Pretérito Imperfeito
22 Capítulo XXII - Big Girls Don’t Cry
Notas iniciais
26 de julho de 2011
Querido Diário,
Hoje meu mundo mudou completamente.
Tudo bem, eu sei, eu sei... Desde que comecei um relacionamento com o indivíduo D. abandonei você. (Mal consigo pensar no nome dele, você sabe quem é então não me force a escrever, pelo menos ainda não consigo.)
Você deve estar se perguntando o que houve, por que eu apareci assim de repente depois de tanto tempo para escrever e o que aconteceu comigo e com ele. Bem, foi uma loucura total. Fui enfeitiçada e uma garota que é bem parecida comigo, roubou meu lugar... Ela roubou meu corpo e meu namorado, sei que não foi ela que pediu para aparecer... Será mesmo?
Só sei que isso durou o período de um mês inteiro e que por causa dela minha vida virou de cabeça para baixo. D. me traiu! Com ela? Não sei e não quis saber, mas ele hipnotizou minha melhor amiga humana e a coagiu a dormir com ele... Ela era virgem como eu, nós éramos as últimas da nossa espécie no nosso grupo de amigos... Agora eu estou só.
Você também deve estar se perguntando como posso escrever essas coisas e manter minha letra legível, isso é porque eu já surtei. Quebrei meu quarto todo, mas TODO mesmo! Estou cansadíssima e te encontrei, quase com uma aura brilhante pedindo: Escreva-me, escreva-me! Então aqui estou eu...
O que eu vou fazer? Dar uma segunda chance a ele? Perdoá-lo? Até parece!... Eu nunca tinha sido tão magoada em toda a minha vida como fui hoje, sabe o que eu vou fazer?Vou me dar uma missão, e ela é muito simples. Eu tenho que odiá-lo! Tenho que transformar cada resto de amor ou qualquer sentimento bom em raiva, é! É isso! Eu tenho que fazer isso! Assim vou erguer o pouco de dignidade que ainda tenho, é o mínimo que posso fazer... Se eu vou conseguir? Vou me esforçar...
Ah, Diário!... Me sinto um pouco orgulhosa de mim, não derramei uma lágrima sequer, e não pretendo! Eu não vou ser a garota traída que fica chorando e lamentando pelos cantos, eu não queria bancar a menininha doente que tem uma doença terminal, você acha que eu vou bancar a chifruda frustrada? Quem pensar isso se engana drasticamente.
Ah, tem outra coisa que eu tenho que te contar! Nesse tempo que eu tava dormindo eu tive uns sonhos estranhos com umas pessoas que eu nunca vi na vida antes, mas o que mais se repetia era com uma mulher “senhora” negra com umas roupas antiquadas, foi ela que me disse que eu estava adormecida por esse tempo, claro, era um sonho e eu não acreditei, mas o fato do que ela ter falado ter se tornado realidade é um pouco esquisito...
Como era lá? Parecia outra dimensão, para falar a verdade... Tinha dois sóis, isso mesmo DOIS. Um sol sempre estava se pondo e o outro sempre estava nascendo, não era parecido com nada que eu tenha visto ou lido em algum lugar, a aparência era a mesma o tempo inteiro, com luz, era até bonito, exceto quando alguma das pessoas que me visitava me irritavam, começava a trovejar, nuvens cobriam esses sóis e ficava tudo escuro, as luzes projetadas vinham apenas dos raios... Depois eu falo mais sobre esse lugar, porque acho que tem alguém batendo na porta do quarto.
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Juliana tropeçou em algumas coisas amontoadas, desligou o som e chegou à porta, era Caroline. A loira arregalou os olhos para a bagunça e depois olhou para a amiga.
– Eu descontei um pouco da minha raiva... – Juliana disse dando de ombros. -... Aposto que você já deve estar sabendo...
Caroline mudou sua expressão de susto, para uma de pena.
– Nem me olhe com essa cara... – Retrucou Juliana enquanto a vampira continuava em silêncio.
A loira a abraçou fortemente.
– Ca-ro-li-ne—não—es-tou—con-se-guin-do—res-pi-rar... – Disse a morena quase roxa.
– Vai ficar tudo bem, tá? – Disse a loira soltando-a e agora a segurando pelos braços.
– Eu sei que vai... – Disse Juliana enquanto a loira voltava a abraçá-la.
– Sabe... Sabe... – A loira a consolava. – Espera aí, SABE? – Ela perguntou soltando o abraço e encarando a outra menina.
– Sei, Caroline... O que você acha? Que o meu mundo vai acabar só por causa de um homem?! Não, meu bem... – Juliana disse o mais natural que conseguiu reproduzir.
– Mas esse tipo de coisa acaba com a gente... – Caroline se explicava.
– Não comigo... – Juliana disfarçava. -... Vou seguir em frente, e não vou fazer drama, ou chorar...
– Você TEM que chorar! Você precisa... Para aliviar a dor que está sentindo por dentro. – Dizia a loira.
– Não deveriam querer me ver sorrindo invés de chorando? – Disse Juliana logicamente.
– Não, a lógica não funciona assim... Você tem que chorar para caramba, sofrer por uns meses, ouvir músicas depressivas, tomar um pote de sorvete com cokkies e depois de semanas trancada dentro de casa, você finalmente vai começar a sair com suas amigas que vão te empurrar vários caras para você se apaixonar novamente, mas como você ainda gosta um pouco do salafrário do ex que te traiu, você foge dos caras que suas amigas te arrumaram, até que um dia você se esbarra na rua com um lindo desconhecido que te faz esquecer tudo o que sofreu e a faz querer amar novamente... – Caroline fantasiava.
Juliana tentava prender o riso, mas caiu em gargalhadas.
– Você tirou isso de qual filme? – Ela perguntou com dificuldade entre as risadas.
– Vai rindo... Mas é a realidade. – A loira falou fingindo-se magoada. – Mas é sério, você tem que extravasar...
– Liberar e jogar tudo pro ar também? – Juliana indagou séria e depois voltou a rir.
– Continue rindo... Eu só quero ajudar. – Disse Caroline magoada.
– Eu sei, Car... Mas eu não vou ser do tipo de garota que fica sofrendo por uns meses enquanto engorda com sorvete e cokkies... – Juliana tentava desemburrar a amiga.
– E qual é o problema com isso? – Caroline perguntou se identificando com o estereótipo de garota-fossa.
– Nenhum... Só não é minha idealização de final perfeito de relacionamento, me permita reagir da minha maneira, okay? – Ela disse agora consolando a loira. Papéis invertidos.
– Vou me esforçar, mas não vou fazer promessa nenhuma... – Disse Caroline sendo abraçada por Juliana. – Quer ajuda para arrumar essa bagunça?
– Seria ótimo... – Disse a morena soltando a vampira.
[...]
Como vampiras, rápidas e ágeis, Fernanda e Caroline trabalharam em equipe organizando em poucos minutos as coisas que não estavam quebradas.
Desviraram o guarda-roupa, por sorte Juliana não tinha decidido rasgar as próprias roupas, colocaram o colchão no devido lugar, porém o resto era perda total, tiveram que jogar fora.
Juliana ia ter que dar uma ligadinha para seu pai John Gilbert para que ele providenciasse nova mobília e acessórios. Como ele devia uma vida inteira de bom pai para a garota, conseguir isso sem perguntas ou hesitações não era problema para ela.
Depois de tomar uma boa ducha e Caroline praticamente a obrigou a tomar alguns goles de seu sangue, pois fazia um mês que o corpo dela não ingeria sangue de vampiro, a solução temporária para sua doença.
Sozinha e vestida com uma roupa confortável para uma boa noite de sono, Juliana esticava o lençol da cama e ajeitava as almofadas que Fernanda tinha buscado para ela usar como travesseiro.
Ela teve um reflexo involuntário e olhou para a porta de seu quarto que estava aberta, a garota largou as almofadas quando notou que uma Laiana chorosa estava do outro lado a observando e tentando conter as lágrimas.
Juliana andou até a porta e parou a alguns metros da amiga, depois fez o resto do percurso correndo e se lançou num abraço que quase derrubou a outra menina que agora estava derramando litros de lágrimas.
– Eu sinto muito... – Laiana soluçava.
– Não se desculpe, não foi culpa sua... – Ela afagava o cabelo da amiga. – A culpa é minha e dele, somente...
– Sua? – Ela perguntou entre lágrimas.
– Sim. Eu deveria ter te dado alguma verbena, não sei porque não lembrei de fazer isso... Eu estava tão acostumado com ele agindo politicamente correto que esqueci que ele era um vampiro que segue impulsos sem sentido... – Na última frase Juliana foi cortada por uma voz de choro que começava a pegá-la, mas ela inspirou fundo e se segurou.
– Eu simplesmente não consigo me sentir inocente de tudo... – Disse Laiana.
Juliana a guiou para dentro do quarto e fechou a porta para que não as incomodassem.
– Sente-se... – Ela apontou a cama. –... Ele me contou o que fez em você... Você apenas seguiu seus desejos... Eu não posso te culpar por sentir atração por ele, se eu for me esquentar com isso vou ter que me livrar de metade das habitantes do planeta Terra...
– Como você está por dentro? – Perguntou Laiana parando de chorar.
– Vai me dizer que você também quer me ver chorar?... – Perguntou Juliana.
– Não é isso, é que uma reação típica... – Laiana ia dizendo quando foi interrompida pela garota.
– Olha, Lay... Sei o que todo mundo pensa que eu sou, uma garotinha frágil, chorona e fresca, mas eu não sou assim, pelo menos não mais... Eu posso ser forte agora, e vou mostrar para todo mundo! – Disse a Gilbert.
– Saiba que se você quiser desabafar, eu estou aqui para isso... E se... Se você não se sentir à vontade para fazer isso comigo por causa de todo o acontecido, saiba que pode muito bem fazê-lo com a Fernanda, ou a Caroline, ou Elena, ou Bonnie... Todos te amam muito e estão ao seu lado para o que der e vier. – Disse Laiana ainda com os cílios grudados pelo líquido das lágrimas.
– Eu sei, Lay... Eu sei... – Juliana apertou a mão da amiga. – Mas no momento só quero falar dos meus sentimentos comigo mesma e com meu diário, eu quero cuidar de você primeiro...
Laiana sorriu ternamente.
– Não preciso de cuidados, você precisa mais... – Disse ela.
– Precisa sim... Eu tenho que saber o quão grande foi o dano que Ele causou em você, para tentar te ajudar a superar... – Disse Juliana prontificada.
– O dano maior foi por culpa por você, fora isso não foi tão grande assim... Olha, eu não vou ficar falando essas coisas para não te magoar mais. – Laiana estava decidida.
– Tudo bem... Então vamos fazer de conta que não era o meu namorado e fingir que não existe toda a bagagem emocional de culpa, aí você me conta como foi... – Sugeriu Juliana.
Laiana se retraiu, tentando encolher de tamanho.
– Você quer saber como foi à noite...? – Ela disse confusa procurando fugir do olhar de Juliana.
– É Lay... Eu quero saber como foi a sua primeira vez, afinal de contas foi a sua primeira vez e agora eu sou a única da minha espécie... Quero saber como foi ignorando o indivíduo que compartilhou isso com você... – Disse Juliana.
No começo, Laiana ficou um pouco desconfortável em falar aquilo para Ela. Mas depois foi mesmo esquecendo quem era o indivíduo, e falou o quão carinhoso e delicado ele havia sido quando descobriu que ela nunca tinha feito isso antes.
Contou o quão diferente era de tudo o que elas podiam imaginar, como era realmente se sentir uma mulher e não mais uma menina...
As duas conversaram por mais algumas horas da noite e pegaram no sono na cama de Juliana.
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