Preto é a Cor do Amor
20 Advertência
Notas iniciais
— Will
Eu olhava para a mulher a minha frente de boca aberta. Ela não era nada parecida com meu pai, Apolo.
Seus longos cabelos castanho-avermelhados estavam presos num rabo de cavalo alto, rosto delicado com traços finos e porte elegante, vestia uma roupa simples, aparentava não ligar muito para coisas matérias como Apolo, mas o que mais me intrigou foi seu olhar. Seus olhos eram de um tom de azul quase prateado, lembrando muito o brilho lunar, e transmitiam uma frieza e autoridade que eu jamais tinha visto na vida.
Definitivamente nada parecida com Apolo.
— E porque aqui na minha casa? — escutei meu pai perguntar e só então percebi que os dois conversavam sobre algo, enquanto eu ficava imerso em devaneios sobre minha tia.
— Ora, eu não quero que minha amiga gaste dinheiro desnecessário. Até ela conseguir arranjar um emprego, ela vai ficar aqui na sua casa — respondeu. Sua voz emitia uma certeza que não dava brechas para perguntas ou negações.
— E se eu não quiser hospedá-las? — Apolo cruzou os braços.
— Irmão, eu vou repetir bem lentamente para você entender — Ártemis disse — Minha amiga, que está precisando de ajuda, vai ficar alguns dias na sua casa até que ela consiga se estabilizar. Depois disso você vai poder voltar a sua rotina.
— A questão é querida irmã, que eu não estou conseguindo entender o porquê eu! — indagou Apolo — Você tem dinheiro para alugar um apartamento para ela! E também se me lembro bem, quando você saiu de casa para viver suas aventuras no meio do mato, você disse que nunca mais nos veríamos e que não precisaria ficar perto da presença de homens indignos!
— Ela não quis meu dinheiro, você acha que eu já não ofereci?! — Ártemis respondeu, calma e controlada — Depois de horas discutindo ela se lembrou que eu tinha um irmão morando aqui... E isso nos rendeu mais algumas horas discutindo... Por fim, ela ganhou.
— Ártemis, eu não vou negar ajudar a essa sua amiga e a mãe dela, mas eu gostaria que da próxima vez você viesse me visitar porque sentiu saudades — Apolo sorriu meio triste, eu apenas observava parado na porta da sala — Lembra de quando éramos pequenos? Éramos irmãos e amigos naquela época. O que mudou?
— Tudo — escutei a voz fria de Ártemis — Ela chega hoje à noite, por volta das oito deixá-las-ei aqui.
A mulher pegou sua mochila, que até neste momento eu não havia notado e saiu de casa, meu pai suspirou abalado e se sentou na poltrona da sala. Andei até meu pai e me abaixei olhando-o, suas mãos tampavam seu rosto e ele estava inclinado para frente.
— Pai? — chamei.
Apolo respirou fundo e se levantou da poltrona, seus olhos aparentavam cansaço e seu sorriso era forçado.
— Vou falar para Martha fazer mais comida, afinal hoje a noite teremos visitas — sorriu e andou em direção a cozinha.
Apenas suspirei e fui para o meu quarto, me jogando de qualquer jeito na cama. Estava cansado demais.
~*~
— Senhor Will — escutei uma voz feminina e suave me chamar na porta do quarto. Levantei da cama meio tonto de sono e abri a porta, me deparando com Mary, uma das empregadas de casa que eram tão silenciosas que por vezes eu esquecia que existiam — Seu pai pediu para que se ajeitasse que as convidadas estarão chegando em breve.
— Ah obrigado, Mary — falei sorrindo e fechando a porta.
Separei uma roupa simples e confortável e tomei uma ducha rápida, apenas para despertar, ajeitei rapidamente meus cabelos e desci as escadas. Escutei vozes vindas da sala e me adiante até lá. Três pessoas estavam sentadas nos sofás, sendo uma delas, meu pai.
— Filho — escutei a voz do homem soar no ambiente — Estão serão nossas hospedes por algum tempo.
— Prazer, sou William — falei sorrindo. Não me atrevi a perguntar de Ártemis, não era hora para questionar meu pai sobre o ocorrido de mais cedo.
A mulher mais jovem se levantou e andou em minha direção. Seu sorriso caloroso e olhos cor castanho chocolate cativavam qualquer um, era alta, magra e de aparência pálida, mas isso a deixava ainda mais bela. Seu vestido colorido era rodado e seus longos cabelos pretos ondulados davam a mulher um ar gracioso.
— Olá William — sua voz melodiosa soou e eu sorri mais ainda — Sou Perséfone. E esta, — falou apontando para a mulher mais velha ainda sentada no sofá — É minha mãe Deméter.
— Boa noite — a outra falou com um sorriso contido.
De fato a semelhança entre as duas era visível. A mãe, Deméter, tinha os cabelos na altura dos ombros, mas igualmente negros. Seus olhos eram da cor castanho escuro e as marcas de expressão no rosto denunciavam a idade mais velha. Seu longo vestido verde dava uma elegância para a mulher mais velha, e sua postura confirmava as aulas de etiqueta que ela provavelmente teve quando jovem.
A noite foi bem agradável, Martha havia caprichado no jantar e meu pai fazia questão de não deixar que o silêncio prevalecesse na mesa. Perséfone disse que havia vindo para Nova Iorque para aprimorar seu conhecimento sobre floricultura e tentar abrir um negócio próprio, e sua mãe veio junto para apoiar a filha. Era incrível como ela conhecia todos os tipos de flores e a maior parte do jantar foi Perséfone falando sobre as flores.
Deméter reclamava que não tinha nenhum tipo de cereal na mesa.
Depois que o jantar acabou, os três ainda ficaram conversando na sala enquanto eu subi para meu quarto. Eu necessitava a minha cama.
~*~
A terça-feira passou entediante. Os professores passando vários seminários e provas, Drew me provocando a cada minuto possível quando nos encontrávamos no corredor/refeitório/sala, Percy falando o quanto seu cachorro Sra O’Leary estava brincalhona e enorme e Leo com suas piadinhas fora de hora e seu novo crush, Calypso.
Eu já não provocava tanto o Nico na escola, até porque ele fazia parte do Grêmio Estudantil e tinha que dar o exemplo, e não ficar se agarrando comigo na sala de aula. Por isso que todas as tardes depois do colégio eu passava na casa do moreno. Às vezes não fazíamos nada, ficávamos apenas em silêncio, mas isso já era o suficiente para mim. Eu já não conseguia ficar longe de Nico e isso me incomodava.
Afinal, tinha uma paixão platônica pelo moreno, mas isso já estava chegando a proporções catastróficas. Para minha sanidade, digo. Nico me enlouquecia apenas com um olhar, e ele nem fazia ideia disso!
— Will — escutei a voz de Leo me chamando. A sala já estava vazia e apenas o moreno me esperava — Estava bem distraído, não? O sino já tocou tem cinco minutos.
— Oh... Eu nem escutei — ri constrangido. O moreno de cabelos cacheados e feições élficas sorriu travesso.
— Leo. Vamos? — escutei a voz de Calypso na porta. A menina usava roupas simples e cabelos meio bagunçados, aparentava ter corrido — O treinador Hedge está esperando você ir lá e consertar o megafone dele.
— Mas ficou tão legal com as minhas modificações! — escutei Leo falar brincalhão. A menina sorriu.
— Ele não conseguiu nem dar aula Leo. Precisava ver o rosto vermelho de raiva dele — disse.
Eu apenas meneei a cabeça. Aquilo era bem a cara de Leo.
Levantei de meu lugar e cumprimentei Calypso quando passei ao lado dela na porta. Andei calmo até o banheiro e vi Drew andando com seu grupo de amigas, um grupo formado de quatro meninas patricinhas e metidas, e mais que imediatamente entrei no banheiro masculino.
— Nico? — perguntei assim que me deparei com o moreno lavando as mãos.
Nico me olhou e ergueu uma sobrancelha, eu andei até o moreno e circulei sua cintura com minhas mãos. Meu sorriso era um tanto malicioso, e só então o moreno percebeu o que pretendia fazer.
— Will, eu não...! — tentou se afastar. Eu apenas apertei minhas mãos na sua cintura.
— Shiu... Ninguém vai ver ou atrapalhar — sussurrei em seu ouvido, mordendo seu lóbulo.
Nico começou a andar para trás, ainda tentando se afastar. Imprensei o corpo do moreno na porta de uma das cabines e selei nossos lábios. Nico já estava começando a pegar o jeito, tanto que deixei que ele ditasse o ritmo do beijo, sua língua ganhava experiência e se atrevia a brincar com a minha, era um beijo calmo, até meio inocente, mas não deixava de ser bom. Minhas mãos ainda estavam em seu quadril de forma possessiva, já as de Nico uma estava segurando minha cintura enquanto a outra brincava com meus cabelos na nuca.
Escutamos alguém arfar na porta e Nico mais que rapidamente me empurrou, quebrando o beijo. Praguejei amaldiçoando a pessoa que havia entrado no banheiro, mas quando nos viramos para a porta, não havia ninguém.
— Acho melhor sairmos — a voz de Nico estava baixa e ele olhava para os lados como se houvesse cometido um crime. Ri com aquilo.
— Também acho. Não vou me responsabilizar por meus atos caso continuarmos aqui — falei.
Nico corou levemente e saiu do banheiro.
~*~
Estávamos na aula de história geral, Quíron explicava alguma coisa no quadro, quando excutamos a voz de Dionísio no alto-falante.
Willian Solace e Nico di Ângelo. Compareçam a minha sala, AGORA.
A voz do diretor estava impaciente, parecia estar estressado. Quíron parou a explicação da matéria e olhou para nós dois.
— Podem sair senhores — se pronunciou.
Nico mantinha sua expressão neutra e em nenhum momento se mostrou abalado ou confuso, o que já era o total oposto de mim. Eu estava de cenho franzido e uma cara totalmente surpresa. Escutei alguns murmúrios dos alunos e Quíron os mandou fazerem silêncio imediatamente. Andamos apressados até a sala de Dionísio e quando entramos, encontramos o homem gorducho e baixinho, vestido com uma blusa de sua coleção “brega”, sentado na sua cadeira, folheando algumas folhas, cenho franzido e bochechas coradas.
— Nos chamou senhor? — Nico perguntou assim que entrou na sala.
— Sentem-se — ordenou e então eu e Nico nos sentamos nas cadeiras de frente a grande mesa dele.
— O que...? — tentei falar, mas o olhar que Dionísio me mandou e fez calar na hora.
— Senhor di Angelo — começou — Você faz parte do Grêmio, não faz?
Nico assentiu.
— O senhor sabe de todas as regras da escola, não sabe? — e de novo Nico assentiu positivamente — E sabe também que os membros do Grêmio devem dar o exemplo para todos os estudantes, certo?
— Sei de tudo isso senhor — Nico respondeu.
— E porque é que hoje, eu recebi uma denuncia dizendo que você estava aos beijos com o senhor Solace? — perguntou fingindo falsa calma. Nico arregalou minimamente seus olhos e eu arfei surpreso.
— Senhor, não é o que...! — tentei defender Nico, mas o diretor bateu na mesa assustando a mim e a Nico.
— Eu não admito que me interrompam! — brandiu vermelho — Quatro alunas vieram até minha sala hoje no intervalo e me mostraram fotos de vocês dois no banheiro masculino. Disseram que escutaram barulhos suspeitos vindo de lá e quando viram, eram dois alunos aos beijos!
O homem se levantou da cadeira e andou até a enorme janela que dava vista para o enorme pátio da escola.
— Darei uma advertência para cada um de vocês — falou olhando a janela. Nico abaixou o olhar e eu e senti culpado pela advertência do moreno — Senhor di Angelo, espero ser a primeira e última vez que isso tenha acontecido. Não quero ter que escutar reclamações de um aluno considerado como exemplar.
— Sim senhor — falou baixo. Dionísio entregou um papel a cada um de nós e então voltou a admirar a paisagem do pátio, agora vazio.
— Nico — o diretor o chamou, Nico parou na porta da sala — Sabe que se você levar três advertências e conseqüentemente uma suspensão será expulso do Grêmio.
Nico abaixou o olhar e saiu da sala do homem. O caminho até a sala de aula foi silencioso, Nico olhava para frente, sempre com a expressão de indiferença no rosto enquanto eu mordia minha língua para não acabar falando qualquer coisa com o moreno.
Quíron não parou a aula quando pedimos desculpas e entramos na sala, mas assim que meus olhos focaram em Drew e seu sorriso debochado eu soube que tinha sido ela quem tirou a foto e nos denunciou para Dionísio.
A morena não estava focando em mim para ser seu alvo de vingança, como eu pensei que faria, e sim focando em Nico. E o pior de tudo, era que o moreno não tinha nada a ver com a história toda!
Fechei a cara demonstrando todo meu descontentamento com a atitude infantil da menina e sentei em meu lugar. No mesmo momento recebi uma mensagem no telefone. Quando li de quem era sorri automaticamente, era Matt.
WILLIAN, EU PRECISO DE VOCÊ!!!!!
No mesmo instante meu sorriso morreu e eu gelei. Naquele momento eu senti que tinha algo errado com meu melhor amigo.
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