Presente de Grego, Entrega de Maroto (Marauders)
3 O nariz da rena (Ou: A entrega de presentes em 190 Países)
— Há um pequeno detalhe logístico — disse Klaus, coçando a barba enquanto caminhavam pelo pátio congelado em direção aos estábulos. — As renas.
— O que tem elas? — perguntou Sirius, girando a varinha entre os dedos, ansioso para explodir alguma coisa ou, no mínimo, fazer algo voar.
— Elas são sindicalizadas — suspirou Klaus. — E estão em greve solidária. Dasher e Dancer estão jogando pôquer no celeiro e Blitzen bebeu muito fermentado de líquen. Nenhuma delas vai voar hoje.
Os quatro Marotos pararam diante do enorme trenó vermelho. Era uma máquina magnífica, com patins de ouro maciço e um painel de controle que parecia uma mistura de cabine de avião trouxa com um laboratório de alquimia. Mas, sem as nove renas mágicas, era apenas um sofá muito caro e muito pesado.
— Sem renas, sem voo — sentenciou Klaus, cruzando os braços. — A física mágica exige tração dianteira.
James Potter deu um passo à frente. Ele olhou para o trenó. Olhou para o céu. E começou a desabotoar o roupão de Hogwarts.
— James, por favor, não fique nu no Ártico — pediu Remus, esfregando as têmporas.
— Não seja puritano, Aluado. — James jogou o roupão para Peter segurar. Ele ficou apenas de pijama e botas. — Klaus, o senhor disse que precisa de tração? Pois bem. Eu passei três anos aprendendo a ser um animal majestoso. Chegou o meu momento.
James fechou os olhos. Num segundo, havia um rapaz de cabelos bagunçados; no outro, com um som suave de "poof", havia um cervo magnífico parado na neve. Seus chifres eram vastos, o pelo lustroso, e ele bateu o casco no chão com impaciência, soltando um bufo de vapor.
Klaus arregalou os olhos.
— Um Animago. Impressionante. Mas garoto... você é um cervo. O trenó pesa quatro toneladas de esperança e brinquedos de madeira maciça. Você vai ter uma hérnia mágica.
— Deixe isso comigo — disse Remus, arregaçando as mangas do suéter. Ele apontou a varinha para o trenó. — Levioso Ponderosa! E também... Celeritas Maxima!
O trenó flutuou alguns centímetros do chão, leve como uma pena. James-Pontas soltou um grunhido que soou suspeitosamente como "Viu só?".
— Espere! — Sirius gritou. Ele conjurou uma bola vermelha brilhante e luminosa e, com um feitiço adesivo, colou-a na ponta do focinho úmido do cervo.
James sacudiu a cabeça furiosamente, tentando tirar o acessório.
— É a tradição, Pontas! — Sirius riu, desviando de uma chifrada. — Rudolph ficaria orgulhoso. Agora, vamos montar essa equipe! Eu sou o co-piloto e navegador tático.
— Você é o quê? — Remus perguntou, já subindo no banco de trás do trenó. — Sirius, você se perde indo do Salão Comunal para a Biblioteca. Eu vou navegar. Você fica responsável pela... moral da equipe.
— "Moral da equipe" é código para "ficar bonito e gritar ordens"? — Sirius pulou para o banco do condutor, pegando as rédeas de couro. — Eu aceito. Rabicho, você vai no bagageiro. Você é o Operativo de Infiltração em Chaminés Estreitas.
Peter, parecendo um pouco enjoado, aninhou-se no meio de um monte de caixas embrulhadas em papel brilhante na parte de trás.
Klaus observava tudo com uma expressão que oscilava entre o horror e o divertimento. Ele estalou os dedos e o grande saco sem fundo de presentes flutuou para dentro do veículo.
— O saco organiza os presentes automaticamente por ordem de entrega — explicou Klaus. — Não baguncem o sistema. E pelo amor de Merlin, não deixem o Sirius dirigir em áreas urbanas baixas.
— Confie em nós, Klaus! — gritou Sirius, estalando as rédeas (que se conectaram magicamente aos chifres de James). — Pontas, decolar! Rumo às estrelas e além!
James-Pontas correu. A visão de um único cervo puxando um trenó gigantesco deveria ser ridícula, mas a magia de Remus fez com que parecessem leves como o vento. Eles ganharam velocidade na pista de gelo. Mais rápido. Mais rápido.
E então, James saltou.
O estômago de todos foi parar na garganta. O trenó inclinou violentamente para cima, rasgando as nuvens da aurora boreal. O vento uivava, mas uma bolha de calor mágica (cortesia do trenó) os protegia do congelamento.
— ESTAMOS VOANDOOO! — Sirius gritou, ficando de pé no banco e abrindo os braços como se fosse o rei do mundo, o cabelo chicoteando o rosto de Remus atrás dele.
— Sirius, sente-se! — gritou Remus, consultando um pergaminho que Klaus lhe dera e o Mapa-múndi no painel. — Primeira parada: Nova Zelândia! Temos que seguir o fuso horário! Esquerda, Pontas! Esquerda!
James-Pontas, lá na frente, deu uma guinada brusca para a esquerda. O trenó fez uma curva de noventa graus, e Peter quase voou para fora, segurando-se na fita de um pacote gigante.
O caos havia começado.
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A primeira casa, em Wellington, foi um desastre educacional.
O trenó pousou (leia-se: colidiu com elegância duvidosa) num telhado de telhas escorregadias.
— Vai, Rabicho! — comandou Sirius.
Peter transformou-se em rato, desceu pela chaminé com uma caixa em miniatura (reduzida por Remus), voltou ao tamanho normal lá embaixo, depositou o presente, comeu o biscoito e voltou como rato.
O problema foi na subida.
— Me ajudem! — a voz fina de Peter ecoou pelo cano da chaminé. — Estou preso! Comi muito biscoito!
— Eu avisei para não comer os amanteigados! — reclamou Remus.
James (que tinha voltado à forma humana para descansar enquanto estavam parados) teve que enfiar o braço na chaminé fuliginosa e puxar um rato gordo e coberto de cinzas pelo rabo.
— Que nojo, Rabicho — James limpou a mão na calça de Sirius.
— Ei!
Na décima casa, no Japão, eles já estavam pegando o ritmo, embora o "ritmo" fosse frenético.
— Pontas, mergulho tático! — gritou Sirius.
Eles despencaram do céu em direção a Tóquio.
— Sirius, é um prédio de apartamentos, não tem chaminé! — alertou Remus. — Temos que usar a varinha.
Enquanto passavam voando pela janela do décimo andar, Sirius mirou com a varinha como se fosse um batedor lançando um balaço.
— Wingardium Leviosa! — Ele fez o presente flutuar do saco, atravessar a janela aberta (por sorte) e pousar suavemente ao pé da cama de uma criança que dormia. — CESTA DE TRÊS PONTOS PARA A GRIFINÓRIA!
— Menos gritos, mais discrição! — sibilou Remus, enquanto James fazia o trenó desviar de um painel de neon publicitário.
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O verdadeiro problema aconteceu na França.
James estava cansado. Manter a forma de cervo e puxar carga mágica estava drenando suas energias. Ele pousou num telhado em Paris com um baque pesado, cascos derrapando nas telhas congeladas.
— Pausa para hidratação — ofegou James, transformando-se em humano e aceitando uma garrafa de água que Remus conjurou.
— Estamos atrasados — disse Remus, consultando o relógio de bolso. — Ainda falta as Américas inteiras.
De repente, uma janela no telhado vizinho se abriu. Uma senhora francesa, usando bobes no cabelo e segurando um gato persa, olhou para eles. Quatro rapazes num trenó, um deles de pijama, estacionados no telhado dela.
Houve um silêncio tenso.
— Bonsoir? — tentou Sirius, com seu charme cafajeste, abrindo um sorriso galanteador. — Somos... uh... estagiários internacionais. Serviço de entrega expressa. Tres chic, não?
A mulher abriu a boca para gritar.
— Obliviate! — Remus foi mais rápido, lançando o feitiço com precisão cirúrgica.
A mulher piscou, olhou para o gato, esqueceu o que estava fazendo e fechou a janela.
— Isso foi por pouco — suspirou Peter.
— "Estagiários internacionais"? — James riu, voltando a virar cervo. — Vamos logo. Quero chegar no Brasil, ouvi dizer que eles deixam brigadeiro em vez de biscoitos.
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A travessia do Atlântico foi onde a loucura atingiu o pico. Uma tempestade de neve atingiu o meio do oceano.
— Não consigo ver nada! — gritou James (mentalmente, já que cervos não falam, mas a conexão mágica das rédeas permitia que Sirius o ouvisse). — O nariz vermelho do Sirius está falhando!
— A bateria mágica acabou! — Sirius bateu na bola luminosa. — Remus, faz alguma coisa!
— Eu sou um bruxo, não um eletricista! — gritou Remus, segurando o mapa que tentava voar com o vento. — Lumos Maxima!
Remus ergueu a varinha como um farol. A luz iluminou as nuvens escuras, mas também atraiu a atenção. Um avião trouxa passou zumbindo perigosamente perto, a turbina rugindo.
— CUIDADO! — Peter gritou, cobrindo a cabeça.
James-Pontas fez uma manobra evasiva digna de um apanhador da Copa Mundial. Ele girou o trenó no ar, ficando de cabeça para baixo por três segundos. Presentes caíram no teto da bolha mágica. Sirius ria histericamente, a adrenalina correndo solta.
— ISSO É MELHOR QUE QUADRIBOL! — Sirius berrou para o vento.
Quando estabilizaram, estavam sobrevoando a Estátua da Liberdade. O sol estava começando a ameaçar surgir no horizonte leste, perseguindo-os.
— Estamos ficando sem tempo! — alertou Remus, a voz tensa. — O amanhecer está vindo. Se o sol nos tocar, a magia da Noite de Natal se dissipa e o trenó perde a sustentação.
— Faltam quantas casas? — perguntou James, voltando à forma humana por um segundo no ar (o que fez o trenó despencar dez metros antes de ele virar cervo de novo).
— Só mais uma parada especial — disse Sirius, olhando a lista que tinha roubado da mão de Remus. — Mas é longe. É em Godric's Hollow.
James parou de bater os cascos por um milésimo de segundo. Godric's Hollow. A casa dos pais dele. Onde ele passaria o Natal se não tivesse ficado na escola.
— Vamos nessa — a voz mental de Pontas soou determinada. — Segurem-se, Marotos. Vamos quebrar a barreira do som.
James baixou a cabeça, os chifres cortando o vento. Sirius estalou as rédeas. Remus canalizou toda a sua magia para o feitiço de velocidade. Peter se encolheu.
O trenó virou um borrão vermelho e dourado no céu, riscando a estratosfera como uma estrela cadente, numa corrida desesperada contra o sol nascente para entregar o último presente e, talvez, salvar o espírito do Natal de seu próprio criador.
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