Preto é a Cor do Amor
9 Amar dói
Notas iniciais
– Will
– Will... – ouvi uma voz sussurrar meu nome.
Eu senti que conhecia aquela voz de algum lugar, mas não consegui reconhecer. Tentei andar em direção a pessoa, mas alguma coisa me segurava no lugar, minhas pernas doíam muito e o local estava muito escuro para eu conseguir enxergar o rosto de quem falou.
– Will... – escutei a voz dessa vez mais próxima a mim – M-Me ajuda Will... – suplicou sem forças.
Tentei me levantar, mas minhas pernas estavam presas em algo extremamente pesado. Um desespero começou a tomar conta do meu ser. A simples ideia de não conseguir ajudar quem me pedia me assustava de tal maneira que me sufocava incessantemente. Ouvi um grito de dor e então as luzes foram acessas.
A primeira coisa que vi foi um espelho ao me lado, me assustei quando percebi que a pessoa refletida ali era eu. O rapaz, eu, estava magro demais, meus cabelos estavam oleosos e sem vida, olheiras profundos se encontravam abaixo dos meus olhos e minhas roupas eram totalmente pretas. Pretas! Notei também que minhas pernas estavam presas embaixo de um bloco enorme de concreto, doía demais tentar mexê-las e percebi sangue escorrendo por debaixo da pedra.
Desviei os olhos assustado com a imagem e encontrei quem me pedia ajuda. Um rapaz um pouco mais baixo que eu, cabelos negros bagunçados, pele pálida e corpo esguio se encontrava estirado no chão. Seu braço direito, todo machucado assim como todo o resto de corpo, estava esticado tentando me alcançar e eu já não consegui identificar se ele respirava. Analisei as roupas negras rasgadas e com um espanto percebi quem era.
Tentei chamar o nome dele, mas nenhum som saiu. Apenas o barulho de um grito de dor e a escuridão me engolindo.
Acordei assustado pelo sonho. Meu corpo inteiro tremia e suava frio, minha garganta doía de tão seca e flashes do sonho ainda estavam vívidos quando eu piscava. Levantei cambaleando e andei até o banheiro, joguei um pouco de água gelada no meu rosto e voltei para meu quarto. Sentei na minha cama e olhei para a janela fechada, o céu ainda estava meio escuro, mas ao olhar o relógio vi que logo amanheceria. Resolvi tomar meu banho e assistir ao nascer do sol.
Demorei cerca de dez minutos na banheira, ainda tentando esquecer o sonho perturbador que tive. Eu não era muito acostumado com pesadelos. Vesti uma calça jeans azul, blusa pólo branca e uma jaqueta de couro. Peguei minha mochilapreta com meu material, uma maça e sai de casa. A rua estava com pouco movimento, às lojas e padarias da região ainda estavam fechadas, os pássaros ainda dormiam em seus ninhos e a calmaria atípica me relaxava.
O vento frio bagunçava meus cabelos, o cheiro de terra molhada preenchia meus pulmões e os poucos pingos da chuva fina me faziam sorrir bobamente. Andei vagarosamente até o uma praça esquecida, um espaço razoável, com a grama rala, alguns bancos de concreto e brinquedos quebrados. Sentei num banco e observe o nascer do sol, os primeiros raios solares tocaram meu rosto e eu aproveitei isso para renovar meu animo. Às vezes acho que faço fotossíntese, porque quando o Sol toca minha pele eu sinto uma paz enorme, a sensação de calor e aconchego que eu sinto não se compara a nada.
Passei cerca de meia hora apenas de olhos fechados, aproveitando a sensação maravilhosa do sol tocando a minha pele, que quase não escutei meu celular tocando.
– Diga – falei distraído.
– Onde você ta garoto? – meu pai perguntou – São seis e meia e a empregada que foi te chamar me disse que você não estava na cama!
– Acordei mais cedo e vim ver o nascer do sol... Relaxa que eu não fugi – ri da preocupação de Apolo.
– Não se atrase pra escola – falou desligando o celular.
Guardei o celular no bolso e levantei. Resolvi andar calmamente até a padaria mais próxima, no caminho reparei as pessoas já saindo de sua casa indo ao trabalho e alguns estudantes indo para o ponto de ônibus. O cheiro de pão fresco invadiu minhas narinas e eu entrei na padaria mais próxima.
Sei que começar o dia comendo donuts recheados não é saudável, mas quando você entra na loja e vê vários deles fresquinhos e chamativos, não tem como não comprá-los. O mundo ficou até mais coloridos quando eu mordi aquela rosquinha transbordando calorias. Sentei numa das mesinhas que ficam espelhadas na frente da padaria e observei o todos que passavam por lá. Um rapaz esguio e pálido passou correndo pela rua e trombou com outra pessoa, eu riria se não tivesse percebido que era Nico.
O moreno acabou derrubando um pequeno caderno preto na rua, mas não percebeu. Pediu desculpas ao desconhecido e saiu correndo para uma direção desconhecida. Fui até o caderno e vi que estava cheio de anotações, rabiscos e uma foto. Nela estavam três pessoas, Nico mais novo, devia ter cerca de 5 anos de idade, uma menina parecida quatro anos mais velha que ele e uma mulher parecida com a menina. Todos sorriam verdadeiramente. Na parte de trás, estavam escrito os nomes das pessoas. Nico, Bianca e Maria di Ângelo.
Sei que é errado, mas uma profunda vontade de ler o que estavam escrito naquele caderno preto me tomou. Mas havia um pequeno problema que me impedia de ler e entender o que havia lá. E o motivo era porque tudo estava escrito em italiano. A caligrafia dele era arredondada, e estranhamente encantadora. Folheei todo o caderno, e tudo escrito nele era em italiano!
Até eu chegar a ultima folha escrita e perceber algo escrito em letras pequenas, escondido num canto, num inglês legível, duas palavrinhas me fizeram arregalar os olhos e fechar o livro decidido a não tentar lê-lo mais. Duas palavras que explicavam o sentimento de muitas pessoas por ai, que era a verdade de quase todos.
Amar dói.
~*~
– Cadê o Nico? – perguntei para Annabeth que se sentava ao meu lado agora.
Pois é, desde a briga dela e de Percy, há quase uma semana, eles vem se evitado por isso eu estou sentando ao lado dela e Percy ao lado de Nico. Percy estava sempre cabisbaixo pelos cantos, e Annabeth se fingia de forte para não mostrar o quanto estava mal por isso. Mas nenhum dos dois dava o primeiro passo para uma reconciliação.
A loira pensou um pouco e depois sem olhar abaixou em tristeza. Ela suspirou pesadamente e eu não entendi aquele ato.
– Hoje ele não vai vir... – comentou – É um dia muito pessoal pra ele...
Ergui uma sobrancelha e ela apenas negou com o olhar, seus olhos num tom cinza escuro e triste. Esperei ate o inicio das aulas e nada dele aparecer. O tempo parecia que andava querendo imitar uma lesma, se arrastava para minha completa agonia. Olhei para o professor de física e não conseguia me focar em suas palavras, minha mente vagava para um caderno preto que estava na minha mochila e meus dedos não paravam de bater na mesa, impacientes.
O professor me olhou mortalmente quando o sinal bateu e eu sai correndo gritando “viva!”, corri para minha casa, troquei de roupa rapidamente, coloquei meu uniforme de trabalho e sai correndo para a funerária, a fim de encontrar com Nico e entregar o caderno a ele. Mas a decepção só aumento quando a recepcionista me avisou que hoje eu teria que trabalhar sozinho, já que Nico não iria aparecer. Frustrado caminhei a passos pesados até a sala onde arrumávamos os mortos e me sentei na cadeira olhando entediado para a papelada do ultimo senhor que havia passado por lá. Eram tantos documentos para serem assinados que eu me perguntei como Nico conseguia lidar com tudo aquilo.
E mais uma vez as horas pareceram se arrastar durante a tarde inteira. De cinco em cinco minutos eu olhava para o relógio e me decepcionava quando não via nenhuma mensagem ou ligação de Nico... Mas porque ele deveria me ligar? Nós não éramos tão próximos assim para ele me ligar toda vez que faltasse a escola e o trabalho, nem para me chamar quando precisasse... Então, porque eu queria e esperava que ele me ligasse?
Quando deu o horário para ir embora eu agradeci mentalmente por finalmente poder ir para casa e descansar. O tempo estava escuro, ventos frios balançavam as árvores das calçadas, uma garoa fina caia e a lua brilhava no céu. Eram sete horas da noite e um temporal ameaçava cair a qualquer momento. Senti meu telefone vibrar e atendi num suspiro cansado, a única coisa que eu queria agora é ir pra casa descansar.
– Will? – escutei meu pai falar – Pode passar no mercadinho que tem ai perto? O que é quase vizinho ao cemitério?
– O que quer que eu compre? – perguntei desanimado e olhando preocupado para o céu que ficava ainda mais carregado.
– Apenas molho de tomate, Martha esqueceu de comprar... – riu – Faça esse favor filho e não demore, vai chover.
Desliguei o celular e fui até o mercadinho a passos rápidos, a chuva que eu queria evitar já havia começado a cair com força. Para minha sorte ele não estava cheio, logo comprei o molho e quando estava indo embora e passando na frente do cemitério escutei um barulho estranho vindo de dentro dele. Algo dentro dele me chamava silenciosamente, me atraia e me fez andar sem perceber para onde estava indo. Parei quando vi um corpo sentado ao lado de um túmulo, a pessoa tremia pelos soluços do choro, mantinha a mão em cima da base de concreto e a outra num colar preso ao pescoço. Seu corpo pálido estava escolhido, seus cabelos negros grudavam no rosto e a mochila estava caída ao lado. Um buquê de lírios brancos se encontrava no túmulo.
– Nico? – chamei incerto.
O moreno levantou os olhos inchados e vermelhos e se assustou quando me viu parado a sua frente.
– O-O que faz aqui?! – perguntou com a voz frágil.
Ele passava uma imagem tão frágil de si mesmo que eu senti que deveria o proteger do mundo cruel e manipulador que habitávamos. Eu senti a necessidade de tomá-los em meus braços e nunca mais soltá-lo. Eu queria protegê-lo de tudo e de todos.
– Não sei... – falei – Algo me disse apara entrar no cemitério e em vim parar aqui...
O moreno me analisou e depois voltou a olhar para o túmulo da pessoa. Cheguei mais perto e li o nome ali escrito.Bianca di Ângelo. Imediatamente me lembrei da foto no caderno preto de Nico e entendi que jamais conheceria a irmã dele.
– Ela era uma boa irmã... – sussurrou. A chuva caia a cada hora mais forte, raios e trovões quebravam o silencio da noite e iluminavam a noite escura. O cemitério estava escuro e silencioso, apenas nós dois estávamos nele.
– Quando...? – perguntei.
– Hoje faz um ano – falou olhando o túmulo de Bianca e depois olhou para o tumulo ao lado, que agora percebi conter um buque de copo-de-leite.
Maria di Ângelo.
Assombrado entendi que ele só tinha o pai. Entendi o motivo dele usar preto. Entendi o motivo dele ser tão ranzinza e calado. Ele ainda estava de luto.
– Faz dois anos que ela se foi... – comentou ainda frágil se referindo a mãe.
Vi os lábios dele meio arroxeados e seu corpo tremia de frio. A água da chuva estava realmente fria. Tirei o casaco que usava e coloquei sobre seus ombros, Nico me olhou assustado e ergueu uma sobrancelha.
– Vamos... Você vai ficar doente se continuar a tomar chuva – sorri acolhedor para ele.
Ele acenou e andou ao meu lado, ainda tremia, mas agora estava menos do que antes. O caminho até nossa rua foi quieto, eu senti como se ele precisasse de um tempo sem conversar para se acalmar um pouco. Para qualquer coisa eu estaria ao seu lado.
– Não quer ficar um pouco aqui em casa? Acho que Martha está fazendo macarronada... – falei sincero e preocupado com o moreno – Pode tomar um banho quente aqui, pedi pra lavarem aqueles suas roupas...
O moreno suspirou e aceitou o convite. Entreguei o molho para Martha e avisei que teríamos uma visita para o jantar, falei para Apolo que um amigo meu do colégio iria jantar conosco e não recebi nenhuma reclamação a respeito. Subi com o moreno para o quarto e lhe entreguei as roupas limpas e dobradas, que estavam separadas num canto para eu entregar ao dono.
– Nico, se quiser conversar eu vou estar aqui... – falei – Eu vou sempre estar aqui se precisar.
Ele me olhou, deu um sorrisinho triste e fechou a porta do banheiro.
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