Preto é a Cor do Amor

1 Nova cidade, Vida nova


Notas iniciais
O casal principal é Wico, ou seja, Nico di Ângelo e Will Solace. Espero que gostem!

– Will

Terminei de ajeitar minhas roupas na mala e olhei em direção a porta onde minha mãe estava parada com cara de choro e melancolia. Foi ela que quis isso, ela que chore sozinha. Por causa de uma simples festa, ela tomou a decisão radical de me mandar para o outro lado do país para viver com meu pai Apolo. Desde pequeno moro em Malibu, convivo com meus amigos e estudo no mesmo colégio, ela não tinha o direito de fazer o que fez. Fechei zíper e olhei para as quatro malas enormes uma parada o lado da outra, suspirei e nem fiz questão de olhá-la nos olhos quando comecei a descer uma por uma.

Já havíamos discutido sobre isso por horas, ela sabia como eu me sentia, sabia que eu não queria que era contra minha vontade, mas mesmo assim ligou para meu pai e comprou a passagem ainda no mesmo dia. Gritei coisas para ela que um filho jamais deveria falar para a mãe, mas na hora da raiva nem pensei direito. Talvez, quem sabe, eu possa pedir desculpas, mas agora nem olhá-la eu quero. Assim que levei a quarta mala para a porta da frente, escutei passos atrás de mim, não fiz questão de me virar para ver que era minha mãe pedindo silenciosamente por uma despedida descente. O motorista do táxi que me levaria até o aeroporto já estava terminando de guardar a terceira bagagem.

– Tchau Nora – falei um pouco seco demais e ajudei-o a guardar a quarta. Escutei o choro abafado de minha mãe e depois um abraço repentino por trás.

– Will... Meu filho... – falou com a voz embargada – Por favor...

Suspirei e tirei suas mãos de meu peito, me virei em sua direção e dei-lhe um abraço apertado. Senti seu perfume adocicado e me permiti ficar triste com toda essa situação, ficar triste por ficar longe da minha mãe, por ficar longe de meus amigos, ficar longe de tudo o que conhecia para ir morar com um cara que eu não vi desde meus três anos de idade, ou seja, quatorze anos sem um contato de pai-filho.

– Sabe que ainda não te perdoei – falei ainda a abraçando.

– Sei disso, mas vai ver que é para o seu próprio bem – comentou.

Seu rosto estava apoiado em meu peitoral e suas mãos envolviam minha cintura, seus cabelos longos e loiros escuro estavam presos num coque mal feito com alguns fios soltos, seus olhos verdes, os quais eu não puxei, aparentavam cansaço, seus traços de noites mal dormidas e voz arrastada não condiziam em nada com seus trinta e quatro anos. Ela ainda é jovem, mas estava cansada dos vários problemas que eu causava. Talvez seja por isso que ela está me despachando para meu pai.

– Tchau – falei me afastando e vendo seus olhos verdes marejados.

– Tchau filho – disse secando os vestígios de lágrimas restantes.

Entrei no taxi e não olhei para trás quando ele se distanciou. Não derramei nenhuma lágrima quando entrei no avião e não ousei criar expectativas com a nova vida. Eu posso ter até exagerado um pouco, mas afinal quem nunca passou dos limites? Isso não era motivo para ser mandado para o outro lado do país. Confesso que venho dado trabalho para minha mãe desde os quinze anos, já perdi a conta de quantas vezes escutei broncas, quantas vezes fiquei de castigo e de quantas vezes fui parar no hospital por beber demais.

Minha mãe disse que eu levava uma vida fútil e era mimado demais, esse foi um dos motivos pelos quais vivíamos discutindo. Eu sou adolescente! E adolescente com dezessete anos querem se divertir, viver a vida, zoar com amigos. Eu ia a festas todo final de semana, ia à casa dos meus amigos todos os dias, eu sabia viver minha vida. Mas para minha mãe aquilo era ‘vagabundagem’ e eu deveria ‘tomar um rumo nessa minha vida fútil’, palavras dela. Jogou na minha cara que eu nunca havia trabalhado e que se continuasse assim nem uma faculdade eu faria, acabaria me tornando aqueles fracassados que com quarenta anos ainda mora com a mãe, essa foi sem dúvida nenhuma a pior discussão que já tivemos durante quatorze anos convivendo juntos. Não me arrependo de nada do que falei, mas sim do jeito que falei. Nenhuma mãe deveria ter que escutar palavras tão duras do próprio filho, mas na hora da raiva falamos até o que não devia nem ser pensado. Olhei através da janela do avião e vi as nuvens cinza carregadas e prontas para soltar uma tempestade forte.

Talvez fosse os céus chorando tudo o que eu não iria chorar.

~*~

WILLIAN SOLACE.

Simples, direto e sem graça. Essa foi à recepção que recebi quando cheguei ao aeroporto de Nova Iorque. Um homem vestido de terno, luvas brancas e uma placa com meu nome olhou-me com uma cara de pouco amigos quando disse que Willian era eu. Pude escutar um sussurro desgostoso dele de como eu era parecido com meu pai e depois me pediu para segui-lo que minhas malas já estavam no carro. Como ele soube que aqueles eram minhas malas eu não sei e também se perguntasse não receberia resposta alguma. Demoramos duas horas para conseguir chegar à casa de meu pai, nova-iorquinos são loucos no trânsito, e devo dizer: Minha boca foi ao chão.

Eu já sabia que meu pai era ‘rico’ e tudo mais por ser um médico famoso e talentoso, mas não sabia que ele tinha uma casa de dois andares enorme. Comparado com a casa que eu morava com minha mãe em Malibu, essa é três vezes maior. Apolo mora sozinho, porque ter uma casa com tanto espaço se só vai ter duas pessoas morando nela? Escutei o taxista me chamar e percebi que ele pedia com o olhar para eu sair de seu táxi.

– Quarenta dólares – disse mal humorado.

– Fique com o troco – falei entregando-lhe uma nota de cinqüenta.

Tirei minhas bagagens do carro e toquei a campainha da casa, demorou cerca de cinco minutos e o mordomo, ao menos parecia ser o mordomo da casa parecia ter em torno do quarenta anos, rugas nos olhos e um sorriso gentil no rosto, atendeu-me.

– Senhor Willian Solace? – perguntou.

– Só Will – pedi e sorri educadamente.

– Certamente, se me permite dizer o senhor é muito parecido com seu pai – comentou levando minhas malas para dentro da casa.

Era uma casa realmente bonita, a sala de estar era ampla e clara com sofá, poltronas, uma TV enorme, mesinha de centro, piso de madeira polida, cortinas até o chão de uma cor bege que dava um ar relaxante. Elegante.

– Deixarei suas malas em seu quarto no segundo andar – o mordomo falou.

– Okay... Qual é seu nome mesmo? – perguntei olhando subir as escadas.

– Me chamo Ryan, senhor – falou.

– Onde está meu pai? – perguntei subitamente e xinguei baixinho por tal curiosidade.

– Está em seu escritório, siga este corredor é a terceira porta – orientou-me.

Olhei para um corredor que até então eu não tinha visto e estreitei meus olhos. Ele era um corredor simples, sem retratos, sem nenhuma decoração, apenas a parede branca e três portas de madeiras. Andei devagar até a última e escutei algumas vozes vindo dela, bati devagar e escutei alguém mandar entrar.

A sala era grande, com uma mesa enorme quase no centro, duas cadeiras na sua frente, um sofá vermelho num canto perto de uma mesinha com algumas revistas em cima, prateleiras com livros de medicina, porta retratos com fotos de um jovem loiro, de olhos azuis escuro, alto e bronzeado, muito parecido comigo agora, segurando um bebê loirinho. Deveria ser meu pai Apolo me segurando, quando eu nasci eles só tinham dezessete anos. Assustei-me quando senti braços fortes me apertarem e um cheiro familiar, mas a muito esquecido, impregnarem minhas narinas.

– Quanto tempo filho – falou meio abafado por conta do abraço.

– Pai? – perguntei ainda meio perdido em toda aquela situação.

Ele separou seu corpo do meu e fez uma analise minuciosa sobre meu rosto, rosto e cabelos.

– Se parece tanto comigo quando eu tinha sua idade... – comentou.

Olhei para ele e vi que seu rosto era muito bonito. Seus olhos azuis escuros brilhavam animados, seus cabelos loiros estavam um pouco grandes, mas nada que um corte novo não resolva, seu sorriso enorme mostrava todos os seus dentes brancos e perfeitamente alinhados e seus traços faciais não tinham nenhuma imperfeição, nem parecia que tinha trinta e quatro anos. A única coisa de diferente que tínhamos eram os olhos, meus azuis já os dele eram azuis escuros.

– Seu filho? – uma terceira voz perguntou.

– Sim, veio hoje de Malibu – comentou meu pai – Filho este é Hades um amigo meu.

– Prazer Willian, seu pai me falou muito de você – comentou com a voz grave, era um homem bonito, de um jeito rústico, mas bonito. Cabelos negros, olhos também negros e uma barba bem aparada davam a ele um ar sério.

– Ele é dono de uma funerária e um empresário de sucesso que está fazendo negócios com meu hospital... – falou Apolo.

– Seu hospital? – perguntei – Pensei que apenas trabalhasse nele...

– Ah filho eu sou um homem muito ocupado, tenho o hospital, às vezes trabalho como modelo... Mas geralmente o hospital toma todo o meu tempo, com todos os negócios e burocracias – falou fazendo descaso.

Fiquei meio surpreso quando ele falou aquilo. Minha mãe havia comentado que meu pai era um homem ocupado, mas não achei que fosse ser modelo e dono de um hospital. Olhei para Hades e vi que ele me analisava da cabeça aos pés.

– Seu pai me contou que matriculou você na High Way School e que está no terceiro ano – comentou – Talvez seja da sala do meu filho...

– Vamos voltar aos negócios? – meu pai perguntou – Will seu quarto é no segundo andar e segunda porta a esquerda. Tenho que terminar esse contrato e depois conversamos.

– Okay – falei saindo da sala e me dirigindo ao meu quarto.

–*-

Enorme. Simplesmente enorme. Uma cama de casal, guarda-roupa gigante, um banheiro com uma banheira (sempre quis ter uma banheira!), escrivaninha com um notebook novinho em cima, uma prateleira com todos os meus novos livros escolares, televisão de quarenta e cinco polegadas, vídeo-game e outras coisas que eu nem sonharia em ter. Talvez por que quando eu vivia com minha mãe, ela não quis nada do meu pai, mas eu que sou filho tinha direito a pensão, logo a mesada era farta e a festa no fim de semana já era garantida. Vi que minhas malas já estavam guardadas com as roupas devidamente dobradas e ajeitadas nas gavetas e agradeci por existir empregados para me poupar de arrumá-las.

– Assim eu fico mal acostumado – sorri bobo.

– Sua mãe me contou o que você fez – uma voz vinda da porta me assustou.

– Vai me deixar de castigo? – debochei.

– Não... Até porque eu não tenho esse direito, já fiz bem pior antes de conhecer sua mãe e me casar – comentou se sentado ao meu lado.

– Vai fazer o que então? – olhei-o curioso.

– Apenas conversar – sorriu – Sabe sua mãe nunca foi muito de sair, por isso ela ficava extremamente preocupada quando você ia às festas e só voltava no dia seguinte parecendo um mendigo – abri a boca para protestar, mas ele balançou a cabeça em negativa – Ela me contou. Tudo bem que você é jovem e tudo o mais, mas tem que ter cuidado.

– Eu tinha cuidado! – falei exasperado.

– Como teve no dia da festa que você roubou um carro, foi preso, bateu nos policias e depois só foi encontrado numa boate quase entrando em coma alcoólico? – falou acusatório e eu olhei para o chão envergonhado – Você estava no seu juízo perfeito? Sabia o que estava fazendo? Sabe quanto foi sua fiança?

– Não...

– Três mil dólares — disse e eu fiquei surpreso com o valor – Sua mãe espera que aqui você crie um pouco de responsabilidade e juízo. E é por isso que você vai trabalhar.

– O que?! – perguntei.

– Vai trabalhar até ter dinheiro suficiente para me pagar os três mil dólares que perdi quando te tirei da cadeia por conta de sua irresponsabilidade.

– Mas você é rico, três mil dólares não vão fazer diferença!! – falei indignado.

– Você vai aprender a ser responsável Willian, sua mãe pediu isso e acho que ela está certa – falou sério.

– Não acredito nisso!! – falei me jogando na cama.

– Suas aulas começam amanhã, tem sorte de ser começo de ano letivo – sorriu – Ela é a melhor escola de Nova Iorque, como sei que é um excelente aluno não vai ter problemas com isso.

– Por onde começo a procurar emprego? – perguntei.

– Darei um mês para se adaptar e arranjar um emprego, se passar de um mês e não conseguir emprego vai trabalhar no hospital comigo – falou – Nora me falou dos seus dons com a medicina...

– Ela falou muita coisa... – comentei.

– Querendo ou não você é meu filho e por mais que tenhamos passado quatorze anos sem nos ver, eu acompanhava seu crescimento, agora descanse da viajem – disse fechando a porta de meu quarto.

– Não acredito que ele vai me fazer trabalhar... Absurdo isso!! – disse irritado.

Fiquei olhando para o teto, e resmungando, até o sono vir e eu dormir sem nem mesmo perceber. Amanhã vai ser um longo dia...

Notas finais
Aviso que esta história ainda está em fase de "teste" aqui no Nyah. Tudo irá depender de vocês, leitores.Se eu perceber que essa história não foi bem aceita, então será excluída. Caso contrário, ela continuará a todo favor sendo postada aos domingos. ♥