Presente de Natal

1 Capítulo Único


É véspera de natal e o sentimento de magia, harmonia e gratidão passam longe de Larissa. Para os sul coreanos, o feriado de natal é para os casais, que comemoram juntos em encontros e trocando presentes. Para a brasileira, no entanto, a festividade costumava ser comemorada com a família, num jantar cheio de tios bêbados e brigas e risadas de criança. Assim, quando o chefe reuniu os únicos três funcionários da lojinha de conveniência para decidir quem cobriria o turno da noite de natal, a morena se voluntariou logo.

Recém chegada em Seul e ainda se adaptando ao lugar, a primeira oportunidade de trabalho que teve foi na lojinha de conveniência 24h na saída de um bairro nobre. E como passaria o feriado sozinha, não parecia um problema, a garota considerou que estaria melhor acompanhada se um ou dois clientes tivessem esquecido alguma coisa e precisassem aparecer por lá para comprinhas de última hora. No entanto, os planos climáticos não pareciam a favor de Larissa, visto que já era impossível se ver os arredores através das paredes de vidro do lugar, uma nevasca afronta Seul como se o céu fosse desabar sobre a cidade.

Como se vinda de outra dimensão, a voz da tv tenta alcançar a mente de Larissa. “[...] indicamos que todos se mantenham dentro de casa [...]” A garota está esfregando as mãos com força, escolhendo uma luva da prateleira para usar. Zero acostumada com o frio, ela não vestia uma roupa quente o suficiente para o frio que vencia as paredes e o aquecedor velho da loja. “[...] será a noite mais fria do ano! A previsão é [...]” Ah, muito obrigada… Pensa a garota. Por avisar isso quando a loja já virou um freezer!

O telefone fixo toca e Larissa corre com o par de luvas azul celeste em mãos, ainda sem vestir, sem nem mesmo ter o escolhido de fato. “Alou?” Ela pergunta meio surpresa.

“Larissa! Como está a situação por aí?” A voz do gerente parece preocupada.

“Tudo branco!” Ela gira nos próprios calcanhares, olhando ao redor, enquanto responde. “Acho até que ninguém conseguirá abrir a porta para entrar.” Ou eu mesma para sair.

“Maldição.” Resmunga o homem. “Se soubesse que a situação seria essa, não teria te deixado aí.”

“Tá tudo bem, mas eu tô comprando umas luvas aqui.” Ela vira o par de luvas com a mão que não segura o telefone. “Acho que subestimei o inverno de vocês.”

“Pegue as luvas!” Ele praticamente grita. “Droga! Não temos casacos… Pegue um lamen também, sirva-se dele bem quente.” Presente de natal? A garota segura uma risada.

“Obrigada, senhor.” Ela agradece e ele desliga sem mais uma palavra.

Vou-ter-ceia-de-natal! La-la-lá! A garota segue rebolando até a prateleira dos miojos típicos coreanos, enquanto arrebenta a etiqueta das luvas e as veste. “Picante.. o quê?” Larissa não tem certeza se sabe o que é um Neuguri. “Frutos do mar? Blérgh!” Ela se curva para observar a prateleira mais baixa. “Chapaguetti? Será que isso é bom, meu Deus?”

O coreano de Larissa não é ruim, mas poderia ser melhor. Este é um dos motivos pelos quais o trabalho na loja era uma boa ideia, desenvolver o idioma na prática. Pois na faculdade, praticamente só encontrava estrangeiros como ela e a maioria das disciplinas eram em inglês. E enquanto a garota compara dois pacotes de lamen que pareciam o mesmo, o som de uma natureza enfurecida pega a garota de surpresa. A porta da frente foi aberta com violência e muito vento, muito frio e muita neve adentram o lugar por cerca de segundos, até o responsável por isso conseguir vencer a força do vento e fechar a porta por completo novamente.

“O-oi! Senhor?” Larissa se estica na ponta dos pés para observar o ser humano do outro lado da estante, no corredor principal. Ele está todo vestido em preto, um casaco enorme, um boné, cachecol enrolado no pescoço e ele está até com uma máscara preta. Ao terminar o inventário do look do cliente, o instinto de Larissa é congelar, sentindo todos os pêlos do corpo arrepiarem. Vou morrer em pleno natal! É um serial killer!

“Ooh, olá.” Um serial killer com uma voz sexy dessa? E o cara só disse oi? Larissa começa a se questionar se não está sendo insensata por um pânico tão brasileiro na Coréia do Sul, cujos índices de atrocidades são bem mais baixos. Ou se está sendo ingênua por não querer ter medo do homem porque gostou da voz dele. Os dois se encaram por alguns segundos. Até mesmo os olhos dele estão difíceis de ver por conta do boné e da franja. A brasileira segura os pacotes de lamen com mais força, pronta para jogá-los na cabeça do homem.

“Tem mais alguém aqui?” A voz que abalou a sensatez de Larissa ataca novamente.

“Sim! Hum.. Meu chefe! É… Meu chefe está lá dentro.” Ela responde o que vem na cabeça.

“Ah, nenhum cliente?” A voz dele parece mais alta agora e a garota tem a vaga sensação de conhecê-la de algum lugar. O homem afrouxa o cachecol e tira o boné, então tira também a máscara, e o tombo de Larissa é tão real que ela sentiu as prateleiras baterem fortemente contra as costas. Ou as costas baterem fortemente contra as prateleiras? “Ya! Você está bem?” O idol — UM IDOL!!! — se apressa até ela e pára. Ela tem a impressão de que ele iria ajudá-la, mas parou por alguma razão.

“Ch.. Cha.. Cha Eunwoo?!” Larissa não está mais sentindo a pressão das prateleiras contra as costas, embora não tenha ainda se levantado. Os olhos dela estão presos nas duas meia luas que a encaram de volta com ar divertido.

“Sim? E você é a… La-ri-ssa?” Meio rindo, ele lê o crachá dela e finalmente a ajuda a se levantar. “Desculpa assustar você.”

“Não! Tá tudo bem!” Ela pode sentir o sorriso idiota se abrir no próprio rosto. OBRIGADA PAPAI NOEL! “Você… Hã… Quer isso?” Ela estica o pacote de lamen entre eles, na altura dos olhos do idol.

“Oh, eu gosto desse.” Ele pega o pacote da mão dela. “E você?” E olha para ela novamente.

“Eu…” As sobrancelhas de Larissa franzem enquanto ela pensa. “Honestamente, eu não sei.” Ela ri e Cha Eunwoo a acompanha. “Eu não conheço bem os sabores, mas não gosto muito de pimenta.” Ela consegue, finalmente, pronunciar uma frase completa de uma vez.

“Então…” O astro se vira para a estante dos lamen. “Talvez esse aqui.” Ele pega um deles e mostra para ela. “Você possa gostar.”

“Vou confiar em você, então!” Ela estica as mãos para pegar os pacotes, mas o idol segue para o balcão. “Oi? Cha Eunwoo?”

“Sim?” Ele se vira de volta para ela e pergunta. “Não é aqui que paga?”

“Ah! Não precisa!” Larissa aponta com o braço para o microondas. “Ganhei de ceia de natal do gerente!” Ela ri abertamente e um curioso Cha Eunwoo parece ter falhado em segurar a risada.

“Ceia de natal?” A voz dele é baixa, enquanto vira os pacotes de lamen nas mãos, os observando.

“Uhum!” A confirmação da garota vem em português, o que chama a atenção do idol novamente para ela. “Como eu sou uma excelente funcionária e estou enfrentando a nevasca sozi…” A voz animada da garota perde o tom antes de mudar completamente a linha de raciocínio. “Por que você” Ela franze o cenho na direção do idol “está neste lugar” e então abre os braços e os sacode levemente ao redor “no natal?” e finaliza cruzando os braços.

Cha Eunwoo chega a se curvar de rir. “Você é engraçada.” Ah, não me diga! Larissa pensa enquanto a mente trabalha em todas as impossibilidades possíveis para que Cha Eunwoo esteja naquela loja de conveniência minúscula sozinho em pleno natal. Será que eu morri congelada e este é o além?

O idol caminha em direção ao microondas e trás a mente de Larissa de volta conforme pergunta. “O seu chefe não vem?”

“Hum? Que chefe?” A resposta-pergunta de Larissa confunde o rapaz.

“O que está..” Ele se vira e indica o balcão com o queixo. “Lá dentro?”

“Ah!” A garota se lembra e ri alto. “Não está.” Ela ri mais alto ainda. “Ele não!” A risada vence a garota, que tenta forçar os pés na direção do idol.

“Então por que…” Cha Eunwoo começa, mas Larissa o interrompe.

“Porque eu achei que você fosse um serial killer.” A seriedade e rapidez com que ela diz isso surpreendem o idol, que estoura em gargalhadas que ela acompanha.

“É sério?!” Ele finalmente diz, ligando o microondas.

“Claro! Todo de preto, dois metros de homem.” Ela aponta a altura dele erguendo e abaixando a mão. “Até de máscara! Na nevasca! A máscara úmida nem funciona! Você correu um sério risco de vida contra os lamen.”

“Como é?” Os olhos do idol estão arregalados, mas ele ainda está sorrindo. Ou não consegue parar de rir? “Você pretendia me atacar com macarrão?”

“Sim.” Ela afirma fortemente com a cabeça. “Eu ia tacar tudo na minha frente contra você, até a estante.”

“Isso é uma pegadinha?” Cha Eunwoo olha ao redor, procurando algo que possa confirmar a pergunta.

“Eu que te pergunto!” A garota também olha pela loja. “Um idol brotou na minha loja no natal!”

“Meu carro quebrou.” O microondas apita e ele rapidamente tira o primeiro lamen de dentro, então coloca o outro. “Toma.” E coloca o pacote quente em cima da bancada estreita, de frente para o vidro tapado de neve.

“E você tava indo encontrar alguém?” Larissa pergunta preocupada, sem se dar conta que poderia estar parecendo fofoqueira.

“Eu estava voltando da casa dos meus pais.” Cha Eunwoo se limita a dizer e indica o banco alto para Larissa se sentar.

“Ah, esse é o meu? Obrigada!” Ela se senta e pega o pacote de palitinhos, rasga o papel, tira os palitos de dentro e já ia puxando os dois quando a mão do idol segura as dela. “Quê?”

“Não é assim que se faz!” Ele parece quase ultrajado olhando para ela.

“Como assim?” A pergunta da garota é um sussurro enquanto ela solta os palitinhos na mão do rapaz. Ele os coloca entre as mãos e esfrega rapidamente. Os palitos se soltam num téc! E a boca de Larissa se abre como um O.

“Você poderia ter quebrado eles.” Cha Eunwoo agora sorri, segurando os palitos soltos na direção dela.

“Obrigada!” O microondas apita novamente e ele segue para pegar o próprio lamen.

Os dois comem silenciosamente, lado a lado, por alguns minutos. Até que Cha Eunwoo quebra o silêncio. “E você ia passar o natal sozinha, mesmo?”

Larissa ri de leve pelo ia, o idol já sabe que não vai conseguir sair dali tão cedo. “Sim..” Ela confirma de boca cheia, mas engole antes de continuar. “Eu sou brasileira.” E coloca uma mão no coração. “E lá no Brasil, a gente comemora com a família toda reunida. Eu não tenho família aqui.” Ela dá de ombros e leva mais macarrão à boca. Perdendo o olhar terno do rapaz sobre ela.

“Sinto muito.” Ele pensa um pouco antes de continuar. “Mas por que…” Ela olha para ele com as bochechas cheias e ele ri.

“Por quê o quê?” Larissa pergunta engolindo novamente e já partindo para colocar mais macarrão para dentro.

“Por que não foi visitar seus pais?” A voz do idol é receosa, como se ele sim tivesse ciência de que poderia soar fofoqueiro.

“Ah!” Ela balança a cabeça. “Muito caro. Muito longe.” E olha para ele. “Mas tá tudo bem! Eu nem tô mais sozinha.” Rindo, ela pisca e se volta para o lamen.

“Verdade!” Ele também ri e continua. “Merry Christmas!”

“Já é natal?” Larissa tateia os bolsos e percebe que está sem o celular.

“Há 3 minutos.” Cha Eunwoo vira o pulso para que ela possa ver as horas no seu relógio caríssimo, e a garota se distrai com a marca dele ao invés de olhar as horas.

“Uau!” Ela se aproxima um pouco do relógio.

“Sim?” Ele recolhe o punho para longe, mas os olhos estão em Larissa, que levanta a cabeça e corresponde o olhar.

“Feliz natal!” Larissa sorri e abraça o idol. Cha Eunwoo está congelado. Literalmente. O homem está completamente parado dentro dos braços da brasileira e o casaco dele está muito gelado. “Esse casaco tá te aquecendo direito?” Ela pergunta, se afastando, mas os braços de Cha Eunwoo a envolvem pela cintura.

“E você não está com frio sem um casaco de inverno?” A voz macia soa no ouvido de Larissa e ela se sente completamente aquecida.

“Eu tô muito bem aqui.” Ela sussurra, abraçando novamente o idol.

Quanto tempo se passou naquele abraço? Minutos? Uma vida? Larissa queria poder morar ali. De repente, a gratidão e a magia do natal pareciam energizar a garota, que se sentia quase emocionada. Desde que viera para a Coréia, não tivera recebido um abraço — não é um costume ali. A mão do astro dá leves batidas no ombro da garota, que esconde o rosto no ombro dele, engolindo um nó que se formou inesperado na garganta. Ela finalmente pensa nos pais, que deveriam estar brigando na cozinha, doze horas atrasados no fuso, correndo com os preparativos para a noite de natal em família. “Obrigada.” Ela choraminga na roupa do rapaz.

“Feliz natal, Larissa. Você não está sozinha.” Mais uma onda quentinha invade a garota pelo ouvido. Que voz macia e grave. Os pensamentos da garota divergem entre a saudade dos pais e o presente, até que um som irritante interrompe o momento. O celular de Cha Eunwoo está tocando e ele se afasta para atendê-lo.

“Sim?” A voz dele soa um pouco mais alta do que há poucos segundos. “Estou ilhado.” Ele olha para além do vidro, a neve branca cobrindo todo o horizonte. “Tudo bem. Nã-” Ele fecha os olhos e respira fundo enquanto escuta. “Tá. Tá bom.” E desliga o celular. “Você precisa continuar aqui?” Ele pergunta olhando para Larissa.

“Hã?”

“Será que mais algum serial killer vai entrar na loja?” Cha Eunwoo pergunta rindo.

“Mais um?” Ela aperta os olhos para ele e ambos riem. “Mas não vou conseguir chegar em casa mesmo.” Ela dá de ombros e pega os potes vazios de lamen.

“Meu agente vai mandar alguém.” Cha Eunwoo segue a garota até o balcão, onde ela joga os pacotes numa enorme lata de lixo e se vira de volta para ele.

“Ah, ele consegue chegar aqui?” A voz dela está profundamente desanimada.

“Parece que sim… Quer uma carona?” Ele sorri para ela.

Larissa sorri de volta e pensa em voz alta. “Não posso ligar pro chefe agora…” Uma das mãos dela sobe para o queixo enquanto pensa. “Mas ele disse que não teria me deixado aqui se soubesse da nevasca…” Um suspiro alto e uma decisão. “Sim. Vou fechar a loja.” Ela se vira para contornar o balcão.

“Ele não pode demitir você por isso, certo?” A voz de Cha Eunwoo parece preocupada.

“Se ele me demitir,” O olhar da garota sobe do caixa para o rapaz. “você me emprega?” Ela ri e se volta para o procedimento.

“O que você faz aqui na Coréia?” O idol se apoia no balcão, o olhar pensativo em Larissa.

“Pós graduação em marketing. Trabalho na loja e alguns freelance com edição de vídeos para youtubers e influencers.” Ela balança a cabeça ritmada enquanto fala.

“Contrato!” Cha Eunwoo ri e ela olha para ele surpresa.

“Não me engane assim não que eu tenho um piripaque, viu!” Larissa ri e o idol fica sério.

“Na verdade…” Ele começa, mas pensa um pouco antes de continuar. “Realmente precisamos de alguém que entenda como promover na América do Sul. A empresa anda conversando sobre isso.” E se desapoia do balcão, balançando levemente os braços ao continuar. “Se você tem bolsa numa universidade coreana por marketing, não deveria estar escondida numa loja no fim do bairro.”

Os ombros de Larissa se encolhem um pouco, mas ela fecha o caixa com orgulho. “Foi a oportunidade que apareceu.” Ela olha para ele. “E nem foi tão ruim.” A cabeça dela vira um pouco para o lado. “Estou recebendo uma proposta vaga de emprego de um idol, vai que cola?” Os dois riem juntos.

“Tem razão.” Cha Eunwoo observa enquanto a garota vai guardando tudo que precisa ser guardado, fechando o que precisa ser fechado e apagando a maioria das luzes do lugar. Em certo momento, o telefone na mão dele toca novamente. “Oi?” Larissa pode escutar a voz do idol, então corre de volta para perto dele. “Sim.” Ele escuta mais um pouco. “Estou levando uma pessoa.” E escuta mais um pouco. “Não será um problema.” E finalmente desliga o telefone.

“Eu sou o problema?” Ela sussurra com os olhos bem redondos olhando para o idol sério, mas ele sorri para ela.

“Não.” Cha Eunwoo veste o boné preto na cabeça dela. “Você tem alguma máscara aqui?”

“Não serve com a umid-” As sobrancelhas erguidas do idol interrompem a garota. “Ah, é pra se esconder?”

Ele ri. “É pra nos esconder.”

“Mas quem vai estar lá fora com essa nevasca?” Ela olha ao redor enquanto segue até a prateleira com pacotes de máscaras.

“Meu carro está ali fora há pelo menos uma hora…” Ele respira fundo. “Quem sabe? É bom nunca subestimar.” Cha Eunwoo dá de ombros e Larissa retorna com o pacote de máscaras. “Vou pagar por isso.” O idol coloca a mão dentro do bolso do casacão.

“Não preci-” Ela é interrompida quando a carteira dele bate de leve na testa dela. “Você já me deu uma ceia de natal.” Ele abre a carteira e tira uma nota que vale muito mais do que o preço das máscaras e dos dois lamen todos somados.

“Não precisa!” Ela resmunga e cruza os braços. “Eu já fechei o caixa, vou ter que abrir de novo pra pegar o troco.”

“Então eu compro mais coisa.” O astro sai andando reto ao longo de uma estante e pegando algumas coisas aleatórias na prateleira.

“Você tem um gênio hein…” Ela o segue e começa a apontar o que, ali, fecha o valor da nota.

“Pronto.” Cha Eunwoo enfia algumas das coisas no bolso do casaco, mas entrega um pacote de lamen para Larissa.

“Que isso?” Ela ri, mas aceita o pacote.

“Você não me deixou pagar o jantar.” Ele sorri para garota, que ri alto.

“Que besta!” Ela brinca, mas está feliz. Ganhou um lamen do Cha Eunwoo! Alguém vai acreditar? Não! Isso importa? Não!

Naquele momento nenhum dos dois tinha algo a dizer, com as luzes quase todas apagadas, Larissa não podia ver o rosto do astro por completo, mas o brilho no olhar dele parecia ser próprio e não um reflexo. Ela dá um passo em direção à ele, que mantém o olhar brilhante preso no dela, mas deixa o sorriso se desmanchar. Os dois estão bem próximos agora e o coração de Larissa dá um looping no peito quando sente o braço do rapaz a envolvê-la pela cintura novamente.

Então, o telefone na mão dele toca novamente e ele se afasta para olhar o visor, o desligando sem atender. “Hora de irmos.” Ele anuncia e segue para a porta.

“Ok!” Ela responde meio em choque e corre para apagar a última luz da loja. Quando tudo está num verdadeiro breu, as luzes do exterior mal penetrando pela neve que congelou na vidraça, ela corre na direção de onde já sabe que fica a porta.

Cha Eunwoo está em frente a porta, esperando Larissa. Ela esbarra nele na volta e pede desculpas, mas o idol — todo vestido novamente como um serial killer — pousa a mão levemente nas costas dela num afago. Ao abrir a porta, a força da natureza congela Larissa no lugar. O som do vento é muito forte, embora não esteja mais caindo neve do céu, ainda está muito muito frio. A mão que repousava nas costas da garota, agora está na aba do boné dela, Cha Eunwoo envolveu o corpo dela com um dos braços para ajudá-la a atravessar o espaço entre a saída da loja e a van alta que aguarda por eles a dois metros dali, também para cobri-la melhor contra qualquer flash intrometido que tente clicar os dois. Uma vez que chegaram à van, a porta se abriu automática e uma voz veio lá de dentro. “Rápido!”

O interior do carro estava muito mais quente do que a loja jamais esteve no inverno. Sentada ao lado do idol, Larissa repassava tudo que se passou nas últimas horas. Ela olhou para Cha Eunwoo, tirando o capuz e a máscara antes de olhar de volta para ela. Ele esticou a mão e tirou a máscara que cobria o rosto dela também. “Onde eu deixo você?”

“Ah, eu vou pra casa.” Ela sorri de leve e ele acena com a cabeça, depois ela indica o endereço para o motorista e a viagem segue silenciosa até Larissa sussurrar. “Obrigada.” Ela sente o braço do astro encostar no ombro dela.

“Sim?” Ele sussurra de volta.

“A carona... E o natal.” Ela está olhando para frente, então não consegue ver, mas sente a mão do idol repousar sobre as mãos juntas dela, ainda segurando o pacote de lamen. Pouco depois, ela sente também ele se remexer ao lado dela, a fazendo olhar para ele e ser recebida pelo celular que o idol segura na frente do rosto, com a mão que não segura as dela. Ele desce o aparelho abaixo da linha dos olhos e pisca, antes de colocá-lo nas mãos da garota, desbloqueado e com o app de ligação aberto. Sem nem pensar, Larissa digita rapidamente seu número ali, sorrindo. Obrigada, Papai Noel.

Larissa chegou em casa sem saber se estava sã, mas definitivamente a salvo. Ela fecha os olhos e lembra dos minutos antes de fechar aquela porta na qual está recostada.

Cha Eunwoo vestiu o capuz e a máscara depressa, quando o motorista anunciou que estavam chegando. Larissa seguiu a velocidade do rapaz, vestindo a própria máscara e o boné novamente. “Vou levar ela na porta.”

Os olhos de Larissa se arregalaram ao mesmo tempo em que a voz veio grave do banco da frente. “Eunwoo! Você não pode-”

“Eu tirei ela do trabalho antes do fim do expediente, vou deixá-la dentro de casa.” A voz dele era firme, mas ainda macia.

O motorista pareceu levar o idol muito a sério, pois a van estacionou com a porta quase colada na entrada do prédio baixo. A porta automática se abriu e os dois pularam para o frio congelante do lado de fora. Dessa vez, Cha Eunwoo não passou o braço ao redor de Larissa. Já no interior do prédio sem elevador, eles subiram os três lances de escadas lado a lado e em silêncio, depois caminharam até a porta do pequeno lar dela na Coréia do Sul. “É aqui…” Larissa indicou ao parar em frente a porta.

“Gostei de te conhecer.” Na lata, ele nem mesmo titubeou. “Obrigada pela ceia de natal, Larissa.” Os olhos da garota estão arregalados e, sem pensar, ela se estica para frente, abraçando o idol de novo.

“Obrigada, Cha Eunwoo. Feliz natal!” Sentindo os braços dele a envolverem novamente, ela respirou profundamente o cheiro dele, queria manter isso na memória. Tão concentrada, foi pega de surpresa ao sentir uma leve pressão na têmpora e se virou nessa direção. O rosto de Cha Eunwoo estava muito mais próximo do que deveria. Ele deixou um beijo aqui? A garota não sabia bem como interpretar a situação, mas manteve o olhar no dele.

“O natal,” Ele começou com a voz num sussurro. “aqui na Coréia, é um feriado para os amantes.” Os olhos dele pareciam muito intensos e a respiração da garota vacilou de modo audível.

“Amantes?” Ela repete baixinho e abaixa o olhar para a máscara que cobre o rosto do rapaz.

Ele entendeu. E subiu uma das mãos rapidamente para descer a máscara do rosto dele e em seguida a dela. O beijo foi tão romântico quanto ela poderia ter assistido num drama. Intenso e lento, mas durou pouco. Ele precisava ir embora.

“Você só me avisa?” Ela perguntou quando os dois se afastaram, subindo as máscaras.

“O quê?”

“Quando você chegar em casa.” Ela sussurra e pode ver nos olhos dele que ele está sorrindo.

“Aviso.” E assim, Cha Eunwoo atravessou o corredor e foi embora.

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