Presente Perfeito
3 Conversas casuais para ter com seu chefe
Notas iniciais
Hinata acompanhou Naruto com os olhos fixos em suas costas, mantendo uma distância segura e respeitosa. Percorrem o caminho de volta do corredor, passando pela infinidade de computadores desligados e janelas fechadas. Do lado de fora, a imagem da rua parecia estranhamente barulhenta e receptiva, com todas suas luzes e pequenas pessoas andando de um lado a outro.
A mulher ponderou o que faria caso o chefe fosse em direção à sua sala – como ela teria coragem de entrar no tão misterioso escritório do todo-poderoso? –, mas, por sorte, Naruto desviou das portas duplas, indo em direção a pequenas mesas redondas próximas da janela, onde os funcionários costumavam relaxar em seus horários livres, quase como uma cafeteria, mas sem café ou guarda-sol.
Sentaram-se um de frente para o outro – como se a situação não pudesse ficar mais desconfortável. O silêncio atípico da empresa fantasma começou a incomodar, mas nenhum dos dois falou uma só palavra. Hinata apoiou ambas as mãos na caneca fumegante de chocolate quente, esquentando-se e concentrando toda sua atenção no líquido doce e de efeito calmante.
Naruto, imponente e intimidante, também bebericava sua bebida, com o olhar distraído e os ombros eretos. Hinata analisou os detalhes disfarçadamente, notando como ele tinha a barba por fazer, curtos pelos loiros nascendo na mandíbula perfeito – ele tinha a mandíbula perfeita –, ou duas pequenas marcas, como riscos, em sua bochecha. Para quem nunca tinha visto o chefe antes, ela estava com sorte.
Perguntou-se mentalmente que tipo de presente de amigo-secreto combinava com ele. Abotoaduras? Gravatas de seda? Uma garrafa de uísque envelhecido? Havia algo em sua presença que dava a Hinata a impressão de que ele gostava de coisas simples, mas não poderia esquecer que ele era um bilionário, CEO de um escritório multinacional.
— Diga-me, Hinata... – a repentina voz grossa a assustou – Por que está trabalhando até tarde hoje? É véspera de natal. – aqueles olhos azuis intensos a encarando, com meia luz, deixava Hinata acanhada.
— Bom, – respirou fundo antes de responder, afastando todo resquício de timidez que poderia se ponderar dela – eu preferi ficar aqui e ser produtiva, do que ter que voltar para casa e ficar sozinha. Acho que teria sido mais deprimente. – deu de ombros.
— Sozinha? Não tem família na cidade? – ele parecia genuinamente interessado.
— Na cidade, no estado, no país. – riu sozinha – Meus pais moram há quase dois mil quilômetros. Toda minha família sempre morou na mesma cidade, desde que eu me conheço por gente. Eu me mudei sozinha, e continuo assim desde então.
— E por que mudou-se só? – continuou, inclinando-se para frente. Hinata suspirou imperceptivelmente, apoiando a cabeça contra a mão enquanto brincava com a caneca, já quase vazia.
— Meu pai sempre foi muito tradicional. Ele era contra eu continuar meus estudos, e, quando eu me formei, ele quis que eu me casasse e me tornasse dona de casa. Não era a vida que eu queria para mim mesma, então, na primeira oportunidade, eu fugi. – sorriu um pouco, sem graça – Ele não gostou muito, e não nos falamos mais.
O silêncio voltou a tomá-los. Hinata não olhou o chefe nos olhos, um pouco constrangida de compartilhar algo tão pessoal com ele. No entanto, sentia-se estranhamente confortável.
— M-Mas eu tenho certeza que é uma história muito entediante. – balançou a mão, tentando quebrar o gelo – E o senhor? O que faz aqui tão tarde? Tenho certeza que o senhor e a senhora Namikaze adorariam passar o feriado com o senhor.
Observou a feição de Naruto mudar; tornou-se incerta, e, depois, muito cansada. Temeu ter ido longe demais, e ultrapassado a frágil linha invisível de conversação casual que compartilhavam, sozinhos, naquele prédio gigante e vazio. No entanto, antes que pudesse se retratar, o Uzumaki suspirou pesadamente, alongando os ombros.
— Acho que, infelizmente, minha situação é o extremo oposto da senhorita. Vivo exatamente a vida que meus pais queriam para mim. – sorriu de lado, pegando Hinata de surpresa, tanto pelas palavras, quanto pela presença do riso discreto, que o deixava extremamente bonito – Sinto muito aborrecê-la com as minhas divagações. De qualquer maneira, não são muito de festividades.
— Não, não! – interrompeu antes que pudesse se segurar – Por favor, eu quero ouvir. – não queria parecer fofoqueira ou desesperada. Sentiu um interesse natural pelo que ele estava dizendo, não somente por ser seu amigo secreto, ou qualquer outra coisa assim; seu chefe seria, provavelmente, sua única companhia no natal.
— Bom. – inclinou-se para frente e cruzou as mãos sobre a mesa – Meus pais sempre quiseram que eu assumisse as empresas. Talvez daqui alguns anos, mas, assim que eu terminei a pós-graduação, percebi que eles mereciam um descanso, por isso, aceitei a presidência. – deu de ombros – Gosto do que faço, mas, as vezes, eles têm disposição demais — riu sozinho – e esquecem que eu tenho um monte de trabalho para fazer.
— Mas nem mesmo no natal? – questionou, com uma careta. Ela já estava acostumada, mas a ideia de outra pessoa passando a data solitária lhe parecia muito triste.
— Eu estava planejando dar uma passada na casa deles quando saísse. – coçou a cabeça, parecendo envergonhado, e completamente fofo – Mas, com o tempo livre, meus pais costumam exagerar um pouco nas comemorações. É exaustivo. – suspirou, rindo, e Hinata o acompanhou.
O clima parecia muito mais leve agora. Seus olhos tinham se acostumado com a parca luz, e a silhueta de Naruto já lhe era familiar. Ele parecia muito mais como um cara normal, engraçado e simpático agora, em vez de uma figura mística, enigmática e ameaçadora – embora continuasse tão lindo que Hinata era incapaz de encarar seu rosto sem corar.
— Espero que eu tenha ajudado com seu trabalho, então. – sorriu.
— Não foi tão ruim ter ficado até tarde, afinal de contas. – respondeu, deixando seu rosto quente. Hinata desviou o olhar, encabulada e um pouco lisonjeada.
— Me diga, senhor Uzumaki…
— Naruto. – ele ergueu uma sobrancelha.
— Tudo bem. Me diga, Naruto. – soava estranhamente natural – Se pudesse estar em algum lugar agora, longe do trabalho e do barulho, onde estaria?
— Hm. – ficou pensativo por um minuto – Acho que em um bom bistrô. Aconchegante, silencioso, talvez com música ao vivo ou a beira-mar. – Hinata gostou como seu rosto assumiu um aspecto sonhador – E você, senhorita Hinata?
— Eu gosto de festas com muitas pessoas. – riram – Muito barulho. Um clube, talvez. Gosto da sensação de cordialidade e afetuosidade, mesmo entre estranhos. Toda a camaradagem. A gente nunca sabe qual história cada pessoa guarda. É incrível poder conhecê-las.
Hinata sustentou o olhar de íris azuis quentes e instigantes. Fora daquelas portas duplas de madeira maciça, longe dos estigmas de chefe, Naruto Uzumaki era quase normal. Muito bonito, com um sorriso de tirar o fôlego – e, de quebra, com gostos acessíveis para o bolso humilde de Hinata. No fim, ela não estava triste por ter tirado seu nome.
— Senhorita Hinata?
— Sim?
Algumas luzes iluminaram seu rosto.
— Feliz natal.
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