Notas iniciais
Bom, como por um milagre eu acabei acordando cedo nesse domingo, resolvi fazer uma boa ação e vir aqui postar o capítulo. Esse, assim como o outro, eu também já escrevi há alguns dias, e mesmo já tendo revisado, não estou mais tão certa de que não tem nenhum errinho, então, se vocês encontrarem algum, me avisem pra eu poder arrumar, ok? Quero desejar boas vindas pros meus novos leitores, tanto os que comentaram quanto aos que só marcaram como acompanhamento, mas quero agradecer muito a quem comentou mesmo depois do site ter ficado em manutenção por 3 dias hahaha. E comentem nesse também, please, eu quero muito saber a opinião de vocês sobre esse cap. Enfim, vamos ao capítulo. Espero que gostem!

POV Tracy

Passo toda a noite trancada no quarto chorando. No começo tenho medo de que meus pais possam me escutar lá de baixo, mas conforme todas as lembranças de Luke começam a aparecer sem parar em minha mente, não consigo controlar os soluços que surgem incessantemente. Não consigo pegar no sono. Estou cansada apesar de ter passado boa parte do dia dormindo, talvez por ter caminhado tanto, mas toda a vez que meus olhos se fecham revejo a imagem de Luke e Georgina juntos.

Quando já é bem tarde ouço batidas na porta. Tenho certeza de que é minha mãe. Ela deve ter esperado meu pai ir se deitar para vir falar comigo, mas não quero conversar agora. Não quero contar a ela o que está acontecendo e estou muito triste para inventar qualquer coisa. Deixo que ela bata na porta até que ouço uma voz diferente da dela vindo lá de fora.

– Tracey, sou eu, Quinn. Me deixe ficar com você um pouco. – é minha tia Quinn. Por um momento penso em deixá-la do lado de fora também, mas tia Quinn é muito mais compreensiva e sei que não vai me fazer falar nada se eu não quiser. Além disso, estou me sentindo mal o suficiente para não querer ficar sozinha. Levanto da cama e abro a porta. O rosto de minha tia está aflito enquanto ela espera que eu diga algo. Não digo nada. Apenas a abraço e fico chorando em seus braços por alguns minutos.

Depois de algum tempo ela me leva até a cama de novo e me faz sentar. Me sinto melhor com ela aqui, mais segura.

– Não precisa me dizer nada se não quiser, querida. Só quero que saiba que estou aqui para ajudá-la.

– Obrigada, tia Quinn. Meus pais já estão dormindo? – pergunto, esperando que ela me diga se eles me ouviram chorar.

– Estão sim. Esperei que eles fossem se deitar para vir até aqui. Eles ficaram um pouco preocupados, queriam subir para ver o que estava acontecendo, mas disse a eles que devia ser apenas uma briga de namorados. – balanço a cabeça concordando com ela e sinto duas lágrimas grossas descerem pelo meu rosto. – Foi isso que aconteceu não foi?

– Mais ou menos. – digo tão baixinho que quase não dá pra ouvir.

– Quer falar sobre isso? – faço que não com a cabeça, mas as palavras saem de minha boca mesmo assim.

– Fui ver o Luke hoje mais cedo, e quando cheguei lá, ele estava com outra. Sua antiga namorada. – começo a chorar de novo e minha tia me abraça. Me sinto patética.

– Ah, Tracey, eu sinto muito. Luke não pareceu ser esse tipo de cara.

– E ele não é.

– Não estou entendendo então.

Outra vez sou obrigada a reviver tudo que me aconteceu nos últimos meses, dessa vez para contar a tia Quinn. Diferente de como foi quando confessei tudo a Mollie, dessa vez eu não choro, pelo contrário, conforme vou relembrando tudo, minhas lágrimas cessam, e em alguns momentos consigo sorrir. Quando termino de contar, minha tia não acredita que tudo isso aconteceu.

– Tracey, vocês só têm dezessete anos, como podem passar por tantas coisas?

– Boa pergunta.

– Olha meu anjo, você tem certeza de que não há chances de que tudo isso seja um mal entendido? Pelo que me contou, parece que Luke não estava mais disposto a voltar com essa garota.

– Eu vi, tia Quinn. Eu vi. Não existe mal entendido quando a gente vê uma coisa. Ninguém me contou nada. Eu estava lá e vi os dois se beijando.

– Mas vocês não conversaram depois disso, querida. Você disse que ele está te ligando.

– Provavelmente para dizer que está com ela, que tudo que aconteceu entre nós foi apenas um engano, que ele se confundiu por causa de nossa proximidade. Não temos nada para conversar. Não quero falar com ele agora. Não enquanto estiver correndo o risco de chorar na frente dele.

– Sabe Tracey, acho que nunca te contei porque me mudei dos Estados Unidos para a Holanda, não é? – ela me olha pensativa e eu balanço a cabeça negativamente. – Veja bem, eu tinha acabado de me formar na faculdade quando isso aconteceu, tinha planejado várias coisas para depois da formatura, todas elas aqui, na América, mas nada, absolutamente nada, estava saindo como o esperado. Eu me decepcionei muito com todas as situações que deram errado e, principalmente, com algumas pessoas que faziam parte da minha vida na época. Então, quando surgiu a oportunidade de mudar de país, não pensei duas vezes, fiz minhas malas e dei o fora daqui. Seus avôs quase ficaram malucos com a minha decisão, e com razão. Uma coisa é se mudar para o dormitório da universidade, outra é ir embora do país. Mas tudo isso foi bom para mim. Aprendi muitas coisas só nos primeiros meses. A me virar sozinha, a tomar minhas próprias decisões e a lidar com suas consequências. Mas o que aprendi a longo prazo, é que não adianta fugir dos problemas. Eles sempre vão estar lá quando voltarmos. Até que tenhamos coragem de encará-los. Você entende o que eu quero dizer?

Escuto a história que minha tia Quinn conta atentamente. Sei o que ela está querendo me dizer com isso tudo. Que eu devo conversar logo com Luke para acertar as coisas. Mas não estou pronta para fazer isso. Porém, vejo em suas palavras uma alternativa que não tinha enxergado antes.

– Entendo sim, obrigada por me ajudar, tia Quinn.

– Imagina, meu amor. Estou sempre aqui. Você está melhor?

– Estou. Foi bom poder desabafar.

– Ok. Vou para o meu quarto então, tente dormir um pouco, e qualquer coisa é só me chamar.

– Tudo bem. Boa noite, tia.

– Boa noite, Tracey.

***

Mal consigo dormir, e quando consigo, é óbvio que sonho com Luke. Quando o sonho é bom, acordo com o coração dolorido por saber que é apenas um sonho, e quando é ruim, quando Georgina está nele, acordo frustrada, por saber que a partir de agora essa é a realidade. Finalmente amanhece e eu ouço meus pais saindo do quarto. Tomo um banho rápido e tento esconder como posso meus olhos inchados. Quando saio do banheiro escuto a voz de minha tia vindo da cozinha e sei que os três estão lá embaixo. Antes de descer olho o celular. Luke ligou mais algumas vezes e mandou uma mensagem tarde da noite:

“Tracey, você está bem?

Estou começando a ficar preocupado

Não consigo falar com você de jeito nenhum

Liga pra mim”

Ignoro sua mensagem e desço para o primeiro andar indo direto para a cozinha. É hora de anunciar a decisão que tomei durante a noite. Quando entro no recinto meus pais olham imediatamente para mim.

– Está tudo bem? – meu pai pergunta casualmente, tentando disfarçar a preocupação.

– Está, está sim.

– Aconteceu alguma coisa ontem, filha? Eu fiquei preocupada. – minha mãe pergunta, mas não quero discutir meus problemas na mesa do café.

– Aconteceu sim, mãe. Mas não quero falar sobre isso agora. Na verdade eu tomei uma decisão e gostaria de pedir uma coisa a vocês e a tia Quinn. – minha tia levanta o olhar para mim com expectativa.

– O que você quiser, Tracey.

– Você já está indo embora amanhã, não é?

– Sim, meu voo está marcado para o fim da tarde, mas se quiser que eu fique mais um pouco posso ligar para o colégio e explicar que preciso de mais uns dias por aqui. Acredito que eles entendam.

– Não, não é isso. É o contrário. Eu mudei de ideia sobre o intercâmbio que me ofereceu. Quero ir com você para Amsterdam.

POV Luke

No sábado, acordo cedo. Na verdade dormi bem mal essa noite, acordando toda a hora e me revirando na cama. Não sei o que é, mas estou com a sensação de que algo está errado. Tracey não atende minhas ligações nem as retorna, muito menos responde minhas mensagens. Não faço ideia do que pode estar acontecendo, só sei que não é algo bom. Ligo mais uma vez para seu celular, sem me importar se é muito cedo. Chama até cair e nada. Vou para a sala, decidido a ligar para sua casa, e se não conseguir falar com ela até a hora do almoço, vou até lá.

– O que está fazendo acordado tão cedo? – dou de cara com minha mãe chegando de sua caminhada matinal. – Caiu da cama?

– É, parece que sim.

– Está tudo bem, filho?

– Não. Estou tentando ligar para Tracey, mas não consigo falar com ela. Vou ligar para sua casa agora.

– Luke, é cedo demais para ligar para casa dos outros. Ainda mais num sábado.

– Eu sei, mãe. Mas estou preocupado. Não nos falamos desde ontem de manhã. Já liguei mil vezes e ela não dá sinal de vida. E se tiver acontecido alguma coisa?

– Ok, agora você conseguiu me deixar preocupada também. Ligue.

Disco o número da casa de Tracey e espero até o quarto toque, uma voz feminina atende, mas não é ela.

– Alô.

– Alô, eu posso falar com a Tracey?

– Quem gostaria de falar com ela?

– É o Luke, namorado dela.

– Oi, Luke, aqui é a Quinn – Quinn se demora ao falar meu nome e sua voz parece estranha agora. Bom dia.

– Bom dia, Quinn. Desculpe por ligar tão cedo, é que estou tentando falar com Tracey desde ontem e não consigo. Poderia passar o telefone para ela? – Quinn não responde – Quinn, você está ai?

– Estou, estou sim, me desculpe. Luke, Tracey ainda está dormindo, ela foi para a casa de uma amiguinha ontem, qual o nome dela mesmo?

– Mollie?

– Isso, Mollie. Ela foi para a casa da Mollie e chegou tarde, deve ser por isso que você não conseguiu falar com ela.

– Ah, tudo bem. Pode pedir a ela para me ligar quando acordar?

– Claro, eu dou o recado.

– Obrigado.

– De nada, querido. Tchau.

Quinn desliga o telefone depressa e embora ela não tenha dito nada demais, algo não me convenceu. Sei que Tracey não teria ido dormir sem pelo menos me enviar uma mensagem para dizer que estava tudo bem. Não depois das inúmeras vezes que liguei para ela. A não ser que tenha acontecido alguma coisa, e se aconteceu, eu preciso descobrir o que foi.

– E então, Luke? Está tudo bem com Tracey.

– Está sim, mãe. Está tudo bem.

POV Tracey

O telefone nos interrompe no exato momento em que meus pais vão começar a protestar. Tia Quinn é a mais próxima e atende no quarto toque. Pela maneira como me encara, sei exatamente quem é. É Luke. Só de imaginar a voz dele do outro lado da linha, tenho vontade de voltar para o quarto. Engulo em seco o nó que se forma em minha garganta desejando não chorar na frente de meus pais. Faço sinal para que minha tia diga que não posso atender e alguns instantes depois ela encerra a ligação.

– Eu detesto mentir, Tracey.

– Desculpe.

– O que está acontecendo, filha? – minha mãe pergunta séria – Por que não quis falar com seu namorado?

– Luke não é mais meu namorado. – é a primeira vez que digo isso com todas as palavras. Não pensei que fosse doer assim.

– Mas por quê? Vocês pareciam tão bem na noite de sua apresentação.

– Não estamos mais. Por favor, não quero falar sobre Luke agora, mãe.

– É por isso que quer ir embora? – meu pai pergunta sem me dar a chance de responder – Tracey, você não pode deixar tudo para trás e sair do país só porque brigou com o namorado.

– Não é só por isso. – automaticamente me aproximo de minha tia, esperando que encontre nela algum apoio, mas ela não diz nada. – Eu pensei bem e cheguei a conclusão de que vai ser bom pra mim estudar fora por um tempo. Na verdade, eu sempre soube disso, mas agora não tenho nada que me prenda aqui. Os ensaios com o grupo de balé terminaram e só voltam ano que vem, Luke e eu não estamos mais juntos. Só resta Mollie, mas sei que nossa amizade pode superar alguns meses. – cruzo os dedos para que minha explicação tenha sido convincente.

– Você tem uma vida aqui, Tracey. Seus projetos na escola, provas, trabalhos. Organizar um intercâmbio não é simples assim.

– Eu sei, mãe. Mas tia Quinn disse que ajudaria. – dessa vez me viro para minha tia e com os olhos imploro por ajuda.

– Bom, as questões burocráticas não serão um problema. – minha tia diz – Vocês podem resolver isso com a diretoria do colégio sem precisar que Tracey esteja aqui, já que são os responsáveis por ela, enquanto isso eu agilizo as coisas em Amsterdam.

– Obrigada, tia Quinn. – respiro um pouco mais aliviada.

– Mas não acho que você deva tomar decisões precipitadas.

– Não estou sendo precipitada. Eu quero ir. Sempre fui responsável, sempre tirei boas notas, nunca dei trabalho para vocês. Vocês poderiam, por favor, me dar um pouco de crédito e atender a esse pedido? Pai?

– Olha só, Tracey, apesar de eu gostar da ideia de você estudar fora por um tempo, não acho que essa decisão deva ser tomada assim, de uma hora para outra. Porém, se você faz tanta questão, vamos fazer o seguinte: você viaja com sua tia amanhã, se conseguirmos passagem, é claro, e passa uma ou duas semanas com ela. Como você mesma disse, suas notas estão boas o suficientes para que alguns dias de folga não atrapalhem. Se, depois desse tempo, você ainda quiser ficar na Holanda, nós permitiremos.

Não tento convencer meus pais a me deixarem ir para ficar. Sei que isso é o melhor que vou conseguir no momento. Mas estou decidida e não vou voltar atrás. Pode até ser que, como tia Quinn disse, eu esteja sendo precipitada e até mesmo infantil. Acontece que eu sei como me sinto. E não quero voltar para escola na segunda, não quero ver Luke e Georgina juntos, não quero ouvir suas explicações de como ele percebeu que deveria dar uma chance a ela e de que nós ainda podemos ser amigos. Estou fugindo e estou ciente disso. Mas não vejo outra alternativa para mim agora.

***

– Você tem visitas. – meu pai diz aparecendo de repente na porta do meu quarto.

– Quem é? – meu coração acelera quando penso que pode ser Luke.

– Mollie. Mando subir ou você vai descer?

– Peça para ela subir, por favor, pai.

Hoje mais cedo mandei uma mensagem curta para Mollie dizendo que tudo tinha dado errado. Ela não perguntou nada, apenas disse que estava vindo pra cá. Luke parou de ligar por um tempo depois que minha tia disse que eu estava dormindo, mas, como não liguei para ele de volta, perto da hora do almoço suas ligações recomeçaram. Desliguei o celular.

– Que malas são essas? – Mollie pergunta assim que entra em meu quarto.

– Senta ai, vamos conversar um pouco.

Conto a minha amiga tudo que aconteceu desde que saí de sua casa ontem até hoje de manhã quando convenci meus pais a me deixarem ir com minha tia para a Holanda, mesmo que seja só por algumas semanas, na cabeça deles. Então ela entende o porquê das malas.

– Você está indo embora? Vai me deixar aqui sozinha? – meu coração dói mais um pouquinho com a pergunta de Mollie, mas sei que minha amiga é forte. Além disso, ela sempre teve mais amigos que eu, e agora ainda tem Vicky e Mason, de quem ela se aproximou bastante nos últimos meses.

– Você não vai ficar sozinha, Mollie. E vai passar rápido, eu prometo. Eu preciso fazer isso. Você entende, não é?

– Entendo. – ela fica em silêncio e pensa em algo por alguns segundos. – Na verdade não, não entendo. Não entendo porque Luke quis ficar com Georgina, acho que você deveria falar com ele. Mas se você acredita que isso é o melhor para você, eu apoio. Só quero que seja feliz.

– Obrigada, você é a melhor amiga de todas.

– Eu sei.

Conversamos por mais um tempo e Mollie consegue fazer com que eu me distraia um pouco. Sou obrigada a contar para minha mãe o que aconteceu entre Luke e eu. É claro que não falo nada sobre o namoro falso, tenho vergonha de dizer que mentimos para ela esse tempo todo, então só conto sobre a parte de tê-lo visto com Georgina, mas acabo me sentindo culpada porque ela fica extremamente decepcionada com Luke, e mesmo que eu também me sinta assim agora, sei que as coisas não são como ela pensa.

Um pouco depois que Mollie chega, Luke liga de novo para minha casa. Minha mãe atende dessa vez e inventa que saí as pressas com meu pai para um programa que sempre fazemos quando ele está na cidade e que só voltaremos a noite. Sei que ela também odeia mentir, principalmente sendo Luke filho de uma de suas melhores amigas, mas imploro para que ela faça isso por mim. Luke não acredita nela, e cinco minutos depois liga para o celular de Mollie procurando por mim. Ela confirma a história, mas ao desligar o telefone me encara séria.

– Você precisa conversar com ele.

– Não. Nem pensar.

– Tracey, você está agindo como uma criança teimosa.

– Não posso falar com ele, Mollie. Vou passar vergonha. Vou chorar e parecer uma garotinha apaixonada patética. Não estou pronta para fazer isso agora.

– E vai fazer quando? Não é como se vocês fossem se ver daqui a dois ou três dias. Vai ir embora sem sequer dizer adeus? – ver as coisas por essa perspectiva faz com que meu coração se aperte e meus olhos se enchem de lágrima novamente.

– Eu não sei, não sei, Mollie. Mas não posso falar com ele.

Mollie desiste e depois de mais um tempo vai embora, prometendo voltar amanhã para ir comigo até ao aeroporto. Papai conseguiu as passagens, agora é definitivo.

Sozinha em meu quarto termino de colocar minhas roupas nas malas e começo finalmente a sentir o peso da minha decisão em meus ombros. Não é apenas Luke que estou deixando para trás, é minha vida inteira. Corro os olhos pelas fotos na parede e uma sensação de nostalgia antecipada me abraça. Antes só havia fotos minhas com Mollie, mas depois outros rostos começaram a aparecer. Vicky entre nós duas com sua roupa de líder de torcida. Mason com o uniforme do time. Nós todos juntos na arquibancada assistindo ao jogo de futebol de Jake, e a mais recente, eu e Luke no concurso de fantasias da escola. Vou embora e tudo isso ficará para trás. Me lembro do dia em que eu e Luke estávamos estudando matemática e eu comecei a refletir sobre todas as coisas boas que nosso falso namoro me trouxe. Não me arrependo de nada que fiz e vivi, talvez, apenas de ter me envolvido tanto.

Penso em retirar as fotos da parede e levá-las comigo, mas depois percebo que isso só me fará sofrer mais. Assim, pego apenas a que estamos juntos na arquibancada. Todas as pessoas que importam para mim naquela escola estão nela. Essa simples fotografia será mais que o suficiente. É então que penso na pergunta que Mollie me fez pouco antes de ir embora: “Vai ir embora sem sequer dizer adeus?”. Não posso partir sem ao menos me despedir de todos eles. Mas não quero vê-los agora. Sei que se fizer isso corro o risco de desistir e não posso deixar que isso aconteça.

Sento-me em minha escrivaninha e alcanço meus papéis coloridos para recados. O primeiro deles é para Vicky:

“Vicky, quero que saiba que você foi a responsável por acabar com meu preconceito contra líderes de torcida. Obrigada por ir aos treinos de lacrosse comigo e me explicar o que estava acontecendo. Sentirei saudades.”

Depois, pego outro papel e escrevo para Mason.

“Espero que você consiga assistir a todas as séries em que se atrasou até que eu volte. Vamos ter muita coisa para conversar. Cuide da Vicky e a peça em namoro de uma vez por todas. T.”

O último recado que escrevo é para Jake. Embora não sejamos tão próximos assim, ele fez muito mais parte da minha vida do que pode me imaginar.

“Jake, espero que não fique com raiva por eu te abandonar nas aulas de biologia. Prometo voltar a tempo de dissecar alguns sapos com você (eca!). Obrigada pela companhia durante todo o ensino médio, e por me levar a enfermaria quando eu quase desmaiava.”

Sei que poderia simplesmente mandar uma mensagem para eles, um e-mail, ligar ou qualquer coisa do tipo. Mas eu sempre fui fã de coisas que podemos guardar com a gente para nos lembrarmos sempre das pessoas que foram importantes para nós. E eu espero ser importante para eles como são para mim. Quando termino de escrever os três bilhetes, que deixarei com Mollie amanhã, parto para a tarefa mais difícil de todas.

Pego meu diário dentro da gaveta com chave e arranco uma folha em branco. Foi por causa dessas páginas que tudo começou, e acho uma boa ideia que tudo termine com uma delas. Começo a pensar no que quero escrever e percebo que não sinto raiva de Luke, nem mágoa ou coisa parecida. Tudo que me vem quando penso nele é esse sentimento que não posso controlar, e que nunca poderei dar a ele. É sobre isso que quero escrever nessa carta.

“Luke...

POV Luke

Acordo no domingo decidido a ir até a casa de Tracey. Ontem ela não me ligou outra vez. Não importa o que sua mãe, ou Quinn, ou Mollie digam, não tem explicação. Tracey não ficaria dois dias inteiros sem falar comigo, sem sequer mandar uma mensagem para dizer que está tudo bem, para ao menos responder as minhas e dizer que não iríamos poder nos ver porque ela estava com o pai. Aliás, não acreditei muito nessa história. Ok, o pai de Tracey passa mais tempo viajando que em casa, é natural que ele queira passar um tempo só com a filha quando pode, mas ela não podia me avisar sobre isso? Tem algo errado, eu sei que tem. Mas o que?

Ontem a noite, depois de tentar falar com ela mais uma vez sem resposta, fui até a casa de Mason para conversar e tentar decifrar a cabeça de Tracey. Depois de contar parte da história a Mason, o que podia ser contado, ele me disse para não me preocupar, pois garotas são assim mesmo, e que Vicky também faz isso de vez em quando. Disse também que se não tinha acontecido nada demais entre nós, eu não tinha com o que me preocupar, e que, com certeza, Tracey só estava precisando de um tempo só para ela.

Mesmo sem saber de toda a história, meu amigo conseguiu me ajudar. Depois de sair de sua casa, fiquei pensando que talvez seja isso mesmo, que talvez Tracey esteja aproveitando esse tempo para pensar em tudo que vem acontecendo, e que logo vai me ligar. Porém, agora não consigo mais ver as coisas por essa perspectiva. Estou preocupado com Tracey, com a hipótese de ela ter tomado qualquer decisão sem conversar comigo, e principalmente, preocupado com o que possa ter acontecido para que ela esteja agindo assim.

Meu último momento com Georgina passa rapidamente pela minha cabeça. Eu pretendia contar tudo a Tracey porque não quero esconder nada dela, mas até agora não tive a oportunidade. Me pergunto se Tracey pode ter ficado sabendo disso e interpretado da forma errada. Mas não, não há como ela saber. Eu e Georgina estávamos sozinhos. Ninguém nos viu. Tiro essa ideia da cabeça e vou me arrumar para ir até a casa de Tracey.

***

Quando chego em sua casa, já é quase hora do almoço. Está tudo fechado e a casa claramente está vazia. Mesmo assim, toco a campainha e espero alguns minutos só para confirmar. Nada. Resolvo voltar depois, mas estou ansioso demais para voltar para casa. Assim, começo a dar voltas de carro pela cidade. Passo por vários lugares conhecidos, inclusive pela pracinha onde costumávamos brincar quando crianças e onde estivemos na noite do jantar na minha casa. Quando volto a casa de Tracey mais de uma hora depois, ninguém chegou ainda, mas eu resolvo esperar.

Espero quase duas horas até que o carro de seus pais entra na garagem. Aguardo alguns minutos e toco a campainha. Meio minuto depois, sua mãe aparece na porta com um semblante triste.

– Luke? O que faz aqui? – sua pergunta me pega de surpresa.

– Vim ver a Tracey, ela não está?

– Ah meu Deus, ela prometeu pra mim que ia falar com você antes de ir.

– Antes de ir pra onde? – começo a ficar nervoso com o rumo da conversa e tenho que me controlar para não mandar a mãe de Tracey falar logo.

– Luke, eu sinto muito que ela não tenha dito nada a você, mas Tracey está indo para Amsterdam com minha irmã. Elas acabaram de embarcar.

Receber essa notícia é como levar um soco na cara, mas ao mesmo tempo é como se não fosse comigo, como se estivesse em um sonho. Tracey não faria isso. Ela não iria embora sem me dizer nada.

– Como assim foi pra Amsterdam? Ela disse que não iria.

– E não ia mesmo, mas ontem pela amanhã nos implorou para que a deixássemos ir. Mas talvez ela volte daqui algumas semanas, não é nada definitivo. – não consigo responder à senhora Morgan, ainda estou tentando entender por que Tracey faria isso. – Eu sinto muito, Luke. Você quer entrar um pouco? Conversar?

– Não, obrigado, senhora Morgan, eu já vou.

Não espero que ela responda nada e vou direto para o meu carro. Eu sabia que algo estava acontecendo, algo muito errado, mas não consigo entender o que pode ser tão grave para fazer com que Tracey decida deixar tudo para trás assim, sem ao menos conversar comigo, sem ao menos se despedir de mim.

Mal percebo e já estou dirigindo novamente. Dessa vez vou até a casa de Mollie, sei que só ela pode me explicar o que está acontecendo.

***

– Estava me perguntando se você viria ainda hoje ou se só te veria amanhã. – Mollie diz enquanto abre caminho para que eu entre na sala de sua casa. De longe posso ouvir algumas crianças, devem ser seus irmãos gêmeos.

– O que está acontecendo, Mollie? Por que ela foi embora assim? Por que não quis falar comigo?

– Tem certeza de que não sabe? Nem imagina?

– Não, eu nem imagino. Por favor, Mollie, se você sabe de alguma coisa, fala logo.

– Sabe, Luke, na sexta-feira Tracey esteve aqui em casa. Ela me contou um monte de coisas sobre vocês dois que eu nunca ia imaginar. Ela me disse que o namoro de vocês não era pra valer, mas me contou também que as coisas estavam mudando, só que não tinha certeza de como você se sentia sobre isso, de como se sentia sobre ela. – Mollie faz uma pausa e volta a falar com mais complacência. – Mas Tracey sabia como se sentia sobre você, e foi por isso que veio aqui. Veio me pedir um conselho. E eu, a idiota aqui, disse para ela te procurar e contar tudo, dizer que estava apaixonada. A culpa é toda minha, entende? Minha melhor amiga foi embora por minha culpa, minha melhor amiga está sofrendo por minha culpa. – a essa altura os olhos de Mollie estão marejados.

– Mollie, eu não consigo compreender. Do que você está falando?

– Tracey foi procurar você assim que saiu daqui, porque eu disse que era isso que ela devia fazer. Quando chegou a sua casa deu de cara com você e Georgina, aos beijos. Como acha que ela se sentiu?

– O quê? Tracey me viu com Georgina? E por que ela não falou isso pra mim? Por que não conversou comigo? Eu tentei falar com ela um milhão de vezes nas últimas 48 horas.

– Eu sei disso. Eu mesma disse a ela que vocês deviam conversar. Mas se coloque no lugar dela, Luke. Tracey ficou arrasada. Ela foi até lá para dizer pra você que estava apaixonada, e te viu beijando outra. Outra que é ninguém mais ninguém menos que a vadia da Georgina. E não venha me dizer que Georgina não é uma vadia porque ela é sim. Você sabia que ela intimidou Tracey no banheiro da escola outro dia?

– Georgina fez o quê?

– Ela disse a Tracey que você ainda gostava dela e que voltaria para ela correndo, era só ela querer. E ainda disse que Tracey nunca poderia competir com ela.

– Você está brincando?

– Não acredita que sua queridinha faria isso?

– Georgina não é minha queridinha, Mollie.

– Então porque estavam se beijando?

– Isso não importa. Tracey tinha que ter falado comigo e não fugido.

– Ela estava se sentindo humilhada.

– Para de defendê-la, Mollie, você sabe que ela errou. Entendo que tenha se decepcionado, mas ir embora sem me dizer nada? Não tem justificativa.

– Por falar nisso – Mollie caminha um pouco e pega um envelope na mesinha. – ela deixou isso aqui pra você.

– O que é isso?

– Acho que uma despedida.

Não tenho mais nada pra falar com Mollie. Estou cansado de tentar entender ou explicar alguma coisa. Saio da sala e vou em direção à porta.

– Luke, eu sinto muito.

– É, eu também.

***

Em casa, passo pela sala sem nem olhar para minha mãe ou Tommy. Não quero falar com ninguém agora. Fecho a porta do meu quarto e tenho vontade de quebrar algumas coisas, mas se fizer isso terei de explicar a minha mãe o que está acontecendo e isto não está nos meus planos. Me jogo na cama e fico um bom tempo encarando o teto, pensando em como as coisas mudam tão rápido. Há dois dias eu estava bem aqui, pensando em como estava feliz com Tracey, e agora, ambos estamos sofrendo por causa de um mal entendido. E porque somos covardes, porque não tivemos coragem de falar sobre nossos sentimentos quando tivemos a chance.

A carta de Tracey pesa cem quilos em minha mão. Quero rasgá-la em mil pedaços para mostrar a Tracey que não preciso de suas explicações e despedidas escritas. Se ela não foi mulher o suficiente para olhar em meus olhos e dizer tudo, não me interessa ler. Mas o problema é que estou realmente curioso para saber o que Tracey escreveu, e mesmo que eu tivesse coragem de rasgar a carta, não faria diferença, Tracey não está aqui para ver meu protesto contra sua atitude.

Sento-me na beirada da cama e abro o envelope, reconhecendo logo o papel que está dentro dele como uma das folhas do diário de Tracey. É claro que ela escolheria uma delas para escrever para mim. Consigo imaginá-la sentada em sua escrivaninha enquanto escreve.

Luke,

Sei que as palavras que vou escrever aqui não serão suficientes para explicar por que estou partindo, e muito menos a intensidade do que estou sentindo agora. Porém, não consigo ir embora sem te dizer tudo isso de alguma forma, e essa foi a única forma que encontrei.

Acho que, assim como eu, você deve se lembrar do dia em que começamos com tudo isso, e de como eu estava morrendo de medo de tudo dar errado. Naquele momento eu pensei em todas as coisas que podiam sair do meu controle. Nós vivíamos brigando, eu tinha certeza de que não conseguiria interpretar meu papel, todos iriam descobrir. Mas, dentre tantas coisas, eu não me dei conta da mais perigosa delas. Eu sabia que essa história toda não acabaria bem, só não sabia exatamente o porquê. Agora sei.

Durante todo o tempo em que “namoramos”, você conseguiu me mostrar um Luke que eu não sabia que existia, e eu passei a gostar desse Luke. A gostar muito, mais do que deveria. Esse foi meu erro, Luke, e eu peço desculpas por não ter conseguido manter as coisas como elas deveriam ser. Acho que acabei me acostumando a estar com você, e gostando de estar com você. Em algum momento tudo isso deixou de ser uma mentira pra mim, eu me perdi no que era verdadeiro e no que era falso entre nós dois. Talvez, porque pra mim, nada mais fosse falso.

Você me ensinou a confiar em você, e eu confiei o bastante para te contar meus segredos, para me apaixonar por você. Talvez, o meu maior erro, tenha sido não confiar apenas mais um pouco, o suficiente para dizer tudo que senti e que estou sentindo agora. Entre todas as palavras que não te disse, entre todos os sentimentos que guardei, quero apenas que você saiba que estou apaixonada por você, Luke. Eu te amo. E espero que me perdoe por não ter tido coragem de te dizer isso.

Estou indo embora porque não consigo mais viver com isso dentro de mim, e não sei se consigo superar tudo o que aconteceu nos últimos dias estando assim tão perto. Porém, vou levar você comigo em cada lembrança, e principalmente, em todas as coisas que aprendi com você. Você me ensinou a ser uma pessoa melhor, a não ter medo, a confiar em mim e nas pessoas, e eu sempre serei grata por tudo que fez por mim. Sou melhor hoje por causa de você. Obrigada.

Mais uma vez, quero dizer que espero que você possa me perdoar um dia por ter estragado tudo. Espero também que seja feliz daqui pra frente, de verdade. Sentirei sua falta todos os dias e sempre vou pensar em você. Por isso, se eu ainda puder te pedir algo, peço que também pense em mim de vez em quando. Por favor, Luke, não me esqueça.

Tracey.

Meus olhos ardem quando termino de ler, mas me recuso a chorar. Tracey está errada. Ela não devia ter partido sem antes me dar a chance de esclarecer as coisas, portanto, não merece que eu chore por ela. Nunca chorei por uma garota antes. Não chorei quando Georgina terminou comigo, me traiu e me fez de corno para todo o colégio, também não vou chorar agora.

Sou traído por mim mesmo quando uma lágrima molha o papel com a letra de Tracey, mas eu a enxugo rapidamente e me levanto da cama, dobrando a carta novamente e guardando-a de volta no envelope.

POV Tracey

Como tivemos que comprar as passagens as pressas, não conseguimos nenhuma que fosse direto da minha cidade para Amsterdam, de modo que temos de fazer uma escala em um aeroporto em NY primeiro. Tia Quinn está sonolenta o suficiente para ficar monossilábica, o que é estranho porque ela sempre fala bastante. Eu estou me sentindo sozinha, e com aquele medo característico de quem se pergunta se fez mesmo a escolha certa.

Aproveito o momento para finalmente ligar meu celular de novo. Ele apita incontáveis vezes com as inúmeras mensagens de textos e correios de voz que Luke deixou. Estou prestes a apagá-las quando uma voz dentro de mim me diz para não ignorá-las. Leio e depois ouço todas as mensagens de Luke antes de apagá-las do celular, tentando fazer com que sua voz fique gravada em minha mente, porque sei que, provavelmente, não receberei outras como essa.

Notas finais
E ai, o que acharam? Xx.