Preto é a Cor do Amor
2 O estranho rapaz de preto
Notas iniciais
– Will
Talvez fosse o tempo nublado ou ainda o cansaço da viajem ou quem sabe até o fato de eu ter que ir a uma nova escola, onde eu não conheço ninguém, que esteja afetando meu psicológico, mas a vontade de sair da cama hoje foi quase imbatível. O relógio tocava sem parar e sem pensar duas vezes o joguei contra a parede, mas ele continuou a soar o alarme. Relógio bom esse... Pensei enquanto o olhava estressado. Seis horas da manhã. Quem acorda seis horas da manhã para ir ao colégio ? Os nova-iorquinos acordam seis horas da manhã para irem à escola...
Levantei meio relutante, a coberta caiu de meu peitoral e o vento frio provindo da janela aberta fez-me arrepiar inteiro. Gemi em protesto e amaldiçoei Nora por ter me feito sair de Malibu, como eu queria estar lá com meus amigos, minha casa e principalmente minha cama. Não que essa cama não seja boa, ela é, mas sabe quando você sente que nada daqui é seu? Que a cama não é sua? Talvez seja birra minha, mas ainda prefiro minha cama de solteiro do meu quarto pequeno, do que esta enorme aqui. Talvez se eu ainda estivesse com a Ana, ou Kim, ou Jesse, ou Mary... Enfim, ela com todo esse tamanho king size poderia ser utilizada, muito bem utilizada, às vezes minha antiga cama ficava apertado para dois corpos. Embora não a usássemos para dormir.
Eu sempre fui popular, desde que me conheço por gente. Sempre tinha uma menina, ou menino embora eu nunca tenha ficado com alguém do mesmo sexo, encantada com minha beleza, meu sorriso ou meus olhos. Logo eu nunca ficava sozinho, sempre tinha uma ao meu lado, também nunca passei dois dias sem ficar com ninguém, toda semana era uma menina diferente. E foi por isso que eu acabei ganhando o apelido de ‘Womie’*, não tiro a razão deles para me chamarem disso, afinal eu não podia ver uma menina bonita e já queria tê-la.
Levantei-me e me arrastei até a suíte de meu quarto, olhei em volta e sorri quando meus olhos pousaram na enorme banheira branca. Andei até ela e enchi de água morna, coloquei alguns sais de banho e esperei que as espumas começassem a se formar. Tirei lentamente minhas roupas, que no dia anterior eu nem se quer tive a decência de trocá-las desde a viajem, e quando meu corpo mergulhou na água morna eu relaxei instantaneamente. Suspirei aliviado por finalmente tomar um banho decente e mergulhei na água.
— Banho de banheira é o melhor... — sussurrei assim que emergi.
Continuei cerca de mais vinte minutos me esfregando e lavando os cabelos que só percebi que deveria sair quando vi meus dedos enrugados. Enrolei-me em uma toalha branca e com outra sequei meus cabelos loiros claros, andei despreocupadamente até meu armário e me assustei levemente quando vi uma empregada arrumando minha cama.
— Bom dia — falei sem olhá-la e escolhendo a roupa para vestir.
— Bom dia senhor... — falou baixinho e depois de escutar leves passos escutei-a mais uma vez — Com licença senhor — e saiu do quarto.
Suspirei e balancei levemente a cabeça. Tudo bem que é a empregada, mas não precisa ser tão tímida! Escolhi uma blusa azul claro que realçava a cor dos meus olhos, um jeans branco, um all stars branco e depois de ter o cabelo seco, apenas dei uma leve penteada para desembaraçá-los e deixar que ficassem com seu ondulado natural. Voltei para o banheiro escovei meus dentes, sorri com o resultado final e pisquei para o reflexo.
Desci as escadas e andei até a cozinha, entrando lá encontrei meu pai sentado a mesa tomando uma xícara de café e lendo o jornal matinal, vi a mesa posta e abri levemente a boca. Nela estavam bolo, panquecas, ovos mexidos, pães, cereais, suco de laranja, leite e algumas frutas. Sabe aquelas mesas de filmes de ricos? Estava muito parecido.
— Bom dia pai — falei sentando-me e colocando algumas fatias de bolo e um copo de suco de laranja para mim.
— Bom dia filho, dormiu bem? — perguntou tirando o jornal de cima dos olhos e focando-os em mim.
— Sim, a cama é bem confortável — falei — Onde essa escola fica?
— Hoje vou te levar de carro para você saber o caminho, mas amanhã você já vai sozinho — falou — É a High Way School uma das mais renomadas escolas de Nova Iorque.
— Hum... — disse comendo o bolo.
O assunto acabou ai e nem eu, nem ele tivemos vontade de conversar qualquer outra coisa, ficamos apenas olhando um para o outro. Analisei seus cabelos loiros, agora devidamente penteados, seus olhos azuis escuros mais descansados e seu sorriso estavam bem animados. Desviei meu olhar um pouco sem graça e continuei a comer em silêncio, tudo bem que somos pai e filho, mas quatorze anos sem se ver deixam qualquer um sem assunto! Talvez tivéssemos assunto sim, mas nenhum de nós soube começar uma conversa descente.
— Quando acabar vá para a garagem, estarei te esperando — falou dobrando o jornal e se levantando da mesa. Acenei positivamente e acompanhei seus movimentos com o olhar, assim que eu o vi sair porta afora soltei o ar devagar e que percebi estar prendendo.
Continuei cerca de cinco minutos comendo até que resolvi que já não podia enrolar mais. Levantei-me, espreguicei-me e olhei para o relógio. 07h00min da manhã. Não sabia se a escola era longe, mas sabia que as aulas começavam às sete e meia da manhã. Escutei alguém dar uma pequena tosse forçada e me virei olhando uma empregada com uma mochila preta simples, pelo menos uma coisa simples nesse local, e um pouco cheia. Bonita, mas a única coisa que eu não gostei muito foi a cor preta.
— Seu material escolar senhor — falou me estendendo a mochila.
— Obrigado — falei pegando-a e sorrindo amigavelmente.
Nunca gostei de preto. Sempre achei essa cor meio fúnebre, sem graça, sem nada! Dentre todas as cores a única que não gosto e não existe em meu guarda-roupa, é a cor preta. Tenho certeza de uma coisa, eu nunca gostei não gosto e nunca gostarei da cor preta. Nunca.
Fui até a garagem e minha boca foi ao chão, meus olhos brilharam e senti vontade de chorar de emoção. Apolo estava me esperando numa Lamborguini Reventón prata e muito bem polida.
— ... — minha voz sumiu na hora quando reconheci o segundo carro parado ao lado da Lamborguini prateada, tentei falar e minha voz saiu quase esganiçada — É uma Ferrari Califórnia T?!
Meu pai rio da minha reação diante dos carros confirmou e andou até um armário onde estavam as chaves dos meus mais novos xodós.
— Ela é sua...
— SÉRIO?! — perguntei gritando em euforia, ele olhou-me como quem diz ‘não me interrompa’ e eu calei-me na hora.
— Eu pretendia dá-la para você no seu aniversário, mas quando soube de seu comportamento eu decidi esperar — completou a frase antes cortada por mim.
— Eu não sabia que era tão rico para ter esses dois carros... — comentei incrédulo.
— Will já te disse que eu não trabalho apenas de médico não é? Eu faço vários outras coisas e quem disse que tenho só esses dois carros? As motos estão em outro local — riu quando viu meus olhos saltarem de órbita.
— Meu pai é um bilionário... — murmurei quando o vi entrar, rindo, na Lamborguini e entrei logo em seguida. O carro era lindo, mas infelizmente era preto.
~*~
Dez minutos. Esse foi o tempo que levamos de casa até a High Way School e devo dizer que a escola é enorme. Duas árvores frondosas uma em cada lado do enorme portão que dá a entrada para a instituição na recepção havia uma estante com vários troféus dispostos um ao lado do outro, cada um tão polido que dava para ver meu reflexo neles. Enquanto meu pai conversava com o diretor Dionísio, se não me engano era esse o nome, dei uma olhada nos troféus da escola. Primeiro lugar por três anos seguidos em natação, dois troféus em futebol e vários outros que não me interessei em olhar, ao lado da estante de troféus tinha uma lista dos vários clubes que a escola oferecia teatro, culinária, jornalismo, luta, tricô entre outros.
— Gostou de algum clube? — perguntou uma voz, olhei para meu lado e vi um homem baixo, um pouco acima do peso, bochechas avermelhadas e cabelos negros ondulados. Suas vestimentas eram as mais engraçadas de todo o conjunto, ele usava uma blusa com estampa de tigre, bermudão e sandálias. Mas o que mais me deixou surpreso foi a cor de seus olhos de cor púrpuras, lembravam a cor do vinho.
— Por enquanto estou apenas olhando... — comentei voltando meu olhar para meu pai que terminava de assinar um formulário da escola.
— Tenho que ir agora, Dionísio irá te mostrar a escola — sorriu — Depois volto para te buscar — falou indo embora.
— Okay — falei olhando para o diretor baixinho a minha frente.
— As aulas começam as sete e meia e terminam às três horas da tarde — falou me guiando pelos enormes corredores cheios de alunos — Pode ter até três atrasos, caso ultrapasse levará uma advertência.
Olhei para os corredores largos e vi os armários enormes cada um decorado seguindo o gosto de seu dono. Alguns alunos ainda andavam calmamente por nós e me olhavam com certo interesse, talvez por eu ser um aluno novo.
Dionísio continuou a falar sobre os vários clubes que existiam na escola, sobre as aulas, as regras, normas, sobre as roupas que não se deve vir, e outras coisas que não prestei atenção. Eu apenas pensava em como essa escola é rigorosa em comparação a minha antiga... Regras aqui, regras ali, o aluno não pode fazer nada aqui não? Suspirei um pouco sem paciência e infelizmente Dionísio escutou.
— Tenha calma, garoto — comentou me olhando severamente.
— Estou calmo — falei revirando os olhos.
Chegamos ao campo de futebol e eu parei de andar na hora. O campo era gigante, parecia o campo de estádios oficiais, duas arquibancadas enormes se estendiam uma em cada lado da quadra, o campo era verde claro e muito bem cortado e também havia alguns postes de ferro prontos para fazer a devida iluminação caso houvesse um jogo a noite aqui. Dionísio nem pareceu perceber meu fascínio com o campo e apenas me falou ‘o campo de futebol’ e continuou com o pequeno tour pelo corredor parcialmente cheio. Passamos pela piscina e vi que era aqueles fundas de 50 metros e assim fomos indo até terminarmos de ver todas as salas dos clubes e esportes do colégio.
— Qual é meu armário? — disse olhando para todos eles e lembrando-me que eu não sabia qual era o meu.
— Número 23 no segundo andar — falou me entregando uma pequena chave de um cadeado.
— Posso decorar de jeito que quiser? — perguntei olhando os armários do primeiro andar. Dionísio confirmou e olhou para seu relógio.
— Olhe à hora — disse olhando o relógio de pulso — Sete e meia, tem que ir para sua sala.
— Onde é a minha sala? — perguntei olhando para o corredor que agora já estava vazio.
— Terceiro ano, certo? — olhou a ficha, que eu não havia reparado antes, e depois deu uma leve batida na prancheta — Segundo andar, sala 3-A.
Concordei e comecei a andar em direção a enorme escada que levava para o segundo andar, observei cada mínimo detalhe e não pude deixar de pensar que realmente, essa escola é muito maior e que a minha antiga. Fora a estrutura dela que é simplesmente fantástica. Cheguei na frente da porta 3-A e suspirei nervoso.
— Com licença — falei abrindo a porta.
Um professor de meia idade, cabelos castanhos, sobrancelhas espessas, intenso olhos castanhos e uma barba desalinhada olhou-me sorrindo e pediu para que eu entrasse na sala. Reparei que ele estava em uma cadeira de rodas e que uma manta laranja cobria-lhe as pernas.
— Sou o Quíron professor de história geral — falou e sua voz soou tão calma que rapidamente me acalmei também — Apresente-se a turma.
Olhei para a turma e vi que vários olhos estavam sobre mim. Algumas meninas cochichavam e davam risinhos indiscretos e os rapazes me analisavam, mas sorriam simpáticos. As mesas eram de duplas, e pude perceber que todos já tinham um parceiro, menos um.
— Meu nome é William Solace, vim de Malibu Califórnia e tenho 17 anos — falei o básico do básico, depois sorri. Ato que arrancou suspiros de algumas meninas da sala — Mas podem me chamar de Will.
Olhei para cada novo colega de classe e vi que eles pareciam bem receptivos a pessoas novas nos seus grupos de amigos. Havia uma menina loira de cabelos longos e levemente encaracolados nas pontas com olhos da estranha cor cinzenta, um moreno bronzeado de olhos verde mar, este sorria zombeteiro e parecia ser do tipo popular, um loiro de tom mais escuro que o meu e olhos azuis elétricos, este usava um óculos de armação fina e elegante, uma menina morena, deveria ser descendente de indígenas, com cabelos lisos e marrons parecidos com chocolate ao leite. Todos eles se sentavam perto uns dos outros e conversavam entre si.
Mas o que deixou intrigado foi um rapaz do grupo deles, ele sentava perto deles e às vezes falava uma coisa ou outra, mas estava sempre sério. Uma menina de pele clara, olhos negros e cabelos pretos e longos presos numa trança lateral, que se sentava a sua frente, se inclinava para trás, sussurrava algo em seu ouvido e ele dava mínimos sorrisos imperceptíveis.
Porém não foi seu possível mau humor que me chamou a atenção. Foi simplesmente sua escolha para as cores de sua roupa. A calça era preta, a blusa também preta, tênis all stars preto e alguns anéis pretos, mas apenas um prateado de caveira. Tudo preto.
— Will como pode perceber quase todos da turma já tem parceiros, terei de pô-lo junto do senhor di Ângelo — comentou — Sente-se e abram o livro na página 40.
Olhei para meu parceiro e sorri a contragosto. Andei lentamente até o final da sala, onde o menino se sentava, e sentei-me ao seu lado.
— Will, muito prazer — falei estendendo minha mão, tentando ser amigável.
— Nico — respondeu sem me olhar no rosto e muito menos apertar a minha mão.
Além de aturar uma criatura de preto ela ainda é mal educada? Suspirei deixando minha mão cair gradativamente e resolvi deixar para me ‘socializar’ depois da aula.
Olhei de canto de olho para o tal Nico ao meu lado e reparei que, não me entendam mal, ele é muito bonito. Seus cabelos negros bagunçados dando-o um ar rebelde, seus olhos negros como a noite, sua pele pálida como mármore, seu rosto fino e com traços delicados. Uma beleza exótica para um homem.
Mas... Porque preto?
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