Pretérito Imperfeito
24 Capítulo XXIV - Will Truth Set Me Free?
Notas iniciais
29 de julho de 2011
Querido diário,
Hoje faz exatamente três dias que estou consciente, três dias que eu decidi me dedicar a odiar D., três dias que eu estou trancada em casa sem por nem o pé pra fora para pegar o jornal na porta. Estou sendo covarde? Bem... Já cuidei de Laiana, ela não tem sinal nenhum de trauma, pelo contrário, ela anda se encontrando com Chad Wilson, no começo eu não gostava muito dele porque é amigo daquele Aaron que tentou me agarrar naquela vez que D. me salvou e nós demos nosso primeiro beijo... Urgh! Que raiva! Tudo faz eu me lembrar desse infeliz... Cada canto do meu quarto destruído, cada música no meu Ipod, por isso não ando escutando nenhuma... Até a minha cama parece ter o cheiro dele, ele adorava ser folgado e se deitar nela me provocando... Urgh! Aqui estou eu de novo lembrando-me de coisas, tenho que parar com isso! Será que a solução é ir embora de Mystic Falls de uma vez com Fernanda e Laiana, bem, as férias de verão acabam em dois dias, daria tempo de me matricular na escola de lá novamente... O que eu estou fazendo? Fugir? Não! Isso seria ser covarde... Claro que ficar entocada como eu estou não é sinônimo de bravura nenhuma, mas sair daqui repentinamente dessa maneira seria confessar a D. que ele é o motivo, não vou dar esse gostinho a ele, não mesmo...
Ah, é!... Eu prometi que ia falar mais dos meus sonhos de quando eu estava em “outra dimensão”, conforme eu lembrasse. Bom, teve uma parte bem estranha do mundo de esquisitices da minha mente... Eu estava num campo ao ar livre, com os dois sóis, estava tudo muito claro e bem visível como era de costume lá, só que uma neblina densa e acinzentada como uma fumaça de chaminé de indústria bloqueou a minha visão, eu estava sentada, mas a mudança rápida e inesperada do ambiente me assustou um pouco — (na verdade, me assustou para caramba! rs’) – fazendo-me levantar da grama macia do chão, que mais pareciam plumas acariciando minha pele ao toque invés de provocar a irritante coceira habitual, me levantei na intenção de sair correndo caso alguma sombra na neblina ameaçasse me atacar... Mas eu paralisei quase fingindo ser apenas parte do cenário quando visualizei uma sombra de pessoa se materializando a alguns metros, a sombra se aproximava à medida que se tornava mais concreta, eu estava em pânico, quando o rosto da sombra ficou mais nítido eu pude reconhecer, era Marisa Salvatore, minha mãe. (Como eu sei que era minha mãe se ela morreu no meu parto? Por favor, diário! Eu tenho fotografias...).
Eu a chamei de mãe, e o rosto tristonho dela olhou para o chão e balançou sua cabeça negativamente (não sei como ela conseguiu, porque eu nem conseguia ver meus pés no meio daqueles muros de neblina)... Eu não entendi nada! Que fique bem claro.
Então pude ver pelos ombros da mulher que era idêntica a minha mãe, outra sombra surgir, aconteceu a mesma coisa, a penumbra foi ficando mais forte e nítida e consegui ver um rosto e o seu corpo, era outra mulher, ou eu deveria dizer menina? Ambas eram tão adolescentes quanto eu, mas a segunda sombra que parecia estar vestida com um vestido de festa daqueles antigos que as mulheres da cidade vestem no dia dos fundadores, tinha seu cabelo avermelhado caído sobre seus ombros como cascatas e parava em sua cintura, ele brilhava como brasa chamuscando-se; a mulher em si brilhava por inteiro, tinha uma aura linda, que por incrível que pareça eu conseguia enxergar, ela parecia um anjo, e batia o recorde na idade! Parecia ser mais nova do que eu e a “sombra da minha mãe”...
Ela pôs a mão no ombro da “minha mãe” que estava triste, para consolá-la, só nessa hora pude notar que a “minha mãe” também tinha uma aura, mas era acinzentada como a neblina, ficou camuflada, por isso não notei de primeira.
Depois que “minha mãe” ergueu os ombros, a mulher/menina ruiva que brilhava como um raio daqueles sóis imensos, que agora estavam bloqueados pela nuvem cinza sobre nós, pousou o olhar em mim novamente, ela sorriu.
A imagem e a sensação positiva que ela transmitia era tão boa que eu sorri de volta; quase chorei pela emoção purificante que a mulher emanava.
Em seguida, antes que eu chorasse realmente, o rosto dela parou de sorrir e se tornou perseverante e me transmitia segurança, era estranho, mas se ela falasse que eu ficaria bem se pulasse de um prédio de trinta e sete andares, eu pularia sem fazer perguntas.
– “Você vai precisar ser forte.” – A doce voz que saiu da boca dela parecia com um encontro harmônico de violinos e harpas magicamente afinadas. Eu a escutei com atenção e cautela.
– “Seus dias não serão fáceis...” – A voz melódica ainda me ludibriava. – “... Não se deixe abater, confie em seu coração, não se afaste das pessoas que você ama...”
Eu falei com ela pela primeira vez, tive medo antes de interferir naquele som que tanto agradava e me provocava sono com seu tom aveludado em meus ouvidos. “O que quer dizer com isso?” Foi o que eu perguntei.
– “Que se a pessoa que você mais amar te magoar, perdoe, não poderá saber logo o motivo de tudo, mas perdoe” – Ela me respondeu, agora diário, eu comecei a refletir, será que ela estava falando de D.? Se for, sinto muito, não vou perdoar bulhufas nenhuma! Onde vai para o meu orgulho se eu o fizer? Eu estou muito magoada, seria uma traição contra mim mesma perdoá-lo. Sim! Deixa eu voltar para o sonho...
Ai... A ruiva que brilhava sorriu para mim novamente, e a “minha mãe”, que estava ali quase como figuração, sorriu para mim também.
– “Um dia tudo fará sentido para você, nós prometemos” – Foi a única coisa que a sombra de Marisa Salvatore falou.
Depois daquela troca de sorrisos esquisita a ruiva arregalou os olhos e puxou a “minha mãe” pelo braço, as duas saíram correndo no cômodo de neblina... Era isso! Aquilo era uma sala de neblina! Só podia ser! A intenção delas era que ninguém nos visse ou ouvisse, a intenção não era atrapalhar meu campo visual... Garotas espertas!... Sim! Deixa eu explicar que você não deve estar entendendo nada, não é diário?
Quando as meninas saíram correndo, elas desapareceram e tooooda a neblina sumiu com elas. Aí os dois sóis reapareceram, pude ver novamente a grama e tudo com bastante clareza.
E pude ver um homem que corria na minha direção, já tive antipatia dele logo de longe, a causa do anjo ruivo estar fugindo só podia ser ele, aquilo me irritou profundamente, estava tão tranquila junto dela.
O homem me alcançou, mas não olhou para mim, eu parecia ser transparente... Ele olhava para os lados naquele campo, era inútil, não tinha árvore alguma, ou pedra, ou lugar algum onde alguém poderia se esconder dele.
– “Ela estava aqui, não estava?!” – O homem vasculhava em trezentos e sessenta graus furioso. Ele brilhava também! Só que não era um brilho de raios de sol como o da mulher de cabelos de fogo, era um brilho negro, se é que isso é possível... Ele tinha uma aura que o envolvia como película, era sombria.
Eu me fiz de desentendida e perguntei: “Ela quem?”
– “Ela, ora...” – Ele respondeu e olhou finalmente para meu rosto. (Tinha algum problema com as pessoas daquele lugar, eles nunca diziam nomes, claro! Se são tudo invenção do meu subconsciente... Não é?!) Quando os olhos dele encontraram minha face pela primeira vez, ele também sorriu.
Só que o sorriso dele me causou medo, queria encolher e ficar menor que uma formiga apenas para não estar no campo de visão dele. Apesar disso, por que todo mundo resolveu sorrir pra mim de repente? Estão me achando com cara de dentista ou coisa assim? Porque, sei não...
– “Não tenha medo, você é a única que não precisa me temer, bem... Nem você e nem Ela!” – Ele falou e parecia tentar me tranquilizar, mas não funcionou muito. O homem tinha um sotaque engraçado, o que me distraiu um pouco. – “Fantástico, fantástico...” – e mais sotaque.
– “O que?...” – Interroguei num ataque de coragem que veio não sei de onde. – “...O que é ‘fantástico’?...”
– “Seu subconsciente...” – O homem começou a me rodear, urgh! Como eu detesto quando fazem isso, parece que estão me analisando, ou calculando meus movimentos, ou coisa assim. – “... Ele uniu dois campos espirituais completamente diferentes...” – O homem parou na minha frente e apontou para um sol e depois apontou para o outro... Ah! Esqueci de dizer, o homem tem um cabelo acastanhado claro, é meio loiro. – “... Você não vê? Um está se pondo e o outro está nascendo...”.
– “Nossa! Me conte uma novidade...” – Tive um rompante de coragem novamente e falei satirizando, ele não gostou muito do meu tom e me olhou com cara feia, queria encolher, nessa hora, mais do que uma bactéria!
Depois que ele desmanchou a cara assustadora, sorriu relevando meu comentário, e voltou a me rodear e falar.
– “Algo dentro de mim sempre me dizia que você não podia ser uma humana comum... Aqui está a prova...” – O homem loiro abriu os braços e rodou sozinho olhando o ambiente.
– “Claro que não sou uma humana comum, tenho alergia a verbena!... E como você sabe alguma coisa sobre mim?” – Eu falei confusa. Ele ignorou minha última pergunta e fez um comentário carregado de seu sotaque que me intrigou mais ainda.
– “Não é disso que eu estou falando, sweetheart...”- Ele deu uma gargalhada breve, porém sinistra, em seguida, colocou suas duas mãos nas costas e ficou olhando com uma melancolia, que agora me dava pena, para o sol que estava sempre nascendo. Pude notar que aquele sol não era o que pertencia ao mundo dele e sim, ao Dela.
O homem loiro, assustador e de sotaque engraçado queria mesmo falar com uma das duas que a pouco tinham me visitado, mas algo dentro de mim me forçava a acreditar que era o anjo que ele queria ver.
Ele parou de olhar o sol que nascia e olhou para o que segundo minhas conclusões era o sol dele, o que se punha... Depois olhou para mim.
– “Um dia sua natureza vai falar mais alto...” – Ele fez uma pausa e voltou a falar. – “... E você vai ter que abandonar todos os que se importa para entender o que é...”
Aquilo que ele falou me irritou profundamente, e nuvens tempestuosas surgiram naquele céu limpo pela primeira vez.
– “O que você quer dizer com isso?” – Eu perguntei, o vento soprava em meu cabelo deixando-o praticamente em pé.
Ele olhou para mim irritado, de alguma forma ele sabia que o clima daquele jeito era causado pelos meus sentimentos, coisa que naquele momento eu não sabia. Olhei para os olhos dele que estavam tão irados quanto os meus, mas tinha algo estranho, suas íris que eram azul-esverdeadas estavam amarelo-alaranjadas como de um... De um... Lobo. Lobo? É! Pareciam olhos de lobo...
– “Que o seu mundo feliz cor-de-rosa vai acabar mais cedo do que pensa!” – Presas surgiram na boca irritada daquele homem, e um raio projetado de uma nuvem sobre minha cabeça o atingiu fazendo-o desaparecer. Depois as nuvens foram aos poucos desaparecendo, e tudo voltou ao normal.
Naquele instante eu fiquei apavorada, pois não sabia que o clima era influenciado por minhas emoções e tinha medo que um raio também acertasse em mim, afinal eu estava desprotegida em um campo aberto. Passei um tempo pensando que a qualquer momento uma tempestade poderia surgir do nada e me matar, como havia matado aquele homem bizarro... É, eu pensei que ele tinha ‘morrido’, mas não, ele só havia desaparecido, eu encontro com ele outras vezes, só não vou poder contar agora porque a Jenna está me berrando lá de baixo para que eu saia do quarto e vá jantar com eles.

P.S.: “John, vai mandar dinheiro amanhã para que eu possa refazer meu quarto! Estou animadíssima para redecorar tudo, pelo menos vou parar de pensar em certas coisas e certo D. vadio!”.
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