Preto é a Cor do Amor
35 Calmaria (sem tempestade...?)
Notas iniciais
— Will
Quando acordei e vi que Nico ainda dormia com a cabeça deitada em meu peito não consegui conter o sorriso que repuxou meus lábios ressecados. Nossas pernas estavam entrelaçadas de uma maneira totalmente estranha e eu tinha uma leve certeza que minha perna direita estava dormente. Com o máximo de delicadeza possível para não acordar Nico, eu consegui me levantar e me espreguicei escutando o estalar de minhas juntas.
— Da próxima vez eu vou me atentar mais na posição em que dormimos... — sussurrei dolorido.
Escolhi roupas frescas e tomei um banho rápido, apenas para despertar meu corpo do estado de sonolência. Nico ainda dormia tranquilamente e agora abraçava o meu travesseiro, tinha um sorriso calmo e parte do rosto afundado na fronha.
Sorri com a visão e sentei delicadamente ao lado de Nico.
Meus dedos afastaram os poucos fios que caiam no rosto do rapaz e depois acariciaram a bochecha dele. Nunca havia me imaginado fazendo esse tipo de carinho em alguém, mas com Nico era bem diferente.
Era um gesto quase automático, ficar admirando o rapaz e acariciar-lhe gentilmente. Sorri enquanto observava a face calma e tranquila dele, e passei a cantarolar uma música que uma vez escutei no rádio.
...
Foi sem você que eu pude entender
Que não é fácil viver sem te ter
Meu coração me diz que não
Eu não consigo viver sem você, sem você¹
...
Nico se remexeu na cama e resmungou algo sobre ainda ser muito cedo para acordar. Suas pálpebras tremeram e então seu olhar sonolento se fixou em mim, eu já tinha parado de cantar no exato momento em que ele despertou. Seus lábios se repuxaram para cima num sorriso constrangido e ele se espreguiçou na cama.
— Que horas são? — escutei sua voz rouca perguntar.
— Nove horas — respondi.
Observei quando o moreno se levantou e andou a passos arrastados para o banheiro. Depois de alguns minutos fazendo a higiene matinal, Nico reapareceu no quarto e deitou novamente na cama. Sua mão deslizou vacilante até a minha e então me puxou de leve para que eu deitasse novamente.
— Está melhor? — perguntei olhando-o.
Nico crispou os lábios, incerto. Mesmo assim assentiu devagar.
— Como a gente fica? Digo, depois de ontem... — perguntou num tom de voz baixo.
Suspirei e deitei ao seu lado. Puxei o corpo dele com facilidade, apoiei meu queixo em sua cabeça e inspirei o cheiro dos cabelos de Nico.
— Como você quer que a gente fique? — perguntei para ele.
— Eu não sei... Nunca tive esse tipo de relacionamento antes. Não sei o que fazer — confessou e ajeitou o rosto em meu peito.
— Eu também não... — ri. Nico me olhou de sobrancelhas franzidas e então me inclinei para juntarmos nossos lábios.
Ah como eu sentia saudades dos lábios finos e macios de Nico. Era apenas uma carícia terna, suave e inocente, minha mão pousou no rosto dele e então pedi permissão para aprofundar o toque dos lábios.
Dizer que eu havia esquecido durante aquele meio tempo separados como era beijar Nico, seria uma enorme calúnia. Eu jamais poderia esquecer-me da sensação dos lábios finos contra os meus, da língua dele brincando com a minha, do gosto tão familiar da pasta de dente de menta e dos dentes dele puxando meu lábio inferior numa provocação sensual.
Era como me atirar de um penhasco sem nem questionar. Como se nada mais no mundo fosse relevante, apenas nós dois.
Era como ter um imprinting² a cada beijo e olhares.
— Vamos fazer dar certo — falei quando Nico encerrou o beijo com uma mordida leve em meu lábio. Nós sorriamos arfantes e Nico acariciava minha nuca, meu corpo já estava por cima do seu e a visão de Nico abaixo de mim era linda.
— Vamos fazer dar certo — concordou com olhos brilhantes e me puxando para mais um beijo.
Era um toque calmo. Nós queríamos apenas sentir o gosto um do outro, numa tentativa de sanar a saudade que sentíamos. Não tínhamos pressa em terminar o beijo, nossas bocas se reencontravam numa carícia delicada e apaixonada. Nico embrenhou sua mão em meus fios loiros e me puxou um pouco para mais perto de si e minhas mãos seguraram de forma possessiva sua cintura.
Era viciante. Nico era meu vício.
Depois de alguns minutos nos beijando, eu voltei a me deitar ao seu lado e passei a brincar com seus dedos finos. Meu riso alegre ecoava pelo quarto, meu coração batia acelerado e minhas bochechas queimavam em vermelho. Nico apenas mantinha um sorriso satisfeito nos lábios e seus olhos sustentavam um brilho extasiado.
— Acho que a gente devia sair né? — perguntou ocasionalmente.
— Ou a gente podia ficar aqui no quarto e... — batidas na porta nos chamaram a atenção, interrompendo assim, a minha frase.
— Meninos, já acordaram? — uma voz feminina se fez ouvir — Tântalo está pedindo a presença de todos no anfiteatro. Parece que ele tem um comunicado a fazer.
Nico soltou um som quase parecido com uma risada abafada e encaixou o rosto na curva de meu pescoço, dando beijos suaves ali.
— Parece que vamos ter que sair — brinquei e vi Nico se levantar e vestir uma roupa apropriada, já que ele ainda estava de pijamas.
Apenas revirei os olhos e passei a organizar a cama, enquanto esperava o moreno terminar de se arrumar.
~*~
Quando chegamos ao anfiteatro, a grande maioria do pessoal já estavam espalhados pela arquibancada e esperavam (com cara de tédio total), Tântalo começar a ladainha. O senhor D estava conversando com Quíron e bebia uma diet coke, enquanto o senhor na cadeira de rodas analisava os alunos com um sorriso calmo nos lábios. Quíron sempre tinha um sorriso sereno nos lábios e eu admirava essa paz toda dele.
Vi o pessoal todo junto entrar no anfiteatro e o sorriso das meninas ao me verem junto de Nico chegou a ser assustador. Piper sacudiu o ombro de Jason e mesmo de onde eu estava, dava para escutá-la comemorar. Respirei fundo e pedi paciência aos céus quando vi que todos eles se dirigiam em nossa direção.
— Porque Piper está tão animada? — Nico me perguntou baixinho, tentando disfarçar.
— Não sei — respondi sorrindo amarelo. Eu já podia ver o desastre bem em minha frente, Piper e os meninos (exceto Frank, porque esse cara era legal demais para fazer isso) mandando indiretas bem fajutas sobre toda a situação que eu e Nico estávamos vivendo.
Mas, felizmente, eu estava errado!
Todos foram bem discretos e apenas disseram um simples “ainda bem” quando contei que estávamos numa reconciliação. Provavelmente tudo isso era obra de Annabeth, já que ela sempre foi a mais responsável e ‘adulta’ de todos.
De repente as conversas ao nosso redor cessaram e notei que Tântalo estava no meio do local segurando duas bandeiras de tamanhos médios presas numa vara de dois metros. Uma vermelha e outra azul.
— Bom dia! Hoje é dia de caça a bandeira! — exclamou animado e sacudiu as bandeiras — Vocês irão se dividir em duas equipes: equipe vermelha e equipe azul. Poderão ocupar toda a floresta sul, nada mais que isso. Terão que dispor as bandeiras em locais visíveis e duas pessoas, no máximo, poderá protegê-la. Os equipamentos estão todos no arsenal e não se preocupem que nada lá é afiado ou coisa do tipo...
Um burburinho começou a se formar e Tântalo pediu silêncio.
— Vocês têm meia hora para se ajeitarem e então daremos inicio ao jogo — sorriu — Venham aqui duas pessoas para serem os representantes da equipe e peguem as bandeiras.
Depois disso eu só consegui assimilar as pessoas agitadas correndo para decidir as equipes e conseguir algum equipamento para a caça a bandeira. Escutei Nico suspirar e olhei para ele com um sorriso no rosto.
— O que foi? Não quer participar? — perguntei rindo da cara que ele fez quando viu o aglomerado de gente se formando ao redor das bandeiras.
— Não — olhou para mim — Prefiro passar a manhã sozinho com você.
Certo... Eu tenho certeza que corei um pouco depois desta sentença despretensiosa do moreno. E ele ainda falou isso com um maldito sorrisinho no rosto!
— Quer nadar? — perguntei já o puxando pela mão e correndo em direção a praia.
Nico ainda reclamou sobre alguma coisa que não dei muita atenção. Passamos pelo píer que ficava no lago de canoagem e pelo riacho euros e finalmente chegamos à praia. A manhã estava com um sol gostoso e não ventava, o que era bom já que não ficaríamos com frio em excesso.
— Eu não estou vestindo e nem trouxe roupa de banho! — Nico reclamou franzindo o cenho.
— E daí? Fique apenas de cueca... Ou sem nada mesmo — brinquei sorrindo e vi, satisfeito, Nico enrubescer e desviar o olhar.
— Idiota — falou escondendo um sorrisinho.
Terminei de tirar minhas roupas, ficando apenas de cueca, e esperei Nico terminar de retirar as suas. Observei o corpo magricela e pálido do menino e (de novo) me peguei pensando no quanto a vida é engraçada. Como que eu fui me apaixonar por ele? Ele é meu exato oposto, ranzinza e sarcástico. Realmente, não escolhemos quem amamos... Só acontece.
— É um fantasminha mesmo — brinquei referente à sua palidez. Nico apenas revirou os olhos e entrelaçou suas mãos na minha.
Certo (parte dois)... Surpresa foi pouco para o que eu senti quando Nico tomou essa atitude. Meus olhos se arregalaram levemente e um sorriso bobo estampou meu rosto. Nico estava realmente focado em melhorar suas atitudes comigo e isso me deixou imensamente feliz.
Num movimento rápido eu puxei o garoto joguei-o em meus ombros, como faziam com sacos de batatas, e corri com ele esperneando, me xingando e gritando para descê-lo, até a água gelada. Joguei o corpo dele no mar e logo em seguida mergulhei, me arrepiando por inteiro por conta da água gelada.
— Eu vou te matar! — escutei Nico gritar comigo assim que emergi e então ele pulou em minha direção.
Acho que intenção dele era me afogar, mas assim que ele apoiou as mãos em meus ombros e forçou meu corpo para baixo, eu apenas afundei puxando seu corpo pela cintura. Oras, se ele queria tanto me afogar, tudo bem, mas ele iria junto...
— Você está tentando definitivamente me matar — comentou assim que conseguiu respirar novamente.
— Claro que não...
Os cabelos dele estavam grudados em seu rosto e as bochechas estavam róseas pelo frio, tinha um sorriso bonito no rosto, um daqueles que quase não se via em sua face, e as risadas dele eram inéditas.
Só talvez, talvez, naquele momento eu tenha me apaixonado um pouco mais por ele.
Nadei até ficar próximo de Nico e descansei minha mão em sua bochecha. O moreno continuou sorrindo para mim e não pude deixar de sorrir de volta.
— O que foi?
— Nada não — respondi sincero.
Rocei nossos narizes, num daqueles beijos de esquimó, e então beijei Nico com ternura. Ah esses nossos beijos franceses³ sempre me tiravam o fôlego! Os braços dele estavam ao redor de meu pescoço e suas pernas se encontravam envolta de minha cintura, minhas mãos seguravam sua cintura e nossas línguas se acariciavam em plena sintonia.
Suguei sua língua e depois passei a dar vários beijos delicados em seu rosto, no famoso beijo reticências. Nico riu e me abraçou, me surpreendendo mais uma vez no dia, e eu pude sentir as batidas aceleradas de nossos corações se misturarem.
— Me desculpe de novo... Sou um idiota mesmo — falou com o rosto em meu pescoço. Limitei-me a revirar os olhos e afastei um pouco Nico de mim, apenas para que ele me olhasse nos olhos.
— Você não é um idiota — falei sorrindo — Apenas agiu precocemente, mas tudo bem. Depois daquela nossa conversa esclarecedora, eu sinto que agora tudo vai dar certo.
Nico suspirou e me abraçou de novo.
— Eu gosto muito de você, Will — falou me apertando em seus braços — Muito mesmo... Eu nem sabia que era possível gostar tanto de alguém. Eu me apavorei demais quando você quis terminar tudo entre a gente... Me senti sufocado e desesperado, meu coração se apertou de um jeito estranho e confesso que passei boa parte do dia tentando me imaginar longe de você. Quer dizer, mais tempo do que já tínhamos passado...
Certo (parte três)... Eu não esperava aquela ‘declaração’ de Nico. Não mesmo! O que aconteceu com esse menino?! Da noite pro dia ele simplesmente mudou da água para o vinho, nem o reconheço mais. Falando tão abertamente sobre o que ele sente? Me abraçando por vontade própria e tomando atitudes nunca antes tomadas?!
Eu estava tão embasbacado com tudo isso que quase não percebi quando Nico se afastou de mim, cruzou os braços e me encarou debochado.
— Está tão chocado assim, Solace? — perguntou sorrindo cínico — Se for continuar a fazer essa cara de idiota que está fazendo agora, eu vou embora.
— Não estou chocado, di Angelo — sorri — Estou apenas feliz em saber o quão importante sou pra você!
Nico sorriu pequeno e sustentou meu olhar. Passamos o resto da manhã entre guerras d’água e beijos molhados.
Eu não diria tão cedo para ele, mas eu já o amava ardentemente.*
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