Preto é a Cor do Amor

22 De volta ao lar


Notas iniciais
Capítulo programado! ♥ ~Enjoy

— Will

Na quinta-feira eu acordei mais cedo que o normal, olhei no relógio e vi que eram ainda cinco da manhã. Até tentei dormir de novo, mas o sono já havia deixado meu corpo. Resignado, levantei da cama e andei ao banheiro, pronto para um banho.

A cozinha estava vazia e escura, Martha acordava apenas às seis horas e meia para, então, começar a preparar o café da manhã. Meus pés se arrastavam pelo chão de madeira e faziam barulhos engraçados no piso. Coloquei água para ferver a fim de fazer café, peguei o pó, coador, bule e me apoiei na pia, esperando.

Não sei quanto tempo fiquei apenas fitando a mesa enquanto bebia meu café, eu pensava em tudo o que tinha acontecido até aquele presente momento, a culpa e remorso me corroíam de um jeito aterrorizante. Mas, no meio daquele turbilhão de emoções apenas uma predominava. Não era o remorso de ter destratado de Nico, muito menos a culpa por ter falado daquele jeito com Apolo.

Era a raiva. A raiva de mim mesmo por ter discutido com Apolo, acabando com a única oportunidade que eu tinha de ir a Malibu consolar meu melhor amigo. Senti algumas lágrimas de frustração escorrendo pelas minhas bochechas e inspirei fundo, me acalmando. Escutei passos calmos virem à cozinha e esperei ver a figura sonolenta de Martha. Mas quem apareceu foi meu pai, Apolo.

— Bom dia — escutei sua voz rouca de sono soar no ambiente. Seus pés estavam envoltos numa pantufa de coelho, segurei a vontade que tive de rir daquela cena e me dediquei a limpar discretamente as lágrimas que haviam caído há pouco.

— Bom dia — sussurrei.

— Estava chorando por quê? — perguntou. Suspirei derrotado, já deveria saber que não há como esconder as coisas de meu pai. Ele sabia tudo, parecia até vidente.

— Eu estava apenas pensando... — comecei — Ontem, quando cheguei em casa eu estava aflito, nervoso, entenda como quiser...

— Hm — meu pai comentou, colocando o líquido escuro dentro de uma xícara e se sentando a minha frente na mesa. A cozinha estava sendo iluminada apenas pelos primeiro raios solares que entravam pela janela, fato que me fez questionar que horas deveriam ser.

— Eu recebi uma notícia muito perturbadora... — tentei arranjar um meio de pedir aquilo sem que Apolo se irritasse e me negasse o único favor que eu já pedi a ele — E eu te peço que me deixe ir a Malibu...

— Will — disse meu nome num tom extremamente cansado — Eu já lhe disse para não me pedir nada por duas semanas, para repensar suas atitudes.

— Fala como se eu vivesse pedindo as coisas pra você — resmunguei. Na verdade eu enrolava para ver se ele me deixava ir sem ter que precisar revelar o motivo. Revelar a razão para o qual eu queria ir a Malibu não parecia tão correto. Na verdade, eu sabia que era o único motivo que o faria deixar-me ir, fechei os olhos e respirei fundo.

— Mesmo assim... — comentou, cansado.

— O avô do Matt morreu! — falei numa vez só. Minha voz saiu baixa, trêmula, mas tive a certeza que meu pai havia me escutado no momento em que ele parou de falar qualquer coisa que fosse.

— O que? — perguntou confuso.

Meu pai sabia quem era Matt. Eu vivia com meu amigo desde meus sete anos, Nora com certeza já falou dele para meu pai. Apolo sabia que eu considerava o menino como um irmão que eu nunca tive, deveria saber também que eu amava mais a Matt do que amo ele.

Para ele, eu sempre fui o menino rebelde, às vezes meio revoltado e inconseqüente que não ligava para ninguém, mas a me ver naquele estado apenas por saber da morte do a de meu amigo, Apolo percebeu (porque eu vi a compreensão iluminar seus olhos azuis) o quanto eu amava Matt.

— Por isso que eu te peço — falei o olhando fixo, meus olhos suplicavam por uma resposta positiva — Me deixe ir a Malibu consolar meu amigo, meu único irmão.

Apolo suspirou, mais uma vez, e arrumou seus cabelos loiros e recém cortados. Tentou falar alguma coisa, mas apenas abria e fechava a boca, alisou seus cabelos e se levantou da mesa, andando em direção a porta. Eu apenas o observava chocado, a vontade de gritar com meu pai me consumia a cada segundo, e eu teria o feito, se Apolo não tivesse parado e se virado para mim.

— Esteja pronto em meia hora — ponderou.

Soltei o ar, aliviado por ele ter me deixado ir e assenti para o homem que voltou a andar em passos lentos até seu quarto. Terminei de tomar o café e corri para meu quarto, peguei poucas mudas de roupas e joguei tudo numa mochila grande. Troquei de roupa e peguei meu celular.

7:00 a.m.

Andei até a janela e observei a janela de Nico aberta, o moreno já estava acordado, sua cama estava forrada e ele estava parado de frente a cômoda, olhando uma fotografia. Vestia suas clássicas roupas pretas e seus cabelos negros, que já batiam nos ombros dele, estavam soltos. Num movimento involuntário, eu apoiei meus cotovelos no batente da janela e continuei a analisar cada detalhe daquele corpo esguio e pálido.

— Que cara de apaixonado é essa, William? — escutei a voz de Apolo soar do meu lado e levei um leve susto — Estava tão concentrado que não me escutou entrar?!

— Não estou apaixonado! — neguei ultrajado — Posso ter confundido os sentimentos e achei que estava, mas era apenas uma pequena atração!

— Era? — falou pendendo a cabeça para o lado.

— Sim, era — afirmei olhando de novo para a janela e constatando que Nico já não estava no quarto — Vamos embora.

— Afrodite quando te ver negando o amor vai surtar... — escutei Apolo rir baixo e revirei os olhos. Ignorando o fato de o nome feminino ter me soado familiar.

~*~

Cheguei a Malibu as nove e meia da manhã. Amaldiçoei o avião por ter se atrasado para chegar ao aeroporto de Nova Iorque e pelas conexões demoradas que tive de fazer e infelizmente não consegui chegar a tempo de estar presente no enterro do avô de Matt.

Era até estranho sentir o sol quente e o clima daqui depois de tanto tempo em Nova Iorque, as pessoas não eram tão apressadas e chegavam a ser mais gentis com o próximo. Inspirei o ar e sorri feliz por voltar, mesmo que por pouco tempo. Andei apressado até a parte de fora do aeroporto e esperei um táxi. A casa de Matt não era perto, deveria ser por volta de quarenta minutos daqui até lá, isso se o transito colaborar.

Depois de cinco minutos, o táxi finalmente chegou e eu dei o endereço de Matt. Agradeci internamente pelas ruas estarem com o tráfego bom, então não demorou muito para que eu finalmente chegasse à casa de meu amigo. Paguei o taxista e desci do carro.

Meu coração apertou quando eu notei o silencio no local, a casa de Matt nunca ficou tão silenciosa assim, e a cada passo que eu dava mais ansioso em ver meu amigo e saber se ele estava bem, eu ficava. Ajeitei minha mochila nos ombros e abri a porta da casa, eu tinha a chave.

A princípio eu achei que a casa fosse estar vazia, passei pela cozinha e vi algumas louças sujas dentro da pia, pareciam que estavam ali há dias, a sala estava escura por causa da enorme cortina cobrindo a janela e arrumada, era ali que o avô se sentava para apreciar seus livros. Andei até o segundo andar e abri a porta do quarto do meu amigo. Assustei-me com o que vi.

Tudo bem que Matt nunca foi um ser totalmente organizado, mas sua bagunça sempre foi arrumada. Porém seu quarto parecia ter sido cena de um filme de luta, suas roupas estavam jogadas e espalhadas pelo quarto, alguns pequenos móveis de madeira que ficavam no quarto estavam quebrados, cacos de vidros estavam num canto do cômodo, junto com o molde quebrado de um retrato e uma fotografia caída no chão. Se Matt não estava no quarto dele, só poderia estar em um único lugar. O quarto do avô.

Abri a porta devagar e encontrei o quarto organizado exatamente do jeito que o avô deixava, apenas com uma exceção. O corpo fino de Matt estava encolhido no meio da enorme cama de casal, abraçando a camiseta preferida do avô e olhando para um ponto qualquer do quarto.

— Matt — chamei-o.

Meu amigo se assuntou com minha voz e se sentou na cama de olhos arregalados. Abriu e fechou a boca diversas vezes e nada saia dela. Andei até meu amigo e o abracei apertado, acomodei seu corpo no abraço e sua cabeça se encaixou em meu peito. Matt demorou um pouco para perceber que eu estava realmente ali. Senti seus braços me envolverem e retribuírem o abraço, me apertando desesperado como se para garantir que não estava sozinho e que eu não me evaporaria entre seus dedos.

Escutei um soluço e meu peito ficou úmido. Afaguei os cabelos de meu amigo e beijei o topo de sua cabeça, num gesto carinhoso, depois disso Matt chorou. Um choro forte, desesperado, quebrado, por vezes ele tinha dificuldades para respirar por conta do choro e acabava se engasgando, tossindo forte, seu corpo dava leves convulsões pelo desespero da perda. E eu chorei com meu amigo, chorei por não estar com ele desde o começo, chorei por vê-lo chorar desesperado e pelo fato de ter perdido alguém importante para mim também.

Ele me segurava com medo de me perder também, seus braços rodeavam minha cintura e agarravam minha blusa.

Matt se acalmou depois de uma hora chorando tudo o que tinha para chorar, mas mesmo assim continuou me abraçando e percebi que ele tinha dormido de cansaço, suspirei tirando seus braços de mim e o acomodando direito na cama. Espreguicei-me e resolvi arrumar a casa de meu amigo.

~*~

— Enfim acordou... — comentei assim que escutei os passos arrastados meu amigo passar pela porta da cozinha. Já eram duas horas da tarde, eu havia limpado a casa inteira, arrumado seu quarto e posto as roupas para lavar. E confesso que me senti uma dona de casa fazendo tudo isso.

— O que está fazendo? — perguntou me analisando mexer nas panelas.

— O almoço — respondi sem o olhar. Era a primeira vez que eu estava pondo em prática os ensinamentos culinários de Nora e estava surpreso pelo cheiro bom que estava saindo das panelas no fogão.

— Will... O que está fazendo aqui? — reformulou a pergunta e então eu o olhei, analisando-o.

Matt estava um trapo. Seu cabelo curto e marrom, sempre brilhoso e sedoso, estava opaco e quebradiço, seus olhos chocolates estavam inchados e vermelhos de tanto chorar, seu corpo pequeno, ele era sete centímetros mais baixo que eu, estava escondido pela enorme camisola desbotada que vestia, mas mesmo assim percebi que seu corpo definido estava pálido e desnutrido. Suspirei pesadamente.

— Você sabe por que vim aqui — respondi desligando o fogo e indo ao meu amigo — Vim porque eu precisava vir. Eu precisava confortar meu irmão. Sempre juntos, lembra?

Matt me olhou com seus enormes olhos chocolates e vi que brilhavam pelas lágrimas contidas. Abracei meu amigo.

— Obrigado, Will — sussurrou — Muito obrigado irmão.

Cinco minutos depois ele se afastou e limpou as lágrimas. Sorriu e andou animado até a comida.

— Espero não morrer intoxicado com essa gororoba que você fez! — ditou fingindo seriedade.

— Ora, gororoba é a tua comida. A minha é tão gostosa quanto às de grandes chefs! — sorri e peguei os pratos.

Comemos entre risos e conversas, como se nada tivesse acontecido nem minha mudança a Nova Iorque e nem a morte do avô dele. Éramos apenas dois adolescentes conversando trivialidades.

— Mas então... — escutei Matt puxando assunto enquanto eu lavava a louça — Não me vai dizer como é esse menino que você não parava de falar?

Nessa hora eu engasguei com o ar e o prato ensaboado escorregou de minha mão indo parar dentro da pia, partido ao meio.

— Eu não fiquei falando dele! — falei alerta.

— Ah claro que não... Quando perguntei da sua nova vida em Nova Iorque você só me falou desse tal de Nico — revirou os olhos.

— Mentira! — falei fechando a torneira e batendo em Matt com o pano que estava em meu ombro.

— Ei! — falou depois do golpe inesperado. Ele pegou o outro pano que estava na mesa e nós dois começamos uma guerrinha para ver que ganhava. Riamos como duas crianças, corríamos pela casa e, às vezes, até caíamos no chão.

— Ganhei — ele disse depois de acabarmos a brincadeira infantil. Estávamos jogados no chão da sala, exaustos.

— Só porque eu deixei — respondi presunçoso. Matt jogou o pano em minha direção e eu desviei, rindo dele. Riso que aos poucos morreu e ficamos nós dois olhando o teto, num silencio confortável.

— Sabe... Senti falta disso — falou depois de um tempo — Das nossas brincadeiras, conversas, de tudo... Não pensei que me sentiria tão sozinho depois que você foi embora.

Arrastei-me até meu amigo e o abracei, o aconchegando o melhor que pude nos braços. Comecei um carinho nos seus cabelos e senti-o sorrir.

— Promete que não vai me abandonar? Nunca? — falou com a voz baixa.

Eu nunca havia visto Matt tão frágil desse jeito. O menino sempre foi altivo, animado, bagunceiro, sorridente, meio malandro, maduro (apenas nas vezes que precisava ser) e sempre confiante de si mesmo. Mas agora ele se mostrava ser uma pessoa totalmente diferente, ele mostrava o outro lado da moeda que nem mesmo eu conhecia. Um lado sensível, carente, frágil, choroso e que a qualquer fala ou movimento errado seria facilmente quebrado. E isso me assustou.

Crispei os lábios, indeciso no que responder. Eu entendia as atitudes dele, a carência e essa vontade de ficar agarrado em mim. Ele tinha medo de ficar sozinho novamente, de se sentir abandonado e esquecido. Senti seus braços me apertarem, necessitando de uma resposta e então eu o olhei, seus olhos me olhavam suplicantes.

— Nunca — sorri selando meus lábios em sua testa.

~*~

— Atende... Atende... — eu resmungava enquanto esperava Apolo atender o maldito telefone celular.

Já era noite e Matt estava tomando banho. Havíamos jogado vídeo games, comido pipoca, conversado sobre tudo e nada, e agora estávamos nos preparando para assistir um filme qualquer. Matt disse que iria tomar banho e depois me mandaria tomar o meu, visto que na casa só tinha um banheiro. O outro era apenas um lavabo para as visitas. Enquanto meu amigo subia para se lavar, eu aproveitei para ligar ao meu pai, o problema que ele não atendia o celular. Já era a terceira vez que eu tentava contatar Apolo.

—Alô? — falou sonolento do outro lado da linha. Sorri aliviado e respondi eu pai — Menino, sabe que horas são por acaso?!

— Não — respondi — Preciso de um favor enorme pai... — Apolo suspirou e me mandou “desembuchar” o problema.

Contei tudo o que havia acontecido da hora em que cheguei à casa de meu amigo até agora. Disse como ele estava abalado e fragilizado com a perda e como ele precisava de mim naquele momento. Eu sabia que tinha de voltar para Nova Iorque se não quisesse reprovar na escola, mas sentia que precisava ficar para ajudar meu amigo. Razão e emoção se confrontavam numa batalha psicológica que estava quase me matando.

— Filho, mantenha a calma e deixa que eu resolva essa questão — escutei a voz de Apolo e acenei com a cabeça, mesmo sabendo que ele não veria.

— Tá bem — falei e escutei os passos de Matt se aproximar da sala. Quando vi meu amigo sorri inconscientemente, ele parecia outra pessoa. O brilho natural dos seus olhos ainda estava ali, mesmo que fraco — Tenho que ir, tchau.

Tchau, filho — Apolo disse antes de desligar o celular.

— Quem era? — perguntou me analisando curioso.

— Meu pai — comentei — Ligou para saber da viajem e se você estava bem.

— Hum... Sabe, ele não parece ser aquele monstro que você pensava — disse — Quero dizer, ele te deixou vir aqui no meio do ano letivo, não deve ser tão mau.

Nos olhamos e depois começamos a rir.

— E ele não é — sorri — Eu que julguei errado. Ponha o filme e quando eu descer, vou querer outro balde cheio de pipoca.

— Mandão! — resmungou me dando língua.

Tomei um banho rápido e vesti um dos pijamas de Matt, já que na pressa eu me esqueci de pegar o meu. Desci correndo as escadas e encontrei meu amigo sentado no sofá, olhando o menu principal do filme de comédia.

— Foi a muitas festas lá em Nova Iorque? — perguntou de supetão — Sua vida lá é melhor do que aqui?

— Só fui a uma por lá, e nem deu pra encher a cara... Meus amigos de lá não são tão festeiros quanto os daqui, claro que sabem aproveitar uma boa festa, e dar também, mas gostam de programas leves e descontraídos... — o olhei — Porque isso agora?

— Por nada não — respondeu se encolhendo no sofá.

Revirei os olhos quando percebi o motivo e puxei Matt para perto de mim.

— Não vou te trocar, seu retardado — falei rindo divertido, ele fez bico — Você é meu irmão, acha mesmo que dez anos de amizade vão ser desfeitos assim do nada?

Matt corou constrangido e virou a cara.

— Você ainda vai ter que me aturar até o fim da vida! — falei sacolejando o rapaz, que riu da atitude — Você tá muito meloso hoje!

— Idiota! Queria que eu estivesse como? Numa festa enchendo a cara?! – gritou me socando — Tô frágil!

— Oh a donzela tá frágil! — debochei.

— Babaca... — escutei ele resmungar e fechar a cara.

— Dois babacas se entendem... — falei cutucando sua costela.

Matt tentou me olhar feio, me repreendendo, mas não durou nem dois segundos. Rimos como dois retardados.

— Parece até que é criança — escutei sua voz alterada pela risada presa.

— Hum fala como se fosse velho, é apenas dois meses mais velho que eu! — reclamei rindo.

— Mesmo assim, ainda sou mais velho — rebateu.

Rimos mais um pouco e assistimos ao filme. Na verdade não prestamos muito atenção nele, já que uma pequena guerrinha de pipocas foi iniciada pela minha parte.

Realmente, parecíamos duas crianças.

~*~

No domingo, Matt e eu decidimos sair de casa. Andar pela praia que vivíamos surfando e espairecer sobre nossas vidas. O sol queimava no céu, a praia estava cheia, várias pessoas estavam estiradas pelas areia brancas e fofas e aproveitavam para ganhar um bronze, crianças montavam castelos de areia, felizes da vida, e algumas pessoas aproveitavam o mar calmo.

Infelizmente não estava bom para surfar.

— Não surfo desde que fui para lá... — comentei perdido em pensamentos, olhando para o mar.

— Imagino — escutei o rapaz rir leve — Pena que não tem ondas boas hoje... E mesmo se tivesse nem daria pra ir, a praia ta cheia e acabaria sendo perigoso surfar com tudo isso de gente.

— Eu sei — sorri.

O cheiro de água salgada impregnou minhas narinas e eu fechei os olhos. Feliz por mais uma vez poder sentir esse cheiro bom.

— Não vai visitar Nora? — perguntou de repente. Continuei de olhos fechados.

— Não — falei simplista. Senti Matt me fitar, e o ignorei prontamente.

— Sabe que ela não fez por mal... — tentou inicializar a conversa, mas eu logo o cortei.

— Eu vim aqui pra te ver, se quisesse ver Nora já teria ido! — resmunguei — E não fale nisso de novo!

— Então ta — respondeu levando as mãos acima da cabeça — O sonho com Nico foi bom, hum?

Olhei-o surpreso, de olhos arregalados e boca aberta. Matt riu e deitou na areia, não se importando em se sujar com ela.

— Você fala enquanto dorme... Hoje de manhã quando fui te chamar, você gemia o nome dele. Algo como “Ahh Nicoooo, isso! Empina pra mim!!!!!” — falou tentando me imitar.

Corei violentamente e desviei o olhar dele. Escutei a risada histérica de Matt e taquei-lhe um punhado de areia na cara. Ouvi Matt me xingar e tossir, se levantando rapidamente para tirar a areia do rosto dele. Taquei-lhe outro punhado de areia e sai correndo, fugindo de um Matt raivoso com as mãos cheias de areia.

Rolamos pela praia e nos sujamos inteiros.

— Te amo, irmão — falou sorrindo feliz.

— Também te amo — respondi olhando Matt.

— Vai tentar esconder do teu irmão até quando? — falou e eu o olhei confuso — Will, tudo bem. No inicio pode até ser que você tenha confundido os sentimentos, falando que o amava. Mas agora eu vejo, Will, Você realmente gosta muito dele. O que aconteceu pra isso mudar?

Suspirei olhando para o céu. Ainda estávamos largados no areia, mas agora numa parte mais isolada da praia.

— Nós meio que começamos a ficar... Sabe? Não namorávamos e nem assumíamos nada, apenas nos beijávamos quando sentíamos vontade de fazer isto — comecei — Mas então eu comecei a querer ir a casa dele todo dia, o beijar todo o dia... E de fato eu estava fazendo isso.

Fechei os olhos e esperei Matt falar alguma coisa, mas ele se manteve quieto apenas assimilando o que ouvi. Resolvi continuar.

— Eu comecei a sentir coisas estranhas... Me sentia triste, vazio quando não estava perto dele e imensamente feliz quando o via, meu coração palpitava e quando eu o beijava me sentia ir ao céu e voltar...

— Porque está falando tudo no passado? — Matt perguntou de repente.

Ignorei e resolvi prosseguir minha narrativa.

— Eu me apeguei demais a ele. E esse foi meu erro. Aqui eu nunca passava mais de um mês com a mesma menina, a que durou mais foi Drew... Por isso nunca me apeguei e nunca precisei sentir isso. Eu não queria Matt. Não queria mesmo. Vi como Nora sofria com a ausência de meu pai e prometi a mim mesmo que jamais me apaixonaria, e olha agora... Eu apaixonado por alguém que nem se quer gosta de mim.

— Mas porque você se meteu nisso? — escutei meu amigo perguntar baixo.

— Acho que por curiosidade... Quando o vi pela primeira vez, ele estava todo de preto – expliquei e vi Matt me olhar confuso — Eu odiava preto! Não entendia como alguém conseguia vestir preto. Resolvi me tornar amigo dele e descobrir, já que se eu perguntasse era bem capaz de ele não responder. Mas as coisas tomaram proporções assustadoras e eu perdi o controle dos meus próprios sentimentos.

— Mas descobriu pelo menos? — perguntou. Disse que sim, mas não contei o motivo. Era pessoal demais.

Voltamos para casa e Matt foi tomar banho primeiro. Separei minha roupa e esperei o rapaz sair do banheiro. Escutei meu celular tocar e vi no visor que era Apolo. Atendi e escutei atentamente o que meu pai me mandou fazer, meu sorriso aumentava a cada palavra proferida por ele. Por fim desliguei o celular e escutei Matt avisando que já havia saído.

A água quente relaxou todos os meus músculos e eu demorei cerca de dez minutos no banheiro. Eu precisava disso para poder pensar com clareza, os acontecimentos recentes estavam exigindo demais, tanto dos meus músculos quanto da minha mente.

— Morreu ai dentro? — escutei Matt perguntar do lado de fora e imediatamente me lembrei de Nico, no dia em que passamos na piscina e quase fizemos sexo. Praguejei baixo e respondi que já estava terminando.

O resto do dia foi calmo, almoçamos em nosso restaurante favorito e relembramos de todos os momentos que passamos ali. Tanto os bons, quanto os maus. Depois disso andamos pela cidade, deixando o sol forte queimar as nossas peles, encontramos conhecidos da escola e depois voltamos para casa, para descansarmos.

— Vai quando? — Matt perguntou.

Estávamos deitados no quarto dele, prontos para dormirmos e a cena era idêntica a qual já vivemos milhares de vezes. Eu deitado no colchão extra, no chão, e a Matt na própria cama. Um olhando para o outro.

— Amanhã — respondi e vi meu amigo fechar os olhos e suspirar.

— Obrigado por vir me apoiar... Eu não sei o que poderia ter feito sem você aqui — falou e eu sorri.

— Eu sei bem o que você faria e você também. Por isso que vim — ditei sério — Não se preocupe com isso, apenas durma e não se preocupe em ir ao colégio amanhã.

Matt ainda falou alguma coisa, que eu não consegui entender, e logo depois dormiu.

~*~

Na segunda-feira eu acordei mais cedo que o esperado, aproveitei que Matt ainda dormia e me arrumei rapidamente para voltar ao meu antigo colégio.

Tive boas recordações quando pisei no pátio da escola. Tudo estava exatamente igual. Tinha poucos alunos, visto que ainda era muito cedo para eles chegarem, mas os poucos que tinham me reconheceram. Afinal, como não reconhecer o antigo aluno mais popular dali? Ri com esse pensamento e andei rumo à diretoria.

A senhora de estatura média, cabelos castanhos e poucas rugas de expressão se surpreendeu quando me viu entrar em sua sala. Sorri abertamente para ela e abri os braços rindo.

— O glorioso Will está de volta! — falei rindo e escutei ela rir de leve.

— Quando pensei que finalmente me livrei de você, tu volta... — sua voz era divertida.

— Oh Morgana, não fale assim comigo. Magoa meu coração — sorri e me sentei na cadeira de frente a sua enorme mesa bagunçada com papeis de fichas de alunos.

— O que faz aqui? Vai mesmo voltar? — Morgana perguntou se sentando e me olhando séria, assumindo a pose de diretora do colégio.

Respirei fundo e comecei a explicar para ela o motivo de minha ida até lá.

— Tudo bem, eu realmente posso fazer isso... — comentou analisando a situação — Espero que de tudo certo.

— Eu também — respondi receoso. Me levantei da cadeira e andei até a porta.

— Nova Iorque te fez bem, Will. Está com um ar mais maduro — disse a mulher.

— Obrigado Morgana — sorri para ela — Tchau.

— Tchau William.

Voltei para casa apressado, precisava falar com Matt. Cheguei e encontrei meu amigo ainda dormindo, revirei os olhos e sorri malandro.

— MATT! — gritei pulando em cima do rapaz.

Matt levou um susto tão grande que assim que sentiu meu corpo caindo sobre o dele, deu um grito agudo e caiu da cama. Seu olhar era desorientado e sua respiração estava acelerada.

— Qual é o seu problema?! — gritou revoltado.

— Faça suas malas — falei e meu amigo me olhou confuso — Vamos para Nova Iorque!

Notas finais
Espero que gostem do Matt! Adoro esse menino!! ♥ Até o próximo!