Pressure

2 And that was yesterday.


Sentada no chão de costas para parede coral, Heidi ansiava para que achasse Cam — seu sobrinho de oito anos – antes que ele lhe desse um susto. Ela sorria apesar da respiração ofegante, se sentia uma boba. Largaria qual quer festa ou show para passar o dia com o sobrinho, era o que mais se adaptará na família adotiva, talvez seja porque se via como ele, sozinho, sem nenhum amor fraternal biológico.

O garoto de cabelos castanhos claros como o do pai e olhos verdes que lembravam o de Heidi, não tinha muitos aspectos orientais, talvez a pele pálida e a aparência saudável, as bochechas coradas que era tampada pelo cabelo repicado na altura do queixo, ele pulou nos braços da tia, risonho. – Não valeu, você trapaceou, disse que não poderia espiar. – Heidi falou levantando o menino no colo enquanto se punha de pé. O menino deu de ombros rindo como um bobo, a mesma inocência de criança fazia Heidi lembrar do passado. Desvencilhou-se dos pensamentos e encheu o sobrinho de cócegas e ele riu mais ainda. Agora, ambos riam como loucos, por nenhum motivo. Nada, nenhuma alegria durava naquela casa. De súbito, a voz da mãe de Heidi atacou-lhe os ouvidos como o som de um maremoto. E como de sempre, teria que aceitar o chamado, havia recebido a ordem de ir comprar algumas coisas que estavam em uma lista pequenina em cima do aparador da sala. Heidi revirou os olhos e bufou deixando o menino no sofá foi pegar a tal lista. — Quando você voltar, nós vamos brincar mais? — Perguntou Cam, com sua voz doce e fácil de se ouvir. Heidi anuiu e saiu de casa com passos largos e pouco ruidosos. A vida era sempre assim, ordens e gritaria. O mercado pequeno — parecia mais um armário gigante — não ficava longe de sua casa e então, decidiu ir a pé. Pelo menos assim poderia pensar em outras coisas para que pudesse a distrair. Caminhando pelos corredores de produtos empilhados e empoeirados pela poluição que a obra de reforma no andar superior causava, ela jogava o que era de seu interesse dentro da cesta sem nenhuma gentileza, conferiu a lista, estava tudo completa e seguiu para o caixa. Taylor esperava na fila – logo na frente de Heidi — para pagar sua porção de muffins matinais, ela sorriu sem graça para a menina que apenas fez uma rápida careta enquanto revirava as coisas no carrinho. Tay continuou sem graça mais tentou quebrar o gelo.

- Vai no ensaio dos Letos? – Heidi franziu o cenho olhando para os lados, se perguntava se era com ela que a ruiva falava.

- Não sei, talvez. Quem sabe. – Prosseguiu remexendo as pontas do cabelo espevitado.

Taylor sentiu um leve desconforto, porque havia falado com ela? Mas a pergunta que necessitava de uma resposta era porque queria continuar falando? — Você deveria ir. Eles são realmente bons. — Ela sorriu de leve enquanto fitava o chão sem nenhum motivo. Queria que Johann estivesse lá. Teria melhorado a situação. — Você mora no mesmo prédio deles certo? De onde vinham os gritos em japonês. — Ela franziu o cenho recordando-se de que não deveria ter dito aquilo.

- Sim. Na verdade é uma casa, só que como o restaurante toma boa parte do andar de baixo, eu fico no apartamento. — Heidi falou enquanto colocava as coisas em cima do caixa olhando para a atendente mal humorada que usava um casaquinho barato verde musgo que ficava péssimo com o cabelo loiro mal pintado. Ela não comentou sobre a gritaria, apenas recolheu as bolsas que alguém já havia colocado os produtos.

- Até mais...Irmã do Johann. – Heidi falou saindo do mercado deixando Taylor sozinha com seus muffins.

Até os desconhecidos poderiam entender que Johann era mais popular do que Taylor. Era fácil de se perceber,mas como ela conhecia Johann? Deixou a pergunta de lado e voltou a caminhar até chegar em casa. Liesel e Pierre estavam cantando novamente. Toda aquela alegria deixava Taylor frustrada. Como conseguiam ser tão alegres todos os dias? Entrou no quarto a fim de comer os muffins sozinha e sem barulho algum. Queria que Johann chegasse logo para perguntar se ele conhecia Heidi. Enquanto isso, exercitou a paciência esperando.

Anoiteceu e como era de esperado, Johann só foi aparecer lá pelas oito, Taylor já estava arrumada quando o irmão entrou enérgico dentro de casa beijando o rosto da mãe. Ele puxou Taylor para um abraço apertado, mais ela não parecia tão alegre assim, se forçou a sorrir.

- Vamos? – Ele perguntou puxando ela para porta e Tay assentiu se despedindo dos pais que pediram excessivas vezes enquanto cozinhavam na cozinha colonial revestida de madeira para que Johann cuidasse da irmã.

- Como conheceu a Heidi? – Taylor perguntou enquanto tentava colocar o cinto.

Johann sentiu um leve desconforto correr pelo corpo. — Ela foi minha namorada. — Taylor fitou o mesmo com um sorriso quebrado no canto dos lábios. — Ela? Heidi? Você namorou a Heidi? — Johann sorriu e piscou para a irmã. — Garota esperta. — Ela então ligou os pontos em questão de segundos. — Heidi era a garota estranha que papai e mamãe nunca gostaram e nunca permitiram que entrassem na nossa casa? Ela por acaso viciou você em algo durante o namoro de vocês? — Taylor perguntou sem querer saber da resposta. — Porque você nunca me contou sobre ela? — O silêncio penetrou no carro através das janelas meio abertas e deixou os dois ali em um tremendo desconforto.

- Podemos falar isso mais tarde. — Johann pediu pressionando a mão no volante tentando se distrair com o trânsito. — Não, não podemos, sempre que eu quero saber algo você muda de assunto, eu me preocupo com você Johann. — Taylor falou sistematicamente. — O que isso importa, só foi por um ano e não estamos mais juntos. — Continuou Johann tentando desviar de uma discussão que possivelmente iria acontecer, ele já estava ficando impaciente.

- Não somos apenas irmãos, somos amigos. — Taylor começou. — Qual é o maldito problema de me contar? — Johann era frio como uma pedra de gelo, era impossível discutir com ele. Mas com Taylor tudo era diferente. — E se eu escondesse tudo de você? — Tentou sensibilizar Johann com aquela pergunta. Tinha suas dúvidas se aquilo iria funcionar.

- Olha, é diferente ta...Você não esconderia nada, você não é louca ou é? — Ele olhou por alguns instantes para a irmã que se reencostou no banco bem estofado. — Não, não esconderia nada. — Ela murmurou. — Mais isso não vem ao caso, não agora. Você ainda gosta dela? — Taylor voltou a sessão de perguntas se reanimando.

- Não,Taylor. Faça um favor, calar a boca e me deixe dirigir. — A última vez que Johann falou assim com ela, foi quando ambos tinham sete anos. Taylor sentiu as lágrimas subirem aos olhos,mas tentou evitá-las. Algumas caíram pela face e Johann fitou a mesma sentindo-se culpado. Era a única coisa que lhe trazia remorso ou até mesmo culpa. — Desculpe. — Taylor disse com um fio de voz fazendo dos lábios uma linha reta. Ele suspirou passando a mão no rosto e sem voltar a nenhum assunto a viagem não tão longa até o apartamento dos amigos foi estranhamente silenciosa.