Preto é a Cor do Amor
30 Ciúmes
Notas iniciais
— Will
Quando acordei notei que Nico já não estava na cama. Minha roupa estava dobrada e em cima da mesinha no canto do quarto e o barulho do chuveiro no banheiro me avisou que Nico estava lá. O moreno estava de olhos fechados enquanto a água fria do chuveiro molhava seus cabelos negros, seu corpo branco estava com algumas marcas vermelhas e notei algumas manchas arroxeadas no pescoço dele.
— O que foi, Solace? – perguntou sem me olhar. O sabonete deslizava pelo corpo magro.
— Não posso nem mais te olhar? – brinquei sorrindo bobo.
O gosto de Nico ainda estava bem presente em minha boca, assim como as sensações experimentadas ontem ainda estavam à flor da pele. Analisei o banheiro e vi que tinha uma sauna e hidromassagem, logo não entendi o motivo de Nico ter escolhido o chuveiro para se lavar.
— Já estou saindo... Tome seu banho para podermos ir – escutei ele falar já se secando com a toalha branca do motel.
— Já quer ir embora? Podíamos aproveitar um pouco mais esse quarto! – exclamei franzindo o cenho. Nico apenas suspirou e andou em minha direção, sorri quando o moreno acariciou minha bochecha e selou de leve nossos lábios.
— Já são onze horas da manhã. Tenho oito ligações perdidas de meu pai e aposto que ele sabe que você também não dormiu na sua casa – esclareceu andando devagar até o quarto.
Suspirei cansado e dei de ombros. Meu pai provavelmente não ligaria se eu dissesse o motivo de ter dormido fora de casa, já Nora... Bem, ela teria que suportar. Meu corpo se arrepiou por inteiro quando a água gelada entrou em contato com minha pele e eu apenas soltei um ofego sofrido ao lembrar que não havia verificado a temperatura do chuveiro.
Tentei não demorar muito no banho, mas acabei perdendo a hora quando comecei a lembrar da noite passada. Dos gemidos de Nico, da pele branca como leite e macia ao toque, das bochechas rosadas pelo prazer, os lábios inchados... Meu coração falhava uma batida toda vez que eu lembrava o quanto fiquei entregue em nossa primeira noite, no quão vulnerável eu fiquei... Aquilo era tão incomum que não consegui não franzir o cenho. Porque foi tão intenso com Nico?
— Solace! – escutei o moreno exclamar e me tirar dos devaneios que ficavam cada vez mais frequentes em minha vida.
— Já estou saindo – falei desligando o chuveiro e me enrolando numa toalha do motel.
Nico estava sentado na cama ainda bagunçada e assistia ao jornal local. As roupas da festa anterior estavam um pouco amassadas e seus cabelos negros estavam úmidos e bagunçados. Pude ver em seu pescoço uma marca arroxeada e sorri satisfeito. Andei até o rapaz e assim que ele se virou para falar comigo, juntei nossos lábios.
Definir o que eu sentia todas as vezes que beijava Nico era uma tarefa bem difícil... Era sempre um misto de sensações que me sufocavam e não me deixavam respirar. Meu coração entrava em colapso e bombeava todo meu sangue para minhas bochechas (ultimamente eu sempre tinha as bochechas coradas quando beijava Nico, mas não conseguia entender o porquê), minhas mãos gelavam, meus joelhos tremiam e de repente eu não sabia como me manter de pé.
Os lábios finos e macios dele conseguiam por poucos segundos me tirar de órbita, me jogavam a deriva no mar e me empurravam de um penhasco tudo ao mesmo tempo, de tão sem reações que eu ficava quando nossas línguas se acariciavam.
— Meu deus! – sussurrei de olhos fechados e ainda perto dos seus lábios quando findamos o beijo – Como eu estou apaixonado por você!
Escutei Nico soltar uma risada nasalada e acariciar minha bochecha. Seus dedos estavam gelados e eu podia ouvir seu coração bater frenético.
— Eu também gosto muito de você Will... – falou num fio de voz e levantou da cama, me afastando logo em seguida.
Suspirei abrindo os olhos e fitando as costas de Nico. Sorri consternado e resolvi me vestir para ir embora, minhas roupas não estavam melhores que a de Nico e logo nós dois estávamos dentro do carro indo em direção a nossas casas. O silencio dentro do carro não era incomodo, eu já estava um pouco acostumado, mas Nico parecia querer evitar me olhar.
— O que aconteceu? – perguntei assim que paramos num semáforo. O modo como Nico afastava minha mão quando eu tentava tocá-lo, ou como sempre desviava os olhos para a janela já estavam começando a me preocupar excessivamente.
— O que? – perguntou sem me olhar.
— Porque está evitando contato ou não me olha? Se arrependeu de ontem a noite? Não foi agradável para você? Me fala alguma coisa! – falei me exaltando e batendo no volante. O sinal já estava verde e pude escutar buzinarem para eu andar logo com o carro.
— Não estou fazendo nada disso – escutei Nico falar calmo ainda sem me olhar e isso me irritou mais ainda.
— Como não?! Noite passada nós tivemos uma maravilhosa noite de sexo e agora você nem me olha nos olhos! – exclamei alto. Já estávamos a apenas duas ruas de nossas casas.
Nico suspirou e se endireitou no banco.
— Responde! Se arrependeu é isso?! Não queria que sua primeira vez fosse comigo?! Preferia que fosse Percy?! – gritei parando o carro em frente a minha casa.
— Não estou arrependido de nada! Foi bom, muito bom, mas eu não posso atender a essa sua expectativa exagerada! Eu não estou apaixonado por você! Então pare de forçar a barra e de ser tão babaca! – exclamou saindo do carro e batendo a porta com força.
Sai do carro às pressas e corri até Nico.
— Eu nunca forcei barra nenhuma! E não me venha falar que estou agindo como um babaca porque você não me conhece direito! Se você quer me ver agindo como um babaca então tá! – gritei soltando abruptamente o braço fino dele e percebi a marca dos meus dedos envolta da pele branca.
— Realmente, namorar você foi a pior escolha da minha vida! – Nico exclamou se virando e andando a passos pesados até sua casa.
Bufei irritado e fui para minha casa. Encontrei Nora sentada no sofá conversando com Apolo e ignorei os chamados dos dois, subi as escadas de dois em dois degraus e bati a porta do meu quarto com força, trancando logo em seguida. Ainda escutei Matt me chamar, perguntando o que tinha acontecido e continuei a ignorar a todos.
Eu estava devastado. A raiva consumia todo meu lado racional e num ato de raiva acabei jogando contra a parede a primeira coisa que vi em minha frente, o pequeno jarro de água em cima da cômoda. O vidro se espalhou por todo meu quarto e a água acabou deixando a parede e chão úmidos.
Respirei fundo e baguncei meus fios loiros quando percebi a bagunça que tinha feito em meu quarto. Suspirei e deixei que o peso das palavras ditas mais cedo caísse sobre meus ombros. Eu não deveria ter falado aquelas coisas para Nico, mas o modo como ele estava me tratando tiraram todo o juízo que eu poderia ter. Era óbvio que eu era o mais envolvido naquela relação, mas eu nunca pensei que isso poderia afetar Nico! Eu nunca pensei que pudesse forçar Nico, mesma que inconscientemente, a retribuir da mesma forma meus sentimentos!
Troquei as roupas do dia seguinte por uma simples bermuda tactel, calcei meus chinelos e sai do quarto, indo chamar Luíza (a empregada que quase nunca falava e quando o fazia sempre gaguejava). No meio do caminho acabei encontrando Matt na cozinha conversando com Martha, que preparava o almoço, e vi meu amigo erguer as sobrancelhas, a espera de respostas.
— Então... Você vai começar ou vou ter que perguntar? – brincou assim que voltei para a cozinha onde ele estava.
— Eu briguei com Nico – falei direto – Acho que nem estamos mais juntos...
— Como assim?! Mas por quê? – perguntou deixando clara a surpresa no tom de voz e gesticulando para que eu sentasse a mesa.
— Ele estava todo estranho! Noite passada nós tivemos nossa primeira vez e hoje de manhã ele me evitava! – desabafei bagunçando meus cabelos loiros. Fixei meus olhos nas costas de Martha e vi a senhora mexer nas panelas, dando alguns toques finais na refeição.
— Você machucou Nico de alguma forma noite passada? Disse algo que não devia? – questionou e prendi o lábio inferior entre os dentes.
— Eu fui extremamente cuidadoso ontem... E não falei nada demais! Hoje de manhã apenas falei que estava apaixonado por ele e isso bastou pra mudar completamente o rumo das coisas! – esbravejei me lembrando do olhar magoado que Nico direcionou a mim quando eu mencionei Percy na discussão – Ele disse que eu estava colocando muita pressão nele.
— Nossa cara...! – Matt buscava as palavras certas para tentar me consolar – Sabe, você sabia que ele estava gostando de você e falar que está apaixonado é quase exigir a reciprocidade do sentimento.
— Mas eu não pressionei ninguém! – me levantei na mesa realmente irritado – Nico disse que eu estava agindo como um babaca, mas ele não sabe o quão babaca eu posso ser!
— Will, não faz isso – Matt advertiu – Você vai acabar afastando Nico de você. Porque não deixa um ou dois dias passarem e depois você fala com ele?
— Eu não vou mais correr atrás dele, Matt! – respondi ficando com um semblante sério – Toda vez é sempre eu que tenho que correr atrás dele... Se ele realmente quiser algo, dessa vez que seja ele a correr atrás!
— Se você acha que isso vai dar certo... – Matt comentou dando de ombros – Eu, particularmente, não concordo com essa ideia.
Meu amigo me olhou reprovador, sai a passos largos da cozinha, pedi para que Luíza limpasse a bagunça feita em meu quarto e andei até a sala, talvez um filme pudesse me fazer relaxar.
~*~
Tentei não suspirar melancólico pela terceira vez seguida na mesa do café da manhã, mas a possibilidade de voltar às aulas me desanimava de tal maneira que era surpreendente. Três dias haviam de passado desde minha briga com Nico e nosso término e confesso que durante esse tempo eu acabei me isolando em meu próprio quarto.
Nora havia voltado para Malibu no dia anterior, tinha assuntos para resolver por lá e por isso não pode estender suas pequenas férias em “família”, então a casa acabou voltado ao seu silêncio mórbido.
Pelo menos para mim, já que o silêncio me fazia pensar em coisas que eu não deveria pensar. Como por exemplo, o fato de eu ter praticamente arruinado a única coisa boa que tinha me acontecido na vida.
— Will, nós vamos nos atrasar se você continuar a enrolar! – Matt esgoelou assim que olhou as horas no celular.
Alheio ao desespero de meu amigo, me levantei da mesa e a passos arrastados ainda até a porta de saída. Eu não estava a fim de encarar Nico, ou de relembrar minha promessa de deixar o moreno vir até mim pedindo perdão.
Mas e se ele não vier?!
Afastei esse pensamento que me assombrou durante os três dias e respirei fundo. Eu tinha de encarar de cabeça erguida o que poderia vir a acontecer. Olhei meu amigo cochilando no banco do passageiro com a cabeça recostada na janela e suspirei.
Minha vida era tão mais fácil e simples quando eu ainda morava em Malibu... Porque as coisas mudam?
...
O sol matinal batia em minha vista e queimava de um jeito bom minha pele, avistei o pessoal reunido debaixo da enorme árvore no pátio e andei até eles, sorri até um pouco aliviado ao perceber que Nico não estava presente, entretanto Jason e Hazel também não estavam com eles.
Cumprimentei o pessoal e me situei da conversa sobre banalidades que acontecia antes de minha chegada. Durante as conversas animadas meu olhar repouso num rapaz familiar vestido de preto, Nico estava um pouco afastado sentado num banco de concreto conversando com Reyna, Hazel e Jason. O loiro sorria compreensivo para o moreno e lhe abraçou de lado, um típico gesto de amigos, mas que me deixou com um resquício de ciúmes fervendo em minhas veias.
Eu estava totalmente alheio a conversa que estava participando antes de avistar Nico, e provavelmente minha cara de desagrado e minhas bochechas rosadas de raiva contida me denunciavam descaradamente.
— Tsc – resmunguei estalando a língua e virando o rosto num ato de pura birra. Vi que Annabeth trocou olhares rápidos com Piper e as duas balançaram a cabeça em derrota.
O sinal de entrada soou pela escola e o burburinho de conversas paralelas preenchia os corredores da escola, pessoas se esbarrando sem querer, resmungos sobre trabalhos não feitos... As aulas tinham voltado, afinal.
Quando finalmente tomei coragem para entrar na sala, sem antes ter lavado meu rosto e recitado o mantra “eu consigo”, percebi que Nico já estava sentado em sua carteira e que meu lugar ao seu lado estava vago.
Como poderei ficar ao lado dele se o clima está tão pesado entre a gente?!
Prendi a respiração quando vi os orbes escuros me analisarem e me senti fraquejar na promessa. Soltei lentamente o ar e sustentei o olhar desafiador que Nico me lançava.
“Se você quer me ver agindo como um babaca então tá!”
Escutei minha frase dita no dia da briga e estanquei no lugar. Eu queria que Nico se arrependesse do modo como agiu no Motel, queria que ele percebesse o quanto eu sou importante para ele, mas só não sabia como fazer isso.
Ciúmes.
Talvez causando ciúmes nele... Fazendo-o perceber na força o que realmente sente por mim...
“Ciúmes só trás infelicidade... Ele destrói vidas, sonhos e amores. O ciúme é o pior dos monstros criado pela imaginação. Me arrependo amargamente de ter feito o que fiz com Ártemis por ciúmes...”
Lembrei do que meu pai havia me falado no dia que me revelou seu passado com a irmã. Apolo tinha razão. Ciúmes nunca trás nada de bom, mas quem sabe...
Me assustei quando escutei a voz estridente e irritante de Drew ao meu lado e percebi que durante todo esse tempo eu estava parado na entrada da porta.
— Bom dia Will! – a menina sorriu e passou a mão em meu braço. Seu sorriso malicioso demonstrava que a garota ainda tinha segundas, terceiras e até quartas intenções comigo. Mordeu o lábio inferior e rosado pelo batom.
Minha mente estava confusa entre o que fazer. Uma parte de mim queria simplesmente correr atrás do moreno e implorar seu perdão, já a outra prezava meu orgulho e dignidade. Minha razão gritava para que eu seguisse em frente com minha vida, mas o coração pedia para voltar com o moreno.
Olhei novamente para Nico e vi que Reyna falava alguma coisa para o moreno, que sorria pequeno enquanto escrevia alguma coisa a lápis no caderno. Meu sangue ferveu e num impulso me virei para Drew. A menina pareceu surpresa com minha virada brusca e interrompeu a conversa com a amiga. Puxei-a pela cintura e juntei nossos lábios num beijo selvagem.
Escutei a turma arfar e um lápis cair no chão.
Fale com o autor