Notas iniciais
Capítulo agendado. ~Enjoy ♥

– Will

– Ah primeiro de Outubro! – exclamou Percy entrando na sala de aula.

Eu estava sentando ao lado de Nico, que estava com a cabeça abaixada escutando música, todos estavam conversando animados, menos eu. A notícia de que Drew estaria vindo para Nova Iorque ainda me deixava preocupado. Mas, se bem que essa cidade é tão populosa que vai ser quase impossível ela me encontrar! É uma chance em um milhão quase! Sorri animado, pela primeira vez no dia, e me virei para conversar com Percy.

– Porque toda essa animação? – perguntei. O menino me olhou e sorriu debochado.

– Como assim Will?! Outubro, mês de Halloween! Festas animadas, fantasias! – exclamou sorrindo e Annabeth revirou os olhos.

– Não se anime tanto cabeça de algas, eu só vou deixar você ‘sair’ nessas festas se melhorar essas notas – falou olhando-o autoritária.

Ri um pouco e olhei Nico que tamborilava os dedos na mesa.

– Você é minha namorada, não me minha mãe! – ouvi Percy reclamar, mas eu já nem dava atenção ao novo assunto deles dois.

O moreno tinha seus cabelos cumpridos, que na minha opinião já estavam passando da hora de serem cortados, bagunçados, sua blusa preta e folgada deixava a mostra seus braços um pouco finos e os dedos tamborilavam levemente no canto da mesa. Sua respiração era calma e, se não fosse os dedos mexendo, eu poderia dizer que ele estava dormindo. Olhei meu celular e não vi nenhuma mensagem nem de Matt, nem de Drew. Suspirei aliviado. Ela nem sabia onde eu estudava, com certeza não conseguiria me achar.

– Ei Nico – cutuquei o moreno. Escutei ele resmungar, mas não levantou – Nico!

– O que é? – perguntou levantando o rosto e me mostrando a cara amassada, me segurei para não rir da face raivosa que ele me mostrava.

– Não sabia que você falava italiano – comentei puxando assunto. Ou ao menos tentando.

– Tem muitas coisas que você não sabe sobre mim – respondeu sem nem me olhar.

Abri e fechei a boca umas três vezes. Realmente ele tinha razão. Eu não conhecia muito dele, mas não eram por falta de tentativas. Todas as vezes que eu tentava falar com ele sobre a vida dele ou sobre a família, o moreno se fechava e desconversava. Isso quando não dava uma de “emo solitário” fechava a cara e ia embora.

– Eu quero te conhecer Nico – falei sincero, o moreno continuou sem me olhar – Se ao menos me deixar entrar na sua vida... – comecei a falar e ouvi um suspiro da carteira a minha frente.

Virei para frente e encontrei uma Piper me olhando com os olhos brilhando. Jason segurava o riso olhando para a namorada e Nico apenas voltava sua atenção para o caderno a sua frente. Percebi que ele estava segurando firme o lápis e os cabelos estavam tampando seu rosto.

– Piper... – Jason sussurrou – Para de e intrometer na conversa dos outros.

– Okay – a menina falou desanimada e voltado seu olhar para o professor de inglês que acabara de entrar na sala.

Não terminei de falar o que dizia antes, e Nico pareceu até um pouco agradecido. Tentei prestar atenção na matéria que o professor explicava e que dizia ser importante para a prova, mas minha mente estava longe dali. Mas especificamente numa asiática mimada e patricinha que estava querendo me encontrar aqui. Por mais que eu saiba que vai ser quase impossível nos encontrarmos nessa cidade, tem algo que me incomoda, algo que eu não sei explicar, mas que me deixa nervoso. Um pequeno detalhe que está perto de mim, mas que eu não consigo notar.

– Will – escutei Nico me chamar e olhei para o moreno – Sabe o que está escrito no quadro? Ali na segunda linha? – perguntou apontando para a palavra.

– Ahn? – falei sem entender. Nico revirou os olhos e se inclinou para perguntar a Percy.

Continuei a pensar em nada especificamente, tirando o fato de Drew possivelmente querer infernizar minha vida aqui também, e me lembrei de algo que me deixou curioso quando li. Olhei o moreno fazendo suas anotações do caderno e me inclinei até ele.

– Nico – sussurrei seu nome em seu ouvido e ele se arrepiou e parou de escrever na hora.

– Que? – perguntei sem me olhar.

– Agora é sério, desde quando você fala italiano? – perguntei curioso.

– Minha mãe era italiana, eu sou italiano – respondeu e eu sorri.

– Me ensina?! – falei animado. Nico me olhou de cara emburrada e concordou.

Devo dizer que fiquei surpreso por Nico ter concordado assim tão rápido. Eu já havia preparado tomo meu discurso para convencê-lo a me dar as aulas de italiano, e tinha até imaginado uma carinha de ‘cachorro que caiu da mudança’ pra tentar convencê-lo... Mas seria menos trabalho para mim.

– Hoje? – perguntei e escutei o professor reclamar do falatório nas mesas de trás da sala. Nico afundou um pouco na cadeira, ainda anotando tudo o que ele escrevia e suspirou.

– Hoje a funerária não abre, pode ir lá pra casa – falou ainda sem me olhar, será que custa pra ele falar comigo me olhando? – Vamos começar pelo básico.

– Okay! – exclamei animado e acabei recebendo uma bronca do professor.

Eu mal podia esperar para as aulas acabarem e começar a aprender italiano com Nico!

~*~

– O que deu na Piper? – perguntei para Jason assim que chegar na mesa do refeitório e vi a menina com uma cara irritada. Bem irritada.

Piper nunca foi de ficar irritada, ou nervosa. As vezes que eu a via nervosa ou estressada era quando o assunto ‘irmã mais velha’ era tocado. Pelo que pude entender é que as duas não se davam bem, e a história era também bem confusa. A mãe de Piper era casada com um homem muito conservador, quando a irmã dela tinha um ano à mulher pediu o divorcio e a justiça deu a guarda da menina para o pai. Um ano depois de ela ter se mudado e encontrado o atual marido dela, Piper nasceu. Nunca me falaram o nome da menina, Piper realmente não vai muito com a cara dela, então nós sempre tentamos evitar esse assunto.

A única coisa que sei é que em quase todas as férias ela viajava pra cá pra passar com a mãe.

– Parece que a irmã dela está se mudando pra cá – Jason respondeu e Piper bufou.

– Não pode ser verdade! – exclamou batendo a mão na mesa – Aquela inútil não pode vir pra cá!

– Inútil? – Percy perguntou – Porque ela é inútil?

– Ela era pra estar na faculdade! Mas repetiu o ano, nem me perguntei por que ela repetiu o ano! – falou balançando as mãos no ar. Ela estava bem nervosa.

– E como você soube que ela estava vindo? Mais cedo você estava toda feliz e tudo mais... – Annabeth perguntou deixando de lado o livro de matemática.

– Minha mãe mandou mensagem, disse pra eu ir direto pra casa que ela vai chegar hoje a tarde – respondeu de bico –Se eu ficar dez minutos sozinha com ela, vai haver um assassinato lá em casa!

Eu estava surpreso. Nunca vi Piper, a rainha da calma e elegância, tão alterada como estava naquele momento. Jason até estava tentando acalmá-la, mas não estava tendo muito sucesso. Annabeth estava ensinando a matéria de matemática que Percy não estava entendendo e Nico comia devagar e parecia pensativo demais. Leo provavelmente estaria perturbando a mente de Calypso. Vi uma menina com cabelos negros presos numa trança lateral, calça jeans justa e uma blusa roxa com detalhes em dourados andando em nossa direção. Seu rosto era delicado, porém passava um ar autoritário. Acompanhei toda sua trajetória até nossa mesa e sorri para ela assim que chegou.

– Nico – chamou e eu me surpreendi – Olá a todos.

Se eu não soubesse que ele tinha uma queda por Percy, eu poderia até pensar que ela fosse a namorada dele, mas essa ideia também me parecia muito difícil de ser verdade.

– Oi Reyna – falou o moreno voltando seu olhar para ela – Que foi?

– Está muito ocupado? Preciso falar com você... – disse e Nico levantou da mesa.

Apenas observei os dois saindo e conversando, na verdade Reyna falava e Nico concordava, até não conseguir mais vê-los. Fiquei curioso sobre o assunto que ela poderia querer tratar com Nico e tê-lo levado para não sei onde, toda hora eu virava para trás e não encontrava nenhum dos dois no refeitório.

– Ciúmes? – escutei uma voz me perguntar e corei. Olhei para frente e vi Piper sorrindo para mim.

– Cadê aquela menina irritada de minutos atrás? – perguntei desconversando.

– Não tente desconversar Will, está com ciúmes do Nico? – flou sorrindo maliciosamente. Um arrepio subiu na minha espinha e eu engoli em seco.

– Não – respondi receoso – Estou apenas curioso com o que eles podem estar conversando...

Piper ergueu uma sobrancelha e, rindo, voltou a conversar com Jason. Eu não disse mais nada o resto do intervalo inteiro. Apenas fiquei esperando Nico voltar, mas o moreno não voltou. A curiosidade aumentou e uma pontada de ciúmes, de amigo claro, começou a me incomodar. Eu tamborilava os dedos na mesa e olhava o relógio a cada dez segundos, Piper me mandava olhares maliciosos e indiscretos. Resolvi andar e respirar um pouco e bem na hora que levantei o sinal tocou.

– Estava indo atrás do Nico? – a menina me perguntou segurando o riso. Revirei os olhos e marchei a passos rápidos para a sala, a fim de encontrar Nico lá.

Meu sorriso morreu assim que não o encontrei lá, sentei no meu lugar e fiquei olhando para a porta, observando todos que entravam na sala. A professora de biologia já havia entrado na sala e já começava a matéria quando Nico bateu na porta. Sorri inconscientemente e olhei para o moreno vestido de preto.

– Desculpa professora – falou entrando e puxando Reyna pela mão.

Meu sorriso morreu e eu desviei os olhos dele. Peguei meu caderno e fingi não notar quando ele sentou ao meu lado. Nico me olhou, mas também não puxou assunto, apenas pegou seu material e começou a prestar atenção na aula.

~*~

– Que horas você vai lá em casa? – perguntou Nico assim que o sinal do termino das aulas soou e eu já estava saindo da escola. Esses últimos dias eu estava indo e voltando a pé da escola. Nico ia junto comigo, pelo menos quando dava pra ele ir. O olhei de canto de olho e soltei o ar exasperado.

–Pensei que fosse ficar a tarde inteira com a tal de Reyna – falei irônico.

– E o que é isso agora? – Nico perguntou sem entender.

– Ah não sei! – exclamei – Talvez umas quatro da tarde eu passe lá... – comentei sem olhá-lo.

– Hum, okay então – respondeu e ficamos em silêncio.

Um silêncio longo e incomodo que durou todo o caminho da escola até nossas casas. Eu tentava entender porque estava me sentindo traído por Nico, e este pensativo e calado demais.

Quando o vi sair do refeitório com Reyna, um sentimento de desconforto e insegurança começou a tomar conta de mim. Eu queria que Nico voltasse para o meu lado o mais rápido possível, tanto que quando Piper perguntou se eu estava com ciúmes eu neguei na hora, mas depois eu percebi que não era normal o que eu estava sentindo. Nunca senti ciúmes de nada, sempre fui um cara relaxado e despreocupado com tudo e todos, mas com Nico é diferente. Ele é todo calado, arredio, misterioso, pequeno e aparentemente frágil que algo me faz querer ficar perto dele a todo instante. Me fez ter a vontade de protegê-lo do mundo. Eu queria ver o sorriso verdadeiro que vi naquela foto dele pequeno, queria ser o responsável pelo sorriso mais bonito que ele daria, queria ser o motivo do sorriso.

Acho que me apeguei demais nele e agora o mínimo motivo para nos separarmos me apavorava, Nico em tão pouco tempo já era quase um irmão para mim.

–Nico – chamei-o.

– Fala – disse pegando a chave de casa na mochila. Estávamos um de frente ao outro e eu o olhava procurar sua chave.

– Desculpa pelo ataque de mais cedo... – comentei baixo – Venho aqui na sua casa assim que comer alguma coisa e tomar banho.

– Okay – falou se afastando – Te espero então.

Entrei em casa e encontrei Martha colocando o casaco e Ryan ao seu lado. A mulher sorriu para mim, balançou uma lista de compras, beijou minha bochecha e saiu, arrastando o mordomo. Ri da cena e andei até meu quarto, deixei minha mochila num canto qualquer e suspirei cansado.

“Será que Nico está usando a Reyna para esquecer o Percy?”, pensei.

Isso não era a cara de Nico. Ele não parecia gostar de usar as pessoas pra se esquecer dos seus próprios problemas. Fechei os olhos e cocei os cabelos, frustrado. Num estalo me lembrei de um caderninho antigo meu, sorri com a lembrança e andei até o armário. Não sei nem porque o trouxe, já não escrevia há muito tempo que suas folhas estavam até um pouco amareladas.

Folhei o caderno observando as letras de músicas antigas que eu mesmo compus, e as lembranças boas me fizeram sentir saudade de Malibu e todos os meus amigos. Muitos não mantiveram contato comigo, também era apenas amizade de interesse. Eu era popular, logo muitos falsos chegavam até mim, sempre querendo algo a mais. Matt é um dos poucos amigos verdadeiros que eu consegui arranjar naquela cidade. Guardei de volta o caderno e balancei a cabeça, não seria hoje eu voltaria a ter inspiração para escrever. Tomei um banho rápido e vesti uma roupa leve, o dia hoje estava fresco então optei por uma bermuda e camiseta solta.

Sai do quarto e escutei o barulho de violão. Segui até uma luz que escapava de fresta da porta, encostei meu ouvido nela e escutei alguém dedilhando suavemente o violão numa melodia calma. Abri devagar e encontrei meu pai sentado num sofá vermelho de olhos fechados, dedilhando o violão e sorrindo nostálgico. Na sala, que não era pequena não sei nem como não havia a notado antes, tinham alguns violões, guitarras e outros instrumentos musicais que eu não lembrava o nome. Me espantei quando vi um piano de cauda preto e lustroso lá, minha boca foi ao chão e Apolo riu da minha cara quando abriu os olhos e me viu na sala.

– Gostou? – perguntou deixando o violão de lado.

– Especifique – falei voltando ao normal e me apoiando no batente da porta.

– Da sala em si, dos instrumentos... Se quiser eu posso te ensinar alguma coisa – falou e eu apenas o observei se levantar e guardar o violão no lugar dele.

– Eu costumava tocar violão, mas já não faço isso tem um bom tempo – comentei e ele riu.

– É de família – respondeu – Quando eu era jovem tinha um sonho de formar uma banda, foi quando conheci sua mãe.

Arregalei os olhos quando escutei o que ele falou. Nora nunca me contou como eles se conheceram, então sempre tive essa curiosidade.

– Nora nunca me falou como se conheceram – falei e ele riu.

– Deve ser porque naquela época ela começou um namoro com o guitarrista da banda e logo depois nós nos conhecemos melhor e acabamos ficando. Teve uma briga feia, a banda se separou e cada um tomou um rumo diferente – revelou nostálgico.

– Você era o que da banda? – perguntei curioso.

– O cantor – sorriu e eu fiz uma careta. Cantor era a última coisa que poderia ser encaixado no meu perfil – Martha fez um bolo de laranja antes de sair, se demorar demais vai acabar se atrasando para a aula com Nico.

O olhei surpreso e fiquei tentado a perguntar como ele sabia da minha aula de italiano com Nico. O observei rir da minha cara e logo depois resolvi ir até a cozinha e comer para ir logo até a casa do moreno. Peguei duas fatias grandes do bolo, coloquei num guardanapo e sair correndo até a casa do moreno, ou seja, até a casa vizinha.

Quando toquei a campainha a mesma empregada gordinha, com cabelos um pouco grisalhos e grandes olhos marrons me atendeu entusiasmada. Sorri educado para ela e a mesma apenas me pedia para entrar.

– Boa tarde – falou e eu sorri para ela.

– Boa tarde, vim aqui falar com Nico... – comecei e ela me interrompeu animada.

– Ah sim, o senhor di Ângelo disse que um amigo dele estaria por vir. Pode subir! – falou me indicando o caminho e eu apenas agradeci.

Na escada olhei de novo a foto da família reunida e sorrindo felizes que acabei sorrindo quando vi Nico pequeno com os olhos brilhando e sorriso contagiante. Andei em direção ao quarto do moreno e entrei sem nem mesmo bater na porta.

Nico estava tão concentrado no que via no computador que acabou não percebendo que eu entrei no quarto. Andei devagar até ele e soprei levemente no pé do ouvido dele.

Accidenti!* – exclamou caindo da cadeira.

Ri da cara assassina que Nico estava fazendo e olhei o que ele tanto fazia no computador. Ergui uma sobrancelha e continuei a rir da cara do moreno, que tentava desligar o computador. Ele estava vermelho de raiva, num movimento rápido ele me deu uma rasteira, me derrubou no chão, subiu em cima de mim e prendeu meus braços acima da cabeça. Eu fiquei tão surpreso que não consegui mover um dedo. Nico havia me imobilizado em menos de dez segundos.

– Vamos estudar ou não? – perguntou me olhando nervoso.

– V-Vamos – falei surpreso. Meu coração batia acelerando demais pela surpresa e susto.

Nico saiu de cima de mim e endireitou a roupa preta no corpo.

– Vamos começar pelo básico... – começou a falar e eu, ainda pasmo, me sentei na cadeira que antes Nico ocupava e tentei prestar atenção na ‘aula’ dele.

Mas eu só conseguia me lembrar de como fui imobilizado por Nico tão rápido. E de como a cara raivosa dele me encantou.

Notas finais
Accidenti = Maldito. Até a próxima!