Premonição: Encurralados
4 Capítulo 03: Sorte no Azar
Notas iniciais
28 de junho de 2011
O dia amanheceu conturbando para Chase. A dor de cabeça voltou com força. Não se sentia exausto como nos outros dias, muito pelo contrário, desta vez estava disposto. Apenad a dor de cabeça o atrapalhava.
A casa estava quieta, por sua vez. Provavelmente sua mãe havia ido à casa de sua avó. Lembrara da noite anterior, quando a mulher comentara algo sobre visitá-la antes de uma cirurgia importante.
Chase rastejou-se até o banheiro. Neste momento lavava o rosto, lutando contra o último resquício de sono. A dor de cabeça só piorava, decerto seria uma enxaqueca pesada. Ele olhou para o espelho e voltou seu olhar para a água que saía da torneira. Mas algo estava estranho, a água assumiu uma tonalidade escura e avermelhada. O garoto assustou-se e cambaleou para trás, coçando os olhos. Seria um problema no encanamento? Abriu os olhos e a água era incolor novamente.
— Deve ser efeito da enxaqueca, só isso. — Repetiu consigo mesmo.
Voltou a lavar o rosto e depois tomou um comprimido. Queria se livrar logo da dor de cabeça, a fim de ter um dia melhor.
x-x-x
Centro da cidade e um dia bastante ensolarado.
O apartamento de Briana tinha uma boa vista da cidade e a garota estava sentada em uma poltrona vermelha acolchoada, enquanto seus pés descansavam sobre um banquinho de madeira e tinham seis unhas dos dedos pintadas por um esmalte pink.
A sala de estar do novo apartamento da jovem, financiado pelos pais há alguns meses, ainda precisava de algumas reformas e mobílias. Porém, não havia pressa. Briana só precisava se sentir independente e ter sua privacidade, principalmente porque a convivência com seus pais se tornava estressante a cada dia que passava. E embora eles tivessem investido do loft, Briana gostava de pensar que, enfim, poderia caminhar com as próprias pernas.
O que mais gostava do seu novo lar era a enorme parede que ficava de frente para o alto dos prédios vizinhos: três vidraças, indo do chão ao teto, que deixavam a luz do sol invadir a sala de estar. Era exatamente onde ela estava.
A loira dividia sua atenção entre o pincel do esmalte e o celular, prensado entre sua orelha e seus ombros, por onde conversava.
— É, isso que você ouviu, bebê. – Fez uma longa pausa, suspirando. – Sim, meu gato sumiu. Desde ontem não tenho notícias do pobrezinho, já fiz post na internet e tudo mais. – Falou com uma voz dengosa, seguida de um muxoxo.
Do outro lado da linha, Shane fazia sua corrida matinal a, pelo menos, dois quarteirões do apartamento. Era muito mais que apenas exercício, tornou-se uma espécie de ritual de atleta para se manter com a cabeça no lugar.
— Você ligou só para isso? – Shane cuspiu.
— Como assim, Shane? — Briana deu um gritinho, parecendo ofendida. — Em primeiro lugar: liguei porque estamos juntos e fico preocupada contigo. Vai que acontece alguma coisa? – Logo, borrou a unha. – Droga!
— Não me amola, tá Briana? Nós ficamos juntos algumas vezes, não quer dizer que será pra sempre. — Disparou de cabeça quente, deixando-a chocada por alguns segundos do outro lado da linha. — Hoje não estou nos meus melhores dias, ok? Falo com você mais tarde. – Desligou.
— Seu grosso! – Gritou com o celular, sendo pega ouvindo apenas o bip da chamada encerrada.
Querendo ou não, Briana entendia Shane ao afirmar que o relacionamento deles não era embasado em uma relação estável. Assim como também sabia que ele não poderia usá-la assim e jogar fora quando não quiser mais como um brinquedo velho. Isso tornava ele igual aos demais caras da escola, diferente da figura do rapaz que ela idealizara na cabeça.
Enfurecida, Briana jogou o aparelho eletrônico contra a parede. Por sorte (ou azar) não o espatifou por completo. Ao ricochetear na parede, parte da capa protetora do celular caiu sobre o botão da superfície de uma enceradeira encostada contra a parede.
O eletrodoméstico acendeu uma pequena luz verde, sinalizando que havia ligado. Porém, não fez qualquer sinal sonoro que despertasse a atenção da líder de torcida.
— Eu ligo na maior boa vontade para aquele insensível e digo que fico preocupada com ele, e ele me dá uma patada... Argh! O Shane me paga! Ainda vou fazer ele morrer de vergonha, ô se faço! – Esbravejou, borrando a sétima unha novamente. – Ai, agora somos só eu e você, esmalte, coopere comigo!
Por um segundo, Briana viu a silhueta de um gato se formar na parede, enquanto era tocada pelo sol que refletia através da vidraça.
— Hades? – Olhou para o outro lado do cômodo, perto de uma lixeira.
Lá só viu uma pequena estante com algumas revistas sobre ela e uma estatueta de gato, que comprara em homenagem a Hades, seu gato.
— Por um momento pensei que fosse meu queridinho...
Briana virou-se de costas e sentiu um frio inesperado na espinha, arrepiando todos os pelos de seu corpo. Repentinamente, levou um tremendo susto por conta do barulho agudo que a enceradeira fez ao começar a funcionar. Só então, Briana percebeu o eletrodoméstico ligado. Mas... O quê?
A enceradeira veio deslizando sobre o piso amadeirado do apartamento, fazendo Briana dar alguns pulos para trás, sem saber como reagir. Em um desses movimentos, ela acabou por virar o banquinho, derramando todo o vidro de esmalte sobre o piso encerado no dia anterior.
O objeto ligado parecia segui-la, enquanto ela rodava toda a sala de estar, fugindo da aparelhagem doméstica. Ela tentou segurar a enceradeira "fantasma", mas falhou miseravelmente, dando gritinhos e saltos algumas vezes.
Depois disso, tentou alcançar a tomada atrás do eletrodoméstico, esticando o braço.
Porém, sem êxito, tropeçou no banquinho e escorregou no esmalte rosado, espalhado no meio da sala. A primeira coisa que fez, foi usar suas mãos para agarrar as cortinas brancas, mas seus suportes estavam frágeis. Haviam sido montados pela própria Briana dias antes.
Ao conseguir agarrar as cortinas entre os dedos finos, seus suportes não resistiram à força exercida e arrebentaram do suporte principal.
Briana gemeu e cambaleou, girando desajeitada na direção da vidraça. O ensurdecedor barulho do vidro se rompendo dava para ser ouvido à distância. Os barulhos dos estilhaços misturaram-se ao grito pavoroso que a jovem deu, antes de entrar em queda livre.
A jovem despencou do décimo terceiro andar do prédio em uma descida rápida e fatal, embalada pela cortina e acompanhada dos estilhaços, se chocando com força contra o cimento da calçada, feito um boneco de testes.
Partes do corpo quebraram e esmagaram imediatamente, e o sangue logo apareceu, transformando-se em uma poça rubra e escura pelo meio-fio. Um pouco escondido pelo cabelo ensopado de sangue, o rosto parcialmente desfigurado com o impacto da queda. Briana estava quase irreconhecível.
Rapidamente uma aglomeração de pessoas começou a surgir ao redor da cena. Algumas indo para o trabalho, outras em pleno serviço, como uma van de reportagens estacionada do outro lado da rua, e outras aleatórias que só passavam na avenida, no momento do acidente.
A enceradeira caiu logo após o corpo da líder de torcida. Ainda havia algum vestígio de esmalte nas cerdas da base inferior da enceradeira, agora, espatifada.
x-x-x
Sem nada para fazer e com o computador danificado, Chase resolveu ligar a tevê, mas não encontrava o controle remoto. Ele havia sumido.
Em seguida, Chase escutou o baque abafado e a tevê ligou-se sozinha. O controle havia caído da estante, em cima do tapete. O canal sete, no noticiário da manhã, surgiu na tela. A repórter tinha uma fala eufórica e temerosa, enquanto apareciam muitas pessoas atrás dela. Muitas pessoas mesmo. Era possível ouvir o barulho da sirene da ambulância e os gritos dos policiais pedindo que as pessoas se afastassem.
A repórter começou a noticiar o acontecido:
— Estamos falando ao vivo, direto do centro da cidade, onde fomos surpreendidos por um acidente misterioso e chocante que acabou com a vida de uma adolescente. Uma testemunha abalada, que não quis se identificar, acaba de informar à nossa equipe o nome da vítima. Ela se chamava... — A repórter conferiu em um papel. — Briana Saville.
— O quê? – Os olhos de Chase arregalaram-se, prontamente aumentando o volume da tevê para saber mais.
Sua mãe girou as chaves na fechadura e abriu a porta naquele momento, entrando em casa e colocando sua bolsa no sofá mais próximo.
— Assistindo ao noticiário filho? O que deu em você? – Sua mãe caminhou mais um pouco até por a sacola de compras na cozinha.
— Só um minuto mãe! – O garoto respondeu no automático, atento na reportagem.
A repórter continuou:
— A causa do acidente ainda não foi esclarecida pela polícia, mas segundo as testemunhas que presenciaram tudo, a estudante despencou do décimo terceiro andar deste prédio. Mais algumas informações que veicularam até nós, através dos seus pais, que acabaram de chegar e estão muito abalados, afirmam que Briana morava sozinha há dois meses. Mas será que ela se encontrava sozinha no apartamento no momento do acidente? A perícia inicial não descarta a hipótese de suicídio, mas inicialmente a garota não apresentava sinais de que pudesse machucar a si mesma.— A repórter terminou de falar e deu lugar ao som da sirenes.
— Nossa, que trágico! — Lily pôs a mão no peito. — Uma garota tão nova e tão bonita ter se suicidado... Não acha filho? – Sua mãe voltou à cozinha.
Chase permanecia sem dizer nada, completamente tomado pelo choque, boquiaberto com o que havia acontecido. Primeiro o acidente, agora a morte de Briana, sua colega de classe. O que mais poderia acontecer? Estava tudo sendo muito difícil, e agora, ele tinha algo a mais para se preocupar: a reação dos outros ao saberem disso. A essa altura, boa parte deles já deveriam estar cientes, afinal, saiu na televisão.
x-x-x
Algumas horas depois, Chase iria até a casa de Allison. Assim, os dois conversariam sobre o ocorrido, mas contrariando suas expectativas, a amiga já havia ligado.
— Alô? — Sua voz estava trêmula.
— Allie? – Chase já estava em seu quarto, tentando fazer com que seu computador "voltasse à vida".
O dia e a tarde passaram rápido. Era noite e a luz do abajur do quarto do garoto era a única acesa dentro do cômodo. Clareava somente seu corpo sentado na cadeira, de frente ao computador desligado.
— Sua voz está trêmula. Aconteceu alguma coisa? – Ele optou por uma pergunta retórica, afinal, estava ciente do que ela responderia.
— Você assistiu o noticiário hoje cedo? — Engoliu em seco.
— Sim, eu vi. – Seu tom de voz foi sumindo.
— Eu não estou acreditando ainda que ela morreu... — Allison iniciou um choro, decerto abalada pelo que soube.
— Nem eu. – Chase queria ser mais forte e durão, ele não pretendia demonstrar suas fraquezas para a garota pela qual estava interessado. Havia um pouco de orgulho em suas escolhas. Chorar não era seu forte, mas foi inevitável que seus olhos enchessem-se de lágrimas.
— Você vai ao funeral amanhã? — A voz da morena era vez ou outra entrecortada por soluços.
— Não sei se é uma boa ideia. Com certeza Shane estará lá e você sabe como ele é. Nesse momento, deve estar me culpando de toda merda que está acontecendo na vida dele. Acho melhor não.
— Por favor, Chase! Me acompanhe, pelo menos. Não quero ficar sozinha com o Oliver. Ultimamente tem algo nele que está me dando medo.
— Você e Briana nem eram amigas.
— Não se trata de sermos amigas ou não. — Apontou. — Eu não era amiga de metade dos alunos que morreram no desabamento e estive lá no memorial. É sobre gentileza e prestar algum tipo de força pra família.
— Ok, entendi onde quer chegar. Tudo bem, prometo que vou pensar na proposta.
— Ei, espera. Por que você acha que o Shane vai te culpar de alguma coisa? — Allison perguntou, não sabia onde encaixar aquela informação.
— Deixa pra lá. — Chase deu de ombros.
— Então, amanhã a gente se fala, beijos. — Ela parara de fungar. Mesmo com ele não tendo respondido sua pergunta, ela decidiu não insistir.
Chase desistiu de fazer o computador funcionar. E dando um último pontapé da CPU, ele deitou-se em sua cama, recostando sua cabeça perdida no travesseiro e pensando no acidente desta manhã.
— Escorregando em um esmalte... Que ironia de mau gosto. – A primeira reação foi a de rir da causalidade, mas não foi isso que fez.
Apenas fechou os olhos, tentando tirar aquilo da cabeça.
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