Presa no Tempo

8 Capítulo 8: Ninguém sabe onde você está, perto ou longe


Notas iniciais
Espero que gostem! :D . "Não tema o futuro, não lamente o passado." ~ Percy Bysshe Shelley . . Link da musica do capitulo nas notas finais. #MeninaImprovavel

~ ???

— Helena! Vamos Helena, sai dai!

— Vem logo! O pai não vai saber que a gente ta aqui.

— Vai sim! Ele vai descobrir! Não é seguro...

— Qual é Edu... Vai! — gritei para meu irmão.

— Sai dai agora Helena. — ouvi a voz autoritária do meu pai. — A garagem não é lugar pra brincar.

— Ah, pai!

— Anda!

Passei do lado dele onde me agarrou pelos ombros desprevenida.

— É perigoso ai, algo muito ruim pode acontecer com você, já perdi sua mãe... Você é tão igual a ela... Não aguentaria perder você...

De repente uma luz forte se instalou no ambiente e meu pai me empurrou.

— CORRE! — ele gritou.

Me vi caída no chão com um garoto vindo em minha direção.

— Rafael? — murmurei.

— Olha que triste Helena... Seu futuro namoradinho vai morrer e a culpa é sua.

Olhei para cima e vi uma pessoa contra a luz, não conseguia ver seu rosto, mas sua voz não seria esquecida tão cedo.

De repente este homem atirou e Rafael caiu na minha frente.

— Assassina. — ele disse para mim e jogou a arma na minha frente.

**

~ 10:32, Sábado, Junho, Ano: 2140

Dei um suspiro alto e acordei.

O sol brilhava do lado de fora e o gato peludo ainda dormia nos meus pés.

— Rafael? — disse olhando para o travesseiro ao lado, ele não estava lá. — PAI?

— Calma! Pai? Você não menciona seu pai a anos. — ele disse entrando no quarto com uma bandeja com panquecas.

Ele pois a bandeja na cama e sentou ao meu lado.

— O que foi? Parece assustada... — ele passou a mão nos meus cabelos.

Peguei a mão dele e passei ela no meu rosto sentindo sua presença mais ainda.

— Ok...?

— Eu tive um sonho muito ruim, mas não foi nada já vai passar foi só um susto. — disse soltando a mão dele.

Comecei a comer o que ele me trouxe.

— Está muito bom! — disse sorrindo.

— É um agradecimento por ontem. — ele sorriu pra mim — Foi bom dormirmos juntos, me lembrou os velhos tempos.

Fiquei envergonhada.

— Éramos crianças.

— Vamos ser crianças de novo então.

Ele passou a mão no meu rosto e eu fechei os olhos.

— Ainda bem que você está vivo... — murmurei.

Ele me olhou confuso.

— Por que eu estaria morto?

— No meu sonho você tinha a idade de quando nos conhecemos. Um homem, não sei quem é não vi o rosto dele, atirou em você e depois jogou a arma em mim me acusando de sua morte.

— Não lembra mesmo da aparência? — ele me perguntou sério.

— Não. Deveria ter sua idade, tinha uma voz forte... — disse enfiando um pedaço de panqueca na boca e fazendo sinal para as cortinas abrirem.

"A voz dele era penetrante. Não acho que esquecerei dela." — pensei olhando para o céu que surgia pelas janelas.

**

— Sabe... — ele disse da cozinha — Seu gato derrubou uma revista hoje de manhã. "Invenções antigas" algo assim. Eu não entendo por que você guarda revistas sendo que tem toda essa tecnologia por ai. Poderia pegar o celular e por pra você ouvir.

— No futuro ninguém vai saber nem como se vira uma página, imagina se saberão o que é uma revista. — disse terminando de por minha blusa lilás de alça.

Fui pra sala e vi ele deitado no sofá.

— Tem algo marcado para hoje? — ele perguntou.

— Não...

— Quer sair de moto? — sorriu para mim.

— Sim! — disse animada — Mas antes vou arrumar a sala, ta uma bagunça. Você podia me ajudar né!

— Dou todo meu apoio moral! — Disse ele deitando no sofá novamente com a mão na barriga — Ai...

— Ainda dói de ontem? — perguntei preocupada.

— Um pouco, mas logo melhora.

— Consegue dirigir de boa?

— Sim. — ele sorriu enquanto mexia no celular — Ta falando com o melhor piloto de moto da cidade.

Eu dei risada.

**

Abaixei perto de uma das gavetas na cozinha e de lá de dentro peguei um pequeno robô, ele tinha um formato redondo e umas pequenas cerdas usadas para limpeza, puis no chão e logo que entrou em contato com o chão ele começou a limpa-lo automaticamente. Arrumei a mesa da sala murmurando uma de minhas músicas favoritas do Pink Floyd, depois de tanto tempo ainda ouço músicas consideradas antigas aqui.

Peguei a revista que Minx derrubou por sei lá quantos dias seguidos e a abri lendo as primeiras linhas ainda murmurando a música.

— * You reached for the secret too soon...— murmurei.

(* Você alcançou o segredo cedo de mais)

"Sumário, capítulo 1: antigas intenções."

— * You cried for the moon...

(* Você chorou para a lua)

Li na revista: "as invenções antigas foram muito utilizadas hoje para a fabricação de vários produtos, dentre eles o mais conhecido, a fantástica pulseira que troca algumas peças de nossas roupas em segundos..."

"Isso é antigo?" — pensei virando a página.

— * Threatened by shadows at night...

(* Ameaçados pelas sombras da noite)

Olhei para trás, Rafael estava mexendo no celular com o gato sentado do lado. Olhei a revista novamente: instrumentos de localização antigos, GPS.

— * And exposed to the light...

(* E exposto a luz...)

"Usado para localização, o GPS funcionava para localiza...”.

Quando fui ler, senti a presença de Rafael atrás de mim, ele chegou por trás e senti o calor de seu corpo nas minhas costas. Ele pois o celular em cima da mesa, onde um holograma do prisma do Pink Floyd saltava para fora da tela e o arco-íris que saia do prisma coloria o ambiente o deixando calmo e a música que eu estava cantando, agora estava tocando no celular dele.

Ele me pegou pela cintura e guiou nossos corpos no ritmo da música.

— Nunca pensei que dançaria uma música do século 20 em pleno século 22. — ele disse.

Eu dei risada eu estava surpresa com sua atitude.

— Quando que esses caras começam a cantar?

Dei risada.

— São uns seis minutos de solo inicial.

— Caralho... — ele riu — Mas é um som muito bom mesmo assim... Você é diferente de todas que já conheci. Nunca vi alguém com gostos iguais ao seus... É antigo.

Apoiei a cabeça no ombro dele enquanto ouvia Roger Waters cantar e tocar para mim.

— Não sabia que você dançava. — falei.

— Gata, eu sou uma caixa de surpresas. — ele riu.

— Quero abrir essa caixa de surpresas e saber seus segredos. — olhei pra ele.

— Eu não tenho segredos.

"Mentiroso", pensei.

Ele sorriu e me abraçou.

Olhei para o lado e vi meu gato sentado em cima do robô de limpeza que ficava mexendo de um lado para o outro para que o gato saísse, eu ri dessa cena e continuei dançando com ele.

**

~ 11:46, ano: 2140

— Aonde vamos?

Falei bem alto, o som da moto sobressaia minha voz.

— Você sempre pergunta isso! Relaxa! Não vou te sequestrar!

— Eu não duvido! — ri.

A gente passou pela rua em que ele me encontrou a primeira vez.

— Lembra daqui? — ele disse.

— Claro que lembro, como vou esquecer, eu estava quase morta.

— Não era bem essas lembranças que eu esperava trazer a você.

Eu dei risada.

— Desculpa... Foi aqui que a gente se conheceu.

— Você não me viu, eu que te vi.

— Da no mesmo.

— Claro que não! Você tava desmaiada.

— E você tentou ser meu cavaleiro de armadura dourada.

— E eu fui. — ele fez ar de superior.

Revirei os olhos e dei risada.

— Idiota! — disse.

Senti um sorriso formar em seus lábios.

— Sabe onde estou com saudade de ir? — falei no ouvido dele.

Você deve se perguntar como que eu falei no ouvido dele sendo que ele estava de capacete? Bom, os motoqueiros de hoje não usam mais, as motos são tão seguras de queda que não precisa mais.

— Onde?

— Na nossa antiga casa.

Com minhas mãos segurando na barriga dele, senti seu abdômen contrair.

— Não quero ir lá... — ele disse.

— Vamos! Vai ser bom para recordar velhos tempos.

— Eu não quero viver no passado.

— Vamos! Vamos, vamos...

Acho que falei umas mil vezes a mesma coisa até que ele se irritou e concordou em ir.

**

— Caralho! — disse olhando para a casa abandonada em nossa frente, chegamos a parte mais "largada" da cidade — Depois de todos esses anos essa casa continua inteira.

A casa era feita de madeira muito grossa e poderia resistir a tudo. Tinha grandes janelas fechadas por lindas persianas rosadas que deixava a gente relaxado só de olhar.

— Vamos entrar!

Corri para a porta e consegui abrir, mas com dificuldade.

Entrei lá dentro e o cheiro continuava o mesmo, só que em partes, era um cheiro bom de madeira só que com acúmulo de poeira. Essa casa parecia antiga, por isso me sentia tão bem. E a lembrança da mãe de Rafael essa mulher tão incrível veio na minha mente de repente, eu dei um enorme sorriso lembrando de todo bem que ela me fez.

Olhei para a porta e Rafael estava parado na frente da casa olhando para cada um dos detalhes com um sorriso meio triste. Aproximei-me dele e peguei sua mão.

— Vamos... — o puxei para dentro — Não vamos deixar esse passeio te abalar, vamos fazer ser legal e lembrar só das partes boas! Pode ser? — sorri para ele.

— ... Pode! — ele me retribuiu o sorriso.

**

~ NARRAÇÃO DE RAFAEL ~

Eu não sei como esse lugar não consegue afetar o emocional dela de alguma forma, mas ela estava feliz, sorrindo a cada lembrança e eu não pude resistir em não sorrir. Ela me segurava pela mão e me levava para a cozinha, sala, jardim, quartos, todos os lugares da casa.

— Esse era meu quarto! — ela abriu a porta no fim do corredor — Me lembro de eu deitada nessa cama lendo tudo que pudesse existir!

Ela deu risada e eu dei também, a cama era encostada na parede do lado esquerdo e do lado direito havia um guarda roupa e na frente da janela uma cômoda que ela usava.

— Você era tão curiosa! — disse pra ela.

Ela sorriu.

— O que você lembra quando vem aqui nesse quarto?

— De você dormindo... — sorri — Nas suas primeiras noites aqui eu ficava vendo você dormir para que nada de ruim acontecesse.

Ela olhou para mim, porra cara olha a merda de clima que você criou, preciso descontrair.

— Não posso negar que depois de alguns anos ainda te espiava no quarto! E não só dormindo.

Ela deu um soco no meu ombro e eu caio na risada passando a mão onde ela bateu.

— Idiota.

Ela foi pro outro quarto, era o meu.

— Lembro de você jogando vídeo game com aqueles óculos de realidade virtual com seus amigos e xingando pra caralho, enquanto sua mãe gritava com você pra você parar de xingar. — ela deu risada.

— Tem razão, eu passava mais tempo fora do quarto do que dentro dele então só tem isso pra lembrar mesmo! — dei risada.

Quando viramos pro outro lado do corredor a porta fechada era do quarto da minha mãe.

— Eu... Eu vou lá em baixo um pouco ta? — ela desceu as escadas me deixando parado na frente da porta.

Peguei a maçaneta e abri a porta lentamente. Era incrível de como aquele quarto ainda parecia arrumado. Resolvi testar uma coisa.

— Abrir cortinas.

As cortinas fizeram barulho, mas não abriram.

— Porra, teria que fazer uma reforma enorme pra arrumar essa casa.

Passei ao lado da cabeceira da cama e olhei para um abajur em cima da cômoda.

— Helena... Teve o trabalho de deixar tudo tão arrumado desde a morte dela... Incrível como minha mãe cuidou tão bem de você mesmo não sabendo quem você era...

De repente Flashes vieram na minha cabeça, minha mãe deitada na cama e Helena sentada ao lado cuidando dela. Sacudi a cabeça e sai do quarto rapidamente trancando a porta.

— Helena? — a chamei.

Não ouvi resposta então resolvi descer para o andar de baixo e vi a porta dos fundos aberta e ela sentada no banco do lado de fora da casa embaixo da árvore olhando para o céu.

Arrumei minha jaqueta de couro sobre meus ombros e fui em direção a ela. Eu sabia o que aquela árvore iria nos recordar.

Sai da casa e encostei na árvore do lado do banco.

— Lembrando do que? — perguntei.

— Hã? Ah!!! — ela disse desviando o olhar do céu — Nada...

— Ok... — disse pra ela.

Eu não acredito em você Helena, você hesitou, mas eu não quero pegar no seu pé sei como você vira um inferno quando te enchem o saco. Mas aquele lugar me trazia uma das melhores lembranças. Ela nunca teve vergonha de falar comigo, falava tudo sem rodeios e eu que era o envergonhado, depois de um tempo e acontecimentos a parte, o jogo virou e eu passei a ser o falador e ela a envergonhada.

Sentei ao lado dela e olhei pra cima.

~ FLASH BACK DE RAFAEL ~

~ Ano: 2131 (idade: 17 anos)

Eu a vi sentada no banco do jardim olhando para o céu ao lado da árvore com folhas ruivas, incrível como o tom alaranjado das folhas combina com ela. Arrumei minha blusa como se isso fosse mudar alguma coisa e fui em direção a ela e encostei na árvore ao lado do banco.

— Lembrando do que? — perguntei.

— Nada de mais. — ela sorriu.

— Ok...

Sentei ao lado dela e olhei para cima. Lembrei de quando ela chegou ano passado e de como me apaixonei por ela só de olhar para ela. Parece meio clichê, mas tomado pela vergonha eu peguei na mão, esse ato de coragem não me encorajou de maneira alguma. Sabendo do jeito que ela é durona, eu esperava um soco na cara ou um xingamento, mas ela só apertou minha mão.

— Está suando Rafael, não tem porque se envergonhar, não fizemos nada afinal. — ela sorriu para mim e se aproximou — Ou fizemos? — ela arqueou uma sobrancelha.

Ela riu da minha cara de vergonha.

— Tão fofo e tão inocente. — ela encostou de novo no banco e olhou para mim — O que você quer? Por que está segurando minha mão? — ela perguntou sorrindo.

— Por que...

Eu não sabia o que falar.

"Porra Rafael, não vai ficar assim agora, é só uma garota!" – pensei.

Olhei para ela e ela sorriu para mim.

"A garota mais gata do mundo. Puta que pariu me excita só com o sorriso."

Ela sorriu para mim de novo.

"Caralho, para com isso! Para de sorrir para mim, inferno. Só espero que não dê pra ela ver nada de incomum em mim."

Ela ainda estava sorrindo. Em menos de segundos uma coragem me tomou.

Eu soltei a mão dela e puis a minha mão no seu pescoço, a puxei para perto encostando minha boca na dela. Mantive o beijo até ela aceita-lo e quando o aceitou percebi que nunca havia sentido um beijo igual.

Finalmente eu beijei a garota mais gata do universo.

~ FIM DO FLASH BACK ~

Quando fui pegar na mão dela ela tirou a mão do meu alcance.

— Tão fofo e tão inocente! — ela disse para mim sorrindo, levantou do banco e foi para dentro de casa.

— Filha da mãe... – murmurei.

~ FIM DA NARRAÇÃO DE RAFAEL ~

Notas finais
Espero que tenham gostado! Deixe seu comentário! :D . Link do título e da musica do cap.: Pink Floyd - Shine On You Crazy Diamond https://www.youtube.com/watch?v=cWGE9Gi0bB0 . #MeninaImprovável