Presas do Amanhã

1 Capítulo 1 – Diferença entre as vistas


Notas iniciais
Há muito eu queria escrever uma novela com o tema fantasia urbana. Ao lembrar de antigas sessões de RPG e de ideias que acabaram não ganhando vida, me bateu a inspiração para trabalhar isso. Essa história será uma amalgama de filosofia, religião, cultura e devaneios insanos saídos diretamente da minha cabeça modestamente doentia. Tudo isso acontecendo aqui, no Brasil de nosso tempo.Não sei se terei êxito, mas postarei um capítulo por semana e espero que vocês gostem de ler tanto quanto eu estou gostando de escrever. No mais, é isso. Muito obrigado pela presença, espero que vocês gostem e boa leitura! OBS: ela também se encontra postada na Social Spirit, no seguinte endereço: http://socialspirit.com.br/fanfics/historia/fanfiction-originais-presas-do-amanha-2692894

CAPÍTULO 1
DIFERENÇA ENTRE AS VISTAS

— Quando você se olha no espelho, o que você vê? — perguntou Gustavo.

— Essa é outra daquelas suas abobrinhas filosóficas? — eu respondi.

Gustavo tirou as mãos dos meus cabelos e as repousou nos meus ombros, me encarando de frente para o vidro. Eu me via, mas não via Gustavo. Nada tão chocante: vampiros não tinham reflexo, afinal. Eu o ouvi ronronar atrás de mim, enquanto sentia suas presas circundarem meu pescoço e suas narinas fungarem no meu cangote. Não, ele não me morderia. Era só um jeito que ele tinha de me deixar excitada. E, cá entre nós, funcionava muito bem. Exceto quando, aliado à isso… Ele. Me dava. Um tapa. Na bunda.

— Seu idiota! — exclamei.

Ele riu.

— Isso é o que você recebe por não levar minha pergunta a sério.

Gustavo era um babaca. E, como todo bom babaca, ele sabia exatamente como me irritar. Mas era um babaca de quem eu gostava, então eu precisava dar um desconto. Embora isso não me impedisse de ser seca:

— E por que eu deveria? Você não tem reflexo, porra! Não precisa saber o que se vê. Aliás — ponderei. — você não se enxerga, mas me enxerga. Se você me vê aqui e no espelho, então sabe que as imagens são iguais. Dá para concluir que você veria a si mesmo, se pudesse se ver, bocó. Que vergonha — desdenhei, sorrindo maliciosamente. — Um vampiro de trezentos anos deveria ser mais inteligente.

Ele ficou sério, como poucas vezes o vi ficar.

— Quinhentos. E quem garante que o que você vê é o mesmo que eu vejo?

— E o que você vê quando olha para mim?

— Seu futuro.

Hã? "Seu futuro"? Ele via o meu futuro? Olhando no espelho? Fala sério. Ele podia ser um vampiro — e era realmente um —, mas não era a Mãe Dináh. Ao menos, era mais conservado que ela.

— Ah, é? E desde quando existem vampiro videntes?

— E desde quando você entende sobre vampiros? — ui, alguém estava zangado.

— Certo, certo, você ganhou essa — fiz pouco caso. — Se enxerga o meu futuro, por que demônios nunca me falou disso antes?

— Porque você me pediria para dizer o seu.

Gustavo tirou as mãos dos meus ombros e se afastou lentamente. Eu me virei para ele.

— Com certeza! Eu quero saber o meu futuro, senhor vampiro doidão — Gustavo era um vampiro que ouvia Raul Seixas. Era inevitável o trocadilho. — Pode ir soltando essas presas!

Ele sorriu, mas de uma forma diferente, quase triste. Estava distante, mas não só por ter se afastado. Sei lá… Difícil de explicar. Gustavo se aproximou da janela, e por um momento o confundi com o Batman, com aquela capa e roupa preta. A diferença foi que ele realmente virou um morcego.

— Exatamente por isso nunca te falei, Rosana. Há um preço a se pagar quando se conta o futuro de uma pessoa, seja ela quem for. E esse preço é alto demais.

Antes que eu pudesse perguntar qual era o preço a ser pago e o porquê de ele ter me falado tudo aquilo tão de repente se não tinha, de fato, a real intenção de me contar, ele foi embora. Ele sempre fazia aquilo quando o assunto não lhe era conveniente. Agora, morta de curiosidade e com a marca da mão dele na minha bunda, aquele babaca conseguiu me irritar outra vez.

Desde aquela noite em meu apartamento, não cruzei mais com Gustavo. Tudo bem: nosso relacionamento era bem conturbado, nada diferente do que se espera de uma relação vampirumânica — é, eu mesma cunhei esse termo. Gustavo riu quando contei a ele, mas acho que traduziu bem nosso envolvimento. Afinal, eu era humana e ele, bem… Não mais. — A questão era que, apesar de toda divergência entre o que supostamente humanos e mortos-vivos fazem, ele nunca passou tanto tempo sem me dar as caras.

Eu mesma o procuraria se pudesse, mas ele nunca contou onde morava. "Rosana, você não deve me procurar. Não deveria nem se envolver comigo. Eu lhe advirto de que é perigoso", ele dizia, com aquela voz grave que nunca consegui imitar. Ah, fala serio, Edward! Eu, que tanto repudiava os romances da Stephenie Meyer, acabei encontrando meu próprio vampiro "gay". Só podia ser golpe do destino.

Como se ele não soubesse que eu nunca tive esses mimimi de mulher fresca. Eu estava com ele porque eu queria estar com ele, e pouco me importava se ele era um vampiro, um zumbi, uma múmia, um humano ou qualquer outra coisa. Aliás, se eu pensasse diferente disso, não teria o trabalho que tenho. E foi inclusive por causa desse trabalho que conheci Gustavo. É uma história engraçada.

A começar pelo meu hexavô — isso mesmo, sete gerações de distância, se contar o meu pai —, minha família vinha de uma descendência de antiquários, pessoas que colecionavam, estudavam e vendiam práticas e objetos da antiguidade. Mas esse era o emprego de fachada. A profissão verdadeira se resumia a caçar criaturas sobrenaturais, geralmente vampiros.

Segundo os registros, éramos caçadores bem requisitados e muito bons no que fazíamos. Capturamos até um Filho de Drácula! Tudo bem que era de muitas gerações depois, mas isso não diminuia o feito. Meu avô me contou que apenas alguns poucos vampiros escapavam, e, dentre esses, houve um Presa de Nêmesis cujo nome ainda reverberava pelos cantos do submundo, de tão temido que era: Gustavo. Claro que, na época, ele não se chamava assim.

Gustavo já teve muitos nomes com o passar dos séculos. Mas por mais que eu perguntasse, aquele babaca nunca me contou nada sobre sua origem ou sobre seu passado. Eu só sei de seu primeiro nome porque meu avô revelou. Era Piszah. Pelas feições — rosto bruto, meio rústico, de olhos claros, barba por fazer, cabelos lisos e jeitosos, pele mais branca que a minha (claro, ele estava morto), alto e levemente atlético —, Gustavo provavelmente era europeu.

Naqueles tempos, os Presas de Nêmesis eram vampiros cruentos, baderneiros e quase nada sociáveis, mesmo a julgar que se tratavam de vampiros. Eles não tinham escrúpulos e matavam qualquer um na frente, fosse homem, mulher, criança ou animal. Embora não antes de beber-lhes o sangue e transformar tudo num completo banho de carnificina. Gustavo — ou Piszah — não era diferente.

Pelos desastres que ele causou, as recompensas por sua cabeça eram exorbitantes. Tão altas que, se alguém o capturasse, teria riqueza o suficiente por pelo menos dez gerações. Claro que, se dependesse de mim, minha família nunca o capturaria. O babaca me irritava às vezes, mas isso não significava que eu o quisesse ver servindo de decoração na parede de algum esquisito. No entanto, meu hexavô, bem como toda a linhagem seguinte, não pensava assim.

Até meu avô nutria certo ranço por Gustavo. Ele demonstrava uma alegria indizível quando contava histórias sobre como nossos antepassados quase o capturaram. Se bem que a alegria era seguida de tristeza, quando mencionava que nunca foram bem-sucedidos, já que Gustavo sempre escapou.

Todavia, com o passar dos anos, as atividades envolvendo vampiros foram reduzindo. Eles deram uma acalmada, e muito caçadores abandonaram o trabalho. Minha família, por exemplo, manteve apenas o ofício de antiquário. Meu avô mesmo, raramente caçou; meu pai, só conheceu um pouco da teoria; e eu, bem… Eu não aprendi nada.

Mesmo criada nesse meio, sempre achei que tudo não passava de histórias fantásticas; contos da carochinha. Isso, até atingir a maioridade. Meu avô meu deu um medalhão de presente de aniversário e disse que ele atrairia bons fluidos. O problema foi que ele havia me dado o medalhão errado.

Descobri isso da pior maneira, depois de voltar da padaria. Era noite e as ruas estavam desertas. Caminhei ágil pela calçada, tão doida para chegar logo em casa, que mal percebi quando um vulto preto saltou na minha cabeça. "Cara, que isso?! Me solta!", eu me debatia, mas não adiantava. Aquele bicho tinha prendido suas garras no meu pescoço, enquanto voava para longe e me arrastava junto.

Já estava sufocando, com as forças exauridas. Aos poucos, fui parando de me debater. A última coisa que pensei antes de apagar foi que, ali, eu realmente morreria. Contrariando minhas expectativas — que bom —, para minha surpresa, quando acordei, eu estava deitada na calçada, sem o menor sinal daquela coisa que havia me levado.

Não demorou até que eu pudesse enxergar a figura de um homem alto e todo de preto do meu lado. Obviamente Gustavo. Ele havia cuidado de mim, por alguma razão que até hoje desconheço. Ele me disse para jogar aquele medalhão fora, porque não ia me fazer bem, e foi embora, como que tragado pela noite bem diante dos meus olhos. Nos relacionamos desde aquele dia. Nesses anos todos, por várias vezes esse babaca já ficou sem mandar notícias, mas nunca por tanto tempo assim. Ah, Gustavo… Cadê você?! Vê se aparece logo. Babaca.