Notas iniciais
Nunca tinha exposto nada assim a críticas. Me ajudem mas, por favor, sejam gentis.

Remexia, suavemente, o gelo de sua bebida. Distraída, esperava a pessoa certa. A pessoa certa, e a noite não teria sido desperdiçada.

Apesar de absortíssima no que fazia, estava plenamente consciente de sua real missão, a missão de toda noite de sua vida nos últimos anos: caçar. Caçar aquela que tornaria o vazio suportável por algumas horas. Passaria, então, um dia tranquilo, invisível à todos. Até que a noite voltasse, e tivesse de procurar por outro alguém.

Não estava disposta a amar. Parecia perigoso e cansativo, não se sentia capaz, e não queria tentar. Amantes de uma noite eram o bastante.

Levantando os olhos, então, para o restante do bar, sentiu ter encontrado o que precisava: olhos cor-de-âmbar, absurdamente brilhantes, mesmo na iluminação fraca. Chamavam-na, calidamente, doces. Olhos grandes e inocentes, visivelmente deslocados alí. Vagavam, sem fixar-se em nada. Baixavam, e levantavam-se, então, para adentrar seus próprios, castanho-esverdeados. Tão comuns, tão cheios de tantas coisas que não se pode por em palavras, mantinham uma tristeza encantadora, velada, e um algo mais, no qual ela confiava totalmente para abater suas presas.

Distraindo-se de sua armadilha, tendo contado sua vitóra como certa, observou a menina além dos olhos. Cabelos castanhos, rosto delicado, pouca ou nenhuma maquiagem, era difícil dizer. Muito natural, as bochechas rosadas (maquiadas ou não, lhe caíam muito bem), aparentemente muito macias — sentiu vontade de apertar, nada característico — e a boca de boneca. Sorriso sem graça, de covinhas — nova onda de ternura a invadiu; estranhou. Adoravelmente corada, parecia tão macia, num vestido simples, rodado, com um ou outro babado. Era mesmo uma bonequinha e, naquela noite, pretendia fazê-la sua bonequinha.

Pagando sua bebida, levantou-se e foi até a menina que, numa desesperada tentativa de esconder sua observação, virara o rosto absurdamente corado para o outro lado. Erguia as faces delicadas, \"discretamente\", só para confirmar que a estonteante mulher guiava seus passos felinos até ela. Ela, tão pequena e sem graça, tão diferente de qualquer outra pessoa ali, tão só e perdida. Não poderia decidir-se entre contentamento pela atenção dedicada ou vontade de sair correndo, por não saber como lidar com aquilo; decidiu-se por um meio termo, ficando estática, com as mãozinhas entrelaçadas em frente ao corpo, e olhos arregalados presos em sua agora reconhecida predadora. A caçadora aproximava-se lentamente, esgueirando-se com elegância dos vulgares dançarinos daquele antro. Ofereceu-lhe um sorriso doce e afetado, fazendo a pequena baixar seus olhos mais uma vez.

Perguntou-lhe o que fazia naquele lugar, esperando pacientemente pela resposta que parecia não querer sair. \"Olha pra mim\", comandou. Muito lentamente, foi obedecida, e o que viu quase a desarmou por alguns momentos; os olhos grandes e doces cheios de desespero e expectativa, quase em lágrimas, lábios finos entreabertos, e pode observar o adorável rubor cobrir-lhe o colo e as orelhas também. Pensou em tocá-la de leve, mas voltou a seus instintos a tempo de lembrar que a espera tornaria tudo mais interessante.

\"Vim com uma amiga\", e a voz não era trêmula como esperara. Era firme, embora suave, cheia da segurança de quem diz sempre a verdade. \"Ela encontrou um rapaz há algum tempo e não a vi mais\".

\"Está perdida, então?\", era seu riso preenchendo os ouvidos da garota; ela balançou a cabeça, dizendo que somente a esperava. \"Por que não vem comigo? Se ela encontrou alguém, provavelmente não voltará\".

Seguiu-se mais um silêncio, e a voz insegura da boneca: \"Disse que a esperaria, eu prometi...\" e contou-lhe, sem mitos detalhes, que ambas haviam ido até lá para que ela conhecesse, e que iriam juntas para casa, como vieram.

\"Ela já te quebrou uma promessa; não \'tá aqui contigo. Vem comigo?\" e estendeu-lhe a mão. Mais uma vez, ela negou. \"Bom, então sou eu quem fica\" — escorou-se na parede a seu lado.

Seguiu-se uma conversa amena. Apresentaram-se, apertaram as mãos — eletricidade pura correra por seu corpo, juraria a menininha para sua amiga dali a algumas horas -, falaram do tempo, da música. Ambas não dançavam. \"Por que vem aqui?\", fora a pergunta da menor. \"Venho beber, ver gente. Até eu preciso dessa proximidade, às vezes\". Riram, e o riso suave de Amélia (que nome perfeito para uma bonequinha!, pensara a caçadora, cujo nome verdadeiro não revelara.) entorpeceu-a.

\"Sabe o quê? Não quero ficar aqui!\", afirmou, por fim, Amélia, no mais próximo de rudeza que alguém jamais ouviria sair daqueles lábios. Prontamente, a mão da caçadora lhe foi estendida. Aceitou e, no mesmo instante, foi puxada numa mistura de força e delicadeza para fora do bar, ocasionalente esbarrando nas frenéticas figuras da pista de dança. Não pararam ao chegar na porta, correndo mais uma quadra para um dos lados daquele lugar tão estranho para Amélia.

Diminuindo o ritmo, sua predadora a guiava para uma estranha construção aparentemente abandonada, e para cima, através de alguns lances de escadas desgastadas. Pararam, enfim, numa cobertura alta (haviam subido tanto assim?) e a já arfante respiração de Amélia foi roubada pela visão. Acima, um céu cheio de estrelas, sem luar, parecendo tão perto que poderia tocar, e as luzes da cidade abaixo, como um reflexo. Lhe foi dito que nunca a caçadora nunca levava ninguém ali, e sua sinceridade e ingenidade jamais cogitariam duvidar daquela mentira. Sua mão ainda estava presa a outra.

\"Então, o que se faz aqui?\", perguntou, inocentemente, procurando desviar-se da ansiedade e rubor que não a deixaram desde o momento em que encontrara a outra.

Pela primeira vez, viu-se o sorriso de sincera malícia da predadora. Puxou Amélia para si, observando o rubor aumentar novamente de intensidade, os lábios entreabrirem-se de surpresa e os olhos repletos de ansiedade bem abaixo de seu rosto. A expressão que a encantara, ali, tão perto. Ergueu a mão livre para seu rosto, finalmente. Observou os olhos começarem a se fechar com a proximidade crescente e, enquanto acariciava suas faces, o sorriso malicioso preso nos lábios, comemorou mais um dia do caçador.

Notas finais
Então?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!