O enorme caminhão de carga com as cervejas da HicePale Ale acabava de parar no pequeno declive de uma rua do outro lado da calçada da praia. O motorista puxou o freio de mão sem se certificar de travá-lo direito, saltando com relativa pressa da cabine para entregar as bebidas o quanto antes e fechando a porta. A alavanca do freio levemente começou a destravar-se sozinha.

O entregador se dirigiu com passos rápidos para o calçamento da praia, indo diretamente até o balcão de um pequeno bar improvisado e pedindo para que o dono ou outro funcionário o acompanhasse até o caminhão para conferir a carga.

André, sentado a só numa mesa no mesmo bar, levantou a cabeça que até então estava debruçada na superfície da mesa e fitou o funcionário que seguia o caminhoneiro – e também quem o atendeu.

— Ei, cara! — Chamou-o, nervoso. — Quando os espetinhos que eu pedi vão sair?

— Já estão quase prontos! — asseverou, virando-se para outra funcionária do bar e apontando para André. — Veja como está o pedido dele, Ana.

— Okay. — Consentiu a atendente, fitando o cliente faminto. — O que você pediu mesmo?

— 10 espetinhos, há uns 10 minutos... Mas, se for possível, já pode trazer a vaca inteira empalada num tronco de eucalipto!

— Hã? — ela arqueou uma das sobrancelhas. — Mas ainda não faz 5 minutos que abrimos!

— Quando estou com fome eu distorço as coisas... — disse com desdém. — Mas eles já estão prontos?

— Vou checar, só um momentinho!

E a moça passou por uma cortina, deixando André no aguardo. Sem nada pra fazer, ele passou os olhos pela placa do bar bem acima da mesa onde localizava-se e viu seu nome, Morte na Bebida, pondo-se num longo suspiro.

— Um evento onde são aguardadas mais de 2 mil pessoas e tudo o que tem pra elas comerem é espetinho de frango... Meu pai, que morte horrível! — comentou. — Sabia que devia ter trago um frango assado de casa!

*

— Abre essa porta, vadia! Sei que você tá aí! — Samara debatia-se contra a porta de madeira da cabana enquanto Dan tentava contê-la, mas era como tentar apagar o inferno com uma jarra de água morna.

— Não tem ninguém aí, Samara. Desencana!

A garota respirou profundamente, recompondo-se e fixando o ex.

— O que faz nessa área então? A festa é pra lá! — Apontou com o indicador.

— Não queria revelar isso porque pediram pra manter em sigilo, mas... sou o responsável pela queima dos fogos de artifício! — mentiu descadaramente num sussurro em seus ouvidos. Samara o lançou um olhar de surpresa, caindo na ladainha. — Só não conta pra ninguém. Só vão começar a queima de fogos quando eu der a permissão!

— Sério? — Perguntou boquiaberta e Dan acenou positivamente com a cabeça. — Hm... Posso dar uma olhadinha neles?

— Olha, eu não acho uma boa...

— Poderíamos aproveitar o espaço da cabana e fazer umas "coisinhas" mais...

— Claro!

Dan agarrou as chaves do depósito e buscou a certa para abrir a porta. Encaixou-a no buraco da fechadura e repentinamente se recordou do galão de gasolina que lhe pediram para pôr no cômodo. Ao virar-se para onde deixou o combustível, viu-o derramando as últimas gotas que escorriam por uma pequena trilha em sua direção. Seguindo-a com os olhos, Dan ficou sem reação ao ver o piso da cabana encharcado de gasolina.

— Que droga! — urrou.

Instantaneamente, o resto do palito de cigarro de Samara foi arremessado pelo vento sobre o rastro de gasolina e, da onde antes saia apenas uma fraca fumaça, chamas tiveram origem e foram dançando pelo trilho até alcançarem a cabana. Dan sentiu um ardor em seus pés e logo viu, horrorizado, que toda aquela área entraria em combustão.

— Temos que sair daqui! — gritou para a ex, agarrando-a pelos braços e puxando-a para fora da construção.

Assim que o fogo atingiu o tanque de propano, labaredas dançantes subiram pelo cilindro e alcançaram a tampa. Um enorme estrondo aconteceu no momento em que o tanque explodiu e uma cortina enorme de chamas com uma força avassaladora saiu consumindo tudo o que tinha pela frente, assim como as paredes e a estrutura do barraco e as pessoas ao lado de fora. Dan e Samara foram duas delas, que sumiram em meio ao fogo que tratou de derreter suas carnes e queimar todos os ossos de seus corpos até que virassem pó, e apenas pó.

De pouco a pouco as pessoas foram tomando conhecimento do ocorrido e entrando em desespero. No entanto, a correria teve início quando as chamas na cabana atingiram a pilha de fogos de artifício, começando a dispará-los desordenada e descontroladamente, como se fossem parte da munição de uma metralhadora.

Um homem que corria junto ao seu filho viu que o garoto estava na mira de um dos fogos e empurrou-o fora, entrando em seu lugar e sendo explodido como se fosse um balão com água quando o explosivo o atingiu.

Gritaria, pânico e o caos. Mitchel, Lisa, Breno e Nina tomaram noção do que acontecia e se viram no meio de um empurra-empurra sem fim. Pessoas explodiam de repente, sangue jorrava para cima e para baixo como se estivesse sendo lançado no ar por borrifadores. Pessoas caiam e eram pisoteadas pelas demais. A situação se tornara um pesadelo.

— Precisamos sair daqui! — Nina argumentou.

— Precisamos achar os outros! — Lisa disse, saindo no caminho oposto à correria.

— Amor, é perigoso! — Mitchel tentou contê-la, mas a namorada o olhou atônita.

— Não vou sair sem a Evelyn e os outros! — perfilhou.

— Parece que os fogos foram ativados num incêndio. — dissera Nina para Breno após ouvir rumores. — Ir para os fogos é suicídio!

— Pegue seu irmão e saia daqui! — ele ordenou. — Vou com eles atrás de alguns colegas e iremos sair assim que nos juntarmos. Te encontro lá fora!

E ambos se despediram. Nina colocou-se a andar para a saída do lugar, todavia, devido a toda a muvuca de pessoas, acabou se desatando de seu irmão e o perdeu em meio à multidão.

— Lucas!!!

*

— Evelyn! — Lisa chamava aterrada pela melhor amiga enquanto se esforçava para tentar vê-la, mas só conseguia capturar os braços das pessoas surtadas para saírem dali que a empurravam para trás.

De repente, ao longe, escutou a voz familiar da garota indagando seu nome. Com a ajuda de Mitchel e Breno, Lisa conseguiu atravessar a "corrente" de espectadores que fugiam do incêndio e viu a amiga há alguns metros, procurando-a.

— Evelyn, aqui! — gritou.

Assim que Lisa percebeu brotar um sorriso no rosto de Evelyn ao conseguiu vê-la, um dos fogos de artifício atingiu as costas da amiga, atravessando toda a extensão do seu corpo e saindo pela região do abdômen, banhado em sangue e seguindo violentamente seu caminho a fim de fazer novas vítimas.

— Não... — Lisa ficou transtornada, observando o corpo inexpressivo de Evelyn ir ao chão com sangue escorrendo feito cachoeira da cratera em seu estômago.

— Precisamos sair daqui agora! — Breno asseverou para o casal e Mitchel segurou a namorada pelas mãos, tentando reconfortá-la, e saiu a puxando junto.

*

André já estava de prontidão frente ao balcão do bar quando a funcionária saiu com uma bandeja de espetinhos em mãos. Assim que a atendente os colocou sobre o balcão e o cliente se sentou para começar a comer, ambos foram surpreendidos pela correria e o desespero que tomavam conta da saída principal da praia alguns metros ao fundo de André.

— O que está havendo lá? — A moça ficou preocupada.

Quando preparava-se para responder algo, um foguete passou zunindo pela fachada do bar e destruiu a estrutura de sustentação superior da placa com o nome do bar. O largo visor quadrático inclinou-se para a frente e caiu, girando 90° graus para baixo e acertando em cheio o rosto de André, forçando-o a ir de cabeça contra os espetinhos encaixados em furos na forma sobre o balcão, logo atrás de si. Três deles atravessaram diferentes partes de seu crânio e sua nuca. Um apontou em sua boca, outro em seu olho esquerdo e o terceiro entre suas sobrancelhas.

A funcionária começou a gritar, aterrada, enquanto o sangue do rapaz escorria pelos furos em sua cabeça e confeitava a carne que ele pretendia comer.

*

Breno, Mitchel e Lisa corriam para fora da praia.

— A Evelyn... ela foi... — a garota estava em choque pela morte da amiga.

— Nós vamos sair daqui, eu prometo! — Mitchel falou, olhando-a nos olhos.

Breno andava alguns metros à frente do casal quando escutou um grande estalo vindo do alto. Juntamente dos amigos, ele olhou para cima e se deu conta de que um dos artifícios em combustão havia atingido a asa de um dos aviões da esquadrilha. Era o de seu amigo Iago, reconheceu pelo 180 pintado na outra asa.

— Ai meu deus! Ele vai...

Sem que Lisa terminasse a frase, a aeronave de Iago, sem qualquer controle, colidiu bruscamente com a que estava embaixo dela e explodiu, destroçando-se em centenas de pedaços. Estes, despencaram sobre as pessoas como se fossem meteoritos, tirando qualquer chance de escape de quem atingissem.

Um grandioso pedaço da outra asa do avião despencou mirando a área onde Lisa e Mitchel jaziam. Eles tentaram fugir, porém, a jovem tropeçou em um corpo ao chão e caiu. Mitchel parou para ajudá-la a se levantar e ambos foram esmagados pelo estilhaço.

— Não!!! — gritou Breno, desesperado.

— Lucas!

O rapaz, em estado de choque, reconheceu a voz feminina próxima e se voltou a ela enquanto lágrimas começavam a sair por seus olhos. Deparou-se com Nina, em pânico, buscando pelo irmão que havia se desprendido de sua mão na aglomeração.

— Nina! — A chamou assim que a viu, indo de encontro com a garota no mesmo instante. — Porque ainda não saiu daqui?!

— O Lucas, ele se perdeu de mim! — Alegou, aos prantos. — Preciso achá-lo! Se algo o acontecer, jamais me perdoarei!

Breno passou os olhos rapidamente ao arredor e conseguiu pegar o garoto saindo da praia no colo de um segurança do show.

— Ele saiu com um guarda! — exclamou, pegando Nina pela mão e direcionando-a consigo para a saída. — Vamos!

Os dois começaram a correr quando já estavam a poucos metros do calçamento que contornava a areia da praia. Breno ouviu um ruído alarmante vindo do céu e olhou-o sem cessar os passos, vendo que o avião com o qual o de Iago colidira passava em chamas diretamente sobre ele.

Um grande estrondo aconteceu quando a nova nave explodiu.

— Já estamos quase lá! — Breno tocara a calçada com um dos pés quando sentiu algo respingar sobre o seu braço que segurava Nina. Ainda tentando puxá-la, estranhou quando notou que ela não se movia mais, nem com todo o esforço que fazia para tirá-la dali. — Nina?

Ao fitar a ex, Breno a encontrou fincada à areia por uma bandeira do Brasil – a qual reconheceu estar no avião que se desintegrou a pouco -, que havia perfurado sua cabeça e atravessado todo o seu corpo, saindo pelo seu pé esquerdo e ainda entrando razoavelmente de forma a ficar em pé e manter Nina assim, como se ela fosse a carne em volta de um espetinho cravado ao chão.

— O caminhão!

Breno escutou alguém gritando e sentiu uma sensação horrível, pondo-se a virar lentamente para trás. Lá estava o caminhão da HicePale Ale em que Mitchel quase bateu o carro quando vinham para a Marcha, claramente sem motorista e a uma velocidade alta em sua direção. Ele limitou-se a fechar os olhos para tentar reduzir a dor do impacto e...

— Tenho que ir para o meu posto! — Ouviu a voz de Dan surgir do nada. Breno abriu os olhos, estava junto aos seus amigos e parecia que haviam chegado há pouco na praia.

— Não... — Recusou-se a acreditar no que via, engolindo em seco. — Não é possível!

Notas finais
Cenas deletadas do capítulo: 01: Evelyn encontraria Kleber e ambos conversariam sobre a mancha de ketchup em seu vestido. Os dois estariam próximos aos cavalos da Marcha. Quando o acidente começasse, um dos animais iria sem controle em direção à Evelyn. O professor empurraria a aluna para não ser atingida e seria derrubado pelo animal, que passaria sobre ele e pisaria em seu pescoço com uma das patas, quebrando-o e matando Kleber. [Nessa versão, Kleber também seria um dos sobreviventes na lista da morte.]
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.