Preto é a Cor do Amor
16 Piquenique e ajuda inesperada!
— Will
— Sabe que horas são?! – escutei sua voz lenta e sussurrada me perguntar, irritado.
Ri da cena de Nico estirado na cama em baixo das cobertas e me joguei em cima do moreno.
— Sei – comentei tirando a coberta do seu rosto – São oito horas da manhã de um domingo lindo, ensolarado e perfeito para um piquenique no Central Park!!
Nico me empurrou de sua cama e se levantou emburrado, estava apenas com uma calça de moletom preta, seu peitoral exposto mexia conforme sua respiração calma e seus cabelos bagunçados estavam grudados em seu rosto, que ainda estava amassado pelo sono profundo de minutos atrás.
— Aliás, quem te deixou entrar? – perguntou me olhando irritado e se voltando para seu guarda roupa.
— Segundo Isa, eu já sou de casa! Bati na porta e ela logo me deixou entrar – sorri me esparramado na cama do moreno. Seu cheiro invadia minhas narinas e eu adorava me afogar em seu aroma.
— Ah Isa... – Nico suspirou – Como conseguiu tanta afinidade com ela?!
— SE-GRE-DO! – ri de Nico revirando os olhos. Na verdade desde a primeira vez que eu havia ido a casa de Nico, Isa havia me passado um sentimento bom de calma, e quando começamos as aulas de italiano eu sempre conversava com ela nas horas que Nico ia tomar banho ou fazer qualquer outra coisa só pra me largava sozinho. Sobre as aulas de italiano... Digamos que eu era um péssimo aluno e Nico desistiu de tentar me ensinar.
Olhei o moreno e vi que ele apenas fingia escolher uma roupa, revirei os olhos e num movimento rápido pulei de sua cama e andei até ele a passos rápidos.
— Vai logo tomar banho, depois vê a roupa que vai vestir – falei o empurrando para a porta do banheiro. Nico protestou e tentou se livrar de minhas mãos que o forçavam para o cômodo, mas percebeu que o esforço era inútil – Quero você bem cheiroso, viu?! – brinquei.
— Vai se ferrar Solace! – esbravejou fechando a porta na minha cara.
— Oe quase socou a porta no meu nariz! – protestei.
Soltei o ar dos meus pulmões e resolvi ir até a cozinha, Isa deveria estar lá preparando algumas coisas para levarmos ao piquenique, embora eu tenha falado que Martha já o havia feito. Entrei no cômodo e sorri para a imagem da senhora de idade, cantarolando uma música a qual eu não conhecia, sorrindo e fazendo sanduíches naturais.
— Isa eu falei que não precisava fazer nada! – sorri para a mulher com os olhos marrons mais brilhantes e carinhosos que eu já vira na vida.
— Oh querido, estou apenas reforçando o lanchinho de vocês... Não sei se vai voltar para o almoço então é melhor prevenir, não? – riu. Uma risada baixa e suave e acabei sorrindo para ela.
Isa me lembrava muito minha mãe, Nora, na época em que eu não dava estresse excessivo para ela. O brilho alegre no olhar, o sorriso sincero... De repente uma súbita vontade de ligar para ela e pedir perdão por minha atitude infantil antes de partir de Malibu tomou conta de meus pensamentos. Suspirei meio melancólico e cocei os cabelos ondulados.
— Menino – escutei Isa me chamar, ela andou rapidamente até a porta da cozinha e se certificou se Nico estava vindo – Há muito tempo não vejo o senhor Nico trazendo amigos para casa, ouso dizer que desde a morte de Bianca eu nunca o vi sorrir feliz...
— Aonde que chegar Isa? – perguntei sem entender o motivo de ela ter começado a falar essas coisas.
— O fato é que eu estava acordada quando o senhor Nico chegou, vamos dizer que eu fiquei preocupada com ele, e foi à primeira vez que o vi sorrir verdadeiramente feliz – falou e eu arregalei meus olhos – Você faz bem a ele garoto, cuide de Nico, sim?
Demorei um pouco para entender o que ela queria dizer com isso, senti meus lábios se repuxarem para um sorriso e então a abracei.
— Pode deixar que eu irei me esforçar para isso, Isa – falei abraçando-a apertado.
— Vai se esforçar pra que posso saber? – escutei a voz indiferente de Nico e soltei Isa rapidamente. A mulher riu.
Cocei meus cabelos rindo leve e analisei as roupas que Nico usava. Uma calça jeans azul escura com detalhes rasgados, blusa preta com o nome de uma banda de rock e tênis All Star preto surrados.
Seus olhos negros se encontraram com os meus e ficamos perdidos um no olhar do outro. Nico arqueou uma sobrancelha em confusão para mim, e eu gravei cada pequeno detalhe do rosto fino e pálido do rapaz a minha frente.
— Tudo pronto meninos! – Isa falou alegre quebrando meu contato visual com Nico e me estendeu a cesta que eu havia trago, já com alguns lanches – Divirtam-se!
Agradeci pegando a cesta e segui Nico até a porta de saída. Estava animado, isso estava claramente estampado no sorriso bobo que não saia dos meus lábios, seria a primeira vez que eu faria um programa tão básico e aqui em NY.
— Percy já me enviou uma mensagem falando que só falta a gente lá – comentei dando partida no carro.
— E quem ta lá? – escutei ele perguntar, seus olhos estavam presos na tela de seu celular.
— Os de sempre, Nico – ri – Percy, Annabeth, Jason, Piper, Hazel, Frank e Leo – listei.
— Hm – escutei o moreno resmungar e colocar os fones de ouvidos.
Me concentrei o caminho inteiro nas ruas movimentadas e não mais olhei Nico, hora ou outra eu sentia seu olhar sobre mim, mas não me atrevia a retribuir. Quando chegamos mandei uma mensagem a Percy dizendo que havíamos chegado e pedindo a localização exata de onde eles estavam. Nico me acompanhava quieto, os fones estavam tocando uma música alta, pelo som deveria ser rock, ele olhava para todos os lugares como se tivesse se lembrando de algo agradável que ocorrera lá. Seu olhar estava distante, num passado melhor que o atual presente e um sorrisinho surgiu em seus lábios.
— Olha lá eles – comentei sorrindo bobo.
Percy e Annabeth jogavam frisbee, Hazel lia um livro com Frank repousando a cabeça em seu colo quanto conversava animadamente com Leo e Jason. Piper arrumava a toalha de piquenique. Eles estavam de baixo de uma árvore frondosa, seus galhos eram longos e suas folhas eram de um verde vivaz.
— Bom dia pessoal! – falei assim que cheguei perto deles. Todos sorriram e me cumprimentaram junto de Nico e o moreno respondia educadamente.
Vi Hazel o abraçar e Nico retribuir o afeto da menina. O moreno beijou-lhe a testa carinhosamente e sorriu olhando-a. A cena era tão bonita que eles não haviam reparado que todos olhavam para eles.
— Trouxe sanduíches naturais e uma torta de maça que Martha fez! – falei entregando a Piper a cesta.
— Oh Will – ela disse assim que tirou a torta da cesta e a desembrulhou – Está tão bonita! Martha deve ter se esforçado muito para fazê-la – disse gentil. Piper sempre era gentil, ao contrário da sua irmã, Drew.
Começamos a conversar, sempre rindo das piadas bobas de Leo, eles eram tão descontraídos e companheiros que sentia que nos conhecíamos desde sempre. A manhã estava tão agradável que não notei as horas passarem até meu celular tocar e eu verificar que já eram 10:30 a.m.
Era Matt.
— Fala Matt! – falei assim que atendi o celular. Escutei o barulho de algo caindo e logo depois a voz do meu amigo praguejando mil e um xingamentos.
— Esqueceu dos amigos daqui, foi?— perguntou assim que se acalmou. Ri.
— Claro que não. É que aqui ‘tá tudo muito corrido... – falei olhando para o pessoal que riam e conversavam animados. Nico apenas observava a todos.
— Hm sei... E como que ‘tá com o garoto?— perguntou. Suspirei ainda olhando fixamente para Nico e todos os mínimos movimentos que ele fazia.
— Ah cara... Sabe como é... ‘Tá indo. Ele disse ontem que não gosta daquela pessoa, não sei se devo criar expectativas – desabafei. Escutei Matt rir divertido e logo depois buscar o ar, conhecendo-o bem como conheço, ele deveria estar esparramado na cama com a cara vermelha pelo riso exagerado.
— Que droga Will! Como eu queria ‘tá ai pra ver essa tua cara de idiota apaixonado que eu sei que ‘tá fazendo!— riu mais um pouco — Nunca imaginei que viveria pra presenciar Willl Solace se apaixonando, uma dica cara, seja você mesmo que ele logo, logo, vai estar de quatro pra você!— e riu.
— Idiota – xinguei-o sorrindo – Valeu, irmão.
— É sério! Se eu fosse gay te pegava de jeito, seu loiro gostoso!— brincou — ‘Tá fazendo o que?
— ‘Tô no Central Park, fazendo um piquenique com alguns amigos – respondi.
— Realmente, ir pra NY te mudou completamente... Só espero que não me esqueça. Se não vou ai te dar uns socos na fuça!— brandiu.
— Calma Matt, eu nunca vou esquecer a nossa amizade. E meu pai não é tão idiota como eu pensei que fosse, é até legal conviver com ele, ‘cê tem que conhecer...
— Dona Nora tava me falando dele esses dias... Disse que por mais que ele possa parecer bagunceiro, era responsável. Acho que se não fosse, ela não teria de mandando pra ele e sim pra um reformatório!— brincou. Sorri nostálgico, sentia falta dessas brincadeiras de Matt e de suas façanhas que sempre nos metiam em problemas.
Olhei de canto de olho Annabeth me olhar e sorrir e percebi que ela viu meu olhar diretamente direcionado para um moreno que estava alheio a conversa deles. Nico mexia no celular com os fones no ouvido. Corei um pouco com o sorriso da loira e desviei minha atenção para algumas pessoas que estavam fazendo caminhada.
— Tenho que ir Matt, mais tarde a gente se fala – comentei.
— Tudo bem, vai lá ficar perto do teu homem! Até outro dia, Will!— se despediu rindo, me fazendo rir também.
— Até amigo – disse desligando o celular.
Voltei para o pessoal que estavam deitados na grama e me sentei ao lado de Nico. Annabeth me olhando sorrindo divertida. Desviei meus olhos dos dela e encontrei os de Piper me olhando cheios de expectativas. Jason, Hazel e Frank também me olhavam. Hoje todos resolveram me encarar de um jeito estranho? Os únicos que não me encaravam era Percy que estava de olhos fechados descansando e Nico que ainda mexia em seu celular, alheio a toda aquela intensa troca de olhar.
— Nico, você pode pegar o frisbee que caiu lá perto daquela árvore? – Hazel pediu sorrindo para ele.
— Porque eu? – perguntou levantando uma sobrancelha. Hazel abriu a boca para responder, mas Annabeth suspirou alto fingindo cansaço.
— Nico, você foi o único que ficou sentado, estamos cansados demais pra ir lá... Faz esse favor pra gente, por favor – sorriu cansada para ele.
O moreno revirou os olhos e se levantou andando calmamente até a outra árvore, que ficava um pouco distante da ‘nossa’ e eu suei frio ao notar os olhares pra cima de mim. Até Percy já estava com os olhos abertos me olhando. Acabei me lembrando do seu aviso há alguns dias atrás “se você fizer alguma coisa que o fará chorar, ficar triste ou até mesmo com o olhar desanimado eu te mato”. Engoli sem seco.
— O negócio é o seguinte Will – quem começou a conversa foi Piper – Todos aqui já sabemos.
Gelei.
— Sabem do que? – sorri amarelo. Nico ainda andava relaxado até o local do frisbee perdido.
— Não precisa negar Will, todos aqui te apoiamos – Hazel respondeu – Eu quero que meu irmão seja feliz, vejo pelo seu olhar que está disposto a dar essa felicidade a ele.
— Não sei como Nico não percebeu como você olha pra ele... – Frank comentou e levou uma cotovelada da namorada.
— ‘Tava tão óbvio? – perguntei baixinho, constrangido.
— Se até eu percebi é porque tava – Frank comentou e levou, de novo, outra cotovelada de Hazel.
— Will, nós não vamos discriminar você. Somos seus amigos e amigos de Nico também – Annabth sorriu – Seus olhos não mentem, você gosta do Nico, gosta muito dele.
— Estamos dispostos a te ajudar a conquistar o baixinho – Piper sorriu com um brilho confiante no olhar. Jason quando olhou para a namorada, soltou um riso contido – Solangelo vai ser real...— escutei a menina sussurrar animada.
— Não se anime muito Pips – comentou – Will, Nico é uma pessoa muito reservada, você é a primeira pessoa que ele deixou entrar sem nem um ano de amizade. Confesso que tenho até ciúmes, toda vez que converso com Nico no Whats ele só sabe dizer o quanto você o irrita.
Arregalei meus olhos.
— Se eu o irrito é porque ele não gosta de mim – abaixei o olhar, sem conseguir esconder o desanimo.
— Você não entendeu Will. Nico nunca, nunca, deixou alguém se aproximar depois de Bianca – Percy se manifestou pela primeira vez e senti a tristeza em sua voz.
Percy, Annabeth e Hazel tinham feições tristes e pela primeira vez me peguei curioso para saber como era Bianca.
—Como era a Bi... – não consegui terminar, pois Percy tossiu me avisando que Nico estava perto o suficiente para escutar a conversa.
— ‘Tá aqui o frisbee – devolveu a Percy – Tava bem longe ele... O que foi?
Percebi que todos olhavam de mim para Nico e vice versa e que o moreno havia notado também.
— Nada não, Nico – disse me levantando – Vamos ajeitar as coisas e ir lá pra casa logo, Martha já deve estar preparando o almoço.
Todos assentiram a começaram a guardar os restos de comida e as garrafinhas vazias de refrigerantes. Aos poucos o clima ficava mais agradável e aparentemente o assunto “Solangelo”, como Piper intitulou, não seria esquecido por eles tão facilmente.
Eu já não sabia se era bom ou ruim ter todos os meus amigos tentando me ajudar a conquistar Nico.
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