Premonição Chronicles
21 Capítulo 20: Quando As Nuvens Se Transformaram Em Chuva?
Notas iniciais
O tênis roxo de Marina esmagava a grama do terreno sombrio e solitário. Ela nunca gostou de cemitérios, muito menos a noite. Mas estava monitorando os passos de Felipe desde… bom, sempre. A garota havia tentado terminar com ele há alguns meses, logo após o acidente no museu, mas voltou o relacionamento logo em seguida. Ela só queria fazer o rapaz acordar para a vida. E não no sentido de parar de fazer maldade, muito pelo contrário…
Estava conversando com Chemim pelo Whatsapp, quando ele disse que iria sair. Desde que sua perna foi amputada e sua prótese chegou, ele não havia saído de casa. Marina o conhecia, ele ia começar a agir novamente. Então foi rapidamente para a casa dele, onde começou a seguí-lo.
Depois de algum tempo, acabou se perdendo dele, tentando não ser notada, mas no final das contas viu ele entrando no cemitério. A luz já havia caído há muito tempo e o sistema de iluminação do local não era uma das melhores. Depois de rodar o cemitério, Marina encontrou o namorado. Ele se encontrava perto do túmulo de Márcio, terminando de desencavar a cova do falecido.
–Então você recomeçou… -ela disse, mantendo as mãos nos bolsos de sua jaqueta roxa.
–Era o que você queria que eu fizesse, não?-ele perguntou, continuando a cavar. A namorada se surpreendeu com a agilidade que ele conseguia cavar a terra. Ele só tinha força e equilibrio em uma das pernas, já que a prótese não ajudava muito. Seu jeito magricela não contribuía para sua força.
–Às vezes você não é tão lerdinho quanto parece… -ela disse dando uma risadinha.
Felipe então pegou um saco preto que estava do lado da cova e começou a jogar os ossos de MV. Então, com muito cuidado, sentou na borda da cova, girou as pernas e levantou-se. Pegou o saco, que já estava cheio de ossos, e jogou por cima do ombro direito. Se aproximou da namorada. Seus olhos fitaram um ao outro e então se abraçaram.
–Eu sinto muito por toda essa desgraça que está acontecendo… -ele disse com a voz amargurada.
–Felipe, não peça desculpas… nada disso é culpa sua… -Marina disse delicadamente.
–Sabe… quando seus pais me levaram para te ver no hospital, foi a melhor vista que eu já tive na minha vida, que foi você viva. Eu fiquei tão desesperado quando pensei que você tivesse morrido… e agradeço por todo apoio que você me deu…
–E por apoio você quer dizer se aproximar do Pedro e sair com ele para conseguir dar continuação ao seu plano?-ela disse dando uma risada. O namorado sempre trouxe essa aura alegre para ela, mesmo nos piores momentos. Ela então passou os braços pelo pescoço do namorado-Porque se for, não precisa agradecer… aliás, precisa sim.
–Pode ser com um beijo?-ele perguntou, mas não esperou resposta e a beijou. Apesar de todas as desgraças que aconteceu na sua vida ultimamente, agradecia pela cera quente não ter tido contato com sua boca, que estava intacta para um bom beijo em uma garota bonita. A garota bonita, no caso, a Marina, obviamente.
Estarem juntos era uma das melhores coisas para eles. Depois de todo sofrimento separados, de todas as desgraças acontecendo com Felipe, com as constantes dores de cabeça de Marina, com a morte por perto, um beijo romântico vinha em boa hora.
Assim que Pedro começou a se aproximar de Marina, Chemim começou a arquitetar outro plano. Ele não queria usar a garota nisso, iria até desistir de tudo que tinha em mente, mas ela insistiu em ajudar. Mesmo sabendo dos riscos e consequências que poderiam acontecer. O rapaz ficou muito confuso quando ela ficou revoltada após a explosão no museu. Então resolveu colocar seu plano sujo em ação. Duas semanas depois, Marina apareceu em sua casa e eles reataram, mesmo que nunca tivessem terminado oficialmente.
Uma das melhores qualidades de Marina, é que ela não achava a beleza fisica fundamental para alguém. Não ficou horrorizada nem com pena de seu namorado ao vê-lo com meio rosto desfigurado. Apenas ficou de seu lado, dando apoio. E era tudo que ele precisava.
–Meu belo fantasma da ópera… -ela disse, se referindo a ferida. Isso podia ser considerado como uma ofensa se fosse dito por qualquer um, mas Marina tinha dom de fazer tudo parecer legal e fofo ao sair de sua boca-Depois de tudo isso que você sofreu, eu não queria que desistisse de tudo… Eu sabia que você iria ficar muito puto se eu me afastasse de você e naturalmente iria re-atacar. A justiça tem que acontecer.
Felipe apenas concordou com a cabeça. Ele estava perdendo o controle. Não tinha foco em seus objetivos. Mas Marina havia colocado sua cabeça no lugar.
Após alguns minutos abraçados, Chemim pegou o saco com as ossadas e jogou perto de uma árvore. Lá já estavam alguns materiais que ele havia trazido antes. Álcool, gasolina e fósforos…
–Você pegou os ossos de todos os falecidos? -Marina perguntou, logo atrás dele, enquanto ele jogava álcool e gasolina no saco e na árvore.
–Sim… Vi até uma oferta de um grupo de magia negra satanista que queria ossos frescos para alguma coisa, tipo um estupro satânico. E eu ia vender a ossada do MV ou do Emerson… mas aí ia sentir pena de quem fosse estuprado com ossos desses dois. –ele disse por fim, e então riscou o fósforo e jogou no saco, que queimou de imediato.
O casal saiu abraçado, com ela olhando céu escuro enquanto ele mancava. Chemim parecia uma versão brasileira de Gus de “A Culpa É Das Estrelas” com “O Fantasma Da Ópera”. Depois de alguns segundos, as chamas contaminaram a árvore que estava por perto e algumas senhoras começaram a gritar e sair correndo. Tudo queimava como um ódio ardente.
***
Já passava das 3 da manhã quando Pedro acordou de seu terceiro pesadelo naquele dia. E era sempre o mesmo sonho (ou pesadelo, no caso): ele estava em uma sala escura, com a visão quase totalmente escura. Vultos, para variar, escuros, rodavam em sua volta, sussurrando em seu ouvido com vozes distorcidas.
“Você me deixou morrer.”
“Vou te matar.”
“Você me abandou por quê, Pedro?”
“Você é um inútil!”
Ele estava cansado disso. Todos o julgavam como inútil. Ele devia ser um protagonista como Alex ou Wendy, não um otário como Nick. Ele parecia mais um personagem que morria primeiro do que com um “O Grande Visionário”. Se sentia mais culpado a cada dia pelo Vinicius estar internado.
Felipe, Keth, Vinicius, João e ele mesmo. Os sobreviventes da lista. Os sobreviventes da visão. Ele sabia quem era o próximo: Chemim. E depois de tudo que o inimigo fez, Peeh tomou uma decisão: não irá salvá-lo de novo.
***
Keth já nem sabia mais que horas eram. Não conseguia mais dormir. Sua mão deslizava carinhosamente pela barrigona. Depois de tanto tempo, ela não conseguia processar tudo isso. Lista da morte, sobreviventes, visão, o fato dela estar com a salvação de seus amigos dentro dela… Kevin era a salvação. Faltava muito pouco tempo para que estivesse na hora do parto. Assim que Kevin nascesse, todos estariam salvos. Uma nova vida salva todos, certo? Pelo menos era isso que eles haviam aprendido.
Keth estava pensando em Vinicius internado, quando Kevin deu um chutinho.
–Hey, o que foi? Calma, meu pequeno garoto… -ela disse com a voz mansa, massageando a barriga.
Em um susto, pensou ter visto um vulto na sua janela. Mas deveria ter sido sua imaginação. Ninguém conseguiria alcançar aquela janela… pelo menos era o que ela esperava…
***
Alisson odiava o frio da manhã. Alisson odiava qualquer frio em qualquer hora. O frio fazia ela vestir mais roupas, e roupas pesadas, que a deixariam lerda. Ela se sentia muito dormente, mesmo depois da alta que teve do choque que levou. Ainda sentia muitas dores e tinha queimaduras pelo corpo, mas nada abalava sua pose de durona.
Assim que recebeu o convite de Marina para ir em sua casa, ficou preocupada. Todos os sobreviventes estavam afastados um do outro há muito tempo. E todos estavam salvos, o que poderia concretizar a teoria de Vini. Marina havia dito que tinha informações sobre Felipe, mas mesmo assim Alisson ficou angustiada. O que ela queria?
Mesmo cheia de dúvidas, Alisson aceitou o convite. Qualquer informação nova seria bem vinda. Assim que dobrou uma esquina e viu uma casa amarela a algumas casas adiante, avistou Marina na janela, com uma expressão que misturava ansiedade e nervosismo. Os carros passavam apressadamente, fazendo uma onda de vento que atingia os cabelos de Alisson.
A morena mal passou pelo portão da casa e Marina já estava na porta, fazendo sinal com a mão para que entrasse logo. A garota de óculos logo pediu para que Alisson se sentasse, mas a mesma recusou, se encostando em uma parede.
–Então… O que você tem pra me contar sobre o Felipe?
–Acho que ele tá planejando ir atrás de vocês… um a um… ele tem sede de coisas horríveis!-Marina disse em tom de assustada.
–Que coisas horríveis?- Alisson perguntou. Aquele papo todo era muito estranho.
–Eu não sei… ando vigiando ele há um tempo. Ele parece perturbado demais. O rosto desfigurado, a perna amputada… tudo isso está transformando cada vez mais a mente sociopata dele.
–Entendo… obrigada pela preocupação. Ficarei de olho naquele desgraçado… -Alisson falou raivosa. Só faltava espumar pela boca.
–Olha, não faça nada precipitado. Ele é perigoso e pode te machucar… Ainda mais depois do acidente que houve com você… Desculpe, notícias correm… -Marina disse, pegando na mão da outra garota-Meu Deus, sua mão está muito gelada! Parece um defunto… vou pegar uma xícara de chá para você, o frio lá fora deve estar intenso demais…
–Não precisa, eu já vou indo…
–Por favor, aceite. –Marina disse, se encaminhando para a cozinha-É o mínimo por ter vindo até aqui.
Alisson não teve muita escolha após Marina voltar com uma xícara enfeitada com flores rosas e azuis. O chá soltava uma fumaça que cheirava a cravo, mas seu gosto era algo mais doce, como hortelã. Ela tomou tudo em um só gole, enquanto Marina a olhava sorrindo.
–Todos estão bem não é? Pedro e sua turminha…?-Marina perguntou.
–Ah, de acordo com minhas ultimas informações, sim. -Alisson respondeu-Keth vai ganhar o bebê no final do mês, mais ou menos. Uma nova vida destrói o designo da morte. Logo tudo isso vai acabar.
–Aposto que sim. –Marina falou.
–Bom, agora tenho que ir… obrigado por tudo. Vou avisar a galera sobre o que me disse. Se tiver mais alguma notícia sobre Felipe, me avise. Te darei meu número. –Alisson disse e então passou o telefone para a garota.
A morena saiu da casa da outra morena e então partiu pela calçada, com passos apressados. Teve um choque mental térmico ao passar de um chá quente para um frio gelado. Mas isso não a abalou. Era durona.
Sua vista começou a embaçar. Droga, devia ter dormido melhor nesses ultimos dias. Cruzou os braços junto ao peito e apressou mais ou passos. De repente, recebeu uma ligação.
–Olá… -uma voz sinistra disse do outro lado da linha.
–Quem é?-Alisson perguntou.
–Não vai nem me dizer “olá”…? Sou um velho amigo seu… -a voz disse. Alisson a reconhecia, mas não lembrava quem era.
–Olha aqui, seu engraçadinho, pare de palhaçada! Se você me ligar de novo eu vou atrás de você, nem que seja até o inferno pra enfiar um tridente na sua garganta!
–Então cuidado… pois estou bem atrás de você. –a voz falou misturando ironia e crueldade.
Alisson gelou. Seu corpo começou a tremer e a visão estava ficando mais turva. Ela se virou lentamente e então viu quem ela temia: um rapaz com o rosto desfigurado e mancando. Ele então apertou o botão de desligar do seu celular e guardou em seu bolso. Depois de alguns passos, os dois estavam frente a frente, perto do meio fio.
–O que você quer, seu babaca? –Alisson perguntou irritada.
Felipe deu uma risadinha sarcástica e se aproximou do ouvido dela.
–Você… sabe… muito… bem… -a cada palavra dita, a garota ouvia um eco em sua cabeça. O que estava acontecendo com ela?
–Você vai pagar por tudo que você fez. E eu sei que você está aprontando algo! Vou avisar todo mundo… você já é muito odiado, porque não some da vida de todos? –ela disse fechando a cara. Suas pernas agora cambaleavam.
Chemim deu dois passos para o lado, ficando distante da rua, enquanto Alisson estava de costas para ela.
–A vida de vocês não teria nenhuma graça sem mim por perto… e você não vai avisar ninguém, pode ficar tranquila. –Felipe disse dando uma risadinha macabra.
–Porque… -ela se sentiu tonta-O que está acontecendo…?
–Ah, qual é… Vai dizer que você confiou mesmo em ir na casa da Marina? E ainda tomar um chá?-Felipe começou a rir mais ainda-Aposto que você nem sentiu o gosto do ingrediente especial que tinha nele… Marina nunca ficaria contra mim. O chá tinha um pózinho tipo “Boa Noite, Cinderela”…
–Aquela filha da…
–Opa, opa!-Felipe repreendeu-Bom… parece que já está fazendo efeito, então… Boa noite, Alisson.
Em um rápido movimento, ele deu um pequeno empurrão nela, que poderia ter resistido e ficado no meio fio, mas ela já não estava totalmente consciente. Sentiu as pernas bambas e quase caiu de joelhos no meio da rua. Se encontrasse forças, poderia pular de volta para a calçada, mas ouviu um barulho esquisito, como se fossem milhões de abelhas juntas… não, era uma buzina. Olhou para o lado e viu dois olhos iluminados em choque contra ela. Ela rolou pelo capô do carro e foi jogada para trás, caindo no meio fio como um saco de carne.
Estava sentindo muita dor no corpo, mas o efeito da droga que tomou funcionava como uma anestesia. Felipe chegou apressado, ajoelhando ao seu lado, fingindo preocupação. Uma roda de pessoas estava em sua volta.
–Alguém chama a ambulância, pelo amor de Deus!-Felipe gritou-Droga! Hey, prima, acorde…
Ele fingia tentar acordá-la, dando tapinhas em seu rosto e nos braços. Ela rodava a cabeça de um lado para o outro, com os olhos quase fechados. Então Felipe se aproximou de seu ouvido e cochichou:
–Isso é por se intrometer onde não foi chamada… e ah, dá próxima vez que vier dar uma de índia guarani e me atingir, irei enfiar aquelas flechas no seu cú. Durma bem, querida…
Alisson fechou os olhos, desmaiada, tanto pelo impacto quando pelo chá. Se sobrevivesse, já tinha decidido que beberia só água…
***
João estava deitado em sua cama. Tentava lembrar qualquer fio de ligação entre as teorias dos filmes e a realidade. Mas não achava nada. Apenas uma conclusão: no final todos morrem. E não era isso que ia acontecer com eles?
O garoto havia tentado achar várias teorias. Tentou quebrar a teoria de Vini? Não. Ganhou algum reconhecimento de Pedro pela sua reflexão filosófica? Não. Aliás, quem era Pedro na fila do pão? Deixou todo mundo morrer mas salvou o cara que ferrou com todo mundo depois.
Nosso herói…
Passou o olho pelo player de música, tendo várias da Alexz Jhonson. Mas resolveu não escutar nenhuma, não estava com clima para isso. Mas foi quando leu o nome da música “Give Me Fire” que ele teve uma ideia para quebrar todas as teorias.
–É isso… -ele disse arregalando os olhos.
Tentou ligar imediatamente para Pedro, mas o mesmo não atendia.
–Que se dane, vou até a casa dele. –então pegou um casaco, colocou e saiu correndo de sua casa.
Alexz Jhonson pode ter salvado a lista.
***
Marina estava jogada no sofá, com as pernas sobre o namorado.
–Então, o que houve com a Alisson?
–Ah, nada demais. –Felipe disse-Acho que aquela piranha não vai morrer, mas pelo menos deve ter aprendido a lição.
A garota não respondeu nada. Invés disso colocou a mão na cabeça e fez um careta, obviamente com dor.
–Amor, o que houve…?-Felipe disse, tentando ficar o mais perto possível dela.
–Não foi nada, tá tudo bem…-ela tentou se desculpar.
–Não, não tá tudo bem. Eu percebi que você tá tendo essas dores faz tempo. Me conta o que houve. Agora.
–É que… desde que eu saí do hospital, mais ou menos três semanas depois, eu estou tendo umas dores de cabeça de vez em quando. Mas não deve ser nada demais…
–Porra, Marina! Você devia ter me contado ou procurado um médico!-Felipe disse alterando o tom de voz.
–Ninguém ia ligar isso… -Marina disse baixando o olhar.
–Eu ligo. –o garoto respondeu, puxando o rosto dela e dando um beijo-Daqui a pouco vamos ao médico.
Ambos se levantaram, mas Marina sentiu a maior dor de todos os tempos e caiu no chão.
–Marina!-Felipe gritou.
A garota já estava desmaiada no chão.
***
Vinicius estava deitado na cama branca, com um lençol branco, dentro de uma parede branca e com um pijama de hospital azul. Era praticamente um centro budista cheio de aparelhos e tecnologia. Uma enfermeia entrou no quarto para ver se estava bem e checar tudo.
O homem tinha o cabelo estilo Wolverine maior e não acordava há tempos. Ou seja, era praticamente um urso hibernando em um hospital ao leste da cidade. A enfermeira verificou os aparelhos, viu a pulsação dele e tudo mais. Tudo estava normal. Havia se inclinado um pouco de forma que se Vini estivesse de olhos abertos, teria uma bela visão do decote dela.
A moça já estava saindo do leito quando deu uma última olhada nele, e então viu sua mão se fechar.
***
Enquanto isso, no hospital no centro da cidade, os enfermeiros levavam Marina em uma maca.
Droga, droga, droga!
–O senhor não pode passar daqui. –uma enfermeira interrompeu a passagem de Felipe.
–Mas eu sou o namorado dela!-ele se irritou.
Tentou vários modos, mas não conseguiu passar. Foi obrigado a sentar e esperar alguma notícia. A notícia em questão era:
–Infelizmente uma sequela no cérebro de Marina, que ela sofreu no parque, reagiu de uma maneira não esperada. –o médico que cuidou dela antes, explicou-Ela sofreu por muita coisa ultimamente. Mas não se preocupe, ela está ligada aos aparelhos e se ficar lá, vai ocorrer tudo bem.
–Eu posso vê-la?-Felipe perguntou, desesperado, mordendo o lábio inferior.
–No momento ela está repousando, dormindo e não está no horário de visitas. Então volte mais tarde. Vai ficar tudo bem, amigo.
Felipe deu meia volta e foi embora. Odiava homens que chamavam semi-conhecidos de amigos. Iria voltar e ficar plantado ao lado da cama da namorada quando voltasse. Ela podia ter passado mal pro sua causa. Pela pressão. Pelo plano todo. Felipe se sentia culpado.
Mas decidiu que ia acabar logo com esse plano todo. Marina havia terminado para dar raiva e coragem para ele prosseguir, então ele iria prosseguir. Antes de perder o hospital de vista, olhou as obras que estavam do lado e pela primeira vez sentiu um arrepio do tipo “A-Morte-Está-Atrás-De-Você”. Mas dane-se, estava na hora de explodir tudo.
***
How did it get so complicated?
When did the clouds turn into rain?
Now looking back it makes me wonder
If it could ever be the same?
(…)
Rewind, rewind, rewind
Baby why don’t we just press rewind?
(G.R.L. – Rewind)
João corria, só que mais em passsos largos do que em corrida. Durante o caminho tentava ligar para Pedro, mas só caía na caixa postal.
–O que esse infeliz está fazendo que está longe do celular?-João disse. Então mandou uma mensagem de que estava indo para a casa dele, torcendo para que o mesmo visse.
Em uma barraca no meio da esquina, uma cigana dançava loucamente ao som de “Anaconda” da Nicki Minaj.
–Aproveitem! Aproveitem a consulta astrológica enquanto a chuva não chega! Venham até Madame Tereza!-a cigana gritava entusiasmada, rebolando como uma funkeira jamais faria.
O garoto estava com tanta pressa que nem havia percebido as nuvens negras no céu. Só quando os primeiros pingos começaram atingir seu corpo e todo o resto.
–Merda!-ele disse, erguendo o capuz da sua blusa.
Os ventos quase arrancavam as poucas àrvores que existiam pela cidade e parecia que jogavam os pingos da chuva diretamente contra João. Ele desistiu de lutar contra a natureza e então avistou que a porta do velho e abandonado teatro estava aberta. Resolveu se esconder lá enquanto a chuva não passasse. Estaria seguro. Pelo menos achava isso.
Fazia tempo que não estrava lá. Muitas peças escolares já tinham acontecido por lá. As várias fileiras de poltronas de couro vermelho agora acumulavam uma camada de poeira. O velho palco então parecia um deserto de poeira e com teias de aranha. Ele começou a andar por um dos corredores entre as poltronas. Pela cara da tempestade, passaria por lá um bom tempo. Atrás da grande cortina vermelha, ele viu um movimento, uma pessoa se mexendo atrás dela.
–Hey, quem está aí?- ele perguntou. Sua voz ecoou pelo local. Trovões como um grande tambor complementaram a sinfonia. Relâmpagos iluminavam tudo como grandes holofotes e raios cortavam o céu.
João se aproximava com passos lentos da cortina, quando um vulto manco saiu de lá.
–Relaxa, sou eu… -Felipe disse, descendo do palco com uma mochila nas costas.
–Ah, você. –João disse, fazendo um “eyes rolling”-Também está se escondendo da chuva?
Felipe fez uma cara de confuso e olhou por uma das janelas no alto do lugar.
–É, não está se escondendo… o que veio fazer aqui?
–Só vim pegar algumas lembranças que tinha aqui. –Felipe disse, passando por João.
–Você já fez teatro? Isso explica sua falsidade. –João ironizou.
–Diga o mesmo para Pedro. Ele era meu… coleguinha de teatro. –Felipe disse, virando-se para o outro garoto.
–Olha, falando nisso, o que você anda fazendo não é legal… aquilo do museu, é uma loucura surreal. –João disse.
Felipe deu uma risadinha.
–Cara, você quer me dar uma lição de moral?-disse o manco sarcástico.
–É melhor você ficar na tua… -João disse dando um empurrão em Felipe, que só se manteu de pé porque se apoiou em uma poltrona.
–Fica você na tua!-Felipe disse e em um rápido movimento agarrou a gola de João e com um golpe de judô o derrubou no chão. Um manco nunca foi tão rápido.-Além de teatro, eu já fiz judô… e da próxima vez que você cruzar meu caminho, vai ser a última vez…
Felipe largou João caído no chão e então se encaminhou para a saída.
–Embora eu ache que a gente não vá mais se ver…
E com essa frase, o rapaz magricela saiu do teatro, mergulhando no meio da tempestade.
***
The clock ticks life away
It's so unreal
Didn't look out below
Watch the time go right out the window
Trying to hold on, but didn't even know
I wasted it all
just to watch you go
I kept everything inside
And even though I tried
It all fell apart
What it meant to me will eventually be a
memory of a time
(Linkin Park – In The End)
Essa música era uma das favoritas dessa banda para Keth. Mas ela não se lembra de ter colocado o rádio para tocar quando havia deitado para tirar um cochilo. Ainda não havia aberto os olhos, estava curtindo o som, quando se espreguiçoue coçou os olhos. Tudo estava escuro e uma tempestade caía lá fora, disputando a sonoridade com a música.
Ela abriu os olhos. Não estava com a visão totalmente focada, quando um relâmpago iluminou o quarto e mostrou uma sombra na parede oposta.
–Quem… quem tá aí?-ela perguntou se levantando rapidamente e sentando-se na cama, assustada.
Com a mão segurando a barriga, como se Kevin estivesse pendurado por um fio, Keth andou até seu computador, daonde vinha a música. Ela apertou stop e então analisou a janela aberta de um vídeo com o nome “Vini”. Ficou curiosa. De onde viera aquilo? Com medo, resolveu apertar o play. A cena que seguiu a deixoupasma.
No vídeo que era transmitido, Vini aparecia desnudo da cintura para baixo, com uma garota morena em cima dele, fazendo movimento sexuais. A trilha sonora do vídeo era um funk escroto que misturava as palavras “pau” e “trampolim” de uma forma nada elegante.
–Gostou do vídeo do seu amado? Achei perdido pela internet. –uma voz disse do lado do interruptor.
–Saia da minha casa, ago…
–Hey, hey, hey… isso é jeito de tratar as visitas? E ah, que falta de educação a minha, deixe-me te dar um oi direito.
O interruptor foi apertado e logo uma luz se acendeu. Keth teve um momento rapido de cegueira até seus olhos se acosturarem a luminosidade repentina. Olhou então para Felipe, que estava com um sorriso psicótico no rosto e as mãos escondidas nas costas. Mas o que mais a assustou era o que estava espalhado pelo quarto: vários quadros de palhaços, na mesa, nas poltronas, no chão, nas paredes. Alguns palhaços eram normais, quase inocentes, outros aterrorizantes, cheios de sangue e armas mortais. Um boneco de palhaço se encontrava do lado de sua cama, olhando fixamente para ela. Como ela não tinha visto nada disso, mesmo no escuro?
Keth sentiu Kevin chutando novamente. Ela estava tonta e perturbada. Sextape do Vinicius e um exército de palhaços. Como se lesse seus pensamentos, Felipe disse:
–A propósito, a moreninha ali do vídeo é a Alisson. Sei que você deve estar com raiva, mas não se preocupe, ela deve estar numa cama de hospital, desacordada…
Kevin chutou de novo. Keth olhou para o barrigão e disse:
–Que se foda, filho…
Felipe soltou uma risadinha provocante.
–Você é doente!-Keth disse rosnando. Ela estava passando mal… Sextapes, palhaços, um psicopata invasor. Ela sentia Kevin se remexer em sua barriga.
–Ah, já me chamaram de coisas piores, então está tranquilo… -Felipe disse, dando de ombros.
–Sabe o que você devia fazer?-Keth disse se aproximando-Devia voltar a usar óculos para ver se consegue se enxergar…
Keth cometeu o erro de chegar perto demais, que foi quando Felipe tirou uma pá de trás dele e acertou o rosto de Keth em cheio, mas não com muita força. A mulher caiu no chão, batendo sua barriga numa das poltronas e rolando. Sangue escorría de seu nariz. Ela começou a se arrastar, até que deu de cara com a figura de um palhaço e se encolheu, assustada. Felipe também tinha coulrofobia, até onde ela sabia, mas sua sanidade havia sido levada e ele não tinha medo mais de nada.
–O que você quer de mim?-Keth disse.
–De você? Você não era nem para estar viva… -Felipe disse rindo, pisando em cima de um dos tornozelos dela, que gritou de dor.
A chuva lá fora estava mais intensa.
–Sabe… eu sou o próximo da lista, sei disso…
–Meu bebê pode salvar todos nós!-Keth gritou, interrompendo.
–Quem disse que eu quero ser salvo? Já fui uma vez e só aconteceu merda na minha vida… Minha namorada está no hospital, a base de aparelhos… Não é essa vida que eu planejava ter! Eu sei que vou morrer logo, sinto isso… -Felipe disse.
Keth se arrastou afastando-se do psicopata e tentou se levantar usando a cama como apoio, mas Felipe se aproximou e a empurrou na cama, que caiu de barriga para cima.
–Por favor, me deixe me paz, eu imploro… -Keth disse, com os olhos lacrimenajando. Ela massageava o barrigão, que doía intensamente.
–Está doendo, não é? Você está quase perdendo o bebê. Não se preocupe, só vou te ajudar… -Felipe disse dando meia volta.
Tudo se juntava para perturbar Keth. A mente e o corpo. Palhaços. Batidas. Ela sentia que seu filho estava indo embora.
–Eu faço o que você quiser, mas vai embora… -Keth disse mais uma vez. Mas ela sabia que era inútil, Felipe estava descontrolado.
–É, poderia até fazer… -Felipe disse. Ele estava de costas para ela, procurando algo em sua mochila-Mas sabia que se não fosse você, algum daqueles desgraçados podia ter morrido?
–Eu também salvei sua garota, seu desgraçado!-Keth gritou. Olhou para o lado, havia a figura do assustador palhaço de “It! Obra Prima Do Medo” e do outro havia outro boneco. Ela paralisou.
–Marina estava comigo o tempo todo!-Felipe gritou de volta-Ela sabia como sair de lá! Existia túneis secretos e… ah, achei!-ele concluiu vislumbrado.
Então levantou a mão e deu para Keth a pior visão de sua vida. Na mão dele estava erguido um pequeno facão, de uns 30 centímetros. Ao ver aquilo, Keth saiu da paralisia, e tentou fugir, saltando da cama, mas acabou tropeçando em um dos quadros de palhaços e caiu de barriga no chão, de novo.
–Nossa, como você é desastrada hein… -Felipe disse se aproximando, raspando o facão na borda da cama-Não se preocupe, eu disse q ia te ajudar.
–Não, por favor… -Keth implorou, em lágrimas.
Felipe girou o facão para baixo e então o levantou, mirando na barriga de Keth.
–Sinto muito pela sua perda, era um garotinho adorável. –Chemim disse e então desceu o braço, acertando em cheio o barrigão de Keth, que urrou de dor.
Sangue começou a escorrer pela ferida, enquanto Keth gritava cada vez mais, com uma dor indiscritível. Felipe ainda cravou a faca mais ao fundo. Sentiu que havia atingido algo. Kevin. Tentou dar uma rodada com o facão, mas já estava cravado.
–Bom, agora tenho que ir, tenho outros compromissos… -Felipe disse, tentando fazer sua voz soar mais alto do que os gritos agonizantes de Keth.
Keth havia perdido as forças. Keth havia perdido os sentidos. Keth havia perdido o sentido da vida. Keth havia perdido Kevin.
***
João nunca teve simpatia por chuvas e tempestas, muito menos agora. Se em um tempo bom o sinal do celular já não era aquelas coisas, agora muito menos. Sair lá fora seria suicídio e contando com a sorte que a turma tinha, era possível ele levar um raio. Alisson tivera uma experiência parecida há meses.
Mas ele precisava falar com Pedro. Resolveu dar uma volta pelo teatro, na esperança de ter algum guarda-chuva abandonado. Ou no mínimo algo para ele se distrair.
Depois de vasculhar duas salas, uma que parecia ser um escritório e outra um camarim de algum ator, ele chegou em uma sala cheia de bagunça. Havia várias prateleiras cheias de ferramentas, uma máquina de costura antiga no centro e várias araras cheias de roupas, obviamente figurinos dos atores. Olhou aqui e ali em busca de algo que nem ele sabia o que era, quando ouviu um estrondo. Se virou em um susto e viu um rato sair correndo de algumas caixas, bater na porta, que se fechou, e então correr para algum lugar.
João se aproximou da porta mas não conseguiu abrí-la. Tentou novamente. E de novo. E com mais força.
–Ah, não, qual é… droga!-ele disse tentando abrí-la.
Depois da 36ª tentativa, desistiu. Tempestade maldita!
Resolveu sentar em uma cadeira velha. João estava preso em uma sala com um rato, ferramentas enferrujadas e alguns fantasmas de atores.
***
This world keeps spinning faster
Into a new disaster so I run to you
I run to you baby
And when it all starts coming undone
Baby you're the only one I run to
I run to you
We run on fumes
Your life and mine
Like the sands of time
Slippin' right on through
And our love's the only truth
That's why I run to you
(Lady Antebellum – I Run To You)
O que era uma tempestade quando já se tem uma perna amputada e um rosto desfigurado? Nada que incomodasse Felipe. Que acabava de chegar ao hospital de Marina, todo enxarcado, com a roupa colada ao corpo e o cabelo lambido na testa. Já havia se acostumado com crianças curiosas e com o susto das pessoas ao ver um adolescente com a pele todo fodida. Mas quer saber? Que se foda.
Antes de chegar ao hospital de Marina, passara na casa de Pedro deixar um presente, em sua casa pegar uma caixinha especial e depois fez uma visitinha especial ao Vinicius, que não podia ficar de fora.
Fingindo ser um primo do interior, Felipe soube que Vinicius estava começando a reagir a alguns estímulos. Conseguiu entrar no leito do internado e observava o mesmo de olhos fechados, paralisado.
Sinto muito… por não ter sido eu que dei esses tiros.
Mesmo sabendo que Vinicius não iria morrer, porque não era o próximo da lista, Felipe desligou os aparelhos do mesmo, só para ver o outro agonizando sem estruturas. Após alguns segundos, saiu do lugar, observando enfermeiras chegarem lá e reabilitando Vini aos aparelhos.
Agora, entrara no hospital onde Marina estava. Enquanto esperava a ordem para poder visitar a namorada, lia uma revista na sala de espera. Lá falava sobre o novo CD da banda Lady Antebellum, chamado 747, ou 7for7, como quiser chamar.
Após o médico autorizar sua entrada, ele correu para o leito da namorada e sentou-se em uma cadeira ao seu lado. Segurou sua mão e deu um delicado beijo na mesma. Marina começou a acordar, meio tonta.
–Fe… Felipe…?-ela disse tentando focar na pessoa que estava ao seu lado.
–Sou eu, meu amor, sou eu… está tudo bem, já fiz tudo que tinha para fazer. – Felipe diz com muita tranquilidade-Agora é só a gente…
Ele disse aquilo para acalmá-la, mas sabia que iria morrer em breve. A chuva batia contra a janela e as gotas escorrendo até poderiam formar algum desenho estranho.
–O médico disse que você precisa ficar nesses aparelhos por um tempo. –Felipe disse. Ele olhou para a namorada, que deu o sorriso que ele adorava. -Eu te amo tanto…
–Eu também te amo tanto… vamos ficar juntos né? –Marina perguntou.
–Infinito…
Marina tossiu nervosamente.
–Hey hey… calma. Vou pegar um copo de água para você. –Felipe disse. A garota concordou e ele saiu. Começou a andar pelos corredores, atrás de um copo de água.
Então ouviu uns barulhos como pequenos socos batendo no vidro.
Um raio desceu do céu como uma flecha bem perto do hospital. Então outro mas acima. Até que um raio atingiu o teto de vidro, partindo o mesmo em vários pedaços. A chuva começou a invadir o hospital, molhando todo o piso, ao mesmo tempo que os gritos saíam. Algumas faxineiras gritaram droga e saíram correndo em busca de alguma ajuda emergencial.
De uma das janelas, dava-se para ver a parte em obras do hospital. Um guindaste começou a se curvar, ficando ao lado da janela em que Felipe estava. Outro raio caiu, atingindo o guindaste, que foi lançado contra a janela. Cacos voaram na direção de Felipe, que se encolheu para se proteger. Alguns atingiram seu rosto e outros atingiram seu braço esquerdo. O guindaste quase despencou, mas ficou preso ao chão, que começou a rachar em algumas partes. Pessoas correram para longe dali.
Felipe começou a se afastar, mancando obviamente, sentindo os cacos em seu rosto. As paredes do hospital começaram a se rachar e as pessoas saíram correndo. Tudo começava a vir abaixo. Uma parede velha e toda rachada desmorou.
O rapaz correu para o leito de Marina, mas ela não estava mais lá. Teimosa!
–Droga!-ele disse, dando meia volta-Marina! Marina! Cadê você?
Ele sentiu um dejá vu. A cena estava se repetindo. Como no parque aquático. Em busca de Marina. Mas não ia perdê-la dessa vez. A multidão se aglomerava tentando sair de elevador (embora isso seja suicidio em um caso de desmoronamento) ou pelas escadas.
Perto do guindaste pendurado, Felipe viu Marina perdida, quase sem forças.
–Marina!-ele gritou se apressando. Chegou perto dela e a abraçou.
As rachaduras pareciam estar só naquela área, não na ala dos pacientes. Mas o pânico continuava. Marina estava de costas para o buraco que o guindaste fez. Não pisou em nenhum caco e a água da chuva quase chegava em seus pés.
–Amor, você tá machucado… -Marina disse. Ela quase ia tocar o rosto dele para tirar os cacos, mas ele impediu.
–Eu tô legal…
Felipe ia puxá-la para ir embora, quando viu por cima do ombro da garota, que o raio havia acendido uma faísca perto do tanque de combustível nas obras. E agora a faísca atingiu o seu alvo.
–Marina, cuidado!-Felipe disse, então a girou, deixando seu próprio corpo de costas para a janela e para as obras.
O tanque de combustível explodiu no mesmo instante, criando uma bola de chamas, que lançou vários objetos contra todos os lados. Vários instrumentos de obras entraram pelo buraco dentro do hospital. Felipe sentiu uma dor horrível quando uma pá bateu contra sua prótese, arrancando-a brutalmente. Um vergalhão atravessou a cintura do garoto, que urrou de dor ao cair no chão. Marina gritou desesperada. Tentou ajudar a levantar o namorado, mas não era forte o suficiente.
O guindaste começou a pensar mais e a ameaçar cair. Mais rachaduras se formaram no chão e o guindaste caía cada vez mais.
–Não, não, não… -Marina disse ao perceber o que aconteceria.
O guindaste caiu completamente, levanto boa parte do chão contigo. O que sobrou do mesmo começava a rachar e a cair junto, logo Felipe estava na borda de um precípicio sem fim. Seu corpo caiu, o vergalhão pesava. Marina ficou na borda, agarrada a mão do garoto. Lágrimas escorriam do seu rosto. As mãos, molhadas pela chuva, escorregavam.
–Não vou te deixar cair… -Marina gritou, enquanto seu cabelo molhado colava no rosto.
–Amor, é minha vez, não tem como impedir… -Felipe disse calmamente.
Mais rachaduras na parede.
–Me solte e procure um médico, seja feliz nessa vida… -Felipe pediu. Ele sentia a morte o esperar como uma velha amiga.
–Mas não vou ser feliz sem você… -Marina disse.
Apenas dois dedos estavam juntos, quando Felipe se soltou. Marina saltou junto, se agarrando ao corpo do namorado. Os dois caíram 4 andares abraçados. A queda foi a mais dolorida possível e poderia ser letal, mas ambos ainda tinham consciência. O osso da perna de Marina estava para fora e o vergalhão havia atravessado a barriga toda de Felipe, mas outros vergalhões atravessaram seu tórax e sua coxa.
A chuva começava a diminiuir e as nuvens a se dissiparem.
–Olha, meu amor… As estrelas…- Felipe disse, cuspindo um pouco de sangue para o lado.
–A gente sempre quis ver as estrelas juntos… -Marina disse.
–Aliás… queria ter te… entregado isso antes… -Felipe disse. Usou o máximo da força para tirar uma caixinha preta de veludo de seu bolso. Ao abrí-la, se encontrava duas alinças prateada, com um símbolo do infinito desenhado-Que seja infinito…
–Que seja infinito…
Os dois deram um beijo e não desgrudaram nem do beijo nem do abraço, enquanto últimos destroços do hospital caíam sobre ambos.
***
Pedro entrou no leito de hospital como quem entra em um campo minado: atento e olhando onde pisa. Isto tudo porque quem estava na cama era Alisson, a recém-atropelada do dia.
Após tentarem ligar para muitas pessoas do celular da jovem, Pedro foi o único que deu certo. Falar com João não dava, mas com hospital sim. Que maravilha.
O médico havia dito que Alisson podia ter alguma mudança temperamental, pois havia batido uma região delicada do cérebro, mas que qualquer dano desapareceria depois de alguns dias. Talvez semanas.
Alisson avistou Peeh chegando depois que colocou algumas flores de volta ao lado da cama.
–Hey, foi você que as trouxe?-Alisson perguntou com um sorriso simpático.
–Ahn...não. Acho que é do hospital...-Pedro respondeu. Ele sentou-se ao lado da cama-Alisson, você está bem?
–Ah, estou com uma dor terrível no corpo, mas estou bem. -ela respondeu olhando fixamente para ele-Você é meu namorado?
–O que?-Pedro disse, com a voz saindo mais aguda do que planejado-Não! Quem dera...
O garoto sentiu seu rosto ficando vermelho.
–Hey... o que houve contigo?-ele mudou de assunto.
–Ah, fui atropelada. -ela disse naturalmente.
–Tá... mas foi de propósito, foi acidente...?-Pedro perguntou tentando insinuar algo. Ou alguém.
–Eu não me lembro... -ela disse fechando os olhos e apoiando a cabeça nas mãos.
Depois de algumas conversas aleatórias a fim de não botar pressão em Alisson, Pedro foi convocado a se retirar. O horário de visita havia acabado.
–Bom, tenho que ir... -Pedro disse se levantando-Depois volto te ver...
–Ah, estarei te esperando... Obrigado pela visita. -Alisson respondeu sorrindo e colocando uma mecha atrás da orelha-Ah, preciso de contar algo.
–Fala. -Pedro disse se apoiando no vidro do leito.
–É um segredo... -Alisson disse fazendo sinal com o dedo indicador para que ele se aproximasse.
E assim Pedro o fez. Quando seu ouvido estava chegando perto da boca dela, sentiu as mãos da garota virarem seu rosto e então esticar o pescoço para que os lábios se tocassem. O rapaz ficou em choque em um primeiro momento, mas não tinha muita escolha, e seu lado masculino falou mais forte. Ele correspondeu ao beijo, segurando o rosto de Alisson. As mãos da moça deslizaram pelo corpo dele até chegaram em sua cintura e o puxarem mais para perto. As mãos dele também desceram, acidentalmente passando pelos peitos.
Depois de algum tempo ela o empurrou levemente, dizendo para ir embora. Limpando a baba da boca, Pedro pensou que aquela não era a verdadeira Alisson, mas que dava para se divertir um pouco com ela.
***
Here's some advise for the next one
Run, run, run
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Run, run, run
(Nicole Scherzinger – Run)
A chuva já havia parado há algumas horas, mas a porta ainda não abria. João já tinha aprendido quase todas as posições do Kama Sutra com um livro que tinha ali. Não que ele tivesse chance para usar com alguém.
Já havia gasto todos os ares dos pulmões quando resolveu que ia empilhar várias caixas de plástico e tentar alcançar uma pequena janela no topo de uma das paredes, perto da velha e enferrujada máquina de costura.
Subiu majestosamente como um gato a montanha de caixas e esticou para tentar alcançar a janelinha. Seus dedos estavam quase chegando perto. Ele podia sentir o vidro gélido quando uma das caixas se desencaixou da montanha, fazer todo o conjunto desmoronar. João deu um pulo e agarrou-se na prateleira mas próxima.
A fraca iluminação da sala começou a falhar.
–Ah não... -João pressentiu. Sua vez chegou.
A prateleira começou a balançar e antes que caísse com ele junto, João se soltou e se jogou para o lado, não contando com o azar de escorregar numa poça de água. Para evitar de cair no chão, se curvou para frente, se segurando na máquina de costura.
Ouviu o grande estrondo da prateleira caindo. Várias coisas se espalharam pelo chão, como furadeiras sem fio, agulhas, pregos, chaves de fenda e uma pequena bola de gude, que saiu rolando em sua direção.
João começou a andar, mas levou um puxão. Olhou para baixo e viu que a manga de sua blusa havia ficado presa no trilho da máquina de costura.
–Ah, qualé...
A pequeninha bola de gude azul fez um desvio até bater em um botão, que ficou vermelho na mesma hora. João seguiu com os olhos a afiação do botão vermelho até ver que se tratava da máquinha de costura.
–Droga!
O tec tec da máquina começou a batucar os ouvidos dele. Seus dedos estavam tão próximos da agulha que ele podia sentir o movimento e a pequena corrente de ar criada por ela. Ele tentava tirar o braço preso de lá, quando viu o pequeno amigo rato se aproximar.O animal olhou para o garoto com os pequenos olhos e então se aproximou das ferramentas caídas.
–Não, não faz isso não... -João disse-Amiguinho, amiguinho...
O rato então, na tentativa de roer alguma coisa, ativou a pistola de pregos. O primeiro atingiu um pote de vidro, que espalhou seu líquido esverdeado pelo chão. O segundo prego atingiu uma lâmpada, que explodiu em pequeninos cacos.
Já o terceiro e quarto atingiram as costas de João, fazendo-o ir para frente, por conta de seu reflexo mental para a dor. O garoto sentiu que várias abelhas picavam seu braço ao decorrer de que a agulha ia furando sua mão, depois seu antebraço, até que a agulha ficou cravada um pouco antes do cotovelo.
Ele gemia de dor. Fios de sangue escorriam de seu braço. Então com cuidado, João levantou a parte superior da máquina, deixado-a de pé. Ele saiu de perto da mesma, segurando seu braço, que escorria pequenos pingos rubros.
–Rato maldito!-exclamou ele, raivoso.
Então a pistola de pregos destravou-se e soltou mais dois pregos, que atingiram a panturilha de João, que se ajoelhou com a perna machucada, como quem se ajoelha em um pedido de casamento. Agora fitava a máquina de costura. Do nada, a mesma começou a se mexer, costurando o ar. Infelizmente o raciocínio de João foi muito lento para ele ver o que aconteceria. A agulha enferrujada voou da máquina, em disparada, atingindo o seu olho esquerdo.
João urra de dor, dando dois passos para trás e pisando em algo pontudo. Ele cai em cima da prateleira caída. Sangue ocular banhava o próprio olho. Com muito cuidado, tentou puxar a agulha de seu olho, sentido como se arrancasse seu cérebro junto. Se levantou, mantendo o braço que não estava machucado, sobre o olho fechado. Estava dificil enxergar apenas com um olho e em uma fraca iluminação.
A porta então se abre automaticamente, altamente convidativa. João agradece todas as entidades religiosas e se aproxima da porta. Só que o líquido do pote quebrado o faz escorregar novamente, caindo de costas em alguns pregos. Mais um grito de dor.
Se sentindo como uma bosta em decomposição, se levanta, todo torto e corcunda. A pernas cambaleavam, o braço costurado estava dormente e a visão do olho machucado se foi quase que completamente. Ele bate em outra prateleira, fazendo-a balançar. Algo pontudo cai atrás de sua cabeça e ao tentar segurar o objeto, acaba acionando um botão.
Era uma furadeira.
O barulho irritante surge rapidamente no local, ao mesmo tempo que a ponta da furadeira penetrava a cabeça de João. Ele começou a soltar um grito, que foi ficando fraco até sumir. Ele caiu no chão, com a boca aberta e os olhos arregalados. Caiu de costas, fazendo a furadeira atravessar de vez sua cabeça, saindo uma pequena ponta brilhante por sua testa.
Alguns miolos estavam grudados na ponta e o corpo de João ficou caído, enquanto o rato saía do local.
***
Pedro chegava em casa. A chuva já havia parado mas a calçada estava encharcada. Chegou em casa e havia um pacote em sua cama. Curioso, abriu e lá se encontrava uma miniatura de palhaço.
–Isso aqui… -ele disse apertando os olhos.
Se lembrava daquilo. Era um brinquedo que usou uma vez em uma peça de teatro. Humilhou e assustou publicamente Felipe, que já tinha medo de palhaços naquela época, no meio de uma peça em que a cidade toda estava. O inimigo se assustou tanto que correu se esconder debaixo de uma poltrona, enquanto se urinava.
Depois daquilo Felipe adquiriu ódio mortal por Pedro. Tentou de todas as formas humilhá-lo e tentou se vingar, mas nunca se sentiu satisfeito. Teria sido ele que deixou aquilo?
Olhou novamente para o pacote e viu que tinha um cilindro. Era um calendoscópio duplo. Pedro adorava aquilo quando era criança. Você colocava os olhos por um buraquinho, olhava para a luz e então via várias imagens coloridas refletidas por espelhos.
Já estava de noite, então ele ligou a luz da lâmpada, colocou os olhos no calendoscópio e virou para cima, em direção da lâmpada, esperando ver várias imagens. Mas o que ele viu não foi nada disso. Primeiro sentiu um cheiro ácido, então um líquido vermelho escorreu do cilindro até entrar em seus olhos.
O cheiro de mercúrio ou algo como metanol tomou conta do quarto. Pedro caiu na cama.
–Merda!
Sentiu seus olhos arderem e então desmaiou, com uma terrível dor de cabeça.
Pedro sentiu que acordou, mas tudo continuava escuro. Tinha uma terrível dor de cabeça, parecia que estava de ressaca. Via alguns pontos fracos de luz, mas nada mais. Tentou piscar, mas já estava de olhos abertos. Foi depois disso que se deu conta da tragédia.
O visionário estava cego.
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