Presente de Natal
1 Capítulo 1

Coloquei o último enfeite na árvore de natal e afastei-me um pouco para observá-la, sorrindo satisfeita. Chovia forte do lado de fora da janela, algo que parecia ser típico dessa época.
Chequei mais uma vez se o bar – agora eu tinha um bar – estava devidamente fechado.
O silêncio e a escuridão do lugar me levaram a ter devaneios antes esquecido por mim. Eu havia tido uma infância difícil e traumatizante e Vincent me salvara daquilo; desde então eu vivia uma fase sangrenta e achava que ninguém mais me salvaria, até que eu o encontrei. Cloud despertara em mim sentimentos que eu renegara por toda a vida em um piscar de olhos.
Ouvi o alarme e voltei a mim, apressando-me até o forno antes que o jantar queimasse, em pensar que quatro anos atrás eu não me preocupava com isso. Era incrível o quanto eu tinha aprendido no último ano. Olhei para o relógio na parede da cozinha para mais uma vez constatar que ele estava atrasado. E eu já estava a ponto de ir procurá-lo.
– Não se preocupe. – uma voz tranquila preencheu o lugar tirando-me dos meus devaneios. Eu fitei o dono dela com um pequeno sorriso, entretanto não o respondi, pois a campainha tocou.
Denzel saiu apressado sem dizer mais nada e foi abrir a porta deixando as pessoas — Zack e Aerith — entrarem, enquanto eu subi até o quarto a fim de trocar de roupa. Fiquei algum tempo imóvel, olhando o imenso cômodo – considerado aos meus antigos quartos.
Observei cuidadosamente a cama de casal no centro do quarto não deixando escapar nenhum detalhe, estava coberta com lençóis no tom vinho e vários travesseiros estavam sobre ela. Havia de cada lado uma pequena mesa de cabeceira, ambas possuíam um abajur, entretanto uma delas tinha um pequeno despertador e a outra porta retratos. Na parede oposta à janela – com cortinas brancas que balançavam seguindo o pouco de vento que entrava – havia um guarda – roupas também de cor branca. Ao lado dele ficava a porta do banheiro.
Sorri. As lágrimas já se faziam presentes, mas eu insistia em segurá-las. A verdade é que era a primeira vez que eu me permitia pensar em tudo o que tinha acontecido e no quanto minha vida tinha mudado. Para melhor.
A porta do quarto foi aberta e eu aspirei o perfume tão conhecido por mim, sorrindo mais uma vez. Senti dois braços rodearem minha cintura – que já não estava mais tão fina – e logo depois ele apoiou o queixo na curva do meu pescoço.
– Desculpe o atraso, amor. – a voz dele estava rouca. Eu assenti.
– O que houve lá? – sussurrei. A proximidade não exigia mais que isso.
– Apenas papéis demais para preencher. – ele beijou-me o ombro. – Por que ainda não desceu?
– Vim trocar de roupa e acabei perdida em pensamentos. – ele me virou gentilmente para olhar-me nos olhos.
– E em que pensava? – ele acariciava minha bochecha num movimento suave e acolhedor.
– Em tudo. – pude ver o brilho que ele tinha no olhar mesmo que o quarto estivesse um tanto escuro. Apenas a luz da lua iluminava o quarto e naquele momento ele me pareceu um anjo. E eu sabia que ele o era. Ele era o meu anjo; ele havia me salvado.
Ele aproximou o rosto do meu e eu fechei os olhos esperando o toque de seus lábios, que não demorou. Apenas um beijo delicado, como aquele momento. Quando nos separamos ele permaneceu com o rosto junto do meu.
– Obrigado por ter ficado. – ele falou com a testa ainda colada a minha. Eu meneei a cabeça negando. Levei minhas mãos que repousavam em seu peito até seu pescoço.
– Obrigada por não ter desistido de mim. – as lágrimas voltaram. Ele sorriu.
– Isso teria sido impossível. – ele falou enxugando uma das lágrimas que havia escapado.
O abracei e ele retribuiu. Eu estava imensuravelmente feliz. Natal. Aquela data não significava nada para mim antes, no entanto agora ela representava tudo. Tudo havia começado no natal, exatos quatro anos atrás, nesta mesma cidade, num dia de chuva.
Agora eu estava casada. Meu passado não tinha sido esquecido por mim, nem por ele, tinha sido aceito e deixado no passado, sem nenhuma mágoa ou cobrança. Meu presente era vivido um dia de cada vez, sem nenhum arrependimento por ter recomeçado do zero e eu me permitia pensar no futuro, junto a ele, graças a ele.
– É melhor não demorarmos muito. – ele me afastou um pouco para nos olharmos de novo. – Ou então seu pai virá aqui atrás de você.
Eu quis gargalhar, porém apenas sorri assentindo; Ele foi até o banheiro tomar banho e eu fui até a cama pegando a roupa já escolhida por mim anteriormente. Era um vestido azul claro longo, de alças finas e que tinha uma pequena fenda no lado direito que ia até o meu joelho.
Fui até o interruptor próximo à porta e acendi a luz indo até o espelho ao lado da janela que me permitia ver-me por completo. Acariciei minha barriga, estava levemente maior. Troquei de roupa e novamente fui até o espelho, constatando que ainda não dava para perceber.
A porta do banheiro foi aberta e ele saiu já usando a roupa que eu havia escolhido para ele, uma de suas mãos estava escondida atrás de suas costas. Ele caminhou até mim com um sorriso de canto e parou a minha frente, revelando-me uma caixa de joias preta.
– Feliz natal. – ele mesmo abriu a caixa e eu me deslumbrei com a visão de um colar de prata com um discreto – talvez nem tanto assim – pingente de diamante.
– Por isso você se atrasou?! – Era mais uma confirmação que uma pergunta; o vi sorrir.
– Desculpe, era uma surpresa. – ele falou virando-me mais uma vez, para que pudesse colocar o cordão em mim. Ficamos os dois de frente ao espelho e ele me abraçou.
Ouvimos duas batidas na porta ele me soltou e foi ver quem era.
– Nós já estamos descendo. – o ouvir dizer tranquilamente. Ele voltou até onde eu estava segurando minha mão. – Parece que todos já chegaram.
Eu meneei a cabeça positivamente e o segui para fora do quarto. Pude ouvir sons de risada já do corredor e eu identifiquei a voz de ‘ meu pai ’, sim era isso que Vincent era e também um choro de bebê. O filho dele e consecutivamente meu irmão tinha agora pouco mais de um ano.
– Finalmente. – Zack disse levantando a taça de vinho em nossa direção. – Achei que nos deixariam esperando a noite toda.
– Apenas o suficiente. – foi o que Cloud respondeu.
Nós nos dirigimos aos nossos convidados separadamente. Eu fui até Vincent e sua Yuffie, com Denzel agora ao meu lado.
– É muito bom revê-los. – disse abraçando-os.
– A reciproca é verdadeira. – Vincent falou soltando-me e bagunçando os cabelos de Denzel.
– Então como é a vida de casada? – ela me perguntou maliciosa, apesar de ser casada com meu 'pai' ela tinha a minha idade e não escondia a juventude que tinha. Olhou para Vincent e Denzel e suspirou arrancando-me um sorriso. – E mãe de família, é claro.
– Não poderia estar melhor. – respondi sorrindo.
A noite foi passando agradavelmente, a chuva tinha dado lugar à neve e as poucas estrelas que se podiam ver no céu brilhavam esplendidamente.
Era quase manhã quando fomos dormir e mais uma vez eu fiquei imóvel refletindo tudo o que tinha acontecido durante aquele ano, observava a neve se dissipar e os raios de sol surgirem e atravessarem à janela.
– Você está muito pensativa hoje. – ele disse me acolhendo em um abraço.
– Lembrei que não lhe dei seu presente de natal. – disse vendo nossas mãos se entrelaçarem; um anel com o simbolo da Fenrir adornava meu dedo anelar direito enquanto uma aliança dourada brilhava em meu dedo anelar esquerdo.
Ele me soltou em silêncio esperando que eu fosse buscar tal presente, contudo eu apenas virei-me para ele, segurei sua mão e a guiei até meu ventre sorrindo. Ele arregalou os olhos e abriu um sorriso largo.
– Você...?
– Eu estou grávida. – as lágrimas antes contidas finalmente caíram livres. Ele me abraçou como se tudo dependesse disso.
– Tem certeza? – ele tinha a voz eufórica.
– Sim. – eu continuava chorando.
– Obrigado. – ele disse com a voz embargada. – Eu não poderia pedir por mais.
– Não agradeça. – eu enxuguei as lágrimas dele, mesmo as minhas ainda caindo.
– Você me salvou de uma vida de solidão. – ele começou a falar, mas eu o impedi colocando meu dedo sobre seu lábio.
– Você fez tudo isso e muito mais por mim. – eu sorri.
– Eu amo você. – ele disse com um brilho nos olhos.
– Você é o maior e melhor presente que eu poderia ter recebido. – eu sorri também. – Eu amo você.
E nós nos beijamos. Quatro anos atrás eu não poderia prever tudo o que viveria, e muito menos que viveria tão feliz. Agora eu tinha uma família de verdade, um lar de verdade, e amor.
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