Preto é a Cor do Amor
26 Nunca mais farei planos...
Notas iniciais
— Will
Por mais que eu quisesse, eu não consegui não ir para a escola no dia seguinte. Meu relógio biológico já estava acostumado a toda minha rotina matinal! Eu me encontrava apoiado no parapeito da minha janela, bufando entediado e olhando para a chuva que caia preguiçosa. O dia estava frio, cinza e chato. Um excelente dia para um primeiro encontro!
Escutei uma leve batida na porta do meu quarto e direcionei minha visão até lá. Meu amigo estava com os cabelos bagunçados, cara amassada e um bico nos lábios.
— O que foi? — perguntei levantando uma sobrancelha e andando até minha escrivaninha para pegar minha mochila.
— Fiquei até tarde conversando com a Reyna... — comentou distraidamente entre bocejos.
Eu apenas me limitei a dar um sorriso pequeno e bagunçar os cabelos dele. Quando entrei na cozinha a primeira coisa que notei foi o sorriso suspeito que Perséfone tinha estampado na face. Enquanto sua mãe, Deméter, mantinha uma carranca desgostosa.
— Eu não gosto nada disso! — resmungou entre as colheradas de seu cereal matinal.
Perséfone rolou os olhos, como se já tivesse tido aquela conversa milhões de vezes e riu despreocupada.
— Mãe, eu já sou bem grandinha pra escolher com quem eu saio ou deixo de sair — respondeu dando o assunto por encerrado.
— O que aconteceu? — perguntei esgueirando meu olhar discretamente para a mulher sentada na mesa. Continuei em pé ao lado da mesa comendo uma maça, enquanto esperava Matt terminar de comer seu pão com leite.
— Ele não serve pra você minha filha! — Deméter resmungou.
— Ontem à noite Hades me convidou para sair... — Perséfone me respondeu feliz, e claramente ignorando sua mãe.
— Você e Hades? — perguntei surpreso. Na verdade nem tanto assim... No dia do jantar vergonhoso, eu percebi que Hades havia despertado um interesse em Perséfone e que era recíproco.
— Formam um casal bonito — escutei a voz sonolenta de Matt e vi que ele já havia terminado seu desjejum — Ei cara, cadê seu pai?
— Deve estar chegando, ontem ele ficou de plantão — expliquei andando até a garagem.
— Hum... — resmungou baixinho e encostou a cabeça na janela do carro, fechando os olhos logo em seguida.
~*~
Eu definitivamente não gosto de dias chuvosos quando eu tenho que ir para a escola!
Tem uma grande diferença entre passar um dia chuvoso onde você pode estar no seu sofá, curtindo um bom filme na paz da sua casa e estar na escola, no tumulto que ficam os corredores aglomerados de alunos que parecem ser alérgicos a água, no empurra-empurra que acontece quando o sinal toca e nos seus pés sendo esmagados pelos sapatos dos outros! Isso definitivamente é insuportável!
Quando Matt e eu conseguimos chegar inteiros até nossa sala de aula, nós estávamos amarrotados, descabelados (Matt mais ainda) e ofegantes. Localizei todo o pessoal sentado perto da janela jogando conversa fora e manquei até eles.
— O que houve com vocês? — escutei a voz preocupada de Piper e sorri para eles.
— Os alunos desse colégio enlouquecem quando chove! — comentei divertido. Senti o olhar curioso de Nico e olhei para o moreno.
Vi quando ele levantou uma sobrancelha, esperando uma explicação já que eu havia dito que não iria para a aula, e eu apenas dei de ombros.
— Tive meu pé pisado sei lá quantas vezes, fui empurrado duas vezes, e apertaram minha bunda descaradamente! — exclamei indignado. Escutei Percy e Jason rirem e balançarem as mãos em desdém.
— Relaxa... Dias de chuva sempre são turbulentos assim — o loiro comentou casual.
Continuamos a conversar até que o sinal bateu e uma enxurrada de alunos invadiu a sala, com Quíron logo atrás.
~*~
Quíron era um dos únicos professores dessa escola que eu realmente gostava. Suas aulas eram sempre interessantes e dinâmicas, ele conseguia explicar a história de um jeito que não deixava a aula monótona e maçante. E eu achava sua didática era bem peculiar.
Com o pouco tempo que tenho nessa escola, eu já pude descobrir que ele era o professor preferido de todos os alunos que já tiveram, ou ainda tem aulas com ele. Percy era uma dessas pessoas... Ele simplesmente adorava as aulas do velho senhor paraplégico, era também a única aula que ele se esforçava pra valer para tirar um dez.
— Eu to falando! — escutei o moreno de olhos verdes exclamar — Eu sonhei que o professor Quíron era um centauro!
— Percy! Você já nos contou sobre esse sonho! — Annabeth revirou os olhos acinzentados — Você era um poderoso filho do deus do mar e Quíron era seu treinador metade homem e metade cavalo...
— E todos vocês estavam nele! Foi um sonho tão legal! — eu ri com a empolgação dele ao contar detalhes sobre o sonho e discretamente passei a observar Nico lendo distraidamente seu livro de mitologia nórdica.
Já era hora do intervalo, mas como a chuva continuava a cair ininterrupta nós optamos por continuarmos na sala de aula. Os corredores estavam amontoados de adolescentes escandalosos e eu não queria ter minha bunda apalpada descaradamente de novo.
O moreno corria os olhos pela folha do livro, matinha uma expressão serena e seus dedos deslizavam pela capa discreta do livro. Quando percebeu que estava sendo observado, ele ergueu seus olhos e encontrou os meus. Eu queria gritar para a escola inteira que Nico era meu namorado, queria agarrá-lo e beijar os lábios finos dele na frente de todos, queria abraçá-lo e aconchegá-lo em meu peito, mesmo ele não gostando de nada disso e tendo me dito claramente logo no primeiro tempo de aula, que não estava pronto para enfrentar toda a escola ao revelar nosso relacionamento em fase de teste.
Claro que eu não gostei nada disso, mas entendi o lado dele. Eu não queria que ele sofresse preconceito por causa de sua opção sexual, não queria de jeito nenhum arranjar encrencas para o moreno, e principalmente não queria que Drew soubesse que eu estava namorando com Nico.
Sorri carinhoso para o moreno e vi que o mesmo havia retribuído de forma discreta com um sorriso sincero. Mandei-lhe uma piscadela e Nico balançou a cabeça, voltando a prestar atenção em seu livro. Ri com a reação dele e resolvi ir conversar com meus mais novos amigos da sala 3-C.
Como eles obviamente não eram da minha sala, tive que me embrenhar no corredor abarrotado de adolescentes para conseguir chegar inteiro na sala 3-C. Dei uma rápida olhada nela e vi que Clarisse apostava uma queda de braço com um rapaz musculoso que, se não me engano, fazia parte do time de basquete da escola. Katie conversava animadamente com uma menina morena e os irmãos Stoll’s sussurravam sentados ao fundo da sala.
— Sussurros, sorrisos maliciosos e expressões malandras... O que vocês vão aprontar? — perguntei divertido assim que cheguei perto deles.
— Ai Will, assim você nos ofende! — Connor disse em tom de zombaria.
— Nem vem com essa — ri.
— Vamos apenas pregar algumas pegadinhas com a senhora Dodds — Travis respondeu minha pergunta e eu olhei meio incrédulo para os dois gêmeos na minha frente.
— Vocês são loucos? Ela vai matar vocês! — falei sussurrando sem saber o porquê de falar assim.
— Nós somos mestres em pegadinhas! Nunca somos pegos! — Connor estufou o peito ao dizer aquilo e eu apenas pude observar os dois rapazes enquanto eles armavam tudo aos mínimos detalhes. Voltei meu olhar para a queda de braço de Clarisse e vi que ela sorria vitoriosa para o rapaz que estava de volta ao seu lugar e bufava vermelho de raiva.
Dei de ombros e antes de sair da sala, me virei para Travis e chamei pelo seu nome.
— Depois me conte se isso funcionar — pedi sorrindo e vi o rapaz sorrir malandro e concordar com um brilho engraçado nos olhos.
~*~
Eu queria muito dizer que eu não sentia ciúmes de Nico. Queria dizer que todas as vezes que eu via o moreno com Reyna, ou Percy, ou qualquer outra pessoa que possa estar muito próximo dele, eu ficava despreocupado.
Mas acontece que se eu dissesse isso, seria a maior mentira de todas!
Quando eu voltei para minha sala de aula, pouco antes de sinal bater, eu tive o desprazer de ver Nico conversando com Reyna e constatar que ele mantinha um sorrisinho ao conversar com a menina. Meu bom humor mudou drasticamente e uma vontade enorme de agarrar Nico e tirá-lo de perto daquela menina começou a crescer em meu peito.
O moreno pareceu não perceber minha presença na sala, e continuou a tagarelar (na verdade Nico apenas opinava vez ou outra quem realmente falava alguma coisa era Reyna) com a dona dos meus pensamentos mais sombrios. Fui andando a passos pesados até onde os dois estavam e parei propositalmente ao lado de Nico.
— Atrapalho? — perguntei fingindo inocência. Uma tentativa patética, já que dava para perceber o cinismo na pergunta.
Reyna arqueou as sobrancelhas, confusa, e sorriu sem jeito.
— Estávamos apenas conversando sobre o Grêmio — comentou encabulada.
Realmente, eu não deveria estar conseguindo conter meu ciúme aparente, já que Reyna logo após que cheguei, pediu licença e voltou ao seu lugar.
Sentei na minha carteira, ao lado de Nico, e busquei sua mão por debaixo da mesa. Assim que a encontrei entrelacei nossos dedos e percebi o leve rubor nas bochechas do moreno. Durante o resto da manhã nada de surpreendente aconteceu, continuei com meus dedos entrelaçados aos de Nico o resto das aulas e o moreno nem se importou com o fato.
Eu estava ansioso para que a noite chegasse logo!
~*~
Toda a minha ansiedade foi pelo ralo assim que a noite chegou e a chuva continuava impiedosa.
Todo o plano que eu tinha montado para nosso primeiro encontro havia sido arruinado pela chuva! Minha ideia era irmos até o parque de diversão que tinha na cidade e aproveitarmos como dois namorados supostamente fazem! E pra finalizar teria todo aquele clima romântico onde nós nos beijaríamos na roda gigante e tudo mais...!
Exatamente. Bem clichê. Ridiculamente previsível e clichê.
Eu estava jogado na minha cama, com a cara enfiada no travesseiro enquanto escutava Matt tagarelar sobre uma trivialidade a qual eu nem estava prestando atenção. Já eram oito e vinte da noite e o desanimo batia em minha porta.
— Matt! Cala a boca! — resmunguei com a cara no travesseiro. Ele se calou por um tempo e depois voltou a falar:
— Porque você não o leva no cinema? — escutei meu amigo perguntar e pulei da cama.
— Perfeito! Clichê por clichê porque não o cinema? — falei rapidamente e abri meu armário em busca de uma roupa decente.
— Qualquer coisa vou estar no meu quarto estudando biologia — escutei Matt falar e resmunguei um ‘uhum’ desatento.
No fim, acabei por escolher uma calça jeans preta (é, depois que conheci Nico passei há gostar um pouco mais de preto), blusa vinho de mangas longas, que realçava meu peitoral definido sem exagero, meu all star branco e baguncei um pouco meus cabelos ondulados. Sorri para meu reflexo e sai do quarto, cantarolando uma música qualquer.
Encontrei Perséfone analisando algumas papeladas e cumprimentei-a, animado.
— Está bonito Will — sorriu — Aonde vai?
— Num encontro com Nico — cantarolei e escutei a risada dela. Quando eu já ia saindo de casa, escutei a mulher me chamando.
— Seu pai tem plantão de novo hoje, então não se preocupe com o horário, prometo não falar nada! — riu e piscou para mim.
Perséfone era realmente uma mulher incrível, Hades tinha sorte de ter chamado a atenção da moça.
Era exatamente nove horas quando eu mandei uma mensagem para Nico, avisando que eu já estava na frente da sua casa (como se ela fosse muito longe da minha). Quando avistei o moreno vindo em minha direção, sorri encantado com ele.
Nico vestia sua típica calça jeans rasgadas, tênis all stars preto, um casaco moletom preto com o símbolo do Batman em amarelo estampado na frente e um pequeno sorriso para completar a visão adorável do moreno.
— Pronto? — perguntei assim que ele entrou no carro e colocou o cinto de segurança.
— É... — respondeu receoso. Sorri animado e dei partida no carro.
~*~
Digamos que Nico, durante todo o caminho até o cinema, ficou observando as gotas de chuva escorregar pela sua janela. Eu cantarolava uma música que tocava no rádio e esperava pacientemente o moreno resolver ter uma conversa estruturada comigo. O que obviamente não aconteceu... Eu só escutei a voz dele quando ele, distraidamente, comentou que eu tinha uma “bela voz”, palavras dele. Eu particularmente não achava que tinha jeito para cantar.
Quando chegamos ao cinema, Nico arqueou as sobrancelhas e eu o olhei sem entender.
— O que foi? — perguntei preocupado. Nico me olhou e abanou a cabeça.
— É que eu não pensei que você fosse querer vir no cinema... Não tem cara de quem faz essas coisas — comentou andando ao meu lado.
Busquei suas mãos e quando a encontrei entrelacei nossos dedos e comecei a puxar Nico para ver os filmes em cartazes. Percebi que o moreno estava encabulado com o fato de eu manter nossas mãos unidas e tremia um pouco. Puxei-o para um abraço e levei meus lábios até seu ouvido.
— Calma Nico — sussurrei compreensivo — Não precisa ficar tão nervoso, qualquer coisa eu vou estar ao seu lado!
Senti as mãos dele pousarem em meu peitoral e me empurrar levemente, beijei o topo da cabeça do moreno e voltei a entrelaçar nossos dedos.
— Que tal esse? — perguntei apontando para um filme de comédia.
...
No final acabei deixando Nico escolher o filme que veríamos e me arrependi amargamente dessa decisão, quando ele escolheu um filme de terror. Todo o plano que eu elaborei ao longo do caminho, sobre o que podíamos fazer dentro da sala escura do cinema, evaporou assim que o filme começou.
Não consigo entender como alguém aprecia aquele tipo de filme! Metade da minha pipoca foi parar no chão quando eu, sem querer, me assustei com o filme e pulei da cadeira! Nico ria discreto de cada susto que eu levava e não tirava os olhos da tela... Foi apenas na metade do filme, quando uma boa parcela dos personagens já havia morrido, que eu senti a mão de Nico segurar a minha e entrelaçar nossos dedos.
Sorri bobo com a ação do moreno e apertei de leve sua mão, chamando-lhe a atenção. Quando Nico se virou para mim, eu juntei nossos lábios num beijo singelo.
O grito de horror e desespero da mulher do filme serviu como música de fundo quando Nico resolveu aprofundar o beijo e focar sua total atenção em mim. Minha mão acariciou de leve o rosto do moreno enquanto nossas bocas estavam unidas num beijo calmo e ritmado. Nossas línguas se acariciavam suavemente e Nico apertou inconscientemente nossas mãos unidas. Finalizei o beijo com vários selinhos em seus lábios e voltei a prestar atenção no filme.
Eu ainda podia sentir o sorriso em meu rosto e os olhares que Nico tentava disfarçar. Acabei que nem prestei muita atenção no filme, já que minha mente ficava divagando sobre Nico e nosso namoro.
Assim que o filme acabou, eu comentei com Nico que jamais veria outro filme de terror tão cedo e ele apenas se limitou a sorrir balançando a cabeça em negativa. A chuva finalmente havia dado uma trégua e parado de cair, então nós resolvemos andar calmamente pelas ruas de Nova Iorque até a lanchonete mais próxima do cinema. Eu mantinha nossas mãos juntas e Nico parecia já ter se acostumado com isso, visto que já nem ligava se estávamos num local público ou não.
Engatamos numa conversa sobre variadas coisas e me surpreendi sobre o quão eclético Nico era. Em minha visão, o moreno escutava apenas rock, mas ao conversar com ele, descobri que o garoto escutava de tudo. Passamos a conversar sobre política, faculdade, séries, livros, esportes, HQ’s... Era bem fácil manter uma conversa amigável com o moreno, embora no começo ele ficasse meio receoso e distante.
Passamos tanto tempo absortos sentados da lanchonete discutindo sobre o que era melhor, os livros ou as adaptações para filmes, e comendo batatas fritas com hambúrgueres que a garçonete teve que nos avisar que eles já iriam fechar e que deveríamos nos retirar. Rimos incrédulos que conseguimos passar horas conversando e nem ao menos havíamos percebido. Já era uma hora da madrugada quando eu deixei Nico em frente de sua casa e me despedi beijando carinhosamente os lábios do rapaz, que ganhou uma leve coloração rosada nas bochechas com esse meu ato.
Cheguei em casa sorrindo bobamente, cantarolando feliz e me joguei na cama, me aconchegando e sonhando com Nico di Angelo e nosso encontro perfeito.
Fale com o autor