Notas iniciais
☠ - Aqui está a segunda parte do que era para ser um capítulo completo. Ficou bem grande, mas não tinha como fazer outro corte no meio desse raciocínio. Mas sempre tem o artifício de pausar a leitura e retomar depois, não precisa ler tudo direto kkkk Bom, aproveitem :D

You’re tragic and

It’s a Shakespeare play come to the end

It’s intoxicating me

You’re gonna die from what you need

Jake abriu os olhos e se ergueu para frente num impulso. Levou uma das mãos à garganta e a outra apertava o lençol da cama, como quem tinha acabado de escapar das surras que as ondas do mar estavam proferindo e agora afundava as mãos na areia para se assegurar de que o pior havia ficado para trás. O suor escorria do couro cabeludo para as têmporas, filetes oleosos de medo que lhe evadiam da pele e o deixava arrepiado.

Pela janela, viu que o sol ainda não possuía os tons viventes de uma manhã avançada, mas o céu estava límpido e brilhava tanto quanto o azul acinzentado de um bloco de gelo. Algumas nuvens ameaçavam se aglomerar com uma cor fosca que Jake não conseguiu reconhecer como se estivessem chegando ou já indo embora. Continuou esfregando o pescoço até retomar o ritmo habitual da respiração.

— Jake. – Ouviu Melissa chamar. – Você está bem?

Só então ele percebeu que ela não estava ao seu lado, mas sim sentada aos pés dianteiros da cama, sobre um puff capitone com o seu notebook apoiado numa mesa dobrável – que geralmente ficava fechada e guardada atrás da porta do quarto. O cabelo estava preso num coque improvisado com um lápis, que se desfez quando ela deslizou pelo colchão a fim de se aproximar do namorado.

— O que aconteceu? – Ela voltou a repetir, apoiando a mão em seu joelho.

— Tive um sonho. Eu sonhei com... – Ele hesitou por um segundo, mas não por receio, e sim por não saber por onde deveria começar. Não tinha medo de se abrir com Melissa, logo foi direto ao ponto. – O Levi. De novo. – Ela já estava ciente que Jake se encontrava com o fantasma do seu irmão quando fechava os olhos. O elã dos sonhos às vezes o trazia de volta como um puxão brusco e pujante, outras vezes ele abria os olhos devagar e mantinha um humor calmo pelo resto do dia. – Ele estava... Estava diferente. Tudo estava diferente.

— Como assim?

— Não sei. – Ele sacode a cabeça. – Você estava lá. A Brandie, o Josh, a Diana...

— Com o Levi? – Ela estranhou. Sempre que Jake relatava seus sonhos com Levi após acordar, era sempre uma conversa antiga dos dois sobre como Levi conheceu Justin, seu antigo namorado. Ou sobre como Levi ajudou Jake a planejar secretamente uma noite romântica no aniversário de dois anos de namoro para ela. Porém, nunca havia mais ninguém. Sempre os dois apenas, numa cabana no meio de uma imensa clareira, um pedacinho do que restava de Levi em Jake. – Não lembro bem daquela época, mas acho que a gente não passou muito tempo com ele. Digo, todos nós juntos. Só quando alguém fazia aniversário, lembra? – Melissa continuou. – Você e Levi eram mais grudados com o Chris.

Jake captou sua interpretação.

— Não, não foi uma lembrança. Era diferente. Ele tava tentando me avisar de algo. – Pensou de novo. – Mas o Chris não estava lá. Ele era o único que não estava. – Tentava conectar os pontos. Melissa o encarava, já antecipando o que ele estava prestes a dizer. – Acho que é isso!

— O que?

— O que o Levi queria me dizer. O Chris! Acho que ele é o próximo.

Enquanto ele falava, Melissa colhia cada vislumbre que poderia lhes dar pistas sobre como articular a lista que Mac mencionara. Ela volta para a beirada da cama e puxa o caderno do Mac que estava ao lado do mouse. Ela abre numa página em branco e começa a numerar.

— O que está fazendo?

— Vamos entender a lógica da morte. – Disse ela apoiando o caderno na ponta da mesa e escrevendo “Diana” ao lado do número um. Jake se posiciona um pouco atrás de Melissa, com ambos em frente ao computador e ele com o queixo apoiado no ombro dela. Ela termina de escrever “Harper” e passa para o próximo número. – Acha que a Jasmine entra aqui? Você salvou ela.

— Mas era ela. Era a vez dela.

Melissa escreve o nome da amiga e ao lado acrescenta “salva”.

— Tem certeza que o Chris é o próximo?

Os pensamentos dele oscilam entre o pesadelo com o fantasma de Levi e o pesadelo da pista Howclover. Lembra-se de estar agachado, ao lado de Brandie, tentando ajudá-la a se levantar, a continuar. Os olhos de Brandie estavam perdidos e cheios de pavor, mas algo a distraiu por alguns segundos. Os segundos em que Jake viu uma oportunidade tirá-la do transe de pânico. Ele acompanhou o olhar dela, ambos viram Sierra olhando para uma greta enorme enquanto gritava o nome de Chris. Um jorro de sangue foi lançado acima, consoante ao furor de uma espadana desenhada por labaredas esguias e fumegantes.

Forçou a memória mais um pouco. Logo depois, com Brandie nos braços, presenciou Sierra dando seu último grito antes do Zamboni engoli-la viva. Jake concentrou-se no momento. Concentrou-se tanto que de alguma forma o seu corpo se encontrou com a sensação vivaz da fumaça lhe invadindo os pulmões, os gritos ásperos raspando o interior da sua alma, os olhos querendo saltar do rosto de tantas lágrimas que ele prendia. O medo, o pânico, o cheiro de morte... Tudo voltou.

— Desculpa. Me desculpa fazer isso, amor. – Jake percebeu que Melissa se referia às lágrimas que escorriam do canto dos seus olhos. Ele não reparou que ele tinha começado a lacrimejar. – Mas a gente precisa saber. Se você conseguir lembrar.

— Tudo bem. Isso não é problema. Eu tô tentando.

Ela terminou de numerar a página, esperando uma confirmação do namorado. Compenetrado em si, viu, como num filme mnemônico, planos abertos e cenas em câmera lenta, delatando microssegundos de transições entre um passo a outro, uma morte à outra, um demônio a outro.

— Sim, o Chris é o próximo.

Melissa anotou rapidamente, colocando “Chris” debaixo de “Jasmine”. Precisou respirar fundo, aceitando e abraçando o fato de que estava literalmente escrevendo a ordem em que seus amigos iriam morrer. Provavelmente, morrer. Seus dedos tremeram um pouco quando pensou em Chris na noite em que os levou para casa. Nas palavras dele e em tudo o que elas representavam.

— E depois?

— Depois vem a Sierra.

Preenchia cada marcador, cada número, com um nome. O estômago dela embrulhou ao ver a lista crescendo, como se finalmente a pílula da inocência tivesse passado o efeito. Ou falhado.

— Aí, eu não lembro. Quer dizer, eu não sei. – Eles se encaram. – Pode ter sido a Brandie ou o Josh. Eles saíram antes de nós da área de preparação. Quando saímos, vi os dois mortos.

— Tem certeza, Jake? Eles estavam mortos?

Ele não a respondeu de imediato. Ele se defrontou com um contraponto dado pela ameaça e recompensa que a resposta poderia trazer. Enfrentou um corredor cheio de fumaça e pessoas correndo. Uma estante estava caída ao lado direito, com um corpo por baixo. O rosto estava esmagado sob um enorme troféu, mas Jake reconheceria aquela jaqueta verde de poliéster em qualquer lugar. Alguns passos à frente, o corpo morto de Brandie pairava. Muito sangue escorria dele, de um ponto que Jake não conseguiu identificar qual – apesar do extenso corte em seu pescoço, seu corpo inteiro estava banhado em sangue.

— Sim. Tenho certeza.

As nuvens se moveram no céu, flutuando sobre a cidade. O quarto pareceu ficar mais escuro quando Melissa anotou “Brandie/Josh – não sabemos”. Sentiu um aperto no coração quando perguntou:

— Então... Só sobram nós dois. Quem vai primeiro?

Jake se afasta um pouco e pega na mão dela. Ele baixou o olhar e encarou Melissa por baixo dos cílios.

— Você. Depois eu.

☠

Despertando pouco a pouco, Brandie ouvia o murmuro de Journey ao seu lado. De onde estava, uma faixa amarela de raio de sol atravessava o colchão, que logo desapareceu após uma nuvem entrar em seu caminho. Em meio ao deleite do estado de torpor que se revivificava em algum lugar entre o fim dos sonhos e o raiar de cada pedacinho do corpo, ela sentia as pontas dos dedos de Journey deslizando por sua clavícula, estimulando-a para que abrisse os olhos.

Alguns pontos negros entrecruzavam-se cerce à periferia da visão de Brandie, que, quando estabilizaram, ela pôde ver, sem que os embaraços da manhã a atrapalhassem, a imagem de Journey deitado de lado ficando cada vez mais clara. Ele estava sorrindo e chamando o nome dela num tom de voz sereno. Uma cena incomum, o que a fez repassar na mente tudo o que aconteceu até aquele momento.

Lembrou-se do jantar. Lembrou-se da conversa. Lembrou-se do vinho. Do vinho. O maldito vinho! Esses eram alguns atos os quais estavam intactos apesar do efeito do álcool. Depois, fragmentos do restante da noite avançavam em alguns cortes, como um filme muito mal reproduzido. A história. A modéstia. A carona. A mudança de planos. A entrada do prédio dele. As mãos dela que o seguravam pela nuca. Os dedos dele que a tocavam por debaixo da blusa. Os dedos dele que a tocavam agora.

Ela estava desnuda, com sua pele cor de caramelo-acetinado brilhando conforme o movimento das nuvens lá fora. A mão dele é tão pálida e devassa, que havia uma sugestão implícita, porém declarada, de uma combinação energética naquela cena. A forma que ele a tocava na curva da cintura, passando os dedos pela barriga até chegar ao umbigo, a fez lembrar-se do caminho da porta até ali, àquela cama. As palavras de Melissa estavam presentes durante todo o jantar, como se ela estivesse sentada à mesa, batendo um talher contra uma taça vazia e lembrando que Brandie não deveria confiar nele. Não em Sondra e nem em seu bichinho de estimação. Ela não sabia em que momento da noite decidiu ignorar a voz de Melissa na sua cabeça, mas delegou a responsabilidade ao efeito daquele vinho assim que os dois trocaram os primeiros beijos dentro do carro dele. Quando nada mais a impedia, Brandie se entregou ao toque de Journey e à sua boca. Boca que a beijava, mordia e lambia. Um enredo de filme que teria apavorado a sua mãe, a Sra. Superprotetora Scheer, que não via a hora de poder abraçar a filha. De novo e de novo.

Minha mãe!

— Bom dia. – Journey ainda estava sorrindo, com olhos animados e curiosos espiando através da franja bagunçada.

— Que horas são? – Ela soou mais desesperada do que pretendia. Esfregou os polegares nos cantos das pálpebras e reprimiu um bocejo. Olhou em volta tentando fazer um reconhecimento do ambiente, já que tinha certeza que não fez isso na noite anterior.

— Hum... – Diz ele olhando para o pulso nu, depois esfregando seus dedos nele. – Err, eu não faço ideia. Não estou com o meu relógio.

Ela se levantou, correu de um lado para o outro. Encontrou sua bolsa jogada aos pés de uma poltrona entulhada de roupas. Journey acompanha com os olhos os giros que ela fazia com o corpo, sem se assentar num só ponto.

— O que você tá procurando?

— Meu celular. – Responde a ele, deixando a bolsa de ponta cabeça. – Achei!

Brandie desbloqueou o celular e procurou pelas mensagens de sua mãe. Nada. Não havia um único vestígio de que a Sra. Scheer tivesse ligado ou sequer tentado entrar em contato por mensagens de texto. A garota demorou a perceber o que aquilo significava, mas quando por fim conseguiu assimilar, sentiu-se um pouco desconcertada. Conferiu novamente e nada. Por segurança, resolveu mandar uma mensagem para a mãe assegurando-lhe de que estava sã e salva. Por enquanto. Reafirmou o que tinha planejado antes, ressaltando na mensagem que tinha passado a noite na casa de Sierra – que era no que a mãe acreditava.

— Precisa de algo? – Journey se aconchega de bruços na extremidade da cama para poder vê-la melhor sentada no chão. – Eu posso preparar o café da manhã. Minha omelete de legumes é conceituadíssima e até disfarça o gosto de queimado das minhas torradas. Mas juro que é a culpa é da torradeira. Têm frutas frescas, eu posso fazer um suco... – Ela o encara com um olhar carregado de surpresa. Talvez um pouco de admiração, mas ela não admitiria em voz alta. – Se você quiser.

— Tudo o que eu quero é que as coisas parem de girar. – Ela começa a caçar as suas roupas e vesti-las desengonçadamente. – O que foi que você fez noite passada? – Disse num tom brincalhão, como se não soubesse de nada que tivesse ocorrido.

— Eu? Não jogue pra cima de mim a responsabilidade. – Ele ri, mostrando todos os dentes da frente, então fechando os lábios contraindo o sorriso numa linha curva e fervelha. – Você quis todo aquele vinho. Sabe, né? A garrafa toda.

— Você me chamou para jantar.

— Você aceitou.

Ela se viu sem saída, então assumiu a derrota.

— A vida é muito curta para recusar um jantar grátis. – A sensação do vinho lhe descendo a garganta ainda era algo presente. Os goles grossos molhando as laterais dos lábios. – Quer dizer, eu sei que não foi de graça.

— Foi muito bom de qualquer jeito.

— É, sim. O vinho foi a melhor parte.

Ele sentiu-se levemente desapontado.

— Também... – E ele acrescentou. – você parecia uma abelhinha depois que saímos do restaurante. Ficava fazendo um zumbido com a língua bem engraçado. Sabia disso? – Mas mentiu, abandonando o duplo sentido das suas palavras à mercê da interpretação alheia. Não havia nada de cômico, nada que o fazia gargalhar nesse sentido. Era um vibrato doce e contagiante, que o encorajava a tentar fazer o mesmo. Ela escondeu o rosto entre as mãos quando ele começou a imitá-la. – Be-e-e-e-ez. Be-e-e-ez.

Brandie, tomada por uma agradável onda de disposição e ânimo, deixou escapar uma gargalhada que a fez se concentrar apenas em Journey e nas mímicas que ele fazia com as mãos para contemplar a imagem inteira de uma Brandie arfando em meio ao asfalto enquanto sacudia os dedos para as estrelas como um maestro.

— Já me falaram algo assim. – Ela não tinha se preparado para vislumbrar algo encantador quando olhasse para trás naquelas horas que passaram, mas era verdadeiramente encantador. Era sublime. Um sentimento que a atraía cada vez mais para perto de algo que se assemelharia a um sorriso, a um êxtase de correr e sentir o suor pingando da nuca. – Na verdade, a Sierra fica sempre me lembrando disso. – Ela ri timidamente. – Não ria de mim por isso. Isso é uma característica minha, eu sou assim. Me aceite pelo o que eu sou.

— Ah, isso não é uma piada. De jeito nenhum.

Ela começa a empurrar todas as coisas de volta para dentro da bolsa, ao mesmo tempo em que caçava os sapatos com os olhos. Não os encontrou perto da cama, nem debaixo da janela ou em alguma parte ao redor da poltrona.

— Então, o convite para o café da manhã ainda está de pé. – Journey disse, e foi quando ela ouviu os primeiros sons que os pingos da chuva faziam no lado de fora da janela. – Parece que vai chover de novo.

Ela ajeita a bolsa debaixo do braço e responde:

— Só se a omelete estiver acompanhada de frutas vermelhas. Entende, certo? Pela paz mundial.

— Paz mundial? – Perguntou com curiosidade. Contraiu seus músculos e depois relaxou, tentando conter o entusiasmo que iminentemente viria a seguir.

— Aham – Brandie sorriu com tanta despretensão que sentiu como se ninguém estivesse por perto observando. – Eu tenho esse pensamento. O mundo seria um lugar melhor se as pessoas comessem mais frutas vermelhas ao invés de pão torrado com gorgonzola ou toucinho empapado em ovos.

Ele ficou estático por alguns segundos e a lançou um sorriso de desarmar enquanto assistia seus movimentos com olhos intensos sobre o braço que apoiava o queixo. Pensou nas palavras antes de abrir a boca, e como numa forma de compensar a ansiedade que ela colocara em seu rosto, Journey assentiu sem escândalo.

— Eu posso descartar as torradas imediatamente. Elas nunca gostaram de mim mesmo.

☠

As gotas de água escorriam pelo cabelo molhado de Chris. Terminou de amarrar os cadarços e deslizou para o corpo uma camiseta branca com os dizeres “Hungry All The Time”. Pegou a toalha de cima da cama e terminou de enxugar a cabeça enquanto fazia uma lista mental do que precisaria trazer do mercado. Saiu da edícula e foi até a cozinha da casa principal dar uma última checada dentro dos armários para ter certeza de que não se esqueceria de nada.

Trancou a porta da frente com cuidado para que seus pais não acordassem e correu até o carro sob a chuva. Os pingos engrossavam e se multiplicavam a cada passo seu, como um decreto propositalmente dirigido, empurrando um rato em direção à ratoeira. Enquanto se lavava sob o chuveiro, optou em ir até o Oxendale's Market. Ficava no oeste da cidade, um trajeto longo que não incomodava Chris devido ao lampejo da lembrança luxuosa da sessão de bebidas alcoólicas no final do sétimo corredor – um pensamento que tinha um efeito hipnótico quando vinha à mente. Abriu a porta do carro e entrou na expectativa, sentindo-se bem melhor nesta manhã do que em todos os dias após o acidente na pista Howclover.

Algumas nuvens escuras começavam a se acumular no céu, e a cor da copa das árvores ficava fosca à luz que lentamente modificava-se. Traços brancos de relâmpagos riscavam o céu acima e o som de algo crepitando – que Chris jurou ser do primeiro trovão da manhã – apontavam seu estranhamento. Não era tão comum em Saint Paul o dia começar com chuva e relâmpagos, resolvendo então ignorar o tempo na esperança de que até chegar ao Oxendale's Market a chuva estaria mais fina e prestes a dar lugar à luz do sol.

Sentiu o celular vibrando no bolso da calça. A roupa estava mais molhada do que achou e teve dificuldades de puxar o celular com o tecido húmido. Tentou secar o aparelho com a palma da mão e atendeu ao ver o rosto de Jake no visor.

— Alô? – Ouviu algum chiado do outro lado. Esperou. – Jake? Oi? – Deu a partida no carro e saiu da garagem. – Cara, eu não tô conseguindo te ouvir, estou saindo agora de casa. Espera um pouco que eu te ligo de volta.

Desligou rapidamente e encarou a tela escura. Foi golpeado novamente pela sensação de fraqueza que sentiu nos últimos dias, era como se aquela tela estivesse o encarando de volta. Espelhado numa realidade congelada, obscura, desconhecida e sem saída. Uma imensidão restrita a qual o devorou. As rodas do carro deslizaram lentamente para o lado, e o barulho que elas fizeram ao se encontrar com o meio-fio fez Chris voltar sua atenção à estrada.

— Merda! – Murmurou para si.

Esfregou a parte da frente do celular no banco ao lado a fim de secá-lo mais depressa. Tentou desbloquear novamente e nada. Tela preta. Sacudiu o aparelho no ar com preocupação. O carro dava a volta inteira pelo quarteirão antes de sair da vizinhança. Não havia nenhuma criança brincando na chuva, os animais estavam encolhidos em suas tocas e a água tangenciava pelo canto da rua, se retorcendo num redemoinho e escorrendo até os semicírculos dos bueiros.

O celular toca mais uma vez, porém dessa vez o rosto de Melissa aparece na tela. Antes que pudesse dizer qualquer coisa ao atender, ouviu Jake exasperado perguntar do outro lado:

— Chris! Onde você está? Para onde está indo?

— Hum... Jake? Eu tô saindo... Err... Estou perto do Parque Harmon.

Uma interferência é ouvida e Chris afasta o celular do ouvido, sussurrando algum xingamento.

— Cuidado... Chris... Aonde está indo? – Jake continuava.

— Vou no Oxendale's Market, lá perto do Parque Dodd. – O zumbido da interferência continuava oscilando. Sem saber se Jake conseguiu ouvi-lo, Chris repetiu mais duas vezes para ter certeza. Logo depois o telefone ficou abafado e não conseguiu ouvir mais nada. Ele o jogou no banco ao lado e continuou o trajeto, percebendo-se mais preocupado.

Circulou a praça com cautela, desacelerando quando via um quebra-molas no caminho ou quando um pequeno esquilo correu em direção à uma árvore. Viu a água da chuva inundando os canteiros e lembrou-se de quando ele estava com Jake e Levi anos atrás na véspera do feriado de São Patrício, o dia em que eles saíram de carro sem rumo. A antiga história descrevia três amigos correndo pela cidade à procura de uma festa e tomando cervejas, uma sequência de fotogramas da jovialidade incontrolável e intrínseca.

Levi e Chris dançavam em círculos enquanto batiam palmas para Jake, que sapateava sobre a caixa de areia do parque. Com um trevo de cartolina colado no boné, ele fazia uma dança improvisada tentando seguir, da melhor forma possível, o ritmo que aqueles sons podiam permitir. Terminaram as últimas latas de cerveja que tinham em mãos, sentados cada um num banco de plástico verde do balanço do parque. Cada balanço tinha quatro assentos e cada um era suspenso por uma corda de sisal, posicionados ao lado de um navio de oito metros feito de madeira e aço preso no campo de areia lateral junto com um cais falso. Levi estava se movimentando num vaivém rápido na ponta. Ao lado, Chris e Jake conversavam sobre a viagem que os dois irmãos fariam algumas semanas depois.

— Vou sentir falta disso. – Disse Chris, levantando sua lata vazia.

— Cara, não vai nem dar tempo disso. Vai passar assim. – Jake estala os dedos para ilustrar a passagem de tempo. – Vamos ficar umas duas semanas em Rhode Island. Nem mais, nem menos.

Eles bateram nas mãos uns dos outros antes de voltarem para o carro. Levi abraçou Jake e Chris pelas costas, passando os braços pelos ombros dos dois, quando ouviu uma música alta vindo de uma esquina próxima. A sugestão de ir até aquela festa parecia ótima no momento, antes de serem expulsos porque Jake vomitou quando chegou a sua vez de beber no tanque da cerveja enquanto dois outros homens o seguravam sobre um barril de cabeça para baixo.

— Eu devia ter tirado a gente de lá quando eu tive a chance. – Chris disse erguendo um dos braços de Jake sobre seus ombros. Levi estava do outro lado, puxando o irmão pelo outro braço. Ambos estavam cambaleando, talvez pelo álcool ou talvez pelo peso de Jake, no caminho de volta para o carro.

— Você devia ter se esforçado mais. – Brincou Levi, sem conseguir tirar um riso sem função do rosto. Seu irmão estava com os olhos semiabertos entre os dois guindastes e vez ou outra conseguia dar alguns passos para aliviá-los do volume.

Jake entrou na pilha de Levi e balbuciou algumas palavras, completamente embriagado.

— É, Chris! A gente contávamos com você para não acabaremos mortos.

Levi soltou uma gargalhada, agora com total propósito.

— Não entendi nada. – Respondeu Chris para Jake, mesmo sabendo que ele não o ouviria claramente ou se corrigiria em seguir. – Eu queria poder ser uma babá melhor, mas vocês poderiam ajudar também não sendo tão burros. Eu disse para ele não fazer isso e não deu nem quinze segundos o Jake tinha se soltado do apoio.

— Ah, relaxa. Vai ficar tudo bem. Estamos quase no carro. – Comentou Levi ainda com aquele riso involuntário no rosto, porque sabia que faltavam duas escadarias e três ruas para que chegassem aonde Chris havia estacionado.

— Seu irmão quase bateu a cara na quina da mesa.

— Bati não! – Resmungou Jake.

— É, ele não bateu. – Continuou Levi. – Sabe, Chris. Você e Melissa são tipo dois santos.

— Cala a boca, cara. Você fala tanta bosta quando bebe.

— Espera, é verdade. Vocês dois se complementam. – Pausa por um instante e ri consigo do que estava prestes a dizer, continuando com a voz arrastada de quem bebeu muito álcool. – Ela é tipo o sol, que ilumina o caminho. Muito brilhante, entendeu? É muito importante, é grande, te cega e te faz chorar às vezes. Mas só quando você fica olhando por muito tempo. Aí vem você! Você é a porra do quebra-molas, cara. Você alerta a gente. Você é um grande aviso chato e multicolor no meio do cassino. Mas é muito importante também.

— Cassino?

— Caminho! – Repete ele. – Não tá escutando, mano?

— Eu tô escutando. – Responde Jake.

— Você não, maninho.

— Eu entendi, Levi. Eu mesmo não conseguiria pensar numa metáfora melhor. – Disse Chris, tentando esconder um sorriso, mas seus olhos brilharam.

O cheiro da chuva chegou às narinas de Chris, penetrando em cada fresta do carro. Aquele eflúvio agradável de quando os pingos da chuva molham o cimento e alçam o odor de água, terra e plantas. Ele tossiu antes de perceber que estava ficando mais forte, tão forte que parecia que ele estava próximo do chão, com o rosto ensopado por aquela água, aquela terra, comendo cada grão do asfalto. Ele pisou um pouco mais no acelerador a fim de deixar aquela praça para trás e se livrar daquele aroma que se revelava cada vez mais iníquo.

☠

Fazia alguns poucos minutos que Joshua Burnell estava sentado no mezanino do Dogwood Coffee Bar. Tinha pegado a última mesa disponível daquele espaço quando Elijah Victor sugeriu que poderia ficar na fila por eles dois. A cafeteria estava sempre cheia, desde o horário do café da manhã até a hora da janta, logo não estranhou que a maioria das pessoas ali fosse mais velha e a maioria das pessoas mais jovens que ele conseguiu identificar era composta por mulheres. Porém, com a forte chuva soando no lado de fora, ele estranhou a presença de vários carrinhos de bebê por ali. Josh estava de costas para o restante das mesas, mas de frente para uma cadeira vazia que guardou para Elijah, a qual estava posicionada fronte a um grande espelho que cobria quase uma parede inteira. Assim, ele poderia ver toda a parte de cima do salão e ainda manter Elijah em vista na fila do caixa – caso ele precisasse de ajuda e quisesse chamá-lo.

Checou o relógio de seu celular e viu que passava das oito horas da manhã. Não havia muito tempo que tinha despertado. Levantou a cabeça do travesseiro com uma sensação de tranquilidade, a qual não esperava ter tão cedo. Os olhos diminuíram o inchaço, suas orelhas não estavam mais quentes e, de alguma forma, não sentia mais vontade de se esconder no canto mais escuro e apertado do seu armário. Checou o telefone e, sem surpresas, encontrou algumas mensagens de Jake. Leu todas, mas pensou em responder mais tarde e aceitou por mensagem o convite de Elijah para um café da manhã numa cafeteria próxima à academia que ambos frequentam.

Com as pernas um pouco bambas, ele cambaleou para dentro do chuveiro na intensão de que a água tirasse o que ainda lhe restava de preocupações. De fato, as pílulas de Elijah o ajudaram a dormir, mas não o fizeram deixar de pensar em Diana e em como aquela cama ficou maior e mais solitária. Firmou as mãos espalmadas no vidro quente do resguardo de duche e se deixou deslizar lentamente para baixo até que conseguisse sentar no pequenino banco laranja de plástico que Alane e Zach usavam para tomar banho. O Sr. e a Sra. Burnell acharam uma boa ideia manter aquele banco ali até que os filhos pequenos conseguissem ficar de pé sozinhos sob a água do chuveiro sem cair ou escorregar. O objeto deixava o boxe mais apertado para Josh, que, em outras circunstâncias, teria tirado e guardado ao lado da porta de correr, porém, naquela manhã, ele não se incomodou com isso.

Josh tapou o rosto com as mãos, deixando que a água se misturasse com as suas lágrimas e as levasse embora rapidamente. A corrente de pensamentos que carregava os acontecimentos recentes o assombrava, adotando um sentido diferente a cada vez que pensava a respeito. Era como um rosto fantasmagórico que se aproximava mais e mais, mostrando diferentes faces do seu medo, diferentes faces da verdade e da mentira, do real e do imaginário. Abriu bem os olhos e suas pálpebras foram flanqueadas por finas lâminas de água, porém não as afastou. Em vez disso, apenas tentou ver através delas, ali dentro daquele boxe, uma sombra cor-de-rosa e amarela borrada e vacilante. Ele encarou confuso, quase dizendo o nome da ex-namorada em voz alta, pensando nela experimentando aquele “vestido da primavera”, contudo, ele hesita. Esfrega os dedos pelo rosto, permitindo que o banho fizesse seu trabalho: catar tudo o que ele queria se desfazer, arrastar para longe e limpar cada canto do seu corpo.

Saiu revigorizado do banho, enrolou-se na toalha e andou com uma postura rígida até o seu quarto. Vestiu-se rapidamente com uma camiseta preta de manga longa, um colete cinza puffer de capuz, uma touca da mesma cor e jeans. Por força do hábito, amarrou a sua jaqueta verde na cintura. Sentiu-se ainda mais tranquilo do que quando acordou e talvez até um pouco mais normal – mas ele já não sabia exatamente o que era ser normal àquela altura. Cogitou ser o efeito da pílula ainda fazendo algum tipo de efeito em seu sistema e agradeceu por essa benção. Apanhou o guarda-chuva e foi caminhando até o Dogwood Coffee Bar ao mesmo tempo em que escutava uma playlist que Diana engendrou online, uma que ela tinha criado quando comentou com os amigos seu desejo de entrar para a academia. Ela nunca entrou.

If I had to choose between oxygen and you

It'd be a dead heat

'Cause there's something in your kiss turn me on

Like electricity, it hits me

Numa das mesas perto das janelas, uma adolescente baixou as mãos que seguravam o celular na frente do rosto e um homem lhe estendeu um copo de suco e uma rosquinha. A identificou como uma ex-aluna da escola de seu irmão. Ela deve ter se formado no ensino fundamental há um ou dois anos atrás. A menina fazia parte da turma do coral da escola, e seu irmão sempre comentava como ela era engajada em recrutar novos membros todo semestre. O homem que estava junto dela era seu pai. Reconheceu aquela barba grisalha e bem aparada assim que ele se sentou – uma figura bem participativa na Associação de Pais e sempre esteve presente nos jogos de futebol do filho mais velho. As outras mães o achavam muito atraente e despertava o interesse de outras pessoas também, como o de Diana – que sempre comentava sobre o seu charme. Sua esposa morreu há alguns anos, asfixiada na banheira de casa após um vazamento de gás. A família ficou desolada e ele nunca mais foi visto com outra mulher. Agora ele está usando uma camisa xadrez de flanela com os primeiros botões desabotoados, sorrindo para a filha e concordando com seja lá o que ela estivesse dizendo.

— Aqui! – Elijah colocou a bandeja desastradamente sobre a mesa e empurrou uma caneca de Peppermint Matcha acompanhada de um muffin de maçã com canela para Josh. – O cara que me atendeu errou o pedido duas vezes da senhora que estava na minha frente. Às vezes dá vontade de entrar lá e preparar eu mesmo.

Josh bebericou um pouco do chá e respondeu da forma mais calma que conseguiu.

— Tudo bem, não tô com pressa.

Diferente de quando ele chegou, não estava mais sentado completamente ereto e a sua cabeça estava inclinada para a esquerda. Elijah percebeu que ele o olhava por cima do ombro, encarando o espelho na parede oposta. Procurou no mezanino alguém familiar ou algo que pudesse chamar a atenção e arriscou um palpite.

— Ela é linda mesmo, mas é muito nova pra você.

— O que? – A atenção de Josh se voltou para Elijah.

— Aquela mina ali. – Apontou com o queixo para a adolescente ao lado do pai de camisa xadrez.

— Hum... Não. Não é isso. É o pai dela.

— O pai dela?! – Elijah deixa cair algumas migalhas de seu croissant integral pelos cantos da boca. Ele limpa com as costas da mão e dá um gole na sua xícara de café tomando tempo para analisar melhor a cena. – Ele é bonitão também, mas já é meio velho pra você.

Josh balança a cabeça, se recusando a esboçar qualquer reação positiva que possa servir de resposta àquela piada inconveniente. Ele belisca a massa do muffin, puxando pedacinhos pequenos para jogar na boca enquanto falava.

— Olha a serenidade dele, Eli. Esse cara perdeu a esposa e agora está aí todo feliz, alegre. Não parece como se nada tivesse acontecido? Não tem nada nele que expresse perda, dor ou saudade. Tem algum tipo de paz ali que é tão viva e... E... É palpável! Sei lá, parece que o mundo mudou de alguma forma e teve que se adaptar a essa nova realidade.

Elijah olhou de novo para o homem na outra mesa e voltou a encarar Josh.

— É sério que você vê tudo isso? Ele só tá comendo um brownie.

— Você não está levando isso a sério, Eli.

— Tá ok, me desculpa. Mas ele perdeu a esposa tem o que? Uns anos já. Você perdeu a Diana tem nem uma semana. Não é a mesma coisa. Você ainda está num processo de luto e ele já deve ter passado por isso há muito tempo. E ainda tem os filhos dele. Ele precisou ser forte para os filhos. Essas histórias são sempre muito pesadas e podem arruinar uma pessoa.

Engoliu mais um pedaço do muffin, incapaz de raciocinar. Gostaria de ir até lá, sentar-se ao lado do homem e pedir a receita da felicidade, ou alguma coisa que chegasse perto disso. Então, se viu naquele mesmo lugar; com a barba grisalha, sozinho na mesa de uma cafeteria, enquanto outros jovens olhavam para ele e pensavam no que ele já teria vivido até aquele momento. Será que só sorriria novamente quando estivesse velho o suficiente para esquecer-se do passado?

— É. Talvez tenha razão.

It's not a matter of life and death

But if I had to choose between love and breath

I'd sacrifice the sunrise, I wouldn't have to think twice

Forever's a hell of a long time without you

A sineta sobre a porta da entrada soou novamente e uma trupe de atores de peças infantis entrou fazendo algazarra. Sem qualquer delicadeza, um rapaz vestido de Sr. Cabeça de Batata em uma versão mais preguiçosa esbarrou em alguns clientes enquanto serpenteava as mesas com a fantasia gigante. Uma moça sem fantasia e um cara com a cueca por cima de uma calça de moletom foram para a fila enquanto mais quatro pessoas seguiram o Sr. Cabeça de Batata. Subiram as escadas do mezanino depois de verificarem que todas as mesas do andar inferior estavam ocupadas e Josh se preparou para quando eles fossem passar, segurando a sua caneca bem firme.

— Comam bem antes do ensaio, pessoal!

Uma mulher com trajes espalhafatosos foi a última a cruzar aquele espaço. Seus seios fartos estavam espremidos numa blusa apertada de babados com estampa de bolinhas brancas. A saia rodada girava sobre as pantalonas e várias camadas de anáguas com armação de arame. A roupa era toda adornada com pregas, bordados, rendas, paetês e talvez até um pouco de glíter. Algumas fitas de cetim pendiam de algumas partes da roupa e do bico de uma sombrinha intencionalmente manchada de vermelho, como se fossem gotas de sangue, que ela segurava.

Uma parte do arame do vestido esbarrou no braço de Elijah, que quase deixou o café quente cair no colo. Ele a olha espantado de cima a baixo e confere cada parte do rosto extremamente maquiado dela. Todo aquele conjunto parecia estampar um retrato do que seria uma cortesã francesa do século dezesseis com a graça de adereços modernos.

— Cuidado!

— Me desculpe, querido. – Responde ela educadamente, mas com uma voz polida demais para ser levada a sério.

O cabelo da mulher está preso por um laço de veludo vinho, o qual deixa os cachos loiros penderem por trás dos ombros. A maquiagem se estende do couro cabeludo até o pescoço, como se quisesse deixar a pele branca ainda mais pálida. O batom foi aplicado de modo que deixasse os seus lábios maiores e mais carnudos, numa cor que combinasse com as mãos perfeitamente manicuradas. Sua aparência parece de uma mulher mais velha, mas a quantidade de maquiagem deixava difícil dizer com plena certeza.

Josh quase riu de como Elijah a encarava, como se ele estivesse vendo um filme de terror pela primeira vez. Ou um vídeo na internet sobre um carro que desaparece entre as árvores numa trilha pelas montanhas, surpreendendo o telespectador com uma figura monstruosa pulando na tela. O rapaz olhou para o restante dos amigos dela e depois voltou a fitá-la.

— E você era para ser o que exatamente?

— Oras, meu querido. – Ela deu um giro e fez um movimento com a sombrinha, como se fosse um raio a atingindo por cima, então empunhou o objeto sobre o ombro e marchou pomposamente como Groucho Marx no mais glorioso de seus momentos. Tanto sua fala quanto a linguagem corporal tinham um tom teatral excêntrico demais. – Sou Lady Murphy.

— Foi mal, senhora. Não sei quem é essa.

Ela soltou uma risada e esclareceu sem muitas explicações claras.

— Lei de Murphy, meu querido. Lady Murphy é a representação física da catástrofe mística e incompreendida pelos seres humanos. Sou a punição divina, sou o apenas e toda uma coincidência mal interpretada, mal apreciada. A criação humana para responder as dúvidas, cujas respostas criam mais dúvidas.

Mais uma vez ela girou, e então fez uma despedida dramática com um texto decorado. E se ela tivesse demorado mais alguns segundos perto da mesa, um parceiro dela teria se aproximado e compartilharia também uma amostra de seu personagem. Os dois amigos suspiraram aliviados por isso não ter acontecido, apesar de Elijah ter ficado um pouco curioso com como o texto do homem vestido de Princess Carolyn poderia ser.

Josh se pegou pensativo. Os giros daquela figura, as manchas que sangravam de sua caracterização, o feitiço que as suas palavras rogavam, o desastre que ela levava para onde quer que fosse... Lembrou-se de Chris e como ele falava sobre a Lei de Murphy quando tudo dava errado. Seu amigo tentou diminuir a frequência com que falava isso durante o tempo, depois que virou motivo de objeção entre o seu grupo de amigos. Um ato de reprovação coletiva ao pessimismo que esse bordão de Chris trazia.

— E você? – Disse Elijah quando percebeu que Josh havia abstraído novamente.

Balançou a cabeça devagar, tentando selecionar algumas palavras para responder uma pergunta simples, porém tão ampla e tão complicada. E eu? Eu o que? O mesmo de ontem, o mesmo de amanhã, uma versão piorada de quando tudo era mais fácil, quando eu era uma criança, assim como aquele Sr. Cabeça de Batata.

— Bem. – Josh contraiu os lábios, um pouco sem graça. – Na verdade, Eli, estou bem melhor. Sabe aquelas pílulas que você me deu? Me ajudaram bastante ontem a noite. Você me ajudou de verdade e eu queria te agradecer por isso. De verdade. Por acaso, você não teria como conseguir mais daquilo?

— Como é? – Seu tom de voz mistura confusão e preocupação. – Eu te dei um frasco cheio ontem. Eu falei pra você tomar uma só. Uma antes de dormir. Como já acabou? Eu fico feliz que tenha te ajudado, mas você não pode ser tão idiota de tomar tudo ao mesmo tempo!

— Não estava tão cheio assim. E eu tomei apenas uma, que me deixou bem mais tranquilo. Eu juro. Mas estou perguntando para quando terminar... Se eu posso contar com você para ter mais.

☠

Demorou mais ou menos dois minutos e meio para que Chris atravessasse a Allen Street por completo, e sete minutos no total até chegar à entrada da Freeway Auto Body – se aproximando cada vez mais da subida para a via expressa. Alguns mecânicos dali bebericavam sucos de caixinha sob um teto rachado enquanto analisavam pneus e motores erguidos por correntes. Nada chamou a sua atenção, até sentir um solavanco na parte direita frontal do carro. Ele foi jogado bruscamente para frente, batendo o peito no volante.

Arfou de dor e estacionou o carro por alguns instantes antes de perceber que tinha passado em cima de um buraco imenso cheio de água. Chris puxou o cinto de segurança e o afivelou de maneira que a lingueta estivesse bem fixa junto ao seu corpo. Deu a partida novamente e continuou. Subiu o viaduto e seguiu em linha reta pela Avenida Marshall. Não havia nenhum outro carro na sua via, apenas alguns pássaros se segurando nos postes de luz e placas.

A chuva caía de modo não natural naquela manhã, acertando o teto e o capô do carro com tanta força que levava Chris a acreditar que aqueles sons na lataria poderiam ser igualados a um veículo à deriva, lentamente castigado por uma tempestade de pregos – um faz-de-conta que sobressaltou sua pulsação. Através das raias feitas pelas gotas contra as janelas, ele conseguia ver no lado direito um aclive de rocha e terra atrás de uma mureta maciça. No esquerdo, uma linha de concreto volumosa – que se elevava a uns quinze centímetros do solo – separando as duas vias com uma cerca alta de ferro e arame.

Os jorros de água chicoteavam o para-brisa cada vez com mais vivacidade, como os socos desesperados de um ser pedindo socorro, gritando por ajuda dentro de uma câmara de gás. Como um alerta. Como uma distração. Uma picape apareceu de surpresa no retrovisor direito, competindo o som da buzina alta com a chuva, fazendo Chris inclinar o volante para a esquerda enquanto o outro acelerava a toda velocidade. Seu corpo formigou quando ouviu o som do motor – roncava tão alto que parecia que iria explodir ao seu lado –, um mal-estar que o fez tentar esgueirar-se rente à divisória.

Completamente encharcada, a picape parecia uma visão aterradora quando passou ao lado de Chris – cortando a estrada disforme e barulhenta, idêntico a um espectro raivoso. Ela ganhava mais velocidade, pronta para chegar ao seu destino. O motorista abriu parcialmente a sua janela, esticando o braço para fora, e, no momento mais cínico que Chris pôde testemunhar naquele último mês, ele fez um gesto parecido com um aceno. A lembrança de uma vez ter se desorientado após vivenciar uma cena similar despertou com aquele mesmo modo desgracioso de cumprimentar que Jake fez quando chegou ao aeroporto. Chris estava lá para recebê-lo, assim como todos os seus amigos e os pais de Jake. Ele estava sozinho, com os olhos roxos, o rosto inchado, com uma mala de mão a mais, com algumas ataduras nos pulsos, mancando e com um segredo preso nos lábios. Tentou levantar a mão num gesto pacífico, mas o aceno logo murchou quando todos perceberam a ausência de Levi. Num minuto, Chris estava de braços dados com Melissa, ambos ansiosos para encerrar aquela espera, então ele se viu correndo de um lado para o outro tentando encontrar ajuda para a Sra. Townsend, que havia desmaiado nos braços de Jake.

Conseguia ver traços do braço do homem sacudindo para fora da janela segurando alguma coisa. Um objeto que esvoaçava ao vento, como labaredas de uma fogueira. Projetou-se para frente e percebeu que se tratava de um pedaço de papel. O motorista o soltou, deixando que revoasse até acertar o para-brisa de Chris e, resfolegante, ele se inclinou mais um pouco até conseguir ler o que nele estava escrito. O rapaz estava imóvel, a atenção focada naquele ponto, um recorte retangular e completamente vermelho, estampando a foto de um magret de pato com molho de laranja e, ao lado da refeição, uma mão, parecida com a luva do Mickey Mouse, estava com o dedo indicador apontando para cima, onde se lia “La Sierra” – um restaurante pequeno, porém com a reputação de ser extraordinariamente agradável e acolhedor.

— Que? – Disse involuntariamente. Os pneus se aproximam mais da divisória de concreto.

A picape estava sumindo pouco a pouco mais à frente, jogando água para ambos os lados onde passava. A borracha das palhetas afastou a água e puxou aquele pedaço de papel para algum lugar longe da vista de Chris. Ouviu, então, um som estrídulo vindo de dentro do carro, e percebeu ser o seu celular tocando só depois de vê-lo clarear no assento ao lado. Aquele som não era familiar e algo nele, talvez por causa da maneira estridente que soava, fez com que Chris hesitasse em pegá-lo. Sabia que era Jake, podia sentir. Esticou a mão rapidamente e atendeu.

— Oi, Jake.

Ouviu um suspiro alto do outro lado, então, com a voz aliviada, Jake respondeu de imediato:

— Que bom que você está bem. Estávamos preocupados.

— Como você sabe...? – Ele se interrompeu.

Chris imediatamente levou os olhos para o retrovisor interno e tentou enxergar o que havia atrás. Um Palio cinza antigo estava piscando os faróis há mais ou menos dez metros e o reconheceu como sendo o carro de Jake, o que há muito não tirava da garagem. Isso o preocupou mais do que as tristes lembranças que o Harmon Park poderia trazer, mais do que o buraco encharcado na frente da Freeway Auto Body, mais do que a picape-fantasma, mais do que aquele panfleto curioso, e, como num jogo de pinos o qual seu adversário conseguiu derrubar cada uma de suas peças, Chris se viu de mãos atadas frente ao seu medo.

— O que vocês estão fazendo? Por que vieram atrás de mim?

— A gente tá junto, cara. Eu nunca vou te deixar na mão. A gente veio atrás de você porque a gente se preocupa... Até demais. – Disse Jake com a voz um pouco embargada, como se ainda estivesse segurando as lágrimas que Chris sabia que seu amigo não se permitiria chorar em sua frente desde que Adam e seus seguranças os expulsaram da pista Howclover. E ele queria dizer mais, queria continuar falando e falando até que lhe esgotasse todo o vocabulário na tentativa de transmitir o que verdadeiramente sentia. Mas Chris sentia, por outro lado, entre uma pausa e outra, certo tom de tumulto na voz de Jake, embora as suas palavras não dissessem tanto quanto o olhar expressivo que ele sabia que Jake tinha.

O carro de Chris deslizou mais um pouco para a esquerda, chegando mais perto da divisão de concreto e da cerca. Quando estava prestes a pisar no freio, Chris acertou em cheio um quebra-molas escondido entre uma poça larga e um bueiro entupido ao mesmo tempo em que a parte dianteira esquerda colidiu com a massa de concreto. O som de um dos pneus estourando foi seco e assustador, como se alguém tivesse disparado um tiro de revolver tão perto de seu ouvido que o mundo, após isso, ficaria mudo por alguns minutos. O carro invadiu a linha de concreto com violência, entortando um pouco a cerca. As mãos de Chris lutaram com o volante, mas milhões de pedacinhos de vidro se despedaçaram em direção ao seu rosto, enquanto um barulho afiado raspava a lataria na medida em que o para-choque subia pelo arame da cerca.

O celular escapou de sua mão na mesma hora. Incapaz de se segurar em algo, firmou as mãos no próprio assento e tentou manter-se imóvel. O carro estremeceu e sacudiu, e um arranhado metálico fazia um som surdo na parte de baixo, parecendo que ele tinha perdido os pneus e agora se arrastava apenas sobre as rodas de ferro. Vários chiados e rangidos vieram da cerca, então o carro inclinou-se para a direção do motorista, oscilando.

O pilar que sustentava uma imensa placa era comprido e firme para suportar a chuva, estancado entre o início e o fim de cada sessão de vinte metros de cerca, ele entortou quando o carro de Chris irrompeu a divisória. O carro deteve-se no concreto de maneira transversal, dando força o suficiente para que os arames da cerca empurrassem o veículo de volta para a via e, assim, caindo de ponta cabeça. Deu mais um giro pelo asfalto, se arrastando em sons estridentes e provocando ondulações nas grandes poças do local.

— • —

Jake e Melissa assistiram tudo em câmera lenta. Uma cena que não conseguiram prever. Os olhos atentos, não na estrada, mas naquela situação que aconteceu de maneira inesperada. Sentindo-se absolutamente impotentes, os dois reagiram inconscientemente, com Melissa dando um grito profundo que poderia ser muito bem confundido com o sample de uma música de Heavy Metal, e Jake freando bruscamente o seu Palio. Os olhos deles se encontram e, como num ato muito bem ensaiado, os dois abriram as portas ao mesmo tempo e correram.

A chuva estava mais forte que antes e não havia sinal de que ela pretendesse cessar. Jake não conseguia ver Melissa claramente, como se a água estivesse engolindo cada um deles. Azafamaram pela via, se aproximando do veículo, que agora parecia uma tartaruga de cabeça para baixo. Melissa se agachou para tentar olhar pela janela do banco do passageiro e, somente assim, conseguiu ouvir, entre alguns dentes de vidro ainda presos nas extremidades da janela, Chris gritando por socorro.

— Jake, aqui!

Um grande ferimento estava aberto na têmpora esquerda de Chris, de onde saía muito sangue. Ele estava com o torso jogado sobre o teto do avesso, enredado estranhamente no cinto de segurança e com sangue pingando do queixo, vindo de algum lugar perto do quadril que escorria até o pescoço. Jake apareceu ao lado de Melissa e ambos encararam o amigo.

— Chris! A gente tá aqui. Você tá bem? – Perguntou Jake, a fim de mantê-lo calmo.

— Tô ótimo, cacete. – Respondeu entredentes, tentando suportar a dor que irradiava da perna. Ele tentou olhar, mas ela estava escondida entre um pedaço de ferro amassado e uma peça de plástico. Tentou puxar e sentiu o sangue que saía dos seus ouvidos latejar. Rosnou como um cão selvagem, controlando aquela dor como podia, e fez força para puxar novamente.

— Meu Deus, Chris! – Melissa estava aflita. O som da chuva se misturando com os gritos que vinham de dentro do carro lhe causavam arrepios na espinha. Ela enfiou o braço pelo buraco da janela, tomando cuidado com os bicos dos cacos ainda presos, alcançou a maçaneta e abriu a porta. Parte dela roçou no chão, dificultando. Jake a ajudou e eles conseguiram ter mais acesso.

— Consegue sair? – Pergunta Jake.

— Não consigo, gente. – Chris entra em desespero. – Eu tô preso aqui, nessa bosta. Não consigo me mexer. E a minha perna tá doendo pra um inferno! – Ele dá socos em tudo o que seus punhos conseguem alcançar. Estava com raiva, com medo, preso, ferido e prestes a desmoronar. O vento frio entrou com mais potência no carro, levantando o cabelo de Melissa e soprando no rosto de Chris.

Ele se segurou no volante, que parecia a única coisa ainda inteira ali, e com o máximo de força que conseguiu tirar de si, disse com os olhos cheios de água e num tom controladamente sereno – o qual apenas ele conseguia fazer quando precisava acalmar algum de seus amigos ou alguém precisava de seu apoio:

— Eu não quero morrer.

Jake ouviu um rangido agudo vindo da parte de trás do carro, e quando levantou a cabeça, notou o pilar da placa que o carro tinha atingido. Estava retorcido e amassado, lentamente se inclinando em direção ao carro – assim como os caules das peônias que se dobram sobre o gramado. Interpretou uma sensação de perigo crescente como um sinal de precaução, sensação essa que gritava para Jake correr dali e que aquele cenário estava prestes a virar uma catástrofe a qualquer momento.

— Você não vai morrer! Eu vou te tirar daí.

— Vamos ligar para a emergência. – Grita Melissa, ajoelhada numa poça e inteiramente ensopada. – Meu celular ficou no carro.

— Não vão chegar a tempo.

Então, Jake faz com a porta traseira o mesmo que ele e Melissa fizeram anteriormente com a porta do passageiro e entra por aquela entrada. Ele se agacha e rasteja pelos cacos de vidro na parte de trás do carro até conseguir colocar a mão ao redor do pescoço em Chris. Os dois trocam olhares de pavor, compartilhando o mesmo medo.

— Não faz isso, Jake. Sai daqui, fica longe. Se... Se tudo isso for mesmo verdade, eu vou morrer. Sou eu. A morte está atrás de mim agora, não é? Eu vou mo-morrer, Jake. Vocês precisam dar o fora daqui, precisam correr. – Diz Chris de modo exasperado, se atropelando em palavras e gaguejando um pouco.

— Não, isso não vai acontecer. A gente vai sair daqui.

Melissa estava imóvel sob a chuva, acompanhando com os olhos cada movimento do namorado. Ele desafivelou o cinto e Chris tombou por completo no teto, apenas com uma perna presa acima. Ela engatinhou para dentro da entrada do passageiro e se juntou aos dois, ajudando a desembaraçar a lingueta do pescoço e braços de Chris.

— Puxa ele, Mel. Vou tentar chegar até ali. – Jake apontou para a lataria amassada ao redor do joelho de Christopher.

O vento rufou, agora mais forte, fazendo barulho e direcionando os jatos da chuva. A água começou a entrar no veículo, molhando as costas de Chris e trazendo um pouco de terra para dentro. Melissa agarrou o amigo por baixo dos braços e o rebocou o máximo que o tamanho do corpo dele permitia retesar. Ela ficou completamente para fora do carro e Chris estava deitado com os ombros no asfalto, as mãos segurando a abertura da porta e com a cabeça apoiada nas pernas dobradas dela. Eles viram Jake se aproximar e estender os dedos para a perna esticada de Chris.

— Vai Jake! – Melissa grita, sentindo o vento contra o rosto e fazendo o pilar da placa atrás do carro ranger mais ao ponto de torcer. O pilar envergou-se em direção ao carro e acertou a extremidade da cerca quebrada, parando num ângulo torto, bem acima de Melissa e Chris.

O impacto do pilar com a cerca fez um dos pregos de suporte romper e a tabuleta girar ao redor de apenas um eixo. Melissa e Chris levaram um susto quando o pilar parou sobre a cabeça deles, e ambos encaram, a uns dois metros acima, aquela chapa de metal girando com a força do vento. Assemelhava-se a uma asa solitária de um cata-vento, porém quase com a intensidade de uma hélice de avião. Eles perceberam que a única coisa que segurava a tabuleta era um fulcro de metal análogo a um prego.

— Ai, meu Deus! – Chris gritou junto com Melissa. Os dois levantaram as mãos num movimento instintivo, protegendo seus rostos. A chuva ia afinando e lentamente diminuindo, dando lugar aos sopros do vento. Membranas de água atingiam os olhos de Chris, que cerrava os pulsos no chão de agonia.

Jake utilizou as duas mãos para quebrar uma parte da peça de plástico. O sangue que escorria dos cortes nas mãos, fazia o objeto escorregar sempre que ele tentava puxar. Deu socos no restante da peça – que julgou ser a metade de baixo do suporte do volante – até que se despedaçasse. Ouviu Chris gritar contra a chuva enquanto a sua perna livre estremecia com a dor.

— Tá quase! – Falou assim que viu uma solução arriscada, mas sem relutância de tentar. Atirou socos contra aquela parte, até deixá-la cheia de rachaduras, dando, então, para enfiar os dedos nas frestas, quebrar e puxar os pedaços para, enfim, conseguir ver o tênis de Chris sendo esmagado perto do pedal. Tinha espaço o suficiente para conseguir enfiar a mão e arrancá-lo. Parecia simples, como tirar um coelho da cartola, como mergulhar a mão num lago negro sem saber o que tem por baixo dele. Só os jogadores conseguem sobreviver.

A tabuleta dava giros ao redor do eixo enquanto o vento a acertava, desatarraxando o fulcro pouco a pouco, abatendo-se sobre o torso exposto de Chris. A placa tinha uma forma retangular e fina, e seu material de ferro fazia com as bordas se equiparassem a lâminas.

Jake se inclinou e agarrou o tornozelo de Christopher com força para que não houvesse chances de falhar, não podia deixar que seus dedos se soltassem. E sem aviso prévio ou qualquer indicação de seu próximo passo, ele puxou com veemência, libertando a perna de seu amigo. Chris gritou de volta como resposta, brandindo as mãos para cima. O sangue manchava toda a roupa e Jake o sentiu vertendo quente pelas palmas até os pulsos.

— Vai, Mel! Tira ele!

Melissa o segurou novamente por trás, com as mãos enlaçadas nas axilas de Chris como um guincho. O vento batia contra o pilar caído, o forçando sobre a cerca, tão forte e tão vivo, entrando em cada um dos poros do corpo de Melissa e Chris, enchendo as suas gargantas de ar, empestado com o cheiro de terra e lama. A tabuleta girava mais e mais e mais. O fulcro rangia a cada volta que a placa dava, pronto para irromper.

Os arames do cercado entortaram um pouco, minguando Chris de terror. Seus olhos saltaram. A tabuleta com o nome das próximas saídas daquela via estava mais próxima, logo acima dele. Melissa fez força e conseguiu deixar todo o torso de Chris para fora do carro. Só precisava de mais um puxão para ficar completamente fora do alcance daquela placa quando o suporte desabar. A cerca finalmente cedeu, deixando com que o pilar caísse por completo sobre o carro. O fulcro rompeu com o impacto, lançando a tabuleta para cima. Ela rodopiou no alto duas vezes, dando voltas no ar, e despencou com força. Chris pôde sentir seus batimentos cardíacos atrás dos olhos de tão intensos, e foi hipnotizado por aquela figura retangular cortando os ares. Uma cena que ele não conseguiria confrontar, como se estivesse assistindo atrás do olho mágico de uma porta – sem chances de interferir. Ele, então, só percebe que estava prendendo a respiração quando sentiu um puxão brusco por trás do corpo, o arrastando para longe do carro, soltou, por fim, uma arfada de desespero quando a tabuleta acertou o chão, onde ele estava há segundos atrás.

O som da ponta de ferro da placa se chocando com o asfalto assustou-os, mas assim que viram a tabuleta resvalando no chão e sendo coberta pela água da chuva, Chris e Melissa suspiraram aliviados. Jake apareceu saindo da porta traseira do carro, os encarando com um semblante que expressava algum grau de felicidade. Ele correu até os dois e se certificou de que ambos não estavam muito mais machucados. Chris, então, sussurrou para Jake e Melissa:

— Obrigado. Muito obrigado!

☠

Aquele já era o terceiro pedaço que Brandie pegava da omelete de legumes que Journey havia preparado. Nas duas primeiras vezes, ela havia mordido a parte interna do lábio a fim de reprimir um sorriso de satisfação, mas agora ela esquecera e o rapaz a encarava de forma que ela não poderia mais voltar atrás. Brandie abriu os olhos e percebeu seu sorriso malicioso. Soube muito antes daquela mordida que se desse ao Journey o que ele queria, ela se tornaria mais que uma amante de uma só noite ou o seu alvo número um.

Ela estava sentada numa banqueta alta de madeira atrás de um balcão de pallet, enquanto ele mexia a aveia na panela do outro lado. Journey havia jogado a franja para trás, mas os movimentos giratórios de seu braço fazia com que alguns fios caíssem diante de seus olhos novamente. Os olhos que a observavam sem qualquer recato, provavelmente esperando algum comentário, mas tudo o que ela via era a sua sensualidade nada discreta. Talvez seja porque ele esteja usando uma camiseta amarela escura e ela nunca o vira antes com alguma roupa em tom quente – o que, agora, ela percebe, torna o verde azulado dos seus olhos mais intenso.

— Não vai dizer?

Ela desvia o olhar dele para o seu próprio pé. Ainda não tinha encontrado os seus sapatos e precisaria fazer isso logo – apenas para o caso de precisar correr para longe dali. O mantra em sua mente era branco e preto enquanto sentia o olhar dele, nada de tons de cinza. Ou branco, ou preto. Mas isso tudo era apenas para conhecer os segredos de convicção própria de Journey, resguardando a si mesma de que essa investigação possa levar a uma confusão mental.

— O que?

— O que achou da omelete.

— E importa? Você já disse que as pessoas adoram. A. Sua. Omelete. – Ela enfatiza, apontando o garfo para ele enquanto faz pausas entre as palavras. Não teve a intensão de soar entusiasmada, pelo contrário, tentou falar do modo mais descontraído possível, mas a solenidade explícita o fez abaixar o tom.

— Importa. Você não disse nada.

O rosto de Brandie ficou vermelho, algo que ela não conseguiu impedir.

A chuva do lado de fora diminuía aos poucos, certa de que sua missão na cidade havia sido cumprida e agora era hora de partir. Algumas raias formadas pelas gotas de água ainda deslizavam pelo vidro das janelas conforme o sol da manhã voltava a aparecer. E foi no primeiro brilho de luz solar atravessando a sala de Journey, que Brandie admitiu para si mesma que estava gostando da companhia do rapaz, e não apenas delongando o tempo antes de ter que voltar para casa.

Por mais que tentasse, Brandie não conseguia enxergar as verdadeiras intenções de Journey, e cada vez ficava mais claro que não seria capaz de entendê-lo. Pelo menos, não naquele jantar. Não naquela cama. Não naquele café matinal cheio de charme. E não naquela manhã. Por muitos momentos, durante a noite passada, ela achou que estivesse quase conseguindo, bastava deixá-lo falar e falar, até que algo fosse contradito, mas o efeito, talvez, tivesse sido o completo oposto. Não achou que teve sucesso, então decidiu ver o que poderia descobrir ao tentar ler as suas expressões sutis, porém a única coisa que elas diziam era que o maneirismo delicado de Journey desejava a atenção dela. E foda-se, ela deu.

Grande parte dos homens ansiava pela admiração e atenção de uma mulher, e com Journey não era diferente. A questão na qual a mente de Brandie estagnou era que alguns homens fariam o que fosse necessário para que isso acontecesse, qualquer coisa, e Journey sabia perfeitamente, Brandie imaginou, que ela não confiava nele. Talvez, apenas talvez, as coisas possam mudar de figura, e, num ato espontâneo, ela resolveu distribuir as suas cartas sobre a sua mesa. Se ela fosse honesta, ele também seria – ou assim acreditava.

— Vai querer aveia também? – Disse ele, abrindo o armário sobre a pia e descendo duas tigelas até o balcão.

— Está muito boa. Excelente, pra falar a verdade.

Ele pareceu confuso.

— O que?

— A omelete. Eu não como muito omelete de legumes, mas se eu comesse, você passaria todas as outras para trás. – Revelou Brandie, dando mais uma garfada. – E sim, vou querer também. Com muita canela, por favor.

Ele sorriu de modo significativo, refletindo em seus olhos o ânimo por algum tipo de conquista. E não disfarçou. Na verdade, não escondeu nada. Ele se aproximou mais dela, até que apenas o balcão de pallet estivesse entre eles e mais nenhum espaço. Journey colocou uma tigela com aveia ao lado do prato de omelete dela, junto com uma embalagem de canela em pó.

— Aqui está, senhorita. Aproveite. – Falou ele, tentando resgatar o tratamento cerimonioso de dois estranhos, apenas para expressar em voz alta e de forma clara que isso já soava estranho para eles. Apesar do pouco tempo que passaram juntos, aquela frase demonstrava ironicamente que a cordialidade entre os dois estava se dissolvendo aos poucos.

Ele posiciona uma vasilha com frutas ao lado dos pratos dela, alinhado numa fila, como quem oferecesse um convite à liberdade. Está tudo disposto ali na sua frente, além de talheres e guardanapos, então, tomando a frente, ela sacou uma faca e laminou uma banana, algumas cerejas, quatro morangos e um punhado de mirtilos e amoras. Misturou os pedaços da banana com a aveia e a canela, e as frutas vermelhas ela distribuiu entre o seu prato de omelete e o dele.

— É uma forma curiosa de comer omelete.

— Tem acontecido muita coisa curiosa ultimamente. Tipo ontem, você ficou estranho e mudou de assunto rápido quando eu falei sobre sinceridade.

— Como assim?

Ela pende a cabeça para o lado e exibe uma expressão acusadora, esperando que ele dissesse alguma coisa para contornar aquela insinuação propositalmente calculada, mas Journey aguardou até que ela continuasse.

— Você não está sendo sincero comigo. Desde o início, Journey. – Disse ela, numa inflexão profunda e grave, contrastando com a sua personalidade inofensiva. No entanto, com verdadeira intenção de não soar agressiva, mas impôs a voz de maneira que exigisse um pouco de honestidade de volta. – E age como se eu não soubesse disso.

Assim que ela terminou, Journey sentiu-se indefeso. Ela lembrou-lhe que ambos estavam, desde sempre, em lados opostos, e que, naquele momento, era ele o intruso. Então, assumiu a sua posição desconfortável diante da acusação, porém, ao mesmo tempo, assumiu-se disposto a respondê-la.

— Não, eu estou sendo totalmente sincero com você. Eu gostei mesmo de ontem a noite e queria te conhecer melhor. Eu sei que você não confia em mim por causa da Sondra, mas eu não fui atrás de você por causa disso. Pra dizer a verdade, eu nem tenho nada a ver com isso. Todo esse lance com o Jake e o acidente da pista Howclover é uma história dela e não minha.

— Como vou saber que está falando a verdade? – Ela deixa a aveia com frutas e canela de lado, cruzando os braços de forma desconfiada, mas não como um ato passivo, e sim como um estímulo a levá-lo a se defender, consequentemente, continuar falando.

Journey hesita, então balança a cabeça em descrença de si mesmo. Sabia que só havia uma resposta sincera possível e foi a que deu à ela:

— Não tem como você saber. Você tem apenas a minha palavra.

Ela relaxa na banqueta e mexe distraidamente na colher da tigela da aveia. Encontrou-se numa situação em que teria que fazer uma escolha. Poderia continuar com ele, conversando e tentando descobrir algo, ciente da possibilidade de que tudo poderia ser mentira, ou simplesmente levantar-se, pegar as suas coisas e sair pela porta. Pela primeira vez, ao encará-lo de volta, prestes a tomar uma decisão, ela vê uma expressão de preocupação em seu rosto.

— Ok. O que você acha, então, da gente trocar algumas ideias?

Ele contraiu as sobrancelhas surpreso.

— Não entendi.

— Você disse que queria me conhecer melhor. E eu quero conhecer você melhor também. Então, você responde uma pergunta e eu respondo outra. Como num jogo, mas tem que ser honesto nas respostas. Sempre.

Ele deu uma risada tranquila e concordou imediatamente.

— Parece divertido. Ok, você primeiro.

— Você disse que a história da Sondra não tem nada a ver com você, mas vocês não trabalham juntos?

— Dividimos o mesmo escritório... Que não é bem um escritório. É só um espaço pequeno entulhado de mesas, papéis, livros e essas coisas no apartamento dela. Nada muito grandioso ou interessante pra comentar.

Não quer ver anúncios?

Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.

Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!

Ela balança a cabeça, satisfeita.

— Você tem namorado, ou está num rolo com alguma outra pessoa?

— Não e não. – Diz ela, sem pensar muito.

— Zero nas duas. E quanto ao Christopher? Vocês parecem ser bem próximos.

— Já está roubando, essa é a sua segunda pergunta E seria muito deselegante eu estar aqui agora com você se eu estivesse namorando. Sobre o Chris, somos apenas amigos. Achou isso só por que nos espiou no funeral da Diana?

— Isso foi uma pergunta.

— Droga!

— Sim, eu estava lá desde o começo. E não, eu não estava espiando. A gente foi até lá porque a Sondra quis conversar com o Jake. O Chris parece gostar muito de você.

— Está falando isso só porque ele te deu um fora no cemitério. É só o jeito dele, o Chris é assim com todo mundo que ele gosta. E ele é apaixonado por outra garota. – A imagem do amigo desabafando aos prantos com ela, Jake, Melissa e Sierra, depois de seu término, veio à mente. Chris ficara desolado quando contou que não correspondeu aos sentimentos de Mindy quando ela se declarou por medo e acabou a perdendo. – Como soube sobre o Jake e a visão dele?

— Sondra tem amigos especiais em todo lugar.

— O que isso quer dizer?

Journey abre a boca, prestes a responder, mas então, subitamente, contrai os lábios e sela as próprias palavras. Ele abriu um sorriso delicado, como o qual ele fez quando Brandie estava despertando, e quebrou a austeridade que afetou a pergunta dela.

— Ah, ok. Pergunta você primeiro. – Ela bufa.

— Como se sente sobre mim? E, lembre-se, seja sincera.

A voz insinuante deixou Brandie sem ação e corou diante dele. Se Journey sentiu-se desconfortável antes, conseguiu inverter as circunstâncias. Fez um semblante inocente, para que sua expressão e seu tom de voz insinuassem coisas diferentes. Não a fim de confundi-la, mas para que ela tivesse a liberdade de interpretar do jeito que mais lhe convinha.

— Eu gosto de você. Assim... Você não é o cara mais chato que eu já conheci nessa cidade e a sua companhia é agradável... Quando isso – Ela faz movimentos circulatórios com a mão no ar para representar a conversa dos dois. – não está acontecendo.

Ele balança o punho fechado no ar, esboçando vitória.

— Isso é um pouco infantil, Journey. Bem, minha vez. O que você quis dizer com “amigos especiais em todo lugar”? Tipo, nos bombeiros, na polícia, nos jornais, nas empresas...?

— Eu acho que esses lugares também podem ser entendidos como “todo lugar”.

— Isso é muito vago. Você não está me respondendo!

— Desculpe, mas essa eu não sei com exatidão. É como perguntar a uma pessoa se ela faz parte de uma sociedade secreta esperando que ela diga “sim”, quando, na verdade, vai ouvir um “não”. A sociedade é secreta, certo? Então, ela não me conta essas fontes secretas. E eu não conheço toda a rede de contatos dela também. Não somos amigos.

Journey falou de um jeito tão natural, que a deixou surpresa com aquela revelação. Não são amigos? Ele observou o seu espanto e antes que ela pudesse fazer qualquer comentário a respeito, ele a atirou mais uma pergunta.

— O que gosta de fazer no tempo livre?

— Espera... Como assim não são amigos? Achei que vocês eram como irmãos siameses ou aqueles amigos que são codependentes ou algo do tipo. Vocês trabalham juntos e não se gostam?

— Eu não colocaria assim. A gente sabe conviver como colegas de trabalho.

— Eu ainda não entendo a relação de vocês dois... Oh! Vocês dormem juntos?

— O que?! Não. Isso nunca aconteceu. A gente mantém uma relação estritamente profissional, eu juro. Também não fazemos muito o tipo um do outro, eu acho. – Ele a vê encarando a omelete quase no fim, como se ela fosse a resposta para uma dúvida. – Enfim, mas se tivesse acontecido, isso seria algum problema pra você?

— Não. Com certeza, não. – Tentou manter a voz monocórdia, evitando transparecer que essa ideia fazia o seu sangue ferver.

— Ok, mas você ainda não me respondeu. O que gosta de fazer no tempo livre?

Ele apoiou o ombro na parede e cruzou os braços, esperando pela resposta. Uma paz extraordinariamente arrebatadora assentou no ambiente, quase como dando um ponto final naquele jogo. Ela fixou seu olhar no dele e pensou que, para um cara misterioso, ele tinha sido divertido durante esse tempo, e até que esse jogo improvisado foi uma distração descente no fim das contas.

— Eu gosto de customizar as minhas roupas. As minhas, as da minha irmã e dos meus amigos.

Ela achou que ele fosse gargalhar logo em seguida, mas Journey apenas sorriu, aceitando a informação. Então, lembrou-se de que, apesar do jogo já ter sido abandonado, ainda estavam sendo sinceros um com o outro. Journey retraiu o rosto e encarou o chão, reservando a Brandie qualquer pista sobre o que poderia estar se passando em sua mente. Os fios de seu cabelo ainda estavam desalinhados e livres, emoldurando um rosto jovial e perfeito – túmido pela barba rala a escurecer-lhe os maxilares. A camisa amarela escura em seu corpo estava amarrotada – ele havia catado em meio à bagunça que devorava a poltrona de seu quarto – e o short de tactel era estampado com várias listas brancas e de diferentes tons de azul. Nada ali demonstrava vaidade, nem sequer uma trivial nução de exibir-se. Se antes ela achou sua sensualidade berrante, agora mudou de ideia – era uma sensualidade sutil. Talvez ele nem soubesse o quão atraente era, e, mesmo parecendo que havia sido vestido por um rebelde Esquadrão Anti-moda, ainda era um sedutor.

— É um jeito criativo de passar o tempo.

— Cheguei a essa mesma conclusão quando passei quatro dias, direto, confeccionando jaquetas para os meus amigos. Usei quase todo o tipo de material que consegui encontrar por aí. Colas de tecido, lantejoulas, fitas de cetim e gorgorão, rendas... Até aprendi sozinha a fazer bordado crewel. A Melissa e o Josh não gostam muito de cores fortes, mas a minha jaqueta, a da Sierra e da Diana, eu fiz quase que inteiramente vermelha. Usei tudo que tivesse cor que lembrasse... Frutas vermelhas. – E ela mesma riu de si. – No fim, é como estar agasalhada num útero aveludado. – Fez uma pausa ao percebê-lo entusiasmado. Decidiu, então, ao invés de continuar, devolvê-lo a pergunta, sabendo que ele não esperava que ela fizesse isso. – E você? O que faz no tempo livre?

— Hum... Eu sou um cara flexível.

— Isso quer dizer que tem muitos hobbys?

— Quer dizer que eu topo fazer muitas coisas e qualquer coisa pode ser um hobby.

Journey não parecia ser o tipo de cara que repreendia uma garota pela sua nímia demanda, mas ela se arrependeu de ter feito a pergunta no instante em que viu o brilho de instigação atravessar os olhos dele. Apesar de ter bebido uma quantidade razoável de álcool na noite anterior, Brandie não havia ficado bêbada o bastante para esquecer-se de tudo. A lembrança da conversa no jantar era fulgente e tonitruante quando Brandie a resgatou, cada palavra e cada gesto. E o momento em que ele é confrontado com a sua afirmação de ser “persuasivo” ficou ainda mais claro.

— Por que os homens têm tantos segredos?

— Não temos, não. Quem disse isso?

— Eu que tô dizendo. Me conte um hobby seu, Journey.

— Eu não sei... Hum, andar de bicicleta. – Ela franze o cenho com a revelação. – É uma coisa que eu gosto de fazer de vez em quando.

— Isso não vale como hobby. – Suspeitava que ele estivesse ficando incômodo por ela estar insistindo em um assunto que ele já teria dado por encerrado. Brandie se divertiu com isso e aproveitou a desvantagem do rapaz. – Quer saber de uma coisa? Grande parte dos homens esconde seus segredos debaixo da cama. Como discos antigos, aqueles cards raros de futebol e pornografia. O que você esconde debaixo da sua?

Antes que ele pudesse responder, ela cruzou a sala às pressas e voltou ao quarto. Ele estava logo atrás dela, e, quando a alcançou, segurou a sua mão. Journey estava ofegante e risonho. Pararam em frente à cama bagunçada e se entreolharam. Pensou ele que, de certo modo, estava se divertindo, e imaginou se Brandie também estava, mas temeu que os pensamentos dela não compactuassem com os seus.

Brandie apertou os dedos de Journey antes de soltar-se.

— Tem certeza de que quer fazer isso? – Disse ele, certamente encorajando-a. – Depois que descobrir, é um caminho sem volta.

— Por quê? Você tem uma serra elétrica aqui em baixo? Ou vítimas em sacos plásticos? – Ela solta uma risada e puxa o lençol que desce até o assoalho. Ela encara a escuridão que emana daquele espaço, com o brilho dos olhos perdido numa lacuna negra. Aproxima mais o rosto da brecha. – Ah! – Brandie reboa um grito agudo, o assustando. – Achei os meus sapatos! – Ela os puxa para o seu alcance e continua explorando. Suas mãos tocam em algo macio como um travesseiro, afunda os dedos a fim de agarrar e arrastar para a luz. – O que é isso?

Journey enrubesce, mas responde com bom-humor.

— É uma almofada zafu. Ela serve para meditação.

Uma expressão de surpresa e admiração tomou o rosto de Brandie, correspondendo ao humor agitado que, de repente, consumiu-a em ondas. A comoção começou com a fala, passando pelo brandir dos braços e, então, para o resto do corpo.

— Meu Deus! Quem diria?

— Isso não é nenhuma surpresa.

— Não? Isso é um choque! Como é que faz? Como funciona? É só sentar?

Então ele sorriu, parecendo-se mais com aquele homem que sabia, como ninguém, lhe provocar arrepios subitâneos ao mordiscar seus lábios quando ela estava por baixo de seu corpo noite passada. E sentia aquela sensação novamente, descendo-lhe pelo peito em espiral quando Journey começou a responder. Não era um sorriso malicioso, era uma amostra de diligência posta no contorno aveludado dos seus firmes lábios.

— Você senta nela, com as pernas apoiadas uma na outra, mas não com o corpo todo. A sua base precisa estar mais baixa e tocando no chão, isso vai deixar a sua coluna de forma ereta e, assim, você toma uma posição mais alta e confortável.

— Uhum. – Brandie examinou o objeto como se esperasse que ele traduzisse o que Journey acabara de dizer, um pouco sem graça por não saber como utilizar uma almofada que mais lhe parecia comum.

— Se quiser, a gente pode ir a um centro budista e você pode experimentar. Lá tem um espaço para meditação coletiva, com um orientador e muitas dessas. – Ele aponta para a almofada, o que a faz largar em cima da cama e calçar os sapatos. – Então, quer ir comigo amanhã?

Supondo-se que a amálgama de emoções sóbrias presentes naquele quarto fosse real, e não houvesse mais uma ameaça desconhecida, da porta para fora, a qual temer, Brandie ponderou se tudo o que havia acontecido até aquele momento não era um sinal deífico mal compreendido para interpretar as tragédias cotidianas. Brandie sentia-se tão estressada nas últimas semanas que sabia que poderia chorar rios de alívio se aceitasse o convite para sentar-se, meditar e relaxar. Journey estava sendo muito solícito e ela se preocupou com a incerteza se isso era uma coisa boa ou ruim. Se ele continuasse sendo tão adorável desse jeito, as coisas seriam mais difíceis.

— Eu não sei se é uma boa ideia. Eu preciso ir para a casa e ver a minha mãe. Ela pode ter um peripaque se não me ver um dia inteiro.

Journey assente.

— Ok, eu entendo. Mas acho que isso pode te fazer bem. Você estava inquieta e preocupada ontem com aquele papo de ser perseguida pela morte, do plano da morte e... Sabe, né? O que aconteceu com a sua amiga e a sua irmã. O templo tem esse poder que nos deixa mais leve e nos enche de paz.

O celular de Brandie toca alto dentro de sua bolsa.

Durante um instante intemporal, o qual julgou se encaixar entre a sua narrativa de confecção de roupas e o agora, Brandie sentiu-se colgada pelo risco e a aventura de estar pendulando entre duas realidades. Quando terminou de pôr os sapatos, a sensação fez mais sentido. Estava suspensa naquele deleite, mas pronta para voltar ao chão. Queria estar naquela narrativa onde havia um jantar aprazível, sexo suado, café da manhã agradável, um jogo matinal para quebrar o gelo e, com todo o benefício que o caos pode trazer, um convite para um templo budista. Mas o toque do celular a arrepelou bruscamente, a lembrando que cada maldito dia que passava era um maldito infarto diferente.

Brandie atende e recebe uma notícia de Melissa. A voz da amiga está desesperada e, ao fundo, pôde ouvir Chris gritando de uma maneira tão estridente e cruciante que daria para facilmente estabelecer a sua imagem tridimensional num conceito autocriado – mesmo se ela fechasse os olhos e fingisse que os seus urros não estavam lá.

Ela desligou, aflita.

— Journey, eu preciso de uma carona!

Ele a encara confuso, interpretando o olhar a sua frente – o qual entregava a urgência.

— Claro. Mas o que aconteceu?

— Outro acidente.

☠

Ao desligar o celular, Melissa ouviu uma complexão de estalidos vindo da perna fraturada de Chris. Estava apreensiva naquele momento, mas não tanto quanto Jake, que manipulava o volante com o corpo rijo e o peito arfante. Outro estalo é ouvido quando Chris tentou curvar o joelho no banco de trás, proferindo um zumbido abafado que lhe escapou entre os dentes. Melissa estava atrás do assento do passageiro do carro de Jake, com a cabeça de Chris apoiada em suas coxas. Ele mantinha-se reto, na medida do possível, com a perna em carne viva esticada e a outra agitada, golpeando a porta conforme sentia um dor pungente palpitar em meio à roupa rasgada e pele partida.

Jake acelerava cada vez mais, deixando a cena do acidente para trás. Precisava chegar ao hospital o quanto antes. A chuva, nesse momento, estava mais fina, e alguns raios de sol apareciam por entre as nuvens. Melissa tirou do corpo o seu cardigã de tricô marrom, o qual ela puxou às pressas de uma gaveta antes de correr com seu namorado para o carro naquela manhã, e o pressionou contra a panturrilha de Chris. Ela o enlaçou e apertou com força ao redor do ferimento mais próximo dela, fazendo com que o fluxo de sangue escorresse e pingasse em torno do nó.

Um rosnado de dor estremeceu o carro e Chris deu mais um chute na porta de trás, afundando a maçaneta. Melissa deteve-se sobre seu amigo. Estava olhando para as suas mãos ensanguentadas pressionando camadas de tecido contra os rasgos profundos, e, finalmente, pôde identificar de onde vinham os estalos quando percebeu uma parte exposta de osso. Ela titubeou sem reação, então, forçou-se a respirar de modo uniforme e pediu a Jake o seu casaco. Impassível, ele continuou dirigindo, com os olhos fixos na estrada, parecendo não tê-la ouvido. Talvez ele estivesse em estado de choque ou tão concentrado para não se permitir errar o caminho da emergência. Melissa pediu novamente, agora mais alto, e ele respondeu rapidamente lhe entregando a peça de roupa. Quando estava prestes a encobrir a segunda ferida, Chris agarrou-lhe pelo braço com força e ambos trocaram olhares.

— Eu... Eu não sei o que dizer. Eu não vi! Não vi aquele quebra-molas. – Ele se explicou exasperado, porém seu raciocínio deferia-se de modo turvo. Melissa pensou em interrompê-lo, mas acreditou que deixá-lo falar seria uma forma de distração. – Ele tava ali e eu não vi. Tinha uma picape mais na frente e ela não passou por ele. Eu não vi, pelo menos. E ele jo-jogou uma coisa no meu para-brisa. Me desculpa! Me desculpa! Eu ia ao mercado por causa da bebida. Não, não por causa da minha mãe. Eu não ligo. Ninguém tá lá cedo, ninguém ia ligar se eu pegasse mais de uma garrafa. Porque tá todo mun-mundo sempre te encarando e esperando o melhor de você. E você só quer que tudo suma, nem que seja po-por algumas horas. Me desculpa!

Os dedos dele estavam pegajosos contra a pele dela, e os dentes manchavam com o sangue que corria pelos lábios. O banco inteiro estava pintalgado de carmesim. Cada gota pingava no chão e, ao longo do tapete, faziam figuras disformes ao passo que Jake conduzia o carro.

— Para de se desculpar. Não foi sua culpa, Chris! – Disse Melissa, esgotada.

— A gente já tá chegando, cara. Você vai ficar bem. – Jake grita. O tom de sua voz soou tão esperançoso que Melissa e Chris se inclinam para olhar o que tinha do lado de fora da janela. Sim, bastava mais duas curvas e chegariam na entrada do Snow Emergency.

Christopher arquejou de dor quando Melissa deu o segundo nó no segundo ferimento acima do osso. Os olhos dele semicerraram, deixando com que as lágrimas escapassem com intensidade à proporção que ele travava o maxilar, mordia a parte interna da bochecha e apertava os lábios a fim de evitar um berro. Melissa conseguia ver claramente em seu rosto a expressão externa daquela dor, imaginando o sofrimento que Chris estava tendo no momento e, mesmo na imaginação, isso fez a sua alma gelar. O rapaz deixou os olhos rolarem para trás quando a sua amiga o segurou pelo peito, desabando em seu colo. Jake assistiu pelo retrovisor e disparou:

— Ei, Chris, fica com a gente. Não fecha os olhos, cara. Estamos quase lá!

Se para Jake o início tinha sido difícil, agora parecia ter chegado ao âmago do verdadeiro mal, conseguindo, então, enxergar a real tortura, mas não o desafio final. O desafio final, quando ele finalmente chegar ao fundo do aquário, quando tocar na sua borda mais íntima. O megalodonte o estaria esperando com toda a sua fome e fúria.

O sangue continuava vazando dos cortes numa fluência escura e grossa. Com as mãos ao redor do peito de Chris, Melissa o puxa para trás para que ele aprume o torso numa posição vertical, mantendo as penas esticadas no resto do banco. Ela acompanha Jake, e os dois chamam pelo seu nome até que Chris volte a abrir os olhos.

O desespero retorna de imediato para o seu corpo, tomando conta de cada pedaço que ele ainda conseguia sentir. A perna machucada exibia alguns espasmos e a pele ao torno dos dedos estava túrgida com alguns pedacinhos de vidro ainda enterrados. Mais uma vez, ele estremeceu o corpo, mas também deu uma risada desconjuntada.

— Ei, pessoal. Eu não bebi. Eu juro pra vocês! Não pus uma gota de álcool na minha boca hoje. Eu tô limpo, amigos. Nada de álcool pra mim. – Então, começa a chorar assim como fez quando Mindy o deixou, sentindo-se arrependido e fraco. Ele passa a língua pelos lábios e prova o gosto picante do próprio sangue. A sensação o faz manifestar a mais infantil das caretas, logo balança a cabeça para que aquilo desapareça. – Não bebi nada, Jake! Nada, nada. Mel, você acredita em mim?

— Sim, claro. Mas, também, isso não faz diferença agora.

— Faz pra mim. Meu cantil está em casa. Estou limpo, completamente.

Jake estacionou na entrada da emergência. Ele sai do carro e some dentro de um espaço que parece uma caverna branca e azul. Melissa o vê sendo engolido por uma sombra e logo reaparecendo com um homem e uma mulher de jalecos descartáveis sobre roupas brancas. Eles conversavam enquanto corriam de volta ao carro, com Jake explicando apressadamente o acidente com Chris.

— Melissa. – Chris a chamou com um sussurro, antes que Jake e os médicos se aproximassem demais. – Não conta sobre isso para os meus pais. Não chama eles. Não liga pra eles. Eles não precisam saber. Me prometa.

Ela compreendeu o seu pedido e assentiu com a cabeça.

O homem abre a porta próxima de onde Melissa estava sentada e toma o seu lugar. A mulher adentra a entrada oposta, examinando a perna e os milhões de nós que Melissa deu. Um segundo homem aparece saindo da caverna com uma maca, então, com todo o cuidado, colocam Chris nela e desaparecem em questão de segundos.

Restam, agora, apenas os dois, abraçados em frente ao carro com as portas escancaradas. Jake abraça Melissa com força, buscando algum tipo de conforto no meio daquela tortura. Quando ele a soltou, ela, por sua vez, encarou as próprias mãos, a própria roupa, o próprio corpo e espírito, e assustou-se quando percebeu que estava ensopada de sangue e lágrimas. Apoiou a cabeça no tórax do namorado, afundando o rosto em sua camisa, e o deixou que a apertasse contra o seu peito mais uma vez – exausta demais para dizer algo.

☠

Nem Liberty Fitch nem Jalen voltaram naquela manhã ou durante a tarde. As horas passaram de maneira medíocre com Jasmine perdendo e recobrando a consciência a cada meia hora de cochilo. Ainda estava aninhada em seu cobertor amarelo, mas agora com o celular na mão. O número de Jasper estava digitado e a foto dele usando um chapéu sombreiro de palha brilhava na tela, mas algo impedia Jasmine de fazer a chamada. Ele vai me odiar. Vai dizer que sou louca e vai me internar. Ele vai me odiar.

Jasmine não trocava de roupa e nem tomava banho havia dois dias. Ela conseguia sentir o odor acentuado emanando de seus poros como sentiu o cheiro do próprio sangue em meio ao vômito no dia anterior. Observou, pela janela, a chuva forte caindo durante aquela manhã e assistiu pequenos insetos no lado de fora serem golpeados pelos pingos grossos. Isso a fez refletir sobre como os familiares daqueles pequenos seres seguiriam com a vida depois de tantas perdas. Perder Harper foi, sem dúvidas, um dos eventos mais impactantes e inesperados de sua vida, mas não ter Jasper ali para consolá-la desencadeou um sentimento ainda mais perturbador. É a urgência do sentimento de perda, aquilo que a faz querer resgatar o passado para consolá-la no lugar de seu irmão.

Não quis mais perder tempo consigo mesma, com suas dúvidas e suas ponderações. Discou o número completo Jasper até que aparecesse aquela foto. Uma antiga vida que os dois compartilharam. Naquele pequeno retângulo não daria pra ver, mas ele estava segurando um Mojito numa das mãos e seus chinelos na outra, sob um guarda-sol de praia e com os pés fincados na areia. Ele estava sorrindo por trás dos óculos escuros, feliz.

Ela liga. Duas chamadas é o tempo que ela levou até entrar em desespero e desligar novamente. Bloqueou o telefone e o largou na mesa. Ele vai me odiar. Ele vai me odiar.

Levantou-se e foi até a janela novamente. Olhou para o que havia sobrado da cidade – ou daquela rua, pelo menos – depois do temporal. As nuvens se afastaram uma das outras, abrindo espaço para o brilho do sol. Sua imensidão e poder acertam as janelas do apartamento de Jasmine, aquecendo todo o ambiente e atraindo o olhar da moça. Ela se sente restaurada com o que vê à distância: uma bola de fogo exalando vigor e deleite, enquanto espalha seus raios de energia sobre a Terra.

No começo, foi apenas um contato arredio, como se estivessem se encarando tempo o suficiente para que aquela estrela flamante acima conseguisse finalizar a sua arte de persuasão. E, assim que se deu por vencida, Jasmine girou nos calcanhares e caminhou até o chuveiro. Despiu-se e mergulhou sob a água morna. Parecia que nada ali poderia lhe machucar, nem mesmo quando voltar à realidade de que a divina segurança humana se finda ao abrir os olhos.

Vestiu uma calça e casaco de moletom, nova em folha, pronta para preparar algo para comer e se revigorar de forma completa – talvez. A sala parecia silenciosa de um jeito alarmante, como se a estivesse preparando para algo, e ela manteve-se na expectativa. Pensou que poderiam ser seus instintos lhe alertando sobre a chegada de Libby, mas ninguém passou pela porta enquanto ela cortava uma cenoura na cozinha.

A lâmina da faca cortou mais uma rodela. E outra. E outra. Distraída, por milésimos de segundos, a ponta da faca atravessa a carne do seu dedo indicador, provocando um corte raso. Uma exclamação saiu de sua boca antes de levar o ferimento aos lábios. Foi, então, que ouviu o som de uma vibração vinda da sala e seu coração palpitou. Viu o celular tremendo sobre a mesa. O rosto de Jasper sorria para ela de longe, impossível não ver. O sorriso de seu irmão era uma fonte de consolo e ele estava ali, com a felicidade congelada numa foto no telefone, encarando o rosto apreensivo de Jasmine, esperando algo se conectar atrás do seu olhar ansioso.

Ela atendeu.

☠ 6 Horas Depois

Vagarosamente, os olhos de Chris foram se abrindo. A sua visão foi tomada por uma brancura imprecisa e fúlgida, que logo foi se revelando uma lâmpada fluorescente presa ao teto. Ele escuta algumas vozes repetindo perguntas aleatórias. Estudou os contornos de cada azulejo do teto até conseguir inclinar o pescoço para frente, sentindo sua nuca um pouco dormente. Cerca de três sombras saltaram para o seu campo de visão, todas o encarando. Ao notar que uma delas era Jake – com o nariz e bochechas vermelhas, e algumas gazes presas nas palmas das mãos –, sentiu uma onda de felicidade passar pelo se corpo. Estou vivo!

Aquela sensação de ânimo misturada com alívio foi etérea, mas também transiente. Mais algumas sombras apareceram, e todas começaram a se misturar. Ainda sentiu-se um pouco fraco e retomou os últimos acontecimentos que lembrava. A chuva. O parque. O carro. O acidente. A dor na perna. O sangue... Tinha muito sangue. Chris ouviu alguém dizer:

— Christopher, pode respirar fundo pra mim?

Ele obedece.

— Isso é normal? Eu fiquei bem assim quando fumei maconha pela primeira vez. Foi bem rápido, mas... Uh, nada se compara. É como se o mundo tivesse uma lente e a erva mostrasse tudo! Fiquei doidona. Não leva a mal, foi só uma vez, mas ainda foi impressionante.

— O efeito da anestesia demora a passar em alguns pacientes mesmo. É comum.

Conseguia ouvir claramente a conversa e reconheceu a voz de Sierra. Imagens de pessoas familiares se impunham à frente. Jake e Melissa estão lá, lado a lado, com expressões aliviadas no rosto. Brandie está pulando com as mãos fechadas na frente do peito, alegre como uma criança que acabara de ganhar um presente. À sua direita, ele vê um homem de jaleco branco com a logo do Snow Emergency, avaliando-o de cima a baixo – o qual imaginou ser o seu médico. Chris estava prestes a falar, mas uma dor causticante rodeou a sua perna direita como se alguém a estivesse torcendo, espremendo como um limão. Ele arfou em silêncio, com a esperança de que aquilo passasse depressa.

— Ai! O que aconteceu? O que aconteceu aqui? – Ele desviou olhar para a própria perna, porém se sentiu tonto quando tentou se erguer. – Não consigo ver.

O médico tomou a frente e explicou a Chris os procedimentos cirúrgicos realizados depois que ele chegou à emergência. Os ferimentos abrangem uma fratura pequena no quinto metatarso do pé direito, uma ruptura na tíbia e um joelho quebrado. A recuperação total seria dali a alguns meses e que até lá ele teria que ficar com a perna inteiramente engessada. Quando o médico terminou o seu monólogo, saiu do quarto com um singelo “qualquer dúvida que possa surgir, estarei por aqui” e deu espaço para que seus amigos lhe dessem o esperado acolhimento após tanto desgaste.

Brandie tirou uma bolsa de crochê azul maya de algum lugar por trás da cadeira posicionada ao lado do leito, e a colocou sobre os lençóis. A julgar pelo tamanho, estava entulhada de coisas. Desde o acidente na pista Howclover, Chris notou que o brilho dourado e natural que sua amiga resplandecia, foi minguando aos poucos. Estava acostumado a vê-la sempre com trajes coloridos – muitas vezes sem nenhuma combinação –, cheia de acessórios e uma alegria que contagiava. Essa era, ele percebeu, a primeira vez, em muito tempo, que Brandie demonstrou aquela sua versão. Ela estava com um vestido listrado de oito cores diferentes, com um decote redondo, mangas vazadas e barra com pontas alongadas até os joelhos. As pulseiras de metal cheias de pedrinhas coloridas acopladas faziam um tilintar quando seus braços sacodem e um cordão com todas as cores do arco-íris.

— Quando a Mel me ligou, eu fiquei muito preocupada. Então, antes de vir pra cá, passei na casa deles pra trazer roupas limpas. E aproveitei e passei na sua edícula também. Achou que eu fosse esquecer? Não mesmo. Peguei uma coisinha especial pra você. – Ela faz suspense quando enfia as mãos dentro da bolsa. – Ta-da!

Incompreensíveis são os mistérios da vida, e um deles é a magia que Brandie carrega em si. Ela alçou as mãos e nelas segurava uma jaqueta jeans um pouco antiga. Algumas partes perto das bordas estão rasgadas. Há varias imagens de arco-íris, unicórnios, zebras e andorinhas costuradas no tecido. Várias pedras brilhantes de cores diferentes coladas em apinho nas mangas. Na parte de trás, bem abaixo de onde ficaria o pescoço, “Chris” foi escrito em tinta acripuff violeta. O resto do tecido estava sarapintado em cores diversas.

Lá estava ela, com aquela jaqueta erguida feito uma grande placa sinalizadora para terra firme, mas ele se perdeu em meio ao sentimento nostálgico, e, quando se encontrou novamente, era tarde para alcançar o espírito alegre de Brandie.

— O que foi? Não lembra das nossas roupas da amizade?

— Eu lembro, claro.

— Ninguém nunca chamou as jaquetas disso. Só você, amiga. – Sierra agarra a jaqueta de Chris e checa cada parte. – Olha isso! É quase neon.

Todos conseguiram dar uma risada, mesmo não estando tão dispostos a isso. Brandie enfiou as mãos na bolsa e continuou tirando jaquetas como um mágico tira metros de lenços detrás da orelha de um assistente. Melissa vestiu a sua, com o seu nome pintado de amarelo nas costas e vários “Mel” escritos na bainha. Além de vários patches e paetês, os botões foram arrancados e substituídos por cadarços coloridos, tendo que fechá-la com sete nós. Entregou a de Jake, repleta de bottoms, fitas de cetim, confetes e gliter. Com exceção do seu nome gravado na parte de trás, todo o resto estava pintado com tinta de tecido e cheio de laivas. Brandie escreveu “Jake” no bolso da frente com quatro tipos de caligrafia diferente para cada letra. Por fim, vestiu a sua própria. Tingida de diversas cores e tons, como se estivesse ansiosa por inventar uma nova cor. Aquela sim era a Brandie que todos conheciam, com cada centímetro do seu corpo pingando de tinta e animação.

— Onde está a sua? Eu mandei uma mensagem pra você não esquecer. – Perguntou à Sierra.

— Eu esqueci, de verdade. – Respondeu ela, sem esforço algum para disfarçar a ironia. – É que a minha era discreta demais com todo aquele rosa e bichinhos de pelúcia colados, aí ela acabou passando despercebida quando abri o armário. Mas eu também trouxe uma coisa pra você, Christopher. – Ela esticou a mão e tirou de trás de uma das máquinas (que faziam beep sem parar) um balão preso a um fitilho. Nele tinha a imagem de um ursinho sorridente, segurando um coração azul com os dizeres “it’s a boy”.

Chris sorriu convicto, mas Brandie abriu a boca como se quisesse dar uma bronca e moveu os lábios tão metodicamente quanto Sierra fazia. As duas começaram a discutir sem propósito, então Jake as interrompeu com um comunicado.

— Pessoal, eu e Mel estávamos esperando o Chris acordar para conversarmos juntos. – Isso chamou a atenção de Chris, Brandie e Sierra. – É sobre o acidente e a minha visão.

— Não, não. Não vai falar de novo sobre sermos perseguidos pela morte, vai? – Sierra se manifesta.

— É exatamente sobre isso. Eu e Mel fomos procurar o Mac ontem e acabamos não conseguindo falar com vocês por causa do que aconteceu com a Jasmine. Mas a gente conseguiu algumas respostas.

— Não, para! Eu já disse que isso não tem como ser possível. Isso não é real. A morte é um evento natural e não uma vendeta. Vocês fazem parecer que é algum tipo de conspiração do universo ou dos astros ou da porra toda. O que os céus têm contra nove pessoas a ponto de mandar um assassino de aluguel sobrenatural para acabar com a nossa raça? O que a gente fez pra isso? Eu mesma respondo: nada! Não fizemos nada.

— Nem tudo precisa de uma razão. As coisas simplesmente acontecem porque devem acontecer. – Chris rebateu e Brandie assentiu, concordando. – Ser uma boa pessoa não garante a ninguém uma vida sem sofrimento e dor.

— Vamos escutar, pelo menos. Possível ou não, não custa nada ouvi-los. – Brandie segurou a mão da amiga. Um gesto que dizia mais sobre uma solidariedade compartilhada do que qualquer argumento que poderia repreendê-la.

Com o rosto vermelho, Jake deu continuidade ao assunto, e Sierra rendeu-se às evidências que a história trazia. Todos os elementos e coincidências mal explicadas se cruzavam e se condiziam uns com os outros. Diante disso, Brandie o escutava com interesse redobrado, ocasionalmente sentindo a mão de Sierra contrair ao redor da sua. Chris, por sua vez, apertou os lábios nacarados (devido à perda de sangue) e sentiu os músculos do rosto enrijecerem quando Jake contou sobre a lista.

Ao final, Jake explicou que ainda podem encontrar alguma solução com Marybeth Hodge. Suas palavras saíram firmes e seguras, reconhecendo a sua posição diante dos amigos. Ele sabia que eles contavam com sua coragem e convicção, e, se tivesse que ter alguém certo do que estava fazendo, essa pessoa teria que ser ele. E mesmo que se ele se perdesse no meio do caminho, sabia que Melissa estaria ao seu lado para segurar a sua mão.

Enquanto Brandie e Chris trocavam algumas palavras, Jake e Melissa começaram com um “não podemos perder tempo” e terminaram com um “vamos atrás deles”, deixando todos no quarto um pouco atordoados. Era como se um segredo fosse revelado e todos eles teriam que guardá-lo até terem uma real certeza.

Dando passos para ambos os lados, Melissa contou que, antes de Jake despertar de seu pesadelo naquela manhã, ela estava com o notebook e o caderno de Mac abertos, fazendo uma pesquisa para conseguir encontrar Marybeth. Descobriu que ela é uma advogada criminalista relativamente conhecida em sua área. Seu site pessoal foi desativado há alguns meses e as informações de contato não estão mais disponíveis em muitas plataformas digitais. Encontrou o endereço de seu escritório, através de um comentário antigo numa página do facebook, que, quando Melissa jogou na barra de pesquisa, descobriu que era um endereço residencial.

— Talvez o escritório dela seja em casa mesmo. Tem muita gente que trabalha assim, para otimizar o tempo e ter os documentos à mão quando precisar.

Jake e Melissa deram mais alguns avisos, deixando o quarto em seguida e garantindo que voltariam mais tarde para ver como Chris estava. Os dois sabiam que, por mais que as suas descobertas doessem a princípio, assim como quando se sentiram depois da conversa com Mac, era imperativo que cada parte daquele plano fosse investigado e ponderado até que esgotassem as alternativas.

No carro, o cheiro de sangue e suor era exalado na parte de trás, o que fez com que Jake dirigisse com as janelas abertas. Àquela altura, a chuva já havia passado, mas alguns de seus resquícios ainda se faziam presentes na lama dos parques e a submersão da grama nos canteiros. Melissa jogou o endereço no GPS e orientou Jake no volante.

— • —

A grama do quintal da frente era macia e tinha um cheiro doce quando Jake e Melissa a atravessaram, mas como não era cortada há semanas, sua aparência revelava descuido e abandono. Eles subiram alguns degraus e se aproximaram do limiar da porta. Foi Jake quem tocou a campainha, mas não houve som. Ele apertou de novo e nada.

— Deve estar quebrada. – Ele dá de ombros e bate com força a aldrava de metal presa sob o olho mágico. O sol já estava se pondo naquele momento e o azul-celeste do céu ficava cada vez mais escuro. A grama alta se move com o vento, jogando um fluxo de ar frio contra as costas deles. Melissa agarrou as pontas de cadarços coloridos de sua jaqueta e apertou cada centímetro dela para se aquecer. – Acho que não tem ninguém, Mel.

Ela morde o lábio inferior e meneia a cabeça negativamente, desacreditada.

— Não, ela tem que estar aqui. Essa é a nossa única pista!

Jake bateu novamente a aldrava da porta mais vezes e com mais força. Eles esperaram. Ninguém apareceu.

— Vamos voltar amanhã e tentamos de... – Começou Jake, até escutar o som de um rangido no lado de dentro. – Ouviu isso?

— Ouvi sim.

Melissa fechou o punho e o acertou na madeira da porta três vezes.

— Mel, não faz isso! – Jake segurou o braço dela. – Ela nunca vai abrir se achar que somos perigosos.

— Ela não vai saber disso se não nos responder.

Então Melissa desce os degraus e circula o quintal da casa. Seus passos são pragmáticos e decididos, um pé na frente do outro até encontrar uma janela lateral. Jake a acompanhou, um pouco preocupado com o que poderia acontecer se Marybeth achasse que eles eram dois assaltantes.

— Acha que isso é uma boa ideia? – Ele pergunta quando ela se posiciona de frente para uma janela e abeira os olhos nos cantos das mãos para enxergar o que havia do outro lado do vidro. Seus cotovelos estavam apoiados na soleira, dando equilíbrio.

— Não, mas eu já não ligo mais pra isso.

A persiana estava parcialmente fechada ali, mas Melissa pôde ver que aquele cômodo se tratava de uma cozinha. Havia uma geladeira, uma pia e um armário de uma só porta de um lado. Uma mesa de jantar quadrada estava posicionada no centro, mais perto da janela, com quatro cadeiras encaixadas em cada uma das extremidades. E muitas comidas enlatadas em caixas de plásticos vazadas. A porta da cozinha estava aberta, dando vista para um corredor. Uma sombra atravessou uma luminosidade e sumiu, indicando movimento.

— Tem gente aqui dentro, Jake! Ela tá aqui.

Melissa deu um pulo, cheia de brilho nos olhos, e correu de volta até a porta. Bateu mais algumas vezes e gritou:

— Eu sei que tem alguém aí! Por favor, a gente precisa de ajuda. Precisamos falar com Marybeth Hodge. Não vamos demorar, só temos algumas perguntas.

Os dois esperaram por mais um tempo, mas a única resposta que tiveram foi outro rangido na madeira do piso.

— Ela não vai abrir. A gente não sabe o que aconteceu com ela, Mel. Ela pode estar assustada.

— Entendi. – Melissa agarrou a maçaneta e girou. Trancada. Ela coçou a cabeça, pensando, e jogou o cabelo para trás, determinada a chegar à Marybeth. – Jake, chuta!

— O que?!

— A gente precisa falar com ela.

— Não vou chutar e arrombar a porta, Melissa. Isso é loucura!

— Loucura é a gente sentar e se dar por vencido. Ela sabe de alguma coisa que a gente também precisa saber. E não precisa chutar a porta, só a maçaneta. O bastante para que dê para abrir por fora. – Ele sacode a cabeça para os lados, discordando. – Isso vai dar certo!

Uma parte pequena e desesperada de Jake cogitou a ideia, antecipando o ato em sua imaginação. Um chute de lado era o suficiente para que a maçaneta quebrasse por dentro e seu mecanismo interno se despedaçasse. Ele começa a suar. Não um suor ofegante, mas de raiva, pois ele odiava que estava realmente cogitando fazer aquilo.

— Ok. – Disse ele baixo. Melissa se afastou rápido em direção aos degraus.

Jake tomou espaço e mirou a maçaneta polida. Fechou os olhos e quando estava prestes a alçar a perna, ouviram uma voz trás da porta. Ela estalou, para a surpresa deles, como um chicote.

— Esperem! – A pessoa foi precisa, como se os estivesse vigiando pelo olho mágico desde o princípio. O som da voz era feminino e forte, elevando-se à medida que falava. – O que vocês dois querem?

Os cérebros dos dois namorados ficaram agitados.

— Queremos falar com Marybeth Hodge. – Respondeu Jake.

Melissa se imaginou no lugar da mulher, reflexionando seus pensamentos de acordo com suas necessidades. O que ela faria se estivesse atrás da porta agora?

— Jake – Ela ficou na ponta dos pés e puxou o ombro do namorado para que conseguisse alcançar o seu ouvido. Sussurrou rápido: – Se ela sabia que a gente estava aqui esse tempo todo e sabia que íamos arrombar, por que não chamou a polícia?

Eles trocam olhares e encararam o olho mágico.

— O que querem com Marybeth? – A voz continuou.

— Saber como ela conseguiu escapar dos planos da morte. – Melissa foi direto ao ponto. – Sabemos que ela enganou a morte uma vez e conseguiu sobreviver por meses.

Quando terminou, nenhum dos lados falou mais nada e o silêncio foi ensurdecedor. O céu escurecera mais desde que chegaram e uma luz foi acesa dentro da casa, escapando pela fresta sob a porta. Melissa cogitou que ela estivesse os enrolando, ganhando tempo, até que a polícia chegasse, mas então o silêncio foi rompido com a chave sendo passada para destrancar a porta, e, finalmente, sendo aberta.

Depois da porta, só havia um corredor vazio. Sem quadros na parede, sem móveis à vista ou qualquer objeto de decoração. As paredes eram brancas e sem vida, e o assoalho estava tão limpo que poderiam comer nele. Parada na entrada, uma mulher segurava a madeira da porta. Estava vestindo um cardigã cinza e uma blusa preta por baixo. Não usava qualquer calçado, apenas meias cobrindo os pés. O cabelo era castanho e longo, passando do busto e cobrindo os seios, e as ondas que faziam ao redor dos ombros tinham belos reflexos dourados em encontro com a luz.

— Quem são vocês?

— Meu nome é Jake. – Jake apontou para o próprio peito e depois apoiou uma das mãos no ombro de Melissa. – E essa é a minha namorada, Melissa. Você é a Marybeth, certo? – Ela assentiu com a cabeça e ele continuou com um tom informal para que eles não parecessem tão estranhos e tão distantes um para o outro. – Eu acho que temos algo em comum.

Marybeth o encarou nos olhos.

— Você teve uma visão?

— Sim, eu vi um acidente acontecer diante dos meus olhos, mas tudo só na minha mente. Não consegui fazer muita coisa depois, mas consegui tirar os meus amigos de lá, do local. Eu soube que aconteceu algo parecido com você.

Ela abriu a boca para contestar, mas tornou a fechá-la quando Jake continuou.

— Mac nos contou sobre você. Quero dizer... Não disse o seu nome e nem nada que revelasse a sua identidade. Ele apenas contou a sua história. Não o culpe, nós descobrimos o resto sozinhos. – Preferiu omitir que tinha em mãos um caderno surrupiado com as algumas das suas informações. Não precisava adicionar “roubo” à lista de primeiras impressões. Arrombamento e invasão já eram o suficiente para um dia.

A mulher respirou pesadamente e, de repente, Jake sentiu pena dela porque um dia Marybeth também deve ter sido uma moça feliz e livre. Agora, ambos eram servos do mesmo vilão, compartilhando do mesmo pânico. O fato de que ela estava com medo de falar sobre o que sua vida se tornara, mostrava o quão as coisas ficariam mais estranhas com o passar do tempo. E Jake se viu ali, imaginando como as coisas não vão melhorar. Pelo menos, não tão cedo.

— Podem entrar, mas tirem os sapatos antes.

Jake e Melissa deixaram os sapatos nos degraus e se arrastaram para dentro detidamente. Ouviram Marybeth trancar a porta atrás deles enquanto avançavam pelo corredor, mas não tinham certeza se ela os acompanhava. Os dois pares de olhos focavam à frente, passando por portas fechadas e inalando um aroma forte de café. Quando chegaram ao fim, viram que a passagem abria para uma sala formal. Alguns abajures acesos iluminavam o local, com apenas um sofá, duas poltronas e uma mesinha de centro perfeitamente enquadrados sobre o tapete retangular.

Ao entrar no cômodo, Jake e Melissa encontraram um rapaz sentado numa das poltronas com um copo de plástico nas mãos. Eles encararam o homem corpulento e magro, de pele morena e ombros vultosos, e ele os encarou de volta. O rapaz levantou-se e deixou o copo ao lado de uma garrafa térmica, sem tirar os olhos do casal.

— O que na terra de Deus você acha que estava fazendo? Tá achando que vive dentro de um filme?

E Jake soube pela maneira como ele impôs a voz, feito um mestre dirigindo a palavra ao seu escravo, que ele quis atingir Melissa e não ele. Os cabelos do rapaz eram suaves e negros como as asas de um corvo e estavam penteados para trás, de modo que deixava os traços de seu queixo, de seu nariz e a da curva de pele que o osso malar fazia mais brutos.

— Eu... – Melissa congelou. Tanto ela quanto Jake sabiam que o medo e angústia os deixaram irracionais. Marybeth passou por eles rangendo o assoalho, parando ao lado do companheiro, e Melissa tentou se explicar, mas falhou outra vez. Suportou os olhares hostis, sabendo que eles não tinham culpa de sentir o que sentiam.

— Vocês não podem chegar desse jeito na casa das pessoas. Não sabem o que tem aqui, não sabem o que podem encontrar. Não é por que uma pessoa não atende a porta, que vocês estão convidados a entrar. Podíamos atirar em vocês se quiséssemos!

— Mas não fizeram isso. E nem chamaram a polícia.

Outro rangido ecoou do corredor atrás, atraindo a atenção de Jake e Melissa ao mesmo tempo. Ambos giraram os ombros numa volta de cento e oitenta graus. Ao se virarem, deram de cara com uma espingarda apontada para seus olhos. Melissa recuou, mais para dentro da sala, e Jake entrou em sua frente.

— Ei, espera! Não somos perigosos, não queremos conflito com vocês. Só viemos atrás de respostas. Não precisa disso, gente! Não vamos causar nenhum mal, só queremos conversar.

O homem atrás da arma era alto, de cabelos loiros erguidos num topete repicado e com a força física evidente nas musculaturas dos braços, antebraços e punho expostos pela camisa de mangas curtas. A pele alva contrastava com os lábios carnudos, mas não havia nenhum deslumbre: as suas feições eram regulares e banais. Ele deu um passo à frente, seguindo os movimentos de Melissa e apontando o cano da arma para a cabeça de Jake.

— Como o Toby disse, vocês podem levar um tiro se tentarem invadir a casa dos outros. – Ele fez uma pausa para erguer o olhar da mira e examinar os dois intrusos. – Que porra vocês querem aqui?

— Mantenha a calma, cara! Por favor.

— Duncan, pare com isso. Eu deixei que eles entrassem. Podemos conversar. – Marybeth pede, tão calma que nem parecia se importar com aquela cena.

Os olhos de Melissa se encheram de água quando o som da telha da arma sendo puxada para trás estalou. Ela sentiu o sangue gelar nas veias e estremeceu com frio de tanto pavor, como se tivesse imergido até o fundo do seu próprio corpo. Jake passou seus braços ao redor dela, impedindo que ela olhasse para o cano da arma. Duncan, então, os fuzilou de cima a baixo com seu olhar, repetindo mais alto:

— Falem! O que vocês querem com a Marybeth?

Marybeth cruzou os braços como se estivesse entediada demais para querer assistir até onde aquela ameaça os levaria, e seu olhar atravessou a sala até chegar a Duncan. Ele não fez nenhum movimento, então ela mesma foi até ele e afastou o cano da espingarda, tirando Jake e Melissa da linha de fogo. Duncan abaixou a arma a contragosto, com o semblante sério e pesado pela aversão a esconder seus pensamentos, porém não a largou.

Assim que a voz de Duncan cessou, Jake soltou Melissa para que ela pudesse erguer o rosto novamente. Ele avaliou as circunstâncias, já que Marybeth dera uma prova de boa-fé ao impedir o seu amigo de espalhar seu cérebro pelas paredes brancas. Todos os olhos estavam voltados para o casal de forma demorada e tempestiva, e apenas os batimentos cardíacos de Jake e Melissa reverberavam naquele cômodo.

Melissa secou as lágrimas e deixou que seus olhos varressem a sala. Eles estavam ali, os três nomes não riscados do caderno de Mac ganhando forma e fisionomia: Marybeth Hodge, Toby Lyall e Duncan Pearce.

Tirando os objetos posicionados sobre o tapete, não havia mais nada ao redor. Assim como no corredor, não havia quadros, porta retratos, ventiladores ou ornamentos. Um móvel grande – que pareceu ser duas portas de armários pregadas uma na outra – foi arrastado para frente da lareira, a fim de impedir que qualquer coisa se esgueirasse para dentro, fitas adesivas cobriam as tomadas, rachaduras e pontas de objetos grandes (como mesa de centro e maçanetas de portas), e lâmpadas foram retiradas de seus bucais nas diversas outras luminárias – que não fossem aqueles dois abajures um de cada lado do sofá.

Jake apresentou-se novamente para Toby e Duncan, já emendando em sua história desde o acidente na pista Howclover. Nenhum dos três pareceram se surpreender quando ele mencionou a morte de duas pessoas de seu grupo e mais dois acidentes subsequentes. Cada palavra irrompeu dele como um raio, passando cada momento rapidamente com medo de Duncan levantar novamente a sua espingarda e interrompê-lo no meio do caminho.

— Eu sabia que falar com aquele cara ia trazer problemas. – Comentou Duncan, com descontentamento. Virou-se para Toby, lhe dirigindo a palavra. – Olha o pepino que isso nos trouxe. Você convenceu a gente de conversar com ele, de dizer tudo.

— A decisão foi minha! Não do Toby e nem sua. – Marybeth ergueu a voz, como se dissesse à Toby para que não continuasse com essa discussão. Ela fitou Jake e Melissa. – Eu sei o que vocês querem, mas eu não posso ajudá-los. Nenhum de nós pode. Estamos tão presos nisso quanto vocês.

— Mas vocês estão vivos há mais de cinco meses. Nossos amigos estão se machucando, um atrás do outro. E isso não para! O que vocês fizeram pra sobreviver por tanto tempo? Como conseguiram ficar seguros? – Foi Melissa quem perguntou.

Marybeth tinha uma expressão infeliz e retorcia as mãos.

— Vocês não olharam em volta? Não há o que fazer. Essa casa está quase vazia. Nos livramos de tudo o que poderia ser potencialmente perigoso. Comemos comida enlatada quase todo dia, com talheres e copos de plástico. Raramente ligamos esses abajures, usamos mais lanternas dentro da própria casa. Quase não saímos, só quando necessário. Temos que manter tudo limpo e organizado, para que nada escorregue, para que ninguém tropece ou se machuque. Sabemos que se alguém se machucar, pode ser fatal. Isso é se manter seguro? Sim, mas a que custo? Não temos mais vida, vivemos para sobreviver. E isso não é viver!

Em determinado momento, Melissa foi tomada por uma súbita desolação e o frio que sentiu minutos antes voltou a impulsionar o terror em suas veias. Ela se transformou em dois grandes e tristes olhos que observavam a sua última esperança morrer. Os olhos amendoados de Toby contemplam sua decepção. Algo naquele encontro o fascinava, como dois mundos se encontrando, mas não necessariamente como um confronto, e sim como o produto do que poderia outorgar um aperto de mãos. Ele segurou sua ânsia pelo tempo que conseguiu manter a rota de seu olhar longe do olhar de Jake, porém, assim que seus olhos se encontraram, ele suspirou e rendeu-se.

— Dois amigos nossos morreram depois que a Marybeth teve a visão. Não conseguimos impedir e nem desconfiávamos que estivesse rolando algo para além da nossa compreensão naquele momento. Encontramos alguns artigos na internet, sites bem suspeitos e alguns comentários relatando experiências parecidas. Encontramos Mac dessa forma e ele nos ajudou a tentar entender tudo isso. – Esclareceu ele para Jake e Melissa, tentando ser o mais claro e breve possível, mas ciente de que a seriedade do assunto exigia o mínimo de aprofundamento. – Estava, de fato, rolando alguma coisa com a gente. Com a morte dos nossos amigos e com os prenúncios ominosos aparecendo toda hora... Das duas, uma: ou a gente deixava com que o universo fizesse o trabalho dele, nos castigando e torturando por termos enganado a morte, ou simplesmente nos protegeríamos. Uma busca na internet não te dá tudo o que precisa, as respostas vão somente até determinado ponto. E nós precisávamos saber mais, essa é a nossa arma. Pelo menos, uma das principais. – Nesse momento, ele já falava com Marybeth e Duncan, alternando o seu olhar para os dois e retomando o assunto anterior. – Precisávamos do Mac, ele foi o único que apareceu com alguma explicação lógica. Bom... “Lógica” no sentido não lógico, se é que vocês me entendem. – No final, ele já se dirigia a todos na sala. – Bom... Procuramos não chamar muita atenção e não gostamos de estranhos invadindo o nosso espaço.

Jake entendeu, relativamente, a dinâmica que os três amigos criaram para tocar a vida. E, a partir disso, viu que Marybeth, Toby e Duncan eram prisioneiros de seus próprios medos. É claro que eles teriam uma percepção negativa da chegada de Jake e Melissa, eles dois eram uma ameaça para eles com tudo o que poderiam trazer para dentro daquela casa. A casa que eles transformaram num abrigo, num santuário.

— Nós três nos ajudamos e nos protegemos na medida do possível. Ficamos o maior tempo que conseguimos juntos. Ajustamos a nossa rotina, alteramos algumas coisas na casa e jogamos fora o que não precisamos. – Duncan completou, ainda na defensiva. A sinceridade se fazia presente na voz dele, assim como a firmeza em seus lábios.

— Eu sinto muito por isso. Por tudo isso. – Jake foi o mais altruísta que conseguiu ser, tentando replicar a forma de falar de Chris.

— Não lamente. Se tiver sorte de não acontecer nada com você, então pode acabar que nem a gente. – Respondeu Marybeth, semicerrando tanto os olhos que adquiriu feições aquilinas em meios às sombras

— O que quer dizer com “prenúncios ominosos”? – Melissa passou as mãos no cabelo inquieta, em seguida, gesticulando os braços para frente, os abrindo enfaticamente como se quisesse dar um abraço coletivo em todos eles. Ela olhava diretamente para Toby quando terminou a frase. – Você disse isso depois que mencionou a morte dos seus amigos.

Ele deu de ombros, como se não houvesse uma explicação mais esclarecedora do que o próprio nome, por si só, já explicitava. A impressão que ela transmitia era de desespero, o que o levou para um tempo anterior àquela prisão que hoje ele chama de lar, porém não quis recordar como ele mesmo perdeu seu chão quando Mac o contou que seu tempo de vida havia terminado e que agora era só uma questão de tempo. Então, num ato de piedade e compaixão, ele se estendeu um pouco mais.

— São indicações que aparecem antes de alguma coisa acontecer, indícios de que alguma tragédia está próxima. É como um sinal agourento. Vocês nunca viram um? Estão sempre lá, para qualquer um que estiver na lista. Todos vocês podem ver, ouvir, sentir... Precisam estar atentos a isso. Eles causam arrepios, mas são, de alguma forma, pistas. – Ele balança a cabeça. – Não sei como ser mais claro.

O rosto de Jake é marcado por uma tristeza profunda em linhas duras. “Estão sempre lá”, foi o que Toby disse, estão lá desde o começo. O devaneio com Marcie na noite do acidente foi um sinal de que nunca encontrariam o corpo dela com vida nas buscas? E o sonho com Levi? O que aquilo queria dizer? O vapor no banheiro, o mal estar no cemitério... Há algo abstruso nesses sentimentos, que aparecem do nada e vão embora de maneira mais confusa do que quando chegaram.

— Isso ajuda muito!

— Mas isso não é nenhum tipo de salvação. – Duncan cortou.

— Que nem isso aí? – Jake aponta para a espingarda em suas mãos. – Vocês disseram que limparam a casa de qualquer coisa perigosa. Então, por que essa espingarda está aqui?

Duncan encara Jake com raiva, como se o rapaz tivesse descoberto sua carta escondida na manga. A misantropia devia fazer parte de Duncan desde antes do acidente que ele escapou, pois a desconfiança se mostrava latente em cada centímetro da sua expressividade.

— É uma arma falsa. – Confessa Marybeth. – Mas é um sistema de segurança conveniente. Vocês mesmos testaram.

Quando Duncan passou pela porta da cozinha sem dizer nada, Jake voltou para seus pensamentos e em como deixou tanta coisa passar despercebida.

Aqueles sinais aparecendo o tempo todo e ele nunca se deu conta. Experimentou uma sensação pouco familiar de culpa consumindo cada célula de seu coração. Compreendeu o motivo, é claro. O mundo poderia ter lhe dado cada um dos sinais que ele precisava ter, mas era sua responsabilidade codificá-los e aplicá-los na “lógica não lógica” que Toby mencionara. Quis correr, quis gritar, quis quebrar alguma coisa, voltar no tempo, mas não quis se esconder. Fugir não era da natureza de Jake, e sim tomar alguma atitude. No jogo da morte, eles não podiam agir de acordo com as regras da razão – precisas e rígidas –, mas segundo o coração e a intuição.

☠

— Boa noite, Sra. Marchmont. – Cumprimentou Liberty Fitch ao chegar ao patamar inferior da escada do prédio. O cabelo longo estava preso de forma que as pontas rosadas nutavam pelos ombros enquanto ela se arrastava pelos degraus. Suas mãos meneavam a chave de seu apartamento, rodopiando o chaveiro em torno do dedo indicador.

Viu a sua vizinha, Tina Marchmont, empurrar uma sacola preta de lixo para o duto do prédio. Era uma senhora de oitenta e sete anos, lúcida e completamente independente. Disse a ela uma vez, de maneira corriqueira como fazia quando encontrava algum vizinho pelos corredores ou na portaria, que gostaria de chegar a essa idade com a mesma plenitude que a vizinha tinha, sem depender de cuidadores particulares ou família para atividades cotidianas. A Sra. Marchmont ergueu os dedos finos e longos, dando-lhe um sermão sobre independência e responsabilidade.

Libby sabia que sua vizinha não fazia nada o dia inteiro, a não ser ficar vigiando o corredor sorrateiramente por trás da porta, de olho no que a vizinhança do seu corredor poderia lhe trazer de entretenimento. Portanto, quando Libby escutou o sermão de Tina Marchmont, soube no mesmo momento que ela se referia à sua vida noturna. Se houvesse elevador no prédio, Libby era capaz de empurrar aquela senhora para dentro e mandá-la para o último andar, mas teve que se contentar em ouvi-la até descer todo o lance de escadas e sumir na claridade do saguão.

— Hum... Boa noite, Srta. Fitch. – Disse Tina Marchmont, incutindo uma aspereza na voz. Não da idade, mas sim de quando ela está prestes a sugestionar algum assunto que sabe que vai provocar tensão. – Voltando de outro de seus arrojos?

— É, Sra. Marchmont. Dessa vez, eu estou acabada! – E lançou o sorriso mais sarcástico que conseguiu. Estava cansada demais para discutir com a vizinha, sem disposição alguma para ser minimamente cordial. – Mas sabe como dizem, né? A vida nunca para. Quando a gente não tá trabalhando, precisamos procurar alguma diversão. Mas a minha vida é só diversão, Sra. Marchmont. Nada de tristeza e amargura aqui. Aliás, a senhora sabe bem disso, certo?

— Na minha época, chamavam essas aventuras de outra coisa. Mas você... Oh, você é a verdadeira dama da noite. – Sra. Marchmont foi atingida em cheio pelo cheiro de álcool que saiu da boca de Libby, recuando alguns passos. Mesmo a moça não estando tão perto, o odor era forte. – Me admira você não estar sempre cansada.

— Ah, Sra. Marchmont, estou sempre fazendo os meus exercícios. Me mantendo na ativa, entende? Para a energia percorrer por esse corpinho. – Libby chega no topo da escada, ficando cara a cara com Tina. Ela gira sobre os calcanhares, mostrando as curvas que seu corpo fazia debaixo do vestido vermelho. – Mas a senhora também parece bem cansada. Pelo menos, sempre que a vejo. Não devia estar dormindo a essa hora? A senhora está quase afundando nos próprios joelhos.

— Pare de ser tão arrogante, Srta. Fitch. Deveria estar mais preocupada com a sua vida.

— Olha quem fala. E a senhora que deveria deixar de ser tão fofoqueira. Fica tomando conta dos apartamentos desse andar como se fosse a chata da síndica. Vê se dá um tempo, já basta um encosto. – Sua voz saiu embotada, reprimindo um timbre colérico. Falou como se estivesse pouco ligando para as provocações de Tina Marchmont, apesar de adorar embarcar nessas discussões com a vizinha. Era como um passatempo... Para as duas.

As duas ficaram lado a lado no meio do corredor, o que permitiu a Sra. Marchmont uma examinação completa. E, como um scanner, os olhos de Tina Marchmont percorreram a figura completa, de cima a baixo.

— Deveria se preocupar mais com o seu aluguel. Eu soube que está atrasado, não é?

Ela bufou com uma chama de exaltação no corpo, porém quanto mais tempo passasse ali no corredor, menor seria o seu tempo de descanso, e mais estresse levaria para dentro de casa. Resolveu ceder às demandas da Sra. Marchmont e terminou a conversa.

— Isso não tem nada a ver com a senhora e eu vou resolver. Eu sei que se eu for embora daqui, a senhora vai sentir tanto a minha falta que é capaz de ir atrás de mim só para checar se os meus arrojos estão em dia.

Ela virou as costas para a Sra. Marchmont e entrou no apartamento antes que pudesse ouvir uma réplica.

O cheiro intenso de comida atraiu seus passos para a cozinha, já especulando um cenário onde veria uma Jasmine sorridente e se ocupando com tarefas culinárias. Porém, estava vazia. Viu apenas duas panelas quentes descansando sobre o fogão desligado à espera dela. Encontrou café feito numa cafeteira de vidro e metade de um pãozinho velho que Jasmine usou para fazer torradas lameliformes com o intuito de acompanhar a sopa de cenoura numa das panelas. Libby nunca cozinhou na vida e sempre sentia água na boca quando Jasmine preparava algo para as duas. Seus maiores feitos, segundo Libby, eram os pratos com referência do Peru, a terra de origem da colega, como Tacu-tacu e Olluquito com charque.

Considerou em conversar sobre o senhorio durante o jantar, para que as duas resolvessem o aluguel atrasado o quanto antes. Libby se dirigiu até o armário para pegar os pratos, e naquele momento ela ouviu um ruído alto, como um baque seguido por alguma coisa sendo arrastada.

Ela corre até o quarto de Jasmine e a encontra fechando o zíper da sua mala. Os olhares delas se cruzam e Libby levanta as mãos em frente ao corpo, como se quisesse levantar uma barreira para conseguir alguma explicação.

— Ei, Jas, o que está fazendo? Onde está indo?

— Eu pensei no que você me disse ontem antes de sair, sobre ligar para o meu irmão. Eu não estou bem e você estava certa, eu preciso dele. Bom, eu falei com o Jasper hoje mais cedo e eu vou me encontrar ele.

Libby arquejou desorientada. Sentiu-se sufocada pela fugacidade da situação. Tudo acontecendo tão de repente e tão rápido. Jasmine abriu as portas do armário para checar se nada tinha ficado para trás e Libby viu cada canto do quarto vazio, como se ninguém morasse mais ali.

— Espera, Jasmine! Você não pode sair assim. Temos uma porção de coisas para fazer antes e ainda precisamos discutir sobre o senhorio. Não lembra do que eu te pedi ontem? A sua parte do aluguel... Pedi para deixar em cima da mesa antes de eu sair. A gente está com essa porcaria atrasada há dois meses. A gente precisa acertar as coisas antes de você ir.

Jasmine a olhou com ternura, quase fazendo uma súplica. Ela vestiu um casaco e agarrou a alça da mala, como quem diz que não pode esperar nem mais um minuto. Era errado e ela sabia, mas sentia que iria enlouquecer se continuasse presa naquele lugar, encarando os mesmos demônios todos os dias até que algo real acontecesse. Jasmine levou a mão trêmula à testa e lágrimas apareceram no canto dos olhos.

— Desculpa, Libby. Eu preciso ir agora.

Liberty ignorou o semblante de Jasmine, vendo isso mais como um ato de caridade do que metanoia. Ela não tinha se prestado a fazer nada para ajudar a quem a ajudava e achava ridícula uma mulher adulta como Jasmine preferir jogar tudo para o alto à enfrentar as situações. Afinal, os problemas te seguem onde quer que você vá, não importa se Jasmine está ali ou em Ohio com Jasper, nada iria mudar. Então os olhos de Libby arderam em ira, impulsionando um movimento com as mãos para empurrá-la de volta para dentro do quarto. Jasmine foi pega de surpresa, cambaleando até cair sentada na cama.

O cabelo vermelho de Libby se agitava com os movimentos bruscos. Sacudia os braços e mãos enquanto vociferava no quarto.

— De jeito nenhum! Se você for agora e me deixar sozinha, vai me trazer um problemão. Não sou sua mãe para te dizer o que é certo e como deve agir, mas não posso deixar que você ferre comigo de novo! Jasmine, você não vai sair daqui enquanto não me der a droga do dinheiro!

— Você não pode fazer isso.

Na teoria popular, como é comumente propagado, o homem tem um instinto feroz guardado dentro de si e, assim como há milhões de anos os gatos comem ratos e as verdades têm o mesmo valor das mentiras dentro de uma prisão, há um movimento natural de que o ser humano venha a se encontrar com seus impulsos mais primários. E isso nunca ficou tão claro para Libby quanto nesse momento, no microssegundo em que a contiguidade foi confundida com o critério. Os eventos se alinharam no espaço e tempo, jogando ela contra Jasmine e vice-versa.

— Libby, me deixe sair desse quarto. Não sou uma prisioneira!

Jasmine se levanta na pressa e tenta sair mais uma vez, mas Libby bloqueia a saída do quarto com o corpo. As duas travam uma briga de pernas e braços, disputando aquele espaço com empurrões. De todas as pessoas com quem Jasmine poderia dividir um apartamento, acabou morando com uma maníaca por falsa opulência e descontrolada. Dividiu a culpa do conflito com Libby, sentindo-se tão errada quanto ela, mas a prioridade era tirá-la da frente da porta.

— Vamos conversar, Libby. – Jasmine segura o cotovelo dela para chamar a sua atenção e Libby o puxa com força, perdendo o equilíbrio. As duas caem no chão, com Jasmine por cima. Ela pôde sentir a onda de álcool no hálito de Libby e seu ataque ficou mais claro. – Isso é maluquice! Me solta!

As pernas de Libby se cruzaram em torno da panturrilha de Jasmine quando esta tentou se levantar, provocando um tropeço quase imediato. Um estalido surdo foi ouvido quando o seu joelho acertou o chão. Ela abafou um gemido de dor e sentiu Libby se debruçando sobre seus calcanhares, puxando-a com força por trás. Jasmine foi arrastada de volta até o batente da porta em questão de segundos.

— Jasmine! – Ela esbravejou. – Apenas concorde. A gente pode negociar depois, só mantenha a calma. Você tá louca! Desde que o seu namorado morreu, você tem ficado que nem um zumbi. Para de ser uma esquisitona e pensa, garota! Quando você foi passar aqueles dias lá na casa dele, você me deixou bem ferrada aqui sozinha, e eu não vou passar por isso de novo.

Jasmine sentiu o assoalho roçagar contra a sua bochecha, o gosto da madeira penetrando sua boca e fazendo um corte em seu lábio superior. Ela debateu as pernas a fim de se soltar, mas Libby foi mais rápida e retorceu os pés dela para que seu corpo se virasse de encontro com o chão. Jasmine tentou se segurar num dos pés de uma cadeira próxima, mas falhou. Suas unhas afundaram na madeira do piso e fizeram linhas tortuosas quando Libby a puxava com mais ímpeto.

Uma dor cruciante radiou das pontas de seus dedos e percebeu que eles sangravam.

— Libby, para! Tá me machucando!

Ambas voltaram para o quarto de Jasmine. Libby se agachou atrás dela e envolveu os braços em torno de seu peito, puxando-a para cima.

— Vem, vou te colocar na cama. Amanhã você vai estar melhor e vamos resolver tudo.

Ela é louca!

Jasmine desfere uma cotovelada para trás, acertando o peito de Libby. As duas caem simultaneamente e se debatem no chão. Uma tenta se afastar, a outra a puxa de volta. Um tapa estala no rosto de Jasmine e ela sente a pele ficar vermelha e sensível. Ela engatinha em direção à porta outra vez, cheia de dor nas mãos. Percebeu o sangue vertendo sob três unhas, e entendeu a gravidade quando uma delas descolou da pele.

— AH! – O gritou saiu do fundo da garganta.

Libby apareceu atrás dela com os olhos inchados, apoiando as mãos em seus ombros. Ela está com uma expressão de escárnio que não vacila por um segundo.

— Calma, meu Deus! A gente pode dar um jeito nisso.

A razão é arrancada de Jasmine com violência e é nessa hora que decide que tem que fugir dali. Ela não tinha tanta certeza quanto as palavras de Libby levava a crer... Na verdade, ela estava com medo. Medo de ficar ali. E medo de ficar ali com Libby. A mulher que Jasmine conhecera antes era petulante e atrevida, mas nada nunca chegou ao ponto de imaginá-la numa briga física.

— Fica longe de mim! – Jasmine crispou os punhos e acertou um soco no rosto de Libby, soltando-se do seu agarre. A garota é impulsionada para trás e cai de bunda no chão, se apoiando sobre os cotovelos para que possa se levantar mais depressa. Uma mancha roxa aparece na maça de seu rosto.

Talvez Liberty tenha se erguido rápido demais, ou, pelo menos, rápido o bastante para se lançar à frente. Jasmine se arrastava para fora do quarto, riscando o chão com unhas carcomidas e peito ofegante. O peso de Libby sobre as suas pernas a encheu de angústia: queria se mexer, mas Libby parecia uma bola de ferro presa ao seu tornozelo.

As duas distribuíram golpes em tudo o que podiam alcançar. Sacudiu as pernas com tanta veemência que Jasmine conseguiu libertar uma delas. Com o pé solto, acertou um chute contra o pescoço de Libby, jogando-a para trás. É claro que Libby iria se levantar e tentar impedi-la novamente, pois essa briga já tinha deixado de ser sobre algo em comum e tonara-se uma guerra confessa, movida pelo orgulho e o mau comportamento, para medir forças.

Jasmine se alçou para cima com os cotovelos e circuitou o quarto a procura da mala. Viu Libby estrebuchar ao lado da cama, inalando profundamente, então expirando e tossindo. Aquilo a fez se sentir patética e pequena, como as rixas que tinha quando ainda era uma estudante na escola, mas soube que tudo o que viveu quando criança fora uma preparação para o que encontraria mais tarde na vida adulta.

Ela chegou na sala, sem mais nenhuma palavra. Abriu a porta e se assustou com a Sra. Marchmont a encarando do outro lado do corredor. A mulher estava com olhos preocupados e seus lábios tremiam, o choque estava claro em seu rosto.

— Minha filha... O que está acontecendo aí?

Jasmine se obrigou a virar para o outro lado para que a vizinha não a visse chorar.

— Nada, Sra. Marchmont. A Libby enlouqueceu. Aquele jeito dela, sabe?

— O que é isso nas suas mãos, minha querida? É sangue? – O tom condescendente chama a atenção de Jasmine.

Ela tinha se esquecido das feridas nos dedos até olhar para eles. Tinha mais sangue e um pouco dele escorria pela alça da mala. Sentiu medo da dor que chegaria até ela depois que a adrenalina do seu corpo passasse.

— Sra. Marchmont, é melhor a senhora entrar e ficar aí dentro. – Disse Jasmine puxando a mala para a escada. – Volte para a sua casa que é mais seguro.

— Mas o que...

Um vulto passou correndo pelo corredor. Saiu de dentro do apartamento de Jasmine e saltou sobre a garota. Certas forças naturais – ou sobrenaturais – que moviam Libby em direção ao confronto poderiam ter desencadeado os mesmos efeitos furibundos ao se jogar contra Jasmine naquele hall. E com esse pensamento veio a perversidade da tentação que iria inflamar o sangue de Jasmine.

Os socos saiam rápido demais dos ombros de Libby e iam parar no peito e rosto de Jasmine. Ela tenta se defender com as mãos na frente, mas ela se contorce quando os socos acertam seus dedos machucados.

— Pare com isso! Pare com isso, garota! – A Sra. Marchmont gritava.

Libby era uma bagunça nessa hora. Seu cabelo era um aglomerado coralino de fios esgrouvinhados. A roupa estava toda amarrotada e suas mãos estavam machadas de sangue – que não se podia dizer se eram dela mesma ou de outra pessoa. Ela deu um soco tão forte em Jasmine que ela caiu. Espirrou um pouco de sangue da temporada de Jasmine em Libby, que se chacoalhava tanto que era difícil controlar.

— Libby! Libby! Para... Para com isso. – A voz de Jasmine falha em meios aos golpes.

Jasmine levanta os joelhos, tentando a afastar, então devolvendo dois murros desconcertados. Pareceu que Libby não tinha sentido nada, completamente anestesiada pelo ódio. Ela se prepara para atacar novamente como um touro rábido, mas Jasmine levanta as duas pernas e empurra para longe. Libby cambaleia e tropeça na mala de Jasmine, rodopiando por cima do objeto e escorregando pelo limiar da escada.

— Ai, meu Deus! – Um grito rouco escapa da garganta da Sra. Marchmont enquanto ela e Jasmine se aproximam da beirada da escadaria.

Libby dava voltas e voltas sobre os degraus. Um estalo, tão assustador quando o rugido de um trovão, ecoou no vão da escaleira quando Libby acertou o patamar. Seu corpo estava numa posição torta, desconfortável aos olhos, com as pernas se atravessando de forma perpendicular e um dos pés dobrados para trás. Os ombros se retorciam sob o próprio corpo e o bico quebrado de um osso atravessava a pele do cotovelo. Não havia respiração e uma faixa espessa de sangue escorria pela entrada.

White ghost: a vision of yourself, a fraction of yourself

It’s the other side of you

While I was suffocating and feeling isolated

I never see your truth

Notas finais
☠ - Obrigada por ler :D Não esqueçam de comentar, isso me deixa muito feliz < 3