaria muito. — Ela sorriu. Juca estava começando a lembrá-la do croquemonsieur que ela pediu uma vez, em Nice. À primeira vista, o prato parecera um simples queijo quente, nada de especial. Mas quando ela dera a primeira mordida, o queijo era Brie e havia cogumelos Portobello picados dentro dele. Havia muito mais lá no fundo do que ela havia imaginado. Juca se apoiou nos cotovelos.

— Uma vez, eu e o meu irmão viemos aqui e flagramos um casal fazendo sexo.

— Sério? —Bia riu.

Juca pegou a garrafa das mãos dela.

— Foi. E eles estavam tão concentrados que não nos viram, no começo. Eu comecei a me afastar bem devagar, mas tropecei em umas pedras. Eles ficaram assustadíssimos.

— Tenho certeza de que ficaram. — Ela estremeceu. — Meu Deus, isso deve ser horrível.

Juca a cutucou no braço.

— O quê? Você nunca fez em um lugar público?

Bia desviou o olhar.

— Não — Eles ficaram em silêncio por alguns momentos. Bia não tinha certeza de como se sentia. Meio que desconfortável. Parecia que algo estava prestes a acontecer — Então, hum, você se lembra daquele segredo que você me contou, no seu carro? — perguntou ela. — Sobre não querer ser virgem?

— Lembro.

— Por que você... por que você acha que se sente assim?

Juca apoiou-se novamente nos cotovelos.

— Eu comecei a ir ao Clube da Virgindade porque todo mundo parecia louco pra fazer sexo, e eu queria saber por que as pessoas reunidas ali tinham decidido o contrário.

—E?

— Bom, eu acho que eles estão é com medo. Mas eu também acho que querem encontrar a pessoa certa. Tipo, alguém com quem possam ser completamente honestos, com quem possam ser eles mesmos — Ele fez uma pausa. Bia apertou os joelhos contra o peito. Ela queria só um pouquinho que Juca dissesse: E Bia, eu acho que você é a pessoa certa. Ela suspirou.

— Eu fiz, uma vez — Juca pôs a garrafa na grama e olhou para ela.— Na Islândia, um ano depois que eu me mudei para lá — admitiu ela. Parecia estranho dizer aquilo em voz alta. — Foi com um garoto de quem eu gostava. Oskar. Ele queria, e eu também, mas... não sei. —Bia afastou o cabelo do rosto. — Eu não o amava nem nada. — Ela fez uma pausa. — Você é a primeira pessoa para quem eu conto isso — Eles ficaram quietos por algum tempo. Bia sentia o coração martelando no peito.

Alguém, lá embaixo, estava fazendo churrasco; dava para sentir o cheiro do carvão e da carne.

Ela ouviu Juca engolir em seco e mover-se, chegando um pouco mais perto. Ela também se aproximou, sentindo-se nervosa.

—Você quer ir à Foxy comigo? — deixou escapar Juca.

Bia inclinou a cabeça.

— F-Foxy?

— A festa beneficente... em que as pessoas usam roupas bonitas? E dançam?

Ela piscou.

— Eu sei o que é a Foxy.

— A não ser que você queria ir com outra pessoa. E nós podemos ir só como amigos, é claro. — Bia sentiu uma pequena pontada de desapontamento quando ele usou a palavra amigos, um segundo antes, achara que eles iam se beijar.

—Você ainda não convidou ninguém?

— Não. É por isso que estou convidando você.

Bia olhou de lado para Juca. Os olhos dela não paravam de gravitar para a pequena covinha no queixo dele. Marian costumava chamar aquilo de "queixo de bunda", mas era realmente bonitinho.

— Hum, bem, beleza então.

— Legal. — Juca sorriu. Bia sorriu de volta. Só que... alguma coisa a fazia hesitar. Você tem até a meia-noite de sábado, Cinderela. Senão... Sábado era o dia seguinte.

Juca percebeu a expressão dela.

— O que foi?

Bia engoliu em seco. Sua boca toda tinha gosto de rum.

— Ontem eu encontrei a mulher com quem o meu pai está tendo um caso. Foi por acaso. — Ela respirou fundo. — Ou não. Eu queria perguntar a ela o que estava acontecendo, mas não consegui. Eu só tenho medo de que a minha mãe... os pegue juntos. Não quero que minha família acabe — Juca a abraçou por um instante.

—Você não pode tentar falar com ela de novo?

— Não sei. — Ela olhou para as próprias mãos. Estavam tremendo. — Quero dizer, eu tenho um discurso pronto para ela na minha cabeça. Eu só quero que ela conheça o meu lado da história. — Bia arqueou as costas e olhou para o céu, como se o universo pudesse dar uma resposta. — Mas talvez seja uma ideia estúpida.

— Não é. Eu vou com você. Para dar apoio moral.

Bia olhou para ele.

—Você... você faria isso?

Juca olhou para as árvores.

— Agora mesmo, se você quiser.

Bia sacudiu a cabeça com força.

—Agora eu não posso. Eu deixei, hum, o meu script em casa.

Juca deu de ombros.

— Você se lembra do que quer dizer?

— Acho que sim. — Bia quase sussurrou. Ela olhou para as árvores. — Na verdade, não é longe... Ela mora bem ali, depois daquela colina. Em Old Hollis. — Ela sabia disso por causa das pesquisas sobre Meredith no Google Earth.

— Vamos lá. — Juca estendeu uma das mãos. Antes que ela conseguisse pensar muito sobre o assunto, eles estavam descendo a colina gramada, passando pelo carro de Juca.
Eles atravessaram a rua até Old Hollis, o bairro estudantil cheio de casas vitorianas
caindo aos pedaços e meio assustadoras. Velhos Volkswagens, Volvos e Saabs estavam estacionados nas ruas. Para uma noite de sexta-feira, o bairro estava absolutamente vazio. Talvez houvesse algum grande evento em algum lugar de Hollis. Bia imaginou se Meredith estaria em casa; ela meio que esperava que não.
Na metade do segundo quarteirão, Bia parou na frente de uma casa cor-de-rosa, que tinha quatro pares de tênis de corrida arejando na varanda, e um desenho a giz na calçada do que parecia ser um pênis. Era bem adequado que Meredith morasse ali.

— Eu acho que é aqui.

—Você quer que eu espere aqui? — murmurou Juca.

Bia se enrolou no suéter. De repente, estava congelando.

— Acho que sim. — Então, ela agarrou o braço de Juca. — Não posso fazer isso.

— É claro que pode. — Juca colocou as mãos nos ombros dela — Vou estar bem aqui, certo? Nada vai acontecer a você, eu prometo.

Bia sentiu uma onda de gratidão. Ele era tão... doce. Ela se inclinou para a frente e o beijou na boca, gentilmente; quando se afastou, ele parecia espantado.

— Obrigada — disse ela.

Ela subiu devagar os degraus rachados da frente da casa de Meredith, o rum correndo pelas suas veias. Ela havia bebido três quartos da garrafa de Juca, e ele tomara apenas alguns goles, por puro cavalheirismo. Quando tocou a campainha, ela se apoiou contra uma das colunas do pórtico para manter o equilíbrio. Aquela não era uma noite ideal para estar usando as sandálias italianas de salto alto.
Meredith abriu a porta. Ela estava vestindo shorts de flanela e uma camiseta branca com a imagem de uma banana, era a capa de algum disco antigo, mas Bia não conseguia se lembrar de qual. E ela parecia maior naquela noite. Menos esbelta e mais musculosa, como as garotas num programa de luta livre da televisão. Bia se sentiu fraca. Os olhos de Meredith brilharam ao reconhecê-la.

— Marian, certo?

— Na verdade, é Bia, Beatriz Chaddad. Eu sou a filha de Geraldo Chaddad. Eu sei de tudo o que está acontecendo. E quero que isso pare — Os olhos de Meredith se arregalaram. Ela respirou fundo e exalou lentamente pelo nariz, Bia quase pensou que uma fumaça de dragão estava prestes a sair.

—Você quer, é?

— É, isso mesmo. — Bia estremeceu, percebendo que estava falando enrolado "Eissmesm" E seu coração estava batendo tão forte que ela não ficaria surpresa se sua pele estivesse pulsando.

Meredith ergueu uma das sobrancelhas.

— Isso não é da sua conta. — Ela colocou a cabeça para fora da porta e olhou ao redor, desconfiada. — Como você descobriu onde eu moro?

— Olhe, você está destruindo tudo — protestou Bia. — E eu só quero que isso pare. Ok? Quero dizer... isso está machucando todo mundo. Ele é casado... e tem uma família — Bia encolheu-se ao ouvir o tom patético da própria voz e seu discurso tão perfeitamente ensaiado que escapara de seu controle.

Meredith cruzou os braços sobre o peito

— Eu sei disso tudo — respondeu ela, começando a fechar a porta. — E sinto muito. Sinto mesmo. Mas estamos apaixonados.

Na noite de sábado, Viviane pegou o elevador para a sua suíte no Four Seasons Filadélfia, sentindo-se leve, solta e energizada. Ela tinha acabado de fazer um tratamento corporal com limão, uma massagem de uma hora e vinte minutos, e um bronzeamento Kissed by the Sun em seguida. Toda aquela paparicação a fez se sentir um pouco menos estressada. Aquilo e o fato de estar longe de Rosewood... e de M. Ela esperava estar longe de M.

Viviane abriu a porta da suíte de dois quartos e entrou. Seu pai estava sentado no sofá da sala.

— Oi — cumprimentou-a ele. — Como foi tudo?

— Maravilhoso. — Viviane dirigiu-lhe um olhar radiante, tomada de felicidade e tristeza ao mesmo tempo. Ela queria dizer o quanto estava grata por estarem juntos novamente, e, ainda assim, sentia que seu futuro com ele estava ameaçado, por M. Ela tinha esperanças de que ter dito aquilo tudo a Jéssica e Claudia no dia anterior iria mantê-la a salvo, mas e se não fosse assim? Talvez ela devesse simplesmente contar a verdade sobre Cristina, antes que M chegasse a ele primeiro. Ela apertou os lábios e olhou para o tapete, tímida.

— Bom, eu preciso tomar um banho bem rápido, se quisermos chegar a tempo no Le Bec-Fin.

— Só um segundo. — O pai se levantou. — Eu tenho outra surpresa pra você — Por instinto, Viviane olhou para as mãos do pai, esperando que ele estivesse segurando um presente para ela. Talvez fosse algo para compensá-la por todos aqueles cartões de aniversário estúpidos. Mas a única coisa na mão dele era o celular.

Então, houve uma batida na porta do quarto da suíte conjugada.

— Cicero?

Ela está aqui? Viviane congelou, sentindo o sangue abandonar sua cabeça. Ela conhecia aquela voz.

— Kate e Isabel estão aqui — sussurrou o pai. — Elas vão ao Le Bec-Fin conosco, e depois todos nós vamos assistir a Mamma Mia! Você não disse na quinta-feira que queria ver essa peça?

— Espere! — Viviane o interceptou antes que ele chegasse à porta. — Você as convidou?

— Sim. — O pai olhou para ela como se estivesse doida. —Quem mais teria sido? — M? Viviane pensou. Parecia bem o estilo de M.

— Mas eu pensei que seríamos só você e eu.

— Eu nunca disse isso.

Viviane franziu a testa. Disse sim. Não disse?

—Cicero? — chamou a voz de Kate. Viviane estava aliviada porque Kate o chamava de
Cicero, e não de papai, mas apertou o pulso do pai com mais força. O pai hesitou à porta, os olhos se movendo para um lado e para o outro, de forma estranha.

— Mas, quero dizer, Viviane, elas já estão aqui. Eu achei que seria legal.

— Por que... — Por que você pensaria isso? Viviane queria perguntar — Kate faz eu me sentir uma droga, e você me ignora quando ela está aqui. É por isso que eu não falei com você durante todos esses anos! — havia tanta confusão e desapontamento no rosto do pai. Ele provavelmente estava planejando aquilo havia dias. Viviane ficou olhando para as franjas do tapete oriental. Sua garganta estava presa, como se ela tivesse acabado de engolir algo enorme. — Eu acho que você deve deixá-las entrar, então — resmungou Viviane.

Quando o pai abriu a porta, Isabel gritou de alegria, como se tivessem estado separados por galáxias inteiras, não apenas estados. Ela ainda estava excessivamente magra e muito bronzeada, e os olhos de Viviane voaram imediatamente para a pedra em sua mão esquerda. Era um anel de diamante Legacy, da Tiffany, de três quilates. Viviane conhecia o catálogo da loja de
trás para a frente..

E Kate. Ela estava mais bonita do que nunca. Seu vestido de faixas diagonais sem dúvida era manequim 36, e os cabelos castanhos e lisos estavam mais compridos do que há alguns anos. Ela colocou a bolsa Louis Vuitton graciosamente na pequena mesa de jantar do quarto de hotel. Viviane estava fervendo de raiva. Kate, provavelmente, jamais tropeçava em seus novos sapatos Jimmy Choo, nem escorregava no chão de madeira depois que a faxineira o encerava. O rosto de Kate tinha uma expressão retesada, como se ela estivesse realmente irritada por estar ali. Quando percebeu a presença de Viviane, contudo, ficou mais relaxada. Ela observou Viviane de cima para baixo da jaqueta estruturada Chloé até as sandálias de tiras e, então, sorriu.

— Oi, Vivi — disse Kate, obviamente surpresa. — Uau. — Ela pôs a mão no ombro de Viviane, mas por sorte não a abraçou. Se ela tivesse feito isso, teria percebido o quanto Viviane estava tremendo.

Restaurante;

—Tudo parece tão bom — murmurou Kate, olhando o cardápio.

— Sem dúvida — ecoou o Cicero. Ele chamou o garçom e pediu uma garrafa de Pinot Grigio. Então, olhou com carinho para Kate, Isabel e Viviane. — Estou feliz de estarmos todos aqui. Juntos.

— É realmente maravilhoso ver você de novo, Viviane — disse Isabel.

— É — concordou Kate. — Sem dúvida.

Viviane olhou para seus talheres de prata sofisticados. Era surreal vê-las de novo. E não surreal do tipo legal, como um vestido-caleidoscópio Zac Posen, mas surreal do tipo pesadelo, como quando aquele cara do livro que Viviane tinha lido para a aula de literatura, no ano anterior, acordava e descobria que havia se transformado em uma barata.

— Querida, o que você vai pedir? — perguntou Isabel a ela, com a mão sobre a de seu pai. Ela ainda não podia acreditar que seu pai esta apaixonado por Isabel. Ela era tão... comum. E muito bronzeada. O que era uma coisa legal se você fosse modelo, tivesse catorze anos ou morasse no Brasil, e não uma mulher de meia-idade de Maryland.

— Hmmmm — fez Cicero. — O que é pintade? É peixe?

Viviane virou as páginas do cardápio. Ela não tinha ideia do que ia comer. Tudo era frito ou feito com molho branco.

— Kate, você pode traduzir? — Isabel se inclinou na direção de Viviane. — Kate é fluente em francês. — É claro que é, pensou Viviane — Nós passamos o último verão em Paris — explicou Isabel, olhando para Viviane.

Viviane se escondeu atrás da carta de vinhos. Eles tinham ido para Paris? Junto com o pai dela, também?

— Vivi, você estuda línguas? — perguntou Isabel.

— Hum. — Viviane deu de ombros. — Fiz um ano de espanhol.

Isabel fez biquinho.

— Qual é a sua matéria preferida na escola?

— Inglês?

— A minha também! — exclamou Kate.

— Kate ganhou o prêmio máximo em Inglês da escola dela no ano passado — gabou-se Isabel, parecendo muito orgulhosa.

— Mãe — reclamou Kate. Ela olhou para Viviane e murmurou: Desculpe.
Viviane ainda não conseguia acreditar em como a expressão irritada de Kate havia se dissipado quando ela a tinha visto. Viviane havia feito aquela cara antes. Como daquela vez no nono ano quando seu professor de inglês a indicara como voluntária para mostrar a escola para Carlos, o estudante que veio fazer intercâmbio chileno. Viviane saiu da sala do professor ressentida demais para cumprimentar o garoto, certa de que Carlos seria um idiota e causaria um estrago em sua popularidade. Quando ela chegou à recepção e viu um garoto alto, de cabelos ondulados e olhos verdes, que parecia ter jogado voleibol desde o berço, ela se endireitou e
checou discretamente o próprio hálito. Kate provavelmente pensava que as duas
compartilhavam algum tipo de laço de mulherzinha.

—Você tem alguma atividade extracurricular? — perguntou Isabel. — Pratica esportes?

Viviane deu de ombros.

— Na verdade não. — Ela havia se esquecido de que Isabel era uma daquelas mães: ela só falava de Kate, de suas premiações escolares, das aulas de línguas, das atividades extracurriculares, e daí por diante. Era outra coisa com que Viviane não podia competir.

— Não seja tão modesta. — O pai cutucou o ombro de Viviane. —Você tem várias atividades extracurriculares — Viviane olhou para o pai, espantada. Como o quê? Roubar? — A clínica para pessoas que sofreram queimaduras? — citou ele. — E sua mãe me contou que você se juntou a um grupo de apoio.

O queixo de Viviane caiu. Em um momento de fraqueza, ela contou à mãe sobre o Clube da Virgindade, como que dizendo: Está vendo? Eu tenho valores. Ela não podia acreditar que a mãe tinha dito ao pai.

— Eu... — gaguejou ela. — Não é nada importante.

— É claro que é importante. — O Cicero apontou o garfo para ela.

— Pai — sibilou Viviane.

As outras olharam para ela, na expectativa. Os olhos já grandes de Isabel se arregalaram ainda mais. Kate tinha um traço quase imperceptível de sorriso no rosto, mas seus olhos expressavam simpatia. Viviane olhou para a cesta de pão. Dane-se, pensou ela, e enfiou um brioche inteiro na boca.

— É um clube de abstinência, tá legal? — disparou ela, com a boca cheia de massa de pão e sementes de papoula, e então se levantou. — Muito obrigada, papai.

— Viviane! — O pai empurrou a cadeira para trás e fez menção de se levantar, mas Viviane saiu andando. Por que ela tinha acreditado naquela historinha de eu adoraria passar um fim de semana com você? Era exatamente como da última vez, quando ele a chamara de porquinha. E pensar em tudo o que ela havia arriscado para estar ali, dizendo àquelas putinhas que vomitava três vezes por dia! Aquilo nem era mais verdade! Ela empurrou a porta do banheiro, entrou em uma das cabines e se ajoelhou na frente do vaso sanitário. O estômago dela estava embrulhado, e ela sentiu vontade de resolver logo o problema. Acalme-se, disse a si mesma, olhando meio tonta para o próprio reflexo na água do vaso. Você consegue. Viviane se levantou novamente, o maxilar tremendo, lágrimas transbordando dos olhos. Se ela pudesse ficar naquele banheiro pelo resto da noite... eles que tivessem o fim de semana especial de Viviane sem ela. O celular tocou. Viviane tirou-o da bolsa para silenciá-lo. Então, seu estômago se contraiu. Ela tinha recebido um e-mail de um endereço familiar.

Já que você seguiu minhas ordens tão direitinho ontem, considere isto um presente: vá para a Foxy, agora. Juca está lá com outra garota. — M

Ela ficou tão assustada que quase derrubou o telefone no chão de mármore do banheiro. Então ligou para Janu. Elas ainda não estavam se falando, Viviane nem tinha contado a Janu que não iria à Foxy, e Janu não atendeu. Viviane desligou, tão frustrada que atirou o telefone contra a parede. Com quem Juca poderia estar? Claudia? Alguma putinha do Clube da Virgindade?

Ela saiu da cabine fazendo barulho, assustando uma senhora que estava lavando as mãos. Quando Viviane estava quase chegando à porta, parou abruptamente. Kate estava sentada na chaise-longue, passando um batom cor-de-rosa pálido. Suas pernas longas e esbeltas estavam cruzadas, e ela parecia ser a pessoa mais chique do mundo.

—Tubo bem? — Kate levantou os olhos, de um azul profundo, para Viviane. —Vim ver como você estava.

Viviane se enrijeceu.

— Sim, estou bem.

Kate torceu a boca.

— Sem querer ofender o seu pai, mas, às vezes, ele é capaz de dizer as coisas mais inadequadas. Teve uma vez em que eu tive um encontro com um cara. Nós estávamos saindo de casa, e o seu pai disse:"Kate, eu vi que você escreveu OB na lista de compras. O que é isso? Em que prateleira eu devo procurar?" Eu quase morri de vergonha.

— Deus. — Viviane sentiu uma pontada de simpatia. Aquilo soava bem como algo que seu pai faria.

— Ei, não importa — disse Kate, gentilmente. — Ele não teve má intenção.

Viviane sacudiu a cabeça.

— Não é isso. — Ela olhou para Kate. Mas, que diabos! Talvez elas tivessem algum laço de mulherzinha. — É... é o meu ex. Eu recebi uma mensagem dizendo que ele está numa festa beneficente chamada Foxy, com outra garota.

Kate franziu a testa.

— Quando vocês terminaram?

— Há oito dias. — Viviane sentou-se na chaise. — Eu estou meio que tentada a voltar lá agora e acabar com ele.

— E por que não vai?

Viviane se recostou no sofá.

— Eu queria, mas... — Ela fez um gesto em direção ao restaurante.

— Ouça. — Kate se levantou e fez biquinho em frente ao espelho. — Por que você não põe a culpa nesse tal grupo de apoio que você está frequentando? Diga que alguém de lá ligou pra você e disse que estava se sentindo muito "fraco", e você é amiga dele, e precisa ir lá dar uma força.

Viviane levantou uma das sobrancelhas.

— Você parece saber muito sobre grupos de apoio.

Kate deu de ombros.

— Eu tenho alguns amigos que passaram pela reabilitação.

Tuuuuuuuuudo beeeem.

— Eu não acho que seja uma boa ideia.

— Eu te dou cobertura, se você quiser — ofereceu Kate.

Viviane olhou para ela, pelo espelho.

— Sério?

Kate olhou de volta, significativamente.

—Vamos dizer que eu te devo uma.

Viviane se encolheu. Algo lhe dizia que Kate estava falando sobre aquela vez, em Anápolis. Aquilo a fazia sentir-se desconfortável que Kate lembrasse, e que reconhecesse que havia sido cruel. Ao mesmo tempo, lhe dava uma certa satisfação.

— Além disso — continuou Kate — seu pai disse que nós nos veríamos muito mais. É bom começar do jeito certo.

Viviane piscou.

— Ele disse... ele disse que quer me ver mais?

— Bom, você é filha dele.

Viviane brincou com o pingente em forma de coração em sua pulseira Tiffany. Talvez ela tivesse exagerado na mesa do jantar.

—Vai levar quanto tempo? Duas horas, no máximo? — perguntou Kate.

— Provavelmente menos que isso.

Tudo o que ela queria era pegar o trem para Rosewood e xingar aquela vaca.

Ela abriu a bolsa para ver se tinha dinheiro para a passagem.
Kate ficou em pé ao lado dela e apontou para algo no fundo da bolsa.

— O que é isso?

— Isso? — Assim que Viviane tirou o objeto da bolsa, quis enfiá-lo lá de novo. Era a caixa de Percocet que havia roubado da clínica para pessoas com queimaduras na terça-feira. Ela havia esquecido.

— Posso pegar um? — sussurrou Kate. Viviane olhou para ela de soslaio.

— Sério?

Kate deu a Viviane um olhar malicioso.

— Eu preciso de alguma coisa para me ajudar a aguentar esse musical para o qual seu pai vai nos arrastar.

Viviane deu a ela uma cartela. Kate guardou as pílulas, virou-se nos saltos e saiu com passos confiantes do banheiro. Viviane a seguiu, boquiaberta.

Aquela fora a coisa mais surreal da noite. Talvez, se ela tivesse que ver Kate
novamente, não fosse um destino pior que a morte. Poderia até ser... divertido.

A Foxy era realizada em Kingman Hall, uma velha mansão campestre de estilo inglês, construída por um homem que inventou uma máquina nova de tirar leite, no início do século XX, Bia encostou-se no balcão do bar da Foxy e pediu uma xícara de café puro. A tenda estava tão lotada que a costura de seu vestido de bolinhas já estava ensopada de suor. E ela só havia chegado há vinte minutos.

— Oi. — O irmão dela se aproximou. Ele usava o mesmo terno cinza que vestiu no funeral de Marian, e sapatos pretos engraxados que pertenciam a Geraldo.

— Oi — guinchou Bia, surpresa — Eu... eu não sabia que você vinha — Quando ela saiu do banho para se arrumar, a casa estava vazia. Confusa, por um momento ela pensara que sua família a havia abandonado.

— É, eu vim com... — Thiago se virou e apontou para uma moça magra e pálida, que Bia reconheceu da festa de Felipe, na semana anterior. — Bonita, não é?

— É — Bia virou o café em três goles e notou que suas mãos estavam tremendo. Aquela era a quarta xícara que ela tomava em uma hora.

— Então, cadê o Juca? — perguntou Thiago — Foi com ele que você veio, não foi? Todo mundo está comentando.

— Está? — perguntou Bia, com sinceridade.

— Está, vocês são o novo casal do momento — disse Thiago, Bia não sabia se ria ou chorava. Ela podia imaginar algumas das garotas da Rosewood Day fofocando sobre ela e Juca.

— Eu não sei onde ele está.

— Por quê? a casalzinho do momento já se separou?

— Não... — A verdade era que Bia estava meio que se escondendo de Juca. Na noite anterior, depois que Meredith dissera a Bia que ela e Geraldo estavam apaixonados, ela havia corrido de volta para Juca e se desmanchado em lágrimas. Nunca, em um milhão de anos, ela havia esperado que Meredith dissesse aquilo. Agora que Bia sabia a verdade, se sentia impotente. Sua família estava condenada. Por dez minutos, ela uivara no ombro de Juca: O que é que eu vou fazeeeeeer? Juca a acalmou o suficiente para levá-la para casa, e até mesmo a acompanhou ao seu quarto, colocando-a na cama e deixando o bichinho de pelúcia favorito dela, Pigtunia, no travesseiro a seu lado. Logo que Juca saiu, Bia jogou as cobertas para longe e andou pela casa. Ela olhou para o quarto principal. A mãe estava lá, dormindo tranquilamente... sozinha. Mas Bia não podia acordá-la. Quando Bia despertou novamente, algumas horas depois, foi ao quarto principal de novo, preparando-se para simplesmente jazer o que devia ser jeito, mas, desta vez, Geraldo estava na cama, ao lado de Leandra. Ele estava deitado de lado, com o braço por cima do ombro da esposa. Por que alguém dormiria abraçado a uma pessoa quando estava apaixonado por outra? De manhã, quando Bia acordou, após uma única hora de sono, seus olhos estavam inchados, e uma série de pequenas brotoejas vermelhas haviam estourado em sua pele. Ela sentia como se estivesse de ressaca e, quando se lembrou dos acontecimentos da noite, se escondeu debaixo do edredom, envergonhada. Juca a havia colocado na cama. Ela havia fungado no ombro dele. Ela havia uivado como uma pessoa insana. Que melhor modo de perder o cara de quem você gosta, além de babar nele todo? Quando Juca a apanhou para a Foxy, incrível que tivesse aparecido, ele imediatamente quis conversar sobre a noite anterior, mas ela evitou o assunto, dizendo que estava se sentindo muito melhor. Juca olhou para ela de modo estranho, mas era inteligente o suficiente para não fazer perguntas. E, desde de então, ela estava fugindo dele. Thiago se apoiou contra o balcão de madeira do bar da Foxy, balançando a cabeça quando o DJ começou a tocar Franz Ferdinand. Havia um sorrisinho satisfeito em seu rosto, Bia sabia que ele se sentia o máximo por ter conseguido um convite para a Foxy, já que estava apenas no segundo ano. Mas ela era irmã dele, por isso podia enxergar a tristeza e a dor por baixo da superfície. Era como na vez em que eles eram pequenos e brincavam na piscina comunitária, e os amigos de Thiago o chamaram de gay porque seu calção de banho branco tinha ficado cor-de-rosa na lavagem. Thiago tentara aguentar firme, entretanto, mais tarde, durante o treino de natação dos adultos, Bia o encontrou chorando escondido perto da piscina infantil. Ela queria dizer alguma coisa para fazer com que ele se sentisse melhor. Sobre o quanto ela sentia pelo que estava prestes a contar a Leandra, Bia contaria tudo à mãe naquela noite, quando chegasse em casa, sem desculpas e que nada daquilo era culpa dele, e que se a família deles se desintegrasse, tudo ainda ficaria bem. De algum jeito. Mas ela sabia o que aconteceria se tentasse. Thiago simplesmente fugiria. Bia pegou mais café e saiu do bar. Ela só precisava de movimento.

— Bia — chamou uma voz atrás dela. Ela se virou. Juca estava a cerca de dois metros de distância, perto de uma das mesas. Ele parecia chateado. Em pânico, Bia colocou o café na mesa e saiu correndo em direção ao banheiro feminino. Uma de suas sandálias escapou de seu pé. Enfiando-a de volta depressa, ela continuou correndo, mas terminou encurralada por uma parede de gente. Ela tentou abrir caminho a cotoveladas, mas ninguém se mexeu. — Ei. — Juca estava bem do lado dela.

— Ah — gritou Bia por sobre a música, tentando agir normalmente — Oi.

Juca tomou Bia pelo braço e a levou para o estacionamento, que era o único lugar vazio na Foxy. Juca pegou as chaves com o manobrista. Ele ajudou Bia a entrar no carro e dirigiu até um local deserto, um pouco mais abaixo da estrada.

— O que está havendo com você? — exigiu saber ele.

— Nada. — Bia olhou pela janela — Estou bem.

— Não, não está. Você parece... um zumbi. Está me assustando.

— Eu só... — Bia brincou com sua pulseira de pérolas, rolando-a para cima e para baixo no braço — Eu não sei. Eu não quero aborrecer você.

— Por quê?

Ela deu de ombros.

— Porque você não quer ouvir isso, você deve pensar que eu sou completamente doida. Tipo, sinistramente obcecada pelos meus pais. Eu só consigo falar nisso.

— Bem... é verdade. Mas... quer dizer...

— Eu não ficaria zangada — interrompeu ela — se você quisesse ir dançar com outras garotas e tudo. Tem umas garotas bem bonitas aqui.

Juca piscou, o rosto pálido.

— Mas eu não quero dançar com mais ninguém.

Eles ficaram quietos.

Dava para ouvir a música de Kanye West, "Gold Digger", vindo da tenda.

—Você está pensando em seus pais? — perguntou Juca, baixinho.

Ela assentiu.

— Acho que sim. Eu tenho que contar tudo para a minha mãe hoje.

— Por que é que você tem que contar a ela?

— Porque... — Bia não podia contar a ele sobre M — Tem que ser eu. Isso não pode continuar assim.

Juca suspirou.

— Você coloca muita pressão em si mesma. Não dá pra tirar uma noite de folga?

No começo, Bia ficou na defensiva, mas depois relaxou.

— Eu realmente acho que você deve voltar para lá, Juca. Você não devia me deixar estragar a sua noite.

— Bia... — Juca deixou escapar um suspiro frustrado — Pare com isso.

Bia fez uma careta.

— Eu só acho que a gente não vai dar certo.

— Por quê?

— Porque... — Ela fez uma pausa, tentando descobrir o que queria dizer.

Porque ela não era a típica garota de Rosewood? Porque o que quer que Juca admirasse nela, havia muito mais a respeito de sua pessoa para não admirar? Ela se sentia como algum daqueles remédios maravilhosos que são sempre anunciadas na TV O narrador lê parágrafos e mais parágrafos sobre como o remédio ajuda milhões de pessoas, mas, bem no finalzinho do comercial, ele diz bem baixinho que os efeitos colaterais incluem palpitações cardíacas e diarreia. No caso dela, seria algo do tipo: Garota legal, inteligente... mas a história familiar pode resultar em surtos psicóticos e, de vez em quando, ela pode fungar bem na sua camisa cara. Juca pôs a mão cuidadosamente sobre a de Bia.

— Se você está com medo de que eu tenha ficado assustado com a noite passada, está enganada. Eu gosto de você de verdade. Acho que gosto ainda mais por causa da noite passada.

Lágrimas encheram os olhos de Bia.

— Sério?

— Sério.

Ele apertou a testa contra a dela. Bia prendeu a respiração. Finalmente, seus lábios se tocaram. E de novo. Com mais força, desta vez. Bia apertou a boca contra a dele e segurou-o pela nuca, puxando-o para mais perto. O corpo dele era tão quente e seguro. Juca correu as mãos pela cintura de Bia. De repente, eles estavam mordendo os lábios um do outro, as mãos subindo e descendo pelas costas um do outro. Então, se separaram por um instante, com a respiração pesada e se olharam nos olhos. Eles se agarraram de novo. Ele tirou o paletó e atirou-se no banco de trás, e ela atacou os botões da camisa dele. Ela beijou as lindas orelhas de Juca e enfiou as mãos por dentro da camisa dele, arrastando-as pela pele macia. Ela envolveu a cintura dele com as mãos da melhor forma possível, o corpo em um ângulo estranho no banco apertado do carro. Ela arqueou o pescoço enquanto Juca beijava sua garganta. Quando Bia abriu os olhos, viu alguma coisa, um pedaço de papel amarelo sob o limpador do para-brisas. Primeiro, pensou que fosse algum tipo de anúncio talvez, algum garoto fazendo propaganda de uma festa depois da Foxy, mas, então, notou as palavras grandes, arredondadas, escritas de forma descuidada com hidrocor preto.

" Não esqueça! Ao bater da meia-noite!"

Ela se afastou de Juca rapidamente.

— O que foi? — perguntou ele.

Ela apontou para a nota, as mãos tremendo.

—Você escreveu aquilo? — Era uma pergunta estúpida. Ela já sabia a resposta